Make It Happen

1 I never thought id leave my own hometown


Notas iniciais
OIÊ

Caroline's POV

Eu assisti minha casa se distanciar pelo vidro de trás do carro, enquanto meu pai dirigia pela rua vazia da madrugada de Nova York. Grace alisava os cabelos de sua Barbie Malibu e minha mãe passava pó de arroz nas bochechas, sem ao menos se preocupar com o que estávamos deixando para trás.

Ainda me lembro do motivo que ela me dera quando perguntei por que íamos nos mudar. “Há muitas memórias nessa casa”, ela dissera. E eu achava que memórias eram coisas boas.

Eu sabia que ela estava mentindo. Afinal, ela amava aquela casa. Todos nós amávamos... até um certo incidente que mudou a vida de todos, principalmente a minha. Mas antes de explicar todo o ocorrido, devo contar um pouco da minha infância. Bom, na verdade, preciso começar com a história da minha irmã, porque sem ela eu não teria vida.
Claire era uma garota inteligente, dedicada, sempre colocava os estudos na frente do lazer. Era o orgulho da família, um exemplo para todos. De acordo com minha mãe, não existia garota mais perfeita.

E eu sentia raiva de tudo isso. Raiva por não receber tanta atenção, raiva por não ser como ela.

Ainda me lembro do dia quando tudo isso virou de cabeça para baixo. Claire havia tirado um D na prova de Literatura, e quando meus pais descobriram, não conseguiam nem olhar para a cara dela. A partir disso, ela se revoltou. Estava indignada. Não entendia por que nossos pais haviam reagido dessa forma, ao invés de terem compreendido toda a situação.

Ela passou a fumar, beber, não dar a mínima para a escola. Meus pais já estavam começando a ficar desesperados. Já eu, passei a gostar mais de minha irmã. Ela começou a conversar mais comigo, me dar conselhos, contar como nunca havia se satisfeito com toda essa inteligência que possuía. Nunca quisera ser assim. Fazia isso porque achava que era o certo a se fazer. Seu verdadeiro sonho era conhecer o mundo, viajar sem destino, vivendo a vida como uma nômade e com apenas o necessário.

Passei a idolatrá-la. Queria ser livre como ela, queria não ligar para nada e ninguém. Se ao menos fosse tão fácil assim, teria seguido seus passos. Mas meu pior defeito era o medo. Medo das conseqüências, medo de como isso iria me afetar... medo da reação dos meus pais. Não conseguia me rebelar como ela. Eu era apenas uma garota de dezesseis anos que admirava a irmã de dezoito e desejava ser como ela. Mas era apenas isso, desejo.

Claire sempre me falava: “Faça acontecer, Carol, faça acontecer”. E foi o que ela fez. Duas semanas atrás, encontramos um bilhete preso à geladeira que dizia: “Me cansei. Fui embora. Claire”. Fiquei chocada, é claro. Sempre soube que ela queria sair daqui um dia, mas não pensei que fosse ser tão cedo. Ela abandonou tudo, escola, família, amigos... Para ser feliz do jeito que sempre sonhara.

E é por isso que estávamos nos mudando. Meus pais queriam se esquecer da filha que tiveram, que os decepcionou, que os humilhou. Aquela casa tinha muitas lembranças de Claire, e eles queriam apagar qualquer memória da filha que um dia fora um exemplo de vida. Para mim, ela sempre será.

– Sente direito, Caroline – disse meu pai, olhando-me pelo retrovisor. — dei uma última olhada para nossa casa e me ajeitei no banco quando viramos a esquina. Encostei a cabeça no vidro da janela e senti uma lágrima correr pelo meu rosto, esquentando minha bochecha até pingar na minha camiseta.

– Não fique triste. – Grace tocou na minha mão, que estava apoiada no meio do banco de trás do carro.

– Mamãe disse que estamos indo para um lugar melhor.
Grace é minha irmã mais nova de dez anos, mas não passa de um pequeno projeto de minha mãe.

Eu sempre tentava mostrar a ela que nem tudo na vida precisa ser perfeito, mas ela parecia estar programada para ouvir apenas a meus pais. É como se ela fosse um robozinho cujo chip de memória tivesse certo limite de armazenamento de informação, e tudo que ela deveria aprender – de acordo com as leis de minha mãe – já fora aprendido: estudar, ser uma boa menina, ouvir os pais, fazer dinheiro no futuro.

E todo o resto não passava de informação inútil que entrava por um ouvido e saía pelo outro.

– Não acredite em tudo que você ouve – murmurei para ela.

– Caroline, por favor, deixe sua irmã em paz. – A voz de minha mãe surgiu em menos de um microssegundo após eu ter terminado minha frase.

– Eu não estava fazendo nada! – retruquei.

– Não me faça perder a paciência, não estou com saco para discutir hoje.

Meus pais sabiam que eu era um caso perdido, que não adiantava tentar me consertar. Acho que prefeririam que eu fizesse o mesmo que Claire do que passar pelo desafio de me reeducar. Eu nunca fora do tipo inteligente, com notas boas e elogios de professores, então acho que isso me tornou a filha menos querida – apesar dessas palavras nunca terem realmente saído da boca dos meus pais.

Durante o caminho inteiro, desde nossa casa até o aeroporto JFK, não disse uma palavra. Era como se eu fosse uma condenada cujo direito era ficar calada, já que qualquer coisa que eu dissesse poderia e seria usado contra mim. Eu observava a neve branca nas calçadas enquanto Grace murmurava a melodia de Baby, One More Time, fazendo sua Barbie dar saltos e piruetas como se estivesse dançando. Fechei os olhos ao sentir uma dor aguda tomar conta da parte superior da minha cabeça, e foi quando percebi que não havia comido nada desde que havia acordado.

– Mãe... – disse baixo, esperando que ela me socorresse. – Mãe – repeti um pouco mais alto. – Mãe!

– O que foi, Caroline? – perguntou ela, já impaciente.

Quando conto para as pessoas que minha mãe não gosta muito de mim, elas não acreditam, mas essa é uma prova de que ela choraria muito mais no enterro de Grace do que no meu.

– Estou com fome e dor de cabeça.

– Não tenho nada aqui, vai ter que esperar até chegarmos ao aeroporto.

Com a testa ainda encostada no vidro da janela, olhei com o rabo de olho para minha irmã, vendo que ela carregava sua bolsa cor-de-rosa, como sempre.

Essa bolsa continha quase tudo que uma pessoa pode precisar, já que minha mãe se preocupava extremamente com Grace, diferente do que ela pensava de mim.

– Grace, você tem alguma comida aí? – perguntei simpática, tentando mostrar que conversava em paz.

– Um sanduíche de atum e uma maçã. – Ela sorriu.

Ela até podia estar destinada a se tornar uma Claire pré-rebeldia, mas sabia que ainda existia um coração de tecido humano dentro do peito de Grace.

– Você poderia me dar sua maçã? – perguntei delicadamente, sentindo uma ponta de simpatia por minha irmã.

– Não, Caroline, essa fruta é dela. – Minha mãe se intrometeu no nosso pequeno acordo de paz, apesar de nunca ter acontecido grandes conflitos entre nós duas, antes mesmo que Grace pudesse sequer pensar na resposta. – Já falei que você irá comer quando chegarmos.

Prova número dois. Quem sabe se eu acumular até dez, consigo fazer as pessoas se conscientizarem da minha realidade.

Pensei em reclamar, mas sabia que isso levaria a uma discussão, e minha cabeça estava latejando demais para agüentar a voz de minha mãe por vinte minutos sem parar. Olhei para o lado e vi minha irmã desembrulhar seu sanduíche de atum e oferecer para mim de uma forma silenciosa, sem que minha mãe percebesse. Encarei aquele supridor de energia e era como se meu estômago gritasse por ele, mas tudo que fiz foi balançar a cabeça negativamente e voltar a encarar o branco lá de fora.

Sei que, nesse exato momento, Claire estaria completamente desapontada comigo por não ter desrespeitado a ordem de nossa mãe, mas não estava no pique de criar novos conflitos, sendo que ainda existiam muitos que estavam longe de serem solucionados.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.