Mais uma história de Ficção
11 Cabeça de Bagre - Parte 2
Notas iniciais
A realidade nem sempre está diante dos nossos olhos. Como criador destas dimensões, devo confessar: não posso ficar calado quanto à realidade que cerca estes pequenos que estão a se manifestar diante de mim. Não é possível que não se manifeste aquilo em que me encontro e por que me encontro nisso, por mais confuso que pareça.
Acontece que todas as dimensões aqui presentes fazem parte de um complexo de outras duas dimensões: Vida Real Zero e Vida Suprarreal. São duas dimensões que baseiam a existência de um criador limitado, que no caso, sou eu. A Vida Real Zero possui uma parte que se transfere à Vida Real, onde Shakespeare vive. Já a Vida Suprarreal se manifesta também na dimensão Invisível, que de alguma forma é casada com Vida Real. Isto só foi possível porque Vida Real Zero e Vida Suprarreal também tiveram um relacionamento profundo. Mas não posso falar sobre tais dimensões numa ficção, pois elas mesmas compreendem o que não podemos chamar de ficção ou pelo menos não gostamos muito de chamar de ficção. Em suma: há dimensões além das aqui apresentadas. Acho que é isso...
— Mateus.
— Fale, amigo.
— Por que você quis explicar esta parte?
— Porque existe algo além das dimensões.
— E você conhece?
— Claro que conheço! Eu vivo nessas dimensões além-dimensões.
— E... Mas... Isto parece impossível!
— Uma das maravilhas de ser criador é permitir o impossível.
— Mateus...
— Fale.
— Dá pra continuar a história?
— Dá sim. E vou continuar.
Os quatro heróis andam em direção ao oeste da cabeça de Bagre para encontrar o caminho que Bagre lhes orientou. No meio do caminho tinha uma pedra, na qual Marília tropeçou e gritou: “Mamãe!” Depois disso, começou a pensar alto sobre Willu.
— Willu... Tão lindo e maravilhoso!
— Quem é esse tal de Willu? — pergunta William enquanto levanta Marília do tombo.
— Ele é meu ex-namorado — responde Marília.
— E você ainda está a fim dele? — pergunta Ramon.
— Não! — responde Marília. — Eu já superei essa fase.
— Mas não parece — diz Ruf.
— Olha — responde Marília, agora de maneira grossa —, eu não gosto dele, tá legal? Eu não quero mais nada com ele porque ele... é... — Marília começa a hesitar e dá um longo suspiro —... Por que ele terminou comigo?
— Talvez porque seja um otário — responde Ramon.
— Ou porque você foi uma otária — diz Ruf.
— E agora me mandou uma mensagem dizendo que quer conversar comigo para resolvermos nosso relacionamento.
— Bom... Se ele quer resolver o relacionamento, vai fundo! — diz William.
— Como seria bom ter uma amiga neste momento! — diz Marília em sussurro para si mesma. Então passa a dizer de forma mais audível — Não que vocês não possam saber, mas é que eu fico mais a vontade quando tem outras mulheres por perto.
— Mas quem melhor que um homem para você falar sobre homens? — diz Ruf. — Sendo homens que somos, conhecemos os homens.
— Mas... — Marília fica sem resposta e aquiesce. — É verdade!
— Conte-nos como é esse tal de Willu — diz Ramon.
— Ai, ele é perfeito! — responde Marília em suspiro. — Ele tem asas, e uma crina perfeita, e também tem três chifres!
— Desculpe-me interrompê-la — diz William.
— Não — interrompe Marília e continua a falar. — A voz dele me encanta, ele canta muito bem... E também fala frases bonitas. Ele sempre me elogiava, mexia nas minhas costas... Ele chegou a falar em casamento um dia. Agora pode falar, William.
— Ah, sim... — diz William, tentando retomar o raciocínio que perdeu. — Ahn... Por acaso... Deixa pra lá.
— Ok então.
— Marília — diz Ruf —, cuidado!
— Cuidado com o quê? Com a beleza encantadora dele?
— Não... Com o buraco que está logo na sua... — diz Ruf e então Marília cai no buraco.
Neste momento, William se lembra de que Ruf e Ramon haviam comentado de que toda a família de Ruf tinha sido morta pelos da Resistência, e então pensa em perguntar sobre tal assunto; porém, acredita que seria falta de sensibilidade fazê-lo enquanto Marília está no chão de um buraco de uns 2m de profundidade chorando de dor por ter caído e machucado a pata dianteira direita.
— Por favor, me ajudem! — grita Marília, em prantos.
— Nós já vamos te ajudar — responde Ramon. — Precisamos de alguma coisa para te puxar.
— Mas como vamos fazer isto? — pergunta Ruf. — Marília não possui polegares opositores para pegar...
— Podemos pegar uma pá e cavar uma rampa para que ela possa subir — diz William, assustando a todos. — O que foi?
— Esta ideia é simplesmente genial! — responde Ruf, entusiasmadíssimo com a ideia de William. — Acho que as pessoas deveriam pensar mais nessas coisas quando veem pessoas caindo em buracos que quebram as pernas e não possuem polegares opositores!
— Ah, é claro! — responde Ramon. — Mas onde encontraremos uma pá?
— Bagre? — William chama Bagre.
— O que foi? — responde Bagre.
— Precisamos de uma pá. Você poderia imaginá-la para nós, por favor?
— Mas por que vocês precisam de uma pá?
— Para tirar Marília de um buraco que ela caiu.
Neste momento, Bagre se lembra do buraco que estava naquela parte da sua cabeça: o Vale dos Medos. De repente, o buraco fica maior, isto é, menor... Enfim, a profundidade dele aumenta para 5m.
— Mas o quê? — reclama William, estupefato.
— Peço perdão, pessoal — responde Bagre. — Vocês estão nos Vales dos Medos, e eu não consigo entrar aí sem fazer mais buracos. Ou aprofundar os que já tenho.
— Mas você não consegue superar estes medos? — pergunta Ramon, ajeitando novamente seus óculos escuros e segurando em seu queixo quebrado (chega daquela piadinha, né?).
— Superar medos é de boa — responde Bagre —; é só pular por cima.
— Ah... — William se expressa, pensativo — Não entendi.
— Superar o medo, William — diz Ruf —... Ele pula por cima do medo.
— E era isso que a Marília deveria ter feito? — pergunta William.
— Precisamente— responde Bagre.
— Então como vamos tirá-la dali? — pergunta William.
— Calma que eu vou imaginar uma pá para vocês. — Bagre imagina uma pá. — Pronto.
— Mas aqui não apareceu nada — diz Ruf.
— Ah... É que eu não tenho um medo com algo relacionado a pá. Na realidade, até teria, mas minha mãe jamais me mandou varrer a casa, então nunca tive medo de apanhar caso não usasse a pá...
— Para título de informação, não é este tipo de pá que queremos — diz Ruf. — Queremos uma pá para tirar a terra.
— Ah, esse tipo de pá! — Bagre diz, mais entusiasmado. — Tenho um medo terrível de usá-la!
De repente, trezentas e cinquenta e sete (357, em números cardeais) pás caem no terreno onde nossos queridos e doces heróis e heroína estão. Eles correm de um lado para o outro se esquivando delas, quando uma cai em cima de Ramon.
— Aqui, peguei uma pá — diz ele, entusiasmado.
— Que bom! — responde Ruf, entusiasmado.
— É isso aí! — responde William, entusiasmado.
— Da hora! — responde Bagre, entusiasmado.
— Isto é muito bom! — responde Marília, entusiasmada. Sim, é estranho pensar que todos estão entusiasmados no Vale dos Medos, mas fazer o quê?
William, Ruf e Ramon pegam três pás e começam a cavar o buraco até fazer uma rampa para Marília poder sair de lá sã e salva. Eles demoram três horas para fazer isto, mas na cabeça de Bagre ele pode imaginar o que quiser, então durou apenas... sete segundos.
Marília finalmente saiu do buraco, e de repente sentiu um frio enorme e começa a tremer.
— Precisamos passar pelas Montanhas da Alegria rapidamente para podermos chegar no próximo ponto, que é... — diz Ruf, esperando uma resposta de Bagre.
— É Montanha das Euforias — corrige Bagre —, e então vocês vão entrar na minha Mente.
— Ah, certo. — diz Ruf. — Mas em que direção precisamos seguir?
— Direção Oeste. — responde Bagre.
Ruf, Marília, William e Ramon estão caminhando em direção Oeste para chegar à Mente de Bagre e finalmente podem vê-la ao longe. Então William toma a palavra:
— Ruf — diz ele.
— Fale, William. — responde Ruf.
— Você disse que não tinha família e... Jurássico ameaçou sua família...
— Sim.
— Se você não tem família não há ameaça alguma e...
— Ah — responde Ruf. — Acho que devo explicações mesmo. Quando Jurássico disse “família”, ele quis dizer “amigos mais próximos”, que no caso são vocês.
— E por que você não disse isso antes? — pergunta William. — Espere... Somos amigos?
— Porque... Na realidade, eu não sei porque eu não disse isso antes para vocês. E somos amigos sim, eu acho. Pelo menos eu penso...
— Eu também penso — responde Marília, que logo recebe uma mensagem em seu celular de Willu, dizendo que ela é gostosa e que gostaria de fazer coisas nojentas com ela. Isso a repugna um pouco, mas Willu é bonito, e ela acredita que ela vai mudar a mente dele fazendo tudo o que ele quiser. Sim, é contraditório, mas fazer o quê?
— Mas tem sinal aqui? — pergunta Ruf.
— Parece que sim — responde Marília.
— Eu também acho que somos amigos — diz Ramon, ajeitando novamente seus óculos e mexendo em seu queixo (quebrado... Ria!).
— Acho que estamos chegando perto — diz William e pega seu celular para olhar a hora. Mas, como ele está na cabeça de Bagre, é impossível ver a hora.
— William — Marília dirige a palavra a William —, eu gostaria de saber, da sua parte...
— Pode falar — diz William.
— Será que eu dou chance ao Willu?
— Chance do quê?
— Ué... Chance dele... Namorar comigo. Eu gosto muito dele e acho ele muito bonito, mas ele não quer nada sério e nem... Sei lá... Eu acho que ele vai melhorar.
— Ele não vai melhorar se você fizer tudo o que ele quiser — responde William, com um ar de sábio. Fui eu que ensinei isto a ele.
— Não sei... Ele pode mudar...
— Só se você mostrar a ele que ele está errado.
— Eu não sei não, William...
— Se você vai rejeitar assim o meu conselho que é altamente recomendado até por Mateus, por que você pediu, então?
— É que eu pensei que você ia dizer que era pra eu dar a chance...
— Você pode dar, mas não recomendo.
— Eu sei, mas é que...
— Marília — interrompe Ruf —, você realmente gosta dele?
— Sim.
— E ele é um unicórnio?
— Um tricórnio, na realidade. Ai, aqueles três chifres...
— E ele já demonstrou que o interesse dele é um compromisso sério?
— Na realidade — Marília hesita um pouco —... Ele só quer sexo.
— Gente, olhem lá! — interrompe Ramon, apontando ao longe.
— O que foi? — pergunta Ruf.
— Ali está a placa que fala da Floresta das Dúvidas. — e fica evidente uma placa que está a 30m de distância que diz “Floresta das Dúvidas”.
— Mas ainda não chegamos na fortaleza... — diz William. — Isto está confuso.
— Ah, esqueci de avisar — Bagre toma a palavra. — Acaba acontecendo de vez em quando isto. Há a possibilidade disso aparecer em qualquer lugar da minha cabeça. Enfim, entrem na Mente.
— Sim, senhor! — responde Ruf.
Os quatro entram na fortaleza Mente, que está cheia de signos e significados perambulando por aí. A cada momento nascem vários na medida em que vários outros vão morrendo aos poucos. Se isso faz algum sentido, então chegamos ao cerne da teoria.
Os signos conversam entre si, o que os leva a terem conversas cada vez mais íntimas e uns vão às casas dos outros terem novos signos. Sim, é mais ou menos assim que funciona. E William, Ramon, Marília e Ruf estão caminhando tranquilamente por entre estes signos, que também seguram armas e se matam diante deles, deixando rastros de letras por onde passam. Finalmente eles chegam ao Portão Norte, que está fechado.
— O que vocês querem aqui? — pergunta um dos signos guardas.
— Queremos sair. — responde Marília. — Não pertencemos a este lugar, eu acho...
— Vocês sabem que para lá deste portão existem vampiros, não sabem? — pergunta o outro guarda.
— Sabemos, eu acho... — responde William, não se recordando bem do que Bagre havia falado.
— Bom... — toma a palavra o primeiro guarda. — Vocês vão precisar pegar a Adaga Vampirosa, que está em letras maiúsculas por este ser seu nome próprio, para poder derrotar todos os vampiros que encontrarem no meio do caminho. Só evitem matar os vampiros de sorvete, porque eles vão congelar a Adaga Vampirosa.
— E como vamos saber como é a Adaga Vampirosa? — pergunta Ramon.
— É simples — toma a palavra o segundo guarda —: ela é uma adaga com uma ponta negra e um cabo vermelho, bem como tem um cheiro de maçã.
— Maçã? — pergunta William, confuso. — Mas eu pensei que vampiros morriam com alho!
— Do que esse cara tá falando? — pergunta o primeiro guarda ao segundo.
— Na realidade — Ruf toma a palavra —, ele vem da Vida Real.
Os guardas ficam com uma expressão de espanto, bem como Bagre. Mas não dá pra ver a expressão de espanto de Bagre, então eles nem notam.
— Vida Real? — pergunta o segundo guarda.
— Isso mesmo. — responde Ruf. — Lá os vampiros são mortos com alho e prata, algo do tipo.
— Você está sabendo bastante coisa, Ruf! — diz Marília.
— É que eu fiquei de espião por um tempo por lá.
— Ah, pensei que você ia dizer que lia bastante.
— E por que eu diria isto?
— Não sei...
— Então... — William se dirige aos guardas. — Podemos passar?
— Se você vem da Vida Real, provavelmente conseguirá dominar a Adaga Vampirosa para derrotar os vampiros.
— Peraí... — Ramon toma a palavra. — Quer dizer que nós não vamos conseguir dominar a Adaga Vampirosa?
— Talvez — responde o primeiro guarda. — De qualquer forma, deixem William derrotá-los.
Neste momento, um esquilo aparece diante dos guardas, o que assusta consideravelmente todos ali presentes.
— Não se movam — diz Ruf. — Deve ser um deles.
— Um deles o quê? — responde a pequena esquila, chamada Carmen. Todos gritam. — Acham que eu sou um esquilo assassino?
— Achamos sim — responde Ruf.
— Mas eu não sou — responde Carmen. — Só estou longe de casa e não encontro o caminho de volta.
Os guardas abrem o portão e os quatro saem da fortaleza, enquanto Carmen fica por ali. Se você acha que ela vai aparecer em alguma outra parte da história, você está errado. Esta é a única aparição de Carmen nesta história. Eu só queria deixar claro que Carmen não é uma esquila assassina, para que os leitores soubessem que ela é importante na história por não ser um esquilo assassino. É bom revelar coisas assim.
Os quatro vão em direção à Floresta da Dúvida e encontram um pequeno vilarejo onde estão vários vampiros fazendo uma fogueira. Dá para eles saberem porque há muita fumaça. Há, também, na frente deles um pequeno baú, que quando é percebido por eles é engolido por um monstro gigante com três cabeças com dois olhos cada, tendo por orelhas discos de LP e por nariz uma bermuda jeans. Seus dez braços são fracos, mas ele possui uma bunda com armadura, o que denota que essa sua parte não deve ser afetada para que seu efeito seja poderoso. Sim, ele possui um peido poderoso. E sua cor é vermelho com azul e branco.
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