Mais uma história de Ficção
6 Cabeça Oca
Notas iniciais
— Sabem — diz Ruf enquanto os três caminham em direção à Cabeça Oca —, eu ouvi dizer que existe um criador.
— Ah, é? — pergunta Ramon. — E você sabe o nome dele?
— Se não me engano é Mateus...
— Hm... É estranho se falar de um criador por esses lados...
— Mas não na dimensão 2 — diz Shakespeare.
— Como assim? — pergunta Ruf.
— Lá se fala de um criador também.
— E ele se chama Mateus?
— Não... O nome dele é bem diferente.
— Hm... Interessante — diz Ramon. — Talvez Mateus tenha criado esta dimensão.
— Eu não sei... — William responde. — De qualquer forma, se ele criou...
Neste momento eu interrompo com alguma coisa. Deixe-me ver o que temos... Ah, sim! Um boinilha! Isso mesmo: um boi de baunilha. O quê? Eu criei esta dimensão, então por que você está questionando?
— Aquilo à nossa frente é um boinilha? — pergunta Ruf.
— Parece que sim! — responde Ramon.
— Espere... O que é boinilha? — William pergunta.
— Boinilha são criaturas mitológicas que têm fama de estrangular todos aqueles que passam em seu caminho e devora suas presas ainda vivas. Pelo menos até o momento em que ele devora o coração. — Ramon diz, como se lembrasse de uma experiência vivida. Isto porque na realidade Ramon já tinha visto um boinilha, e este boinilha que Ramon viu foi morto por sua esposa, Ramona. Depois disso, ele passou a ser um ditador. Afinal, se sua esposa podia matar um boinilha, então ele podia ser ditador. Sei que não parece fazer muito sentido, mas que importa? É assim.
— Então não podemos nos aproximar. — diz Ruf.
— É claro que podemos! — diz Ramon. — Só não podemos deixar que ele coma nossos corações.
— Ei! — William diz num grito — É meio difícil eu sobreviver se eu não tiver uma das minhas partes. Eu sou humano, sabia?
— Ah, sim — diz Ramon. — Eu esqueci desse fato. Nesse caso... O que deveríamos fazer, afinal?
— Acho que correr seria uma ótima opção. — Ruf responde. — Mateus, o que você acha?
— Eu acho uma ótima ideia — eu digo. — Mas não é o ideal agora.
— E se cortássemos a cabeça dele? — Ramon pergunta.
— Seria bom também — respondo novamente.
— Então vamos cortar a cabeça dele. — diz Ramon.
— Espere! — Ruf interrompe. — Boinilhas não têm cabeça!
— Bem que eu tinha percebido — diz William.
— Poxa! Que dificuldade! O que fazemos então, Mateus? —Ruf me pergunta.
— Que bom que perguntou! — eu respondo, com muita alegria. — Converse com o boinilha.
— O quê? — Ruf diz, num espanto.
— Você tá doido? — Ramon diz, em outro espanto.
— Desde que criei esta dimensão... — respondo.
— Ah, qual é! É impossível conversar com um boinilha! — Ruf responde.
— Gente, vamos tentar! — William diz.
— Mas... Mas... — Ramon tenta se expressar contra.
— Se ele está dizendo, e ele criou vocês, ele deve estar com a razão! — William responde.
— Não sei... — Ruf diz. — O que você acha disso, boinilha?
— Rá tá tá tá tá tá tá — diz o boinilha.
— Mas o quê? — Ramon diz, estupefato com o que aconteceu. — Por que você fez isso? A gente poderia morrer!
— Espere... — Ruf diz. — Este não é um boinilha normal...
— Como assim... Existe um tipo normal? — William pergunta.
— Ele fala! —Ruf diz.
— Mas ele respondeu com “Rá tá tá tá tá”! Isso não é falar — diz Ramon.
— É claro que é! — Ruf responde, com certeza. — “Rá tá tá tá tá tá tá tá” é um código dos Franzinianos para “vocês podem passar”. Aprendi isso num livro de história.
— Ah, é? Que livro? — pergunta Ramon.
— O livro dos Ficcioneiros — responde Ruf.
— Espere um pouco — surge William, um tanto confuso — Você está me dizendo que você leu o livro?
— Ah... Eu acho que não te contei isso, contei?
— Não! Quer dizer que você sabe o que tem lá dentro?
— De certa forma, sim!
— Ok. — William diz, percebendo que estava a ponto de falar besteira. Só para título de informação, William diria: “Não, não, não, não, não, não! Isto não é possível! Por que você não disse isso pra mim? Cara, muita coisa poderia ser esclarecida se você me dissesse isso antes! Por que você estragou sua vida desse jeito? E agora, como consertar? Não importa: ainda podemos voltar”, mas então ele lembrou que isso era o que ele iria dizer para sua ex-namorada quando ela dissesse que ainda gostava dele depois de ter iniciado um relacionamento com outro cara. Obviamente, ele nunca disse isso.
— Enfim, onde estávamos indo mesmo? — Ramon pergunta.
— Ah, sim... — Ruf responde. — Cabeça Oca.
Os três continuam a caminhar, pois o boinilha permitiu a passagem porque foram ditas as palavras mágicas: “o que você acha disso”. É que na verdade os boinilhas são brutais porque ninguém quer saber a opinião deles. (Qualquer semelhança com a realidade é mera vontade de dar uma lição de moral).
O caminho pelo qual passam é cheio de buracos, como grande parte das estradas do Paraná. Eles caminham de forma rápida, para rapidamente encontrar a sala Cabeça Oca, que se encontra no final do Caminho Esburacado, perto da Montanha de Lava Fria e do Mercadinho do Zé do Mel.
Eles finalmente chegam à sala, que está toda adornada com ouro preto (café).
— Uau! — William diz, admirando toda a vista.
— Bem-vindo à sala Cabeça Oca, a sala com o maior número de informações da nossa dimensão. — Ramon diz.
— Só uma pergunta... — Ruf toma a palavra. — O que viemos procurar aqui mesmo?
— Boa pergunta! — Ramon diz. — Vamos rever nossas falas.
— Boíssima ideia! — Ruf diz, e começa a pegar o Desenhador. Ele joga o Desenhador no chão, que mostra o momento em que estão conversando sobre EBAC e o motivo de estarem indo para Cabeça Oca em um holograma com cheiro de maçã. (agora eu começo a pensar que essa dimensão parece ser mais fofa do que engraçada...). Falando nisso, sabia que maçã ajuda a forçar menos a garganta para cantar? Pois é, minha gente... Comédia também é cultura!
— Ok. Vamos achar os arquivos dos Ficcioneiros. Ruf, você trouxe a EBAC?
— Claro que sim, Ramon. Acha que eu não faria isso?
— Ahn... Fui eu quem disse!
— Ah... Foi mal. É que não teve identificação da fala, então eu não sabia quem era.
— Na verdade, quem é que está falando agora?
— Não faço a menor ideia!
— Ruf, é você?
— Não, sou o William.
— Mas eu sou o William!
— Tá legal, já chega!
— A culpa é do Desenhador! Ele nos dá informações do passado e nos tira informações do presente!
— Quem foi que disse isso?
— Calma. Vou desligar essa coisa.
Alguém aperta o botão para desligar o Desenhador.
— Ótimo. — Ruf diz. — Agora está melhor.
— Cara! — William exclama — Isso é muito massa!
— É melhor quando você quer ganhar uma discussão em família — diz Ramon.
— Ainda bem que não usamos o Argumentador. — Ruf diz.
— O que é isso? — pergunta William.
— É uma coisa que nós, homens, gostamos de usar para convencer as mulheres a fazer o que queremos. — Ramon responde. — É uma arma na versão masculina.
— E a versão feminina? — William pergunta.
— Chama-se Tirar-a-Roupa.
— Ah... Faz sentido. Mas o que isso tem a ver com essa situação?
— É que quando um Argumentador é usado com o mesmo fim do Desenhador, ele pode danificar nossos sistemas nervosos. — Ruf diz.
— Ruf, precisamos da EBAC agora para abrirmos a Caixa de Pandora.
— Já estou pegando, Ramon. — Ruf pega a EBAC e coloca em frente a uma porta feita de barra de chocolate branco. A porta se abre com um ranger musical, e eles entram para a sala principal, onde estão os arquivos.
— Aqui estão os arquivos dos Ficcioneiros. Pelo menos é o que estava escrito que estaria... — Ruf diz.
— Estava no livro deles? — pergunta William.
— Sim. Pelo menos, é a charada do livro quando faz referência à nossa dimensão: “Para encher o intestino, deve esvaziá-lo”. Tem a ver com um ditado que diz: “Para encher a cabeça, deve esvaziá-la”, que faz referência ao lugar onde estamos.
— Mas afinal, o que encontraremos aqui? — pergunta Ramon.
— Um arquivo confidencial, escrito para revelar alguns dos segredos da irmandade dos Ficcioneiros aos que vierem depois deles.
— Então vamos abrir logo — diz William. — Precisamos saber o que eles pretendem fazer para derrota-los e restaurar a ordem nas dimensões.
— Eu nunca disse que a ordem foi perturbada — diz Ruf.
— Ah... Mas eu presumi, já que...
— Não, William, a ordem não foi perturbada. Só mudou de rumo. Os Ficcioneiros são pessoas muito organizadas, mas o são para o mal.
— E isso causa o caos, não?
— Hm... Não havia pensado por esse lado!
— Pessoal! — Ramon interrompe — Precisamos ir logo!
— Tá legal, tá legal! — Ruf diz. — Ah, e William, você tem um protetor interno de pescoço?
— Não... Por quê?
— Por que se nos encontrarem, vão querer cortar nossas cabeças.
— O quê?!
— Vai logo, Ruf! — Ramon diz, apressando.
— Tá legal. Estou pegando o arquivo. — Ruf pega o arquivo e o abre. Há um rastreador nele. Mas não é um rastreador qualquer: este rastreador é um rastreador potente, criado com a tecnologia da dimensão Foucault com o objetivo de vigiar tudo e, quando acionado, teleportar um dos seguranças mais dispostos para o local.
— Oh oh! — Ruf diz, assustado.
— O quê? — William pergunta.
— Eles estão vindo — Ramon responde.
Um portal se abre logo atrás dos três, e cinco monstros de três braços, um olho, dois narizes e um ouvido no meio da face aparecem, com roupas pretas e botas de diamante, prontos para leva-los para a corte Ficcional. Eles apontam armas de sal e plasma para os três.
— Viemos aqui levar vocês para a morte. — fala o capitão deles. — Vocês tomaram aquilo que é nosso e nunca deveria ser de mais ninguém. Vamos leva-los aos senhores da Ordem.
E então os três são levados pelo portal para a corte na qual seriam sentenciados à morte e, por fim, levados para terem suas cabeças arrancadas.
Ah, e a propósito, o boinilha está bem.
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