Notas iniciais
Pixels não podem ter medo do escuro.

Duas semanas de férias. Apenas duas semanas. William Shakespeare (não o escritor, é claro... Ou talvez seja) estava cansado de tantas agonias que estava sofrendo com relação aos testes que teria que enfrentar na faculdade.

Para título de informação: William Shakespeare é um estudante da Academia Nacional Terapêutica Anônima (a ANTA), responsável pelas mais importantes tecnologias artísticas dos últimos tempos... No Brasil. Sim, existe uma ANTA no Brasil, assim como existe em outros países também. Apesar de muita gente não conhecer...

É que funciona assim: as ANTAS são formadas por intelectuais muito poderosos e com um poder de fogo tão forte que poderiam queimar o sol. Mas eles decidiram criar uma Academia (a ANTA) para poder discutir e melhorar seu poder bélico, bem como o poder de fogo para mais ainda que o poder de queimar o sol. Eles já cogitam na possibilidade de congelar a temperatura mais baixa (não é congelar um termômetro, mas sim uma temperatura!). A ANTA é uma das instituições que conhece outras dimensões, mas não permite que seus estudantes passem para elas sem que passem pelo rito mais especial de passagem: matar um esquilo. Pode parecer estranho pensar assim: “matar um esquilo para entrar em outra dimensão?” Mas na realidade, a filosofia da ANTA é: “se você pode matar um esquilo, pode entrar em outra dimensão”. Isto baseado no livro O que é ser uma ANTA do famoso escritor Post Scriptum, que contém todas as informações necessárias para se concluir alguma coisa interessante sobre algo que não interessa nem um pouco os humanos. Pelo menos no momento.

Mas William Shakespeare já não aguentava mais. Sua cabeça doía de tanto ter que estudar a teoria das cordas – a qual sustentava que o mundo é feito de cordas, e por isso os melhores instrumentos do universo são os instrumentos de corda – e a teoria da percussão – que sustenta a ideia de que as cordas só fazem sentido quando fazem parte de uma batida. É claro que os primeiros são chamados músicos, enquanto que os outros são simplesmente bateristas. E Shakespeare precisava escolher que lado deveria entrar. Isso lhe incomodava tanto que ele mesmo estava pensando em desistir da vida. Aliás, V.I.D.A., Vetor Interdimensional dos Dendritos Acústicos. É muito diferente da vida que chamamos de vida, mas faz parte dela também.

Onde eu estava?... Ah, sim! Shakespeare. William Shakespeare. Dor de cabeça por estar tanto tempo estudando para se tornar um verdadeiro ANTA e poder então receber a autorização para matar um esquilo.

William está em casa, tirando os sapatos e colocando na mesa de centro para que seja lavado pela máquina de lavar. É claro que isso não vai acontecer, mas William viveu tanto tempo com sua mãe tirando o sapato dele da mesa de centro para lavar na máquina que para ele é fato que sapatos em cima de mesas de centro voltam limpos. Ele também tirou a camisa e jogou em cima do seu sofá, que estava todo destruído por causa dos ratos que fizeram uma festa em cima dele outro dia. Um sofá cor de picolé de uva. Sem sua camisa, ele começa a pensar no que ele poderia fazer da vida naquele momento. Mas então vem uma ligação. Seu celular está tocando de seu bolso um toque muito especial, num acorde com base em dó maior, seguindo uma escala pentatônica que ele mesmo criou para poder reconhecer seu celular em qualquer lugar que estivesse. Ele vê o número na tela: 98773323. Ele não conhece o número, e hesita em atender por ter medo de receber a ligação de alguém ameaçador. Para explicar melhor: na ANTA, os acadêmicos aprendem que ligações estranhas podem vir de esquilos vingadores, e por isso eles devem tomar muito cuidado ao atender o telefone. E os ANTAs não estavam brincando: existem mesmo esquilos assassinos por aí, e já houveram pelo menos 15 casos registrados naquele ano de morte por assassinato de esquilo. A questão é que esses esquilos fazem uma viagem interdimensional para o telefone das pessoas que estão de alguma forma relacionadas com a morte de seus semelhantes em outra dimensão. Mas quando eles vêm para a dimensão 2, chamada Vida Real, eles geralmente usam um número que não seja tão comum de se ver por aí ou até mesmo o número da vítima. É raro ver um esquilo usando um número de celular convencional para invadir o sistema dimensional 2.

Mas não era um esquilo.

William atendeu o telefone ao deslizar o ícone verde de “atender” para o lado direito da tela.

— Alô. — ele diz.

— Oi, aqui é da loja de roupas Ria, Chuleiro[1]! Estamos tentando ligar para o senhor William Shakespeare a algum tempo. Ele se encontra?

Infelizmente os ANTAs não ensinam para seus acadêmicos que a expressão “ele se encontra” significa simplesmente “ele está presente”. Devido a isso, muitos ANTAs perdem seus amigos nas redes sociais e nas redes antissociais por causa da falta de compreensão da “linguagem das ruas”, como os ANTAs costumam dizer. Sério, estou gostando de escrever ANTA o tempo todo...

— Olha aqui, amigo — diz William, ofendido com a pergunta —, ele se encontra muito bem! — Mas William não se encontrava, até porque estava dividido entre ser um cordista ou um baterista. Vale lembrar: cordista e baterista nada têm a ver com música, se é o que você está pensando. São teorias altamente definidas sobre a destruição do universo que os ANTAs vêm desenvolvendo através dos tempos, principalmente ao conhecerem outras dimensões. Até porque em outras dimensões “corda” e “bateria” possuem outros significado, bem como “música”. “Música” é “teoria”, “corda” é “idealista” e “bateria” é “materialista”, se tomarmos por base um pensamento baseado nos pressupostos alemães de filosofia no mundo. Poder-se-ia trocar por outros termos, como platonismo X aristotelismo, racionalismo X empirismo e por aí vai... O que importa é que ele não conseguia decidir para que lado ia.

— Eu quero saber se ele está. Por favor?

— Então pergunte se ele está! E ele está sim, pois sou eu mesmo.

— Ótimo. Gostaria de dizer que o seu cartão Ria, Chuleiro! Estourou nas últimas semanas.

— Mas eu não usei este cartão!

— Mas consta aqui que o senhor utilizou do cartão em vários produtos de nossa loja, além de tentar usá-lo num tribunal como propina para o juiz e também... para... doar para a Cupcake Charity.

— Você só pode estar me zoando!

— Não estou, apesar de estarmos no país da zoeira.

— Mas como isto é possível? O que foi que eu comprei?

— Quinze sapatos de 200 reais cada.

— Como é?!

— Isso mesmo, senhor. Por isso o senhor não pode mais comprar aqui, pelo menos por 10 anos.

— Eu vou conversar com vocês.

— Sinto muito, senhor, mas não há nada que o senhor possa fazer para melhorar essa situação.

— E se eu destruir a loja de vocês?

— Se o senhor tentar colocar suas mãos nessa loja te despedaçamos. Temos licença para isso.

— E se eu matar um esquilo?

Há um silêncio causado pela profunda imersão em racionalidade por parte do telefonista da Ria, Chuleiro!

— Se o senhor conseguir matar um esquilo, então podemos conversar.

— Ok então.

Os telefones são desligados.

William se dirige para a cozinha para matar sua fome e ingerir um pouco de açúcar com o intuito de acabar com a dor de cabeça terrível que lhe dominava constantemente por causa das teorias. Ele abre a geladeira e decide pegar o último cupcake que sua mãe lhe deixou de presente. Ele pegou o cupcake, fechou a geladeira, sentou-se na mesa e estava levando sua boca em direção ao cupcake quando ouve um grito desesperado:

— Não faça isso!

William fica assustado.

— Eu disse para não fazer isso! Eu estou aqui.

William olha para os lados, como quem não está entendendo ou acredita que está se tornando um esquizofrênico. É fato que todos somos esquizofrênicos, mas isso não importa no momento. Ele pensou ver coisas de outra dimensão.

— Ei, eu estou bem aqui. Não me morda!

William agora olha para o cupcake. Ele não acredita no que vê: um cupcake com dois olhinhos brilhantes e uma boca extremamente fofa, que impediria qualquer um de danificá-lo de alguma forma.

— Olá, eu sou Ruf Bolo Nhesa.

— O que é você?

— Sou um cupcake, mais especificamente da raça dos chocolatianos. Prazer em conhecê-lo, William.

— Você sabe meu nome?

— Sim. Venho observando você há muito tempo.

— Você é algum tipo de robô espião?

— Claro que não! Como sua imaginação é fértil! Não, eu não sou um robô. Sou um cupcake, não vê?

— Eu vejo sim, mas geralmente cupcakes não falam!

— Ah, sim. É que eu não sou dessa dimensão.

— Do que você está falan... Espera um pouco...

— Sim, pode falar.

— Você atravessou um dos portais interdimensionais?

— Sim, eu o fiz.

— Mas...

— E terei que fazê-lo outra vez.

— O que exatamente você está fazendo aqui?

— Há alguns homens que estão a fim de defecar uma história que faça parte desta dimensão. Chamam-na de Ficção.

— Peraí, eu não estou entendendo.

— Sabe todas as teorias que você está aprendendo com a ANTA?

— Sei sim.

— Então. Eles estão escrevendo um livro para comprová-las.

— E isso é ruim?

— Não seria ruim se não partisse do intestino dos escritores.

Neste momento, William se sente em um ambiente totalmente onírico. A realidade passa diante dos seus olhos como se fosse um sonho do qual ele mesmo não era capaz de distinguir por estar totalmente imerso nele. Mas o fato dele pensar que isso era um sonho já o faria ser um sonho, apesar do fato de não o ser.

— Precisamos de você para nos ajudar. Estamos tentando acabar com essa história que tem destruído muitas populações em várias dimensões. O livro deles cheira muito mal, e pode trazer muitos malefícios para a Vida Real também!

— Mas o que exatamente eu terei que fazer?

— Vamos para uma dimensão diferente.

— Mas como vamos para lá? Eu nem matei um esquilo ainda... Não tenho licença para atravessar portais interdimensionais.

— Não tem problema. Eu também nunca matei um esquilo e consegui entrar e sair desta dimensão. É simples: eu tenho uma máquina que permite que isso aconteça facilmente. Chama-se Máquina do Tempo.

— Mas pensei que a máquina do tempo faria com que viajássemos pelo tempo, não pelas dimensões.

— É... Mas acontece que foi um erro do criador da máquina. Quando ele criou, ele entrou numa dimensão diferente só que com pessoas parecidas com as da Vida Real e acreditou ter viajado no tempo, e por isso patenteou dessa forma. Depois de muito tempo é que seu filho, Burrhus Polka, descobriu que na realidade esta máquina viajava por dimensões, encontrando a minha, que é a dimensão 123/Eba. Mas mesmo assim ele preferiu manter a patente que seu pai deixou, permitindo que o nome de seu pai continuasse na história.

— E qual era o nome dele?

— Não sei. Se perdeu na história.

— Hm... Faz sentido.

— Então... Você topa nos ajudar nessa história?

— Acho que não tem outra saída. Se esse livro vier parar nesta dimensão.

— Mas ele já parou.

— Como é?

— A questão não é o livro estar nesta dimensão. O problema é que este livro carrega um cheiro, o Cheiro da Morte, que sai dos intestinos dos escritores.

— E se esse livro parou aqui e nada aconteceu, qual é o problema?

— O problema é que esse cheiro tem se acumulado para um momento ultimato. Já ouviu falar nas bombas atômicas?

— Sim, II Guerra Mundial.

— Parte do poder das bombas veio desse cheiro. E lembra das câmaras de gás que mataram milhões de judeus?

— Lembro sim, estudei na escola.

— São um aviso do que os Ficcioneiros estão para fazer. Eles vão destruir seu mundo!

— Se isso é verdade, temos que partir rápido! Mas para onde vamos?

— Temos que começar do início.

— E onde é o início?

Ruf pega a Máquina do Tempo que carrega e começa a fazê-la funcionar, iniciando uma viagem interdimensional.

— Na sua cabeça.

[1] Chuleiro é um termo [nem um pouco] utilizado para pessoas amantes de sapatos.

Notas finais
Tá com fome agora?