Mais uma chance
2 2/2 Capítulos.
Eu ouvia o despertador gritar na minha orelha e bufei irritada.
Que droga, não acredito que não desliguei essa porcaria. Hoje é domingo, queria só ficar deitada e dormindo.
Tateei a cômoda em busca do despertador e não o encontrei. Estranho, jurava que ele estava aqui.
Abri meus olhos minimamente pra ver se o achava e vi que o sem vergonha estava do outro lado da cama, onde Bernardo costumava deixar.
Bufei irritada e rolei na cama desligando o mesmo.
- Saco.
- Me desculpe, meu amor. Esqueci de tirar da soneca.
Pulei da cama com o susto e fui parar perto da janela.
Olhei assustada para a voz que eu não ouvia há um mês e me deparei com Bernardo, o meu Bê, saindo do banheiro com uma toalha em volta da cintura, indicando que ele tinha acabado de sair do banho.
Espera, O BERNARDO ESTÁ AQUI? O MEU BERNARDO? MEU DEUS, ESTOU VENDO FANTASMAS.
Meu noivo... ou eu acho que era... me olhou estranhando minha atitude.
- Tudo bem? – foi se aproximando.
Eu corri por cima da cama em direção a porta e peguei um travesseiro pelo caminho.
- PARADO AÍ. – gritei assustada tentando me proteger com o objeto.
- Lou, o que foi?
- Como... Quem... O... O que está acontecendo? – sussurrei o olhando abismada.
Eu acho que enlouqueci.
- Certo. – ele ergueu as mãos e foi se aproximando lentamente. – Está tudo bem, amor. – se aproximou mais e eu me escorei mais na porta do quarto. – Você só teve um sonho ruim.
Balancei a cabeça. Não. Ele é um fantasma... Ai meu Deus, eu estou louca, vão me levar para um hospício e me encher de remédio.
- Você não está aqui. – balancei a cabeça freneticamente. – Isso é uma ilusão. Isso é minha mente que não sabe lidar com sua ausência... É isso. – respirei fundo e fechei meus olhos. – Quando eu abrir meus olhos, você vai ter sumido e minha sanidade vai ter voltado.
Respirei fundo, contei até 3 e abri meus olhos.
- Você está começando a me assustar.
Ele continuava aqui. MEU. DEUS.
Bernardo se aproximou mais um pouco.
- Amor, eu vou tocar em você agora, ta?
E assim ele fez.
Soltei o ar que nem percebi estar prendendo. As mãos que tocavam meus braços eram quentes e a sensação que senti era a mesma que eu sentia quando bernardo me tocava.
- Está tudo bem... Eu estou aqui. – ele dizia e me abraçou lentamente.
Meu corpo ainda estava paralisado, sentindo seu calor. Ai meu Deus, era ele. Bernardo estava mesmo aqui? Como isso era possível? Como isso poderia acontecer?
Ele afagava minhas costas lentamente e beijou meus cabelos, exatamente como fazia antes...
Não aguentei e o abracei forte e comecei a chorar de soluçar.
Ele estava aqui. Aqui comigo. Como isso era possível?
— Você está aqui! – eu dizia entre um soluço e outro. – Você está mesmo aqui!
- Estou, amor... Tenta se acalmar. – notei preocupação em sua voz. – O que houve? Teve um sonho ruim?
Balancei a cabeça meio confusa.
- Você morreu... Você... Você sofreu um acidente. Você morreu. – eu tentava explicar, mas as palavras se embolavam, porque eu tentava falar tudo muito rápido.
- Eu estou aqui, Lolo... Você só teve um pesadelo.
Neguei com a cabeça. Eu não estava louca.
- Não, Bê... Você morreu. Eu fiquei sem você.
Ele passou os braços por minhas pernas me pegando no colo e me levando de volta para a cama.
- Tudo bem... Passou. Eu estou aqui, amor e não vou a lugar algum.
Eu não queria me soltar dele. Eu não queria tirar minhas mãos dele mais. Isso pode ser só um sonho, mas não quero mais acordar. Ele estava aqui. Eu sentia o calor dele, o toque dele... Ele estava mesmo aqui.
Os minutos passaram e continuávamos abraçados.
- Você está melhor? – perguntou afagando meus cabelos, quando percebeu que eu tinha me acalmado.
- Sim. – disse num sussurro.
- Certo... Porque estamos atrasados, dona moça! – ele deu uma ridasa.
Nossa, como eu sentia falta disso.
Me levantei um pouco, pois estava deitada em seu peito, apenas para o olhar nos olhos. Aqueles olhos verdes que eu amava.
- Atrasados? – perguntei confusa... Hoje era domingo.
- Sim, tenho trabalho e você também, doutora.
Balancei a cabeça em negação.
- Hoje é domingo.
- Não, hoje é sexta-feira.
Franzi o cenho e olhei para o relógio de cabeceira e vi a data. 13/02/2026. A mesma data do acidente...
Isso quer dizer... Que não aconteceu ainda! Espera, eu voltei no tempo? Como isso é possível?
- Vamos? – perguntou mais uma vez.
- NÃO. – respondi rápido e desesperado demais.
Pude ver a surpresa no rosto de Bernardo.
- Como assim?
- Vamos ficar em casa hoje. – disse agarrando seu braço. – Não vamos trabalhar. Diz que você ficou doente. Por favor, amor... Não vai hoje. Por favor. – eu estava desesperada.
Se eu voltei mesmo no tempo, de jeito nenhum eu deixaria Bernardo sair daqui.
Ele franziu o cenho, com certeza, estranhando minha atitude.
- Eu não posso, Lou. Você sabe disso. – se levantou e foi para o closet. – Eu preciso ir trabalhar hoje. Aquele projeto está tirando meu sono, amor. Depois dele, vamos nos casar e sair em lua de mel. Ele precisa estar terminado, esqueceu?
Suspirei e o segui.
- Mas Bê, eu estou com uma sensação ruim. – não poderia falar a verdade, me taxaria de louca. – Por favor. Faz isso por mim. – o olhei com os olhos marejados.
Ele suspirou e veio até a mim, passando as mãos por minha cintura, me abraçando.
- Vou sair cedo hoje, prometo!
E essas foram as exatas palavras que ele me disse antes de ir trabalhar há um mês atrás.
- Não vai, Bê... eu sei que não. – disse sentindo o desespero se apoderar de mim. – Vamos tirar o dia de hoje para a gente, por favor. – implorei. – É só o que eu te peço.
Bernardo ficou ali, me analisando por alguns segundos.
- Certo. Vou falar com a empresa e vou trabalhar remotamente hoje, tudo bem? – disse por fim.
Nunca senti tanto alivio quanto o que estou sentindo agora.
- Tudo bem. – disse sorrindo e fiz o que eu mais queria fazer nesse tempo que fiquei sem ele. O beijei.
E sentindo esses lábios com os meus, depois de 1 mês longe... me senti no paraíso de novo. O paraíso que só ele conseguia me levar.
----
Era 15:00. Eu estava na cozinha, fazendo um lanche pra mim e pro bernardo. Depois de termos feito amor, ficamos deitados até agora pouco, apenas nos curtindo.
Para ele, era mais um dia nosso... Mas pra mim, era o dia que eu voltava a viver. Não iria deixar que nada acontecesse com ele. Não de novo.
Ouvi passos vindo pelo corredor.
- O cheiro está maravilhoso. – ele sorriu. Aquele sorriso que me derretia inteira. – Está fazendo pão de queijo? – seus olhos brilhavam.
Se tinha uma coisa que Bê amava demais, era pão de queijo com café com leite.
- Claro. Vou te paparicar hoje. – respondi sorrindo.
- Nossa, o que eu fiz pra merecer isso? – senti o tom divertido na sua voz.
Você morreu e eu fiquei 1 mês sem sua presença comigo. Pra mim pareceu uma eternidade, amor.
- Nada... – respondi por fim. – Só quero te paparicar.
Ele veio e beijou meus lábios.
- Eu te amo. Já disse isso hoje?
Sorri.
- Só umas 4 vezes. – disse divertida.
- Não foi o suficiente...
Passamos a tarde nos amando, conversando, assistindo filme... Foi um dos melhores dias que tive com ele...
- Amor. – Bê olhou no relógio da parede da sala e continuou. – Preciso mesmo dar um pulo na empresa, mas volto logo, ta?
Segui seu olhar e constei que eram 20:00 da noite.
Meu coração começou a disparar freneticamente no peito. Não... ele não podia ir.
- Não. – balancei a cabeça em negação. – Não vai.
- Meu amor, vai ser rápido, eu prometo. – tentou me convencer.
Não vou sobreviver sem ele... eu tenho certeza disso.
- Bernardo, por favor, não vai. Não hoje.
Ele se ajeitou no sofá e me olhou.
- Amor, o que houve? Você está estranha o dia todo. – observou.
Não podia falar, mas também não poderia deixa-lo ir.
- Só fica comigo. Por favor.
- Olha... – Ele beijou meus lábios. – Eu vou, fico apenas uma hora, para falar com o pessoal sobre o projeto e volto. Nem vai sentir minha falta. – ele disse divertido.
Vou sim, porque você não vai voltar.
Então tomei uma decisão súbita.
- Eu vou com você!
Isso. Eu iria com ele e se acontecesse algo, pelo menos eu iria junto e não viveria naquele martírio que era ficar sem ele.
Bê estranhou minha decisão, porque eu nunca fui com ele para o trabalho. Entendo sua surpresa.
- Tem certeza?
- Tenho.
- Tudo bem... Só vou trocar de roupa e já vamos. – disse se levantando.
Era isso. Ele queria ir e eu iria junto. Se algo acontecesse, nós teríamos o mesmo fim e eu não ficaria sem o amor da minha vida. É egoísta? Talvez sim, mas conhecia Bernardo o suficiente pra saber que ele não desistiria de ir aquela empresa àquela hora, então eu iria junto.
Quando chegamos a empresa já era 21:30. Eu ficava ansiosa cada vez que o relógio avançava.
Geralmente essa hora não teria mais ninguém, mas como eles estavam um pouco atrasados com a entrega do projeto, eles faziam horas extras para poder compensar.
Eu ficava impaciente e quando o relógio bateu 01:55 Bernardo apareceu.
- Desculpe a demora, minha vida... Vamos?
Eu respirei fundo, já sabendo o que iria acontecer.
- Vamos.
Já tinha tomado minha decisão... Se tivesse que acontecer... que acontecesse com nós dois, não apenas com ele.
A medida que o carro deslizava pela pista, meu coração batia mais frenético. Estavamos nos aproximando do local do acidente, meu corpo já sabia o que iria acontecer assim como a minha mente.
Olhei para meu noivo e o vi tranquilo enquanto prestava atenção na estrada... Ele era tão lindo que eu não conseguia desviar meus olhos.
Foi quando vi um clarão. O farol do caminhão vindo em nossa direção... Não pensei direito na minha decisão, simplesmente puxei o volante com tudo para o meu lado e senti o carro saindo da pista enquanto descia a ribanceira, depois disso... a escuridão tomou conta.
---
Eu sentia o corpo dormente, a mente limpa e tranquila, como há muito tempo não sentia. Aquela dor que me assolava, já não estava presente e eu estava aliviada por isso. Era como se eu fosse uma folha em branco, sem rabiscos e sem amassados. Eu estava em paz.
De repente ouvi uma voz ao longe.
- Você precisa voltar... Volta pra mim, amor... Por favor. – era Bernardo. – Eu não consigo ficar sem você. Não estou conseguindo seguir sem você. Por favor... Volta pra mim.
Sua voz era angustia pura. Um sentimento que sei bem o que faz com a gente. Ele destrói.
Mas... não estou entendendo... O meu Bernardo está vivo?
Foi então que a imagem do acidente veio com tudo na minha mente. Como se fosse um filme em câmera lenta. Podia ver o rosto do Bê tranquilo, seu semblante em paz e do nada um clarão.
O acidente aconteceu, mas nada aconteceu com o Bê.
Essa contestação me deu um alivio tremendo. Isso significa que consegui mudar as coisas!
Mas se eu mudei, onde eu estou?
- Você precisa voltar pra mim, Louise! – Bernardo chorava. – Estou há um mês sem te ouvir, sem ver seus olhos... É como uma eternidade. – respirou fundo. – Eu preciso de você!
Eu entendia muito bem aquele sentimento que ele estava tendo e é por isso que preciso voltar pra ele. Não vou deixa-lo passar o que eu passei. Não vou embora e deixa-lo! Não posso fazer isso.
Então com um esforço tremendo, mexi os dedos da mão, apertando levemente a sua, antes de abrir minimamente os olhos.
- Lou? – perguntou exasperado. – Está me ouvindo?
Não conseguia falar, minha garganta parecia que tinha espinhos... então apertei mais uma vez sua mão.
- Não acredito. – disse com felicidade. – ENFERMEIRA, VEM. – ele gritava. – ELA ACORDOU.
Então meus olhos foram se abrindo e eu o vi! O amor da minha vida ali na minha frente, bem e vivo!
Era tudo o que eu poderia desejar! Então me lembrei do meu pedido a estrela cadente, que eu tivesse o meu Bernardo de volta, se para isso eu precisasse passar de novo pelo acidente e ficar numa cama mais uma vez, eu faria. Só para ver aqueles olhos que me hipnotizavam!
FIM.
Fale com o autor