Mais uma chance

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O que você desejaria se pudesse pedir um desejo? Se visse uma estrela cadente ou pudesse jogar uma moeda numa fonte dos desejos... O que sua alma mais almeja?

Essa é uma resposta um tanto quanto difícil de responder, eu sei. Muitos desejariam riquezas, outros um amor verdadeiro... mas no meu caso... eu desejaria apenas mais uma chance.

Uma chance de fazer tudo diferente. De mudar aquilo que foi decretado naquele infeliz acidente...

Eu queria apenas mais uma chance.


- Querida, todos estão esperando... Vamos?

Tirei meus olhos do meu diário e olhei para minha mãe, que estava me olhando com aquele ar de pena.

- Já estou indo. – minha voz não passava de um sussurro. Muito diferente da garota entusiasmada e feliz que eu costumava ser.

Ela assentiu e se retirou do quarto fechando a porta.

Ontem, aconteceu o que eu jamais imaginaria.

Ontem, meu mundo acabou e agora só restaram os destroços que ele deixou.

Me levantei e guardei meu diário em minha gaveta. Hoje seria o enterro de Bernardo, o grande amor da minha vida. Hoje eu diria adeus aquele que esteve comigo desde meus cinco anos de idade. Aquele que era meu abrigo, meu amigo, meu namorado, amante... meu noivo.

Não consigo me lembrar quando foi a última vez em que estive sozinha na minha vida desde o dia em que ele apareceu.

A família de Bernardo se mudou para minha rua quando eu tinha cinco anos. Logo no começo já nos tornamos melhores amigos... Aos 11 já demos nosso primeiro beijo e começamos nosso namoro de mãos dadas... Quando fizemos 16 tivemos nossa primeira vez e isso foi um surto, pois meus pais nos pegaram dormindo juntos e apenas com um lençol nos cobrindo. – ri com a lembrança. – Aos 19 anos entramos na faculdade, ele em engenharia civil e eu em psicologia... Ficamos noivos aos 24 anos e agora aos 26 eu o perdi em um acidente absurdo que nem deveria ter acontecido.

Bernardo estava voltando do trabalho tarde por estar envolvido em uma obra que estava complicada... Era 02:00 quando recebi uma ligação do corpo de bombeiro me informando sobre o acidente. Segundo eles, meu noivo estava na sua mão e um caminhão se chocou com o carro dele. Aparentemente o motorista do caminhão cochilou no volante por alguns segundos e isso foi o suficiente para acabar com a vida do Bê e, consequentemente, com a minha também.

Nem percebi quando já estava no andar de baixo da casa da minha mãe que já me esperava com a expressão cansada.

- Vamos, amor... O carro está esperando.

Não disse nada. Não tinha o que dizer. A verdade é que eu não queria ir. Não queria vê-lo daquela maneira. Dentro de um caixão sem vida.

Quero me lembrar do Bernardo com aquele sorriso encantador que só ele sabia me dar. Aquele olhar que me fazia ver que eu era todo o mundo dele.

E agora, eu estou indo para me despedir para sempre do amor da minha vida... Isso é muito injusto.

...

Assim que chegamos no cemitério, meu ar começou a faltar... minhas pernas bambearam. Era como se eu não tivesse mais controle sobre o meu corpo. Ali, a apenas alguns metros, dentro de uma caixa de madeira estava o Bê... O meu Bê... Acho que agora minha ficha estava caindo.

- Mãe... – eu travei na entrada. – Não consigo, mãe. – comecei a respirar fundo, tentando fazer o ar entrar em meus pulmões. – Não consigo.

Dona Carmen passou o braço por meu ombro.

- Você precisa tentar respirar, Lou. – ela passava a mão por minhas costas na vã tentativa de me acalmar. – Vamos, respira comigo.

E começou a inspirar e expirar, me fazendo imitá-la.

Meu corpo estava dormente. Minha mente estava embaralhada. Eu não conseguia compreender, eu não queria compreender. Eu só queria voltar para minha casa com o Bernardo ao meu lado. Falando sobre como o dia dele foi bom, mas que seria melhor se ele tivesse ficado na cama comigo.

- Mãe, ele não vai voltar... – meus joelhos cederam e eu cai no chão, corando copiosamente. – Ele não vai voltar. O meu Bê não vai voltar...

A dor em meu peito estava absurda. Eu levei a mão ao mesmo e tentava respirar.

- Louise, olha para mim. – minha mãe abaixada a minha frente, colocou a mão sobre meu queixo e ergueu meu rosto. – Você é forte, minha filha. Você sabe que ele te amava muito e você tem que ser feliz por ter tido um amor assim. Você vivenciou isso de maneira intensa e o Bê também... – tentou limpar minhas lágrimas. – Ele odiaria te ver chorar assim, sabe bem disso.

Se tinha uma coisa que Bernardo odiava era me ver triste. Ele fazia de tudo pra me alegrar.

- Como vou viver sem ele? – olhei minha mãe e vi seus olhos com lagrimas. – Me diz, mãe... Como vou viver sem meu mundo?

Carmen me abraçou.

- Vivendo um dia de cada vez. E eu estarei com você, meu amor... Sabe disso.

Ficamos uns minutos assim e minha respiração começou a voltar ao normal, mas as lágrimas? Ah, essa me acompanharia por muito tempo.


...


Não me lembro há quanto tempo estou aqui, parada olhando para aquela lápide.


AQUI JAZ BERNARDO ALBUQUERQUE, FILHO, AMIGO E NOIVO AMADO.

“ENQUANTO FOREM AMADOS PELOS QUE FICAM OS QUE MORREM NUNCA DESAPARECEM POR COMPLETO.”


Hoje faz um mês desde o dia que ele partiu e ainda parece que foi ontem que tudo aconteceu. Venho aqui todos os dias, fico aqui mais do que na minha casa. Gosto de contar pra ele como foi meu dia, como quando fazíamos antes... Mas a diferença é que não tenho resposta de volta.

Olhei para o céu, essa noite ele estava estrelado mais que o normal. Gostava de pensar que ele estava lá em cima, olhando por mim e me repreendendo por chorar toda noite. Sorri com esse pensamento.

Nesse exato momento, vejo uma estrela cadente passar e senti um frio na barriga.

Porque não?

Fechei meus olhos e pedi com toda a fé que me era possível.

Quero meu Bê de volta. Por favor... Traga meu Bernardo de volta.

Abri meus olhos e voltei a olhar para a lápide.

- Eu te amo. – e fui embora para minha casa fria e solitária.