Mais uma chance
24 Vinte e Quatro
Conforme o previsto, grande parte dos colegas de Julie tinham ido viajar no ano novo, provando que o melhor havia sido fazer o show antes do natal. O ano novo tinha sido bem tranquilo, com Bia e Shizuko sendo convidadas para passar a virada na casa de Julie, junto dos garotos. Martin, apesar de ter ficado em polvorosa com a presença da ex-ficante, não tentou nada com ela por respeito ao seu Raul, mas queria muito uma oportunidade sozinho com ela para ver se rolava de novo.
Se Shizuko tinha ficado de boca aberta com Martin, mais uma vez ela perdeu o controle da sua mandíbula ao ser apresentada formalmente a Félix e Daniel. Tinha até mesmo sussurrado para Martin e Bia que achava uma excelente troca a que Julie havia feito, de Nicolas por Daniel. Bia ficou de fora, sendo imparcial no assunto enquanto Martin não soube dizer se concordar era uma coisa boa ou não.
Mas tão logo o ano novo passou, o dia 12 de janeiro chegou.
Daniel estava uma pilha de nervos, mal conseguindo pregar os olhos na noite anterior. Foi preciso que Félix preparasse um chá de camomila — cuidadosamente separado por Bia já prevendo aquilo — para que ele conseguisse ao menos se deitar e dormir por algumas horas. Ele tinha pedido folga naquela tarde na loja de instrumentos, com seu chefe praticamente estourando uma bomba de confetes apenas pela ligação.
Talvez a pessoa ainda mais animada que o próprio Daniel.
Procurando estar bem alinhado, ele saiu da loja de discos com antecedência, chegando um pouco mais cedo na gravadora. Assim que o relógio bateu às 15 horas, ele ouviu seu nome ser chamado pelo mesmo homem da última vez. Subindo as escadas com confiança e um sorriso no rosto, ele o seguiu até a sua sala, sentando-se bem em frente a sua mesa.
—Não sei se já me conhece, mas pode me chamar de Rick. É o seguinte, Daniel: fiquei ciente do seu vídeo na véspera de Natal e não pude aguentar esperar as épocas das festas para fazer contato. Fiquei bastante surpreso pela quantidade de visualizações e todo o engajamento em menos de três semanas.
—Nem eu acreditei nas cento e oitenta mil visualizaç….
—Cento e oitenta? Daniel, já está nas trezentas e vinte!
Rick riu da expressão de espanto do garoto à sua frente.
—E isso é inteiramente culpa sua. Tem noção da sua extensão vocal? E se não fosse por apenas isso, que letra era aquela, garoto? Você cantou com uma emoção que a muito tempo eu não via!
—Ela era para a minha namorada… — Daniel respondeu com um sorriso no rosto. — Eu fiz uma besteira e brigamos muito, muito feio. Pensei que pudéssemos terminar quando meu chefe me pediu para cantar na loja, era um dia de muita chuva e ninguém tinha aparecido, precisávamos matar o tempo de alguma forma. Eu não tinha intenções de mostrar para ninguém, mas meu chefe me pediu para cantar e eu precisava colocar aquilo para fora….
—Não me pareceu ter esperanças na música, foi você quem escreveu?
—Sim, costumo compor no tempo livre. Mas depois do vídeo meus colegas me deram apoio para mostrar a ela e voltamos.
—Agora me deixou curioso, de verdade. Como uma letra tão sofrida como aquela a conquistou de volta?
—Nós… temos uma história… Ela entendeu perfeitamente o que eu quis dizer…
—Sua letra me tocou muito, Daniel. Não só a mim, a todas as pessoas que assistiram às trezentas e vinte mil vezes. Você disse que compõe, não é? Me deixou bastante curioso. Gostaria de fazer uma proposta para você.
—É só falar. — Daniel estava visivelmente nervoso.
—O que acha de um contrato com a minha gravadora? Você sabe cantar muito bem e compõe muito bem também. Poderíamos começar com um contrato de um ano, e ver no que dá. Concorda?
—Eu tenho uma contraproposta. — Daniel tomou coragem, sabendo que poderia estar colocando tudo a perder naquele exato momento. — Apesar de eu ter cantado sozinho naquele vídeo, eu tenho uma banda, uma banda muito boa por sinal. Conseguimos reunir sessenta pessoas por cada show que fazem….
—Daniel, minha oferta é para você. Não sei como é o nível da sua banda, não acho que seria uma boa coisa iludir o restante chamando para um teste e….
—Você conhece. Digo, o senhor conhece. Participamos do festival de música do Peche, e até viemos fazer um teste aqui na gravadora, mas não fomos selecionados porque usamos máscaras.
Rick pareceu estar pensativo por uns instantes, até que se lembrou.
—Os Insólitos, não é?
—Nós mesmos. O senhor conhece a nossa potência, sabe o quanto somos bons, e dessa vez estamos dispostos a tirar as máscaras pelo menos aqui na gravadora. Elas são a nossa marca, sabe?
—Me lembro bem da voz de Julie, vocês tocando também, mas não sabia que podia cantar.
—Estamos aos poucos dividindo o microfone. Os outros garotos também cantam, mas não tanto quanto nós dois.
Rick se calou mais uma vez, ficando um tempo em silêncio, fazendo caras e bocas.
—Quando eles podem vir aqui para um teste?
Daniel abriu um sorriso de orelha à orelha, empolgado com o que tinha conseguido.
—Amanhã à tarde. Hoje nosso baterista está trabalhando, mas amanhã sem falta eu trago todos eles.
—No mesmo horário que hoje?
—Se for o melhor para o senhor….
—Ótimo! Marque com minha secretária ao sair. Nos vemos amanhã, Daniel. Não me decepcione mais uma vez, garoto.
—Pode deixar! — Daniel se levantou com rapidez, marcando com a secretária antes de sair da gravadora com um sorriso de orelha a orelha.
A sua volta para a loja de discos foi infinitamente mais rápida, deparando-se com toda a banda à sua espera no saguão. Até mesmo Pedrinho estava lá, jogando no arcade, mas estava lá!
—E então? Como foi? — Klaus foi o primeiro a perguntar, ignorando os poucos clientes na loja.
Daniel apenas andou em direção a Julie e a levantou do chão, rodopiando com ela, rindo.
—Isso quer dizer que foi uma coisa boa? — Julie perguntou ao voltar para o chão, se arrumando.
—Mais do que boa. Ele quer que todos nós voltemos lá amanhã à tarde para um teste.
—Mas…. Ele sabe que já tentamos isso? — Félix se preocupou com outra rejeição.
—Sabe, ele pensou muito antes de propor isso. Pediu para não o decepcionarmos de novo, mas eu deixei bem claro que ficaremos sem as máscaras na gravadora. Acho que ele entendeu que é a nossa marca.
—Nós estamos tendo mais uma chance na gravadora então? — Martin quis deixar bem claro, antes de comemorar.
—Com certeza estamos. — Daniel afirmou, rindo ao ser puxado para um abraço coletivo.
—Vocês precisam estar mais do que preparados para amanhã. Ele provavelmente vai pedir para cantarem algo, tem ideia do que?
—Ele conhece a música para Julie e a que ela compôs para o festival do Peche, mas todas as outras são exclusivas. A propósito, ele adorou a minha composição, então deve ser menos um problema isso.
—Vocês falam tanto dessa música mas ainda não ouvi. — Klaus reclamou, se sentindo perdido.
—Deixa que eu te mostro. — Bia foi até o computador, colocando na página, voltando para a conversa enquanto Klaus abria ainda mais o sorriso com a composição do seu filho postiço.
—Pessoal…. Acho melhor vocês se preparem o melhor que puderem para amanhã…. Não podem perder essa chance. — Klaus decretou ao final do vídeo. — Félix, não precisa ficar até o final do expediente, vão ensaiar!
—_________
Os vizinhos de Julie infelizmente tiveram de aguentar o ensaio até às oito da noite naquele dia, mas era uma ocasião especial! Seu Raul tinha pedido pizzas naquela noite para comemorar — muito embora tenha sido avisado que não era nada concreto, já que da última vez as coisas não tinham dado muito certo.
Ignorando o pessimismo dos mais jovens, ele comemorou sim, e até brigou com o vizinho que ameaçou chamar a polícia pelo barulho.
Confusões a parte, os quatro estavam mais uma vez de volta à gravadora no dia seguinte. De todos eles Julie aparentava ser a mais nervosa, já que era a segunda vez que falaria diretamente com Rick. E se ele quisesse trocar o seu estilo mais uma vez? Os Insólitos não era uma banda que só falava de festas, eram um grupo de rock! E se eles perdessem a sua essência? E se acabassem se aproximando do estilo musical de Demétrius?
Perdida em seus anseios, Julie voltou à realidade quando Martin cutucou o seu cotovelo, a chamando para subir até a sala de Bonadio. Os dois tinham ficado um pouco para atrás, mas nada que não pudesse ser recuperado com passos rápidos. Guiando o caminho com uma mão em suas costas, os dois logo se juntaram aos outros três, respirando fundo ao se verem mais uma vez em sua sala.
—Então…. Estamos mais uma vez aqui, Julie. — Rick não sabia muito bem por onde começar, a realidade era aquela.
—A gente sempre acaba voltando, não é….?
—E dessa vez sem as máscaras. Por que não tiraram da última vez?
—Problemas de pele. Eles estavam com uma alergia e problema de acne terríveis, nem queriam tirar ela na minha frente! — Julie foi mais rápida, atropelando os outros.
—Compreensível… Mesmo com as máscaras vocês trabalham com a sua imagem. Porque não avisaram antes?
—Não sabíamos se ia insistir para ver, machucava saber que estávamos sendo vistos… — Martin sempre era o responsável por completar as mentiras, aquilo já estava se tornando um fato no grupo.
—Bem, fico contente que melhoraram. Mas temos um propósito aqui hoje, certo? Daniel me falou de vocês ontem e me convenceu a dar mais uma chance para vocês. Estão prontos? Podemos seguir para o estúdio?
—A sua disposição.
O grupo foi levado para o terceiro andar, entrando na sala com reforços acústicos. Meio confusos com a disposição, Rick explicou:
—Normalmente gravamos a melodia no estúdio separado, mas como vocês também cantam, vamos focar apenas no segundo estúdio. Os seus instrumentos estão todos certos?
—Sim, mas só tem um pedestal de microfone aqui. — Daniel avisou.
—Julie, você costuma tocar alguma coisa?
—Não, eu só canto.
—Então fica nesse principal aqui, vamos ajustar os microfones e áudio para equivalerem e parecer que estão um do lado do outro.
Os quatro entraram na caixa acústica, posicionando-se nos seus devidos lugares. Olhando para Daniel através do vidro, Julie piscou para ele antes de colocar o fone de ouvido e segurar no microfone, esperando o sinal positivo de Rick. Quando a luz acendeu e seu polegar fez um positivo, ela começou a escutar os primeiros versos saindo da boca de Daniel.
“Tudo em mim parece simples
Mas não é bem assim”
Daniel cantou, dando a deixa que Julie e os garotos precisavam.
“Bem vindos ao meu louco mundo
Nada é impossível
Não paro de sonhar
E sei que vai valer a pena”
Julie tentava se manter ao máximo concentrada apenas no seu mundo, com a voz de Daniel presente em seu ouvido. Por mais que ainda não fosse a parte dele, saber que ele estava lá já dava um alívio imenso. Não era ao seu lado, mas podia sussurrar contra o seu ouvido. Tanto ele quando Martin e Félix, com a bateria se sobressaindo mais do que a guitarras às vezes
“Hey, eu tenho histórias no meu coração
A lua cabe aqui em mim
Sei que cada passo é uma decisão
Lá fora a vida é assim”
Julie sorriu internamente, agora era a hora do verdadeiro show.
“Pode sx er chato ou tudo de bom
Já me falaram que é apenas um show
Ri por último quem não entendeu
Quem se acha muito, já se perdeu
Todo dia começa outra vez
E os relógios não param de correr
Apaixonada sem saber por quem
Só tenho medo de não ter coragem”
Com a guitarra mais acentuada, ela escutou Daniel voltar a cantar com tudo, em uma luta sobre qual voz se sobressaía mais — mas que no final ambas se equivaliam, tornando-se uma só, uma completando a outra. Os pratos davam o toque final no refrão, deixando o solo de guitarra e baixo pincelarem o ideal para que suas vozes se acomodassem mais.
“Tudo em mim parece simples
Mas não é bem assim
Bem vindos ao meu louco mundo”
Martin estava sendo o responsável pela finalização, dando o plano de fundo para qeu Daniel e Julie terminassem de cantar de forma limpa e calma, desaparecendo com toda a melodia agitada de rock de segundos antes. Temerosos, todos olharam para Rick, que para a surpresa de mais ninguém estava pensativo.
Aquilo tinha sido bom, ele precisava admitir. A voz de Daniel misturada ao talento dos instrumentos e de Julie havia sido algo inovador. Se eles tivessem cantado no Festival do Peche, certamente teriam levado o grande prêmio, mas infelizmente tinham se mantido quietos.
—Julie, Pode vir aqui fora um instantinho? — Rick pediu pelo sistema de som, achando um pouco de graça da maneira como ela estava apreensiva.
—Como fomos?
—Quem compôs a letra?
—Eu….
—Com a ajuda de Daniel?
—Não, eu ainda não conhecia ele nessa época.
Rick estendeu suas sobrancelhas, pensando.
—Isso foi bom, muito bom, quase como eu me lembrava do festival. Mas eles cantam sozinhos, não é?
—Estão voltando a cantar sim.
—Eles têm algo preparado?
—Sim, ensaiamos ontem pensando nessa possibilidade.
—Excelente. — Rick voltou a falar pelo sistema de som com os garotos. — Rapazes, se importariam de tocar uma apenas com vocês?
—Sem problemas nenhum! Só precisamos de mais um microfone aqui. — Daniel avisou, chamando Félix para pegar o extra que estava no estúdio da frente, montando na altura da bateria.
—Quando vocês quiserem!
Apenas Julie e Rick estavam na cabine de som, não existindo nenhum técnico naquela hora com eles. Rick quis cuidar de tudo pessoalmente, se eles antes quiseram privacidade não era agora que ele quebraria isso (por mais que não estivessem com máscaras)
Félix deu início a contagem com as baquetas, permitindo que Martin desse o seu solo com o baixo, seguindo de Daniel com a guitarra, enquanto ele mesmo ficava nos pratos.
“Me sinto só
Mas quem é que nunca se sentiu assim
Procurando o caminho pra seguir
Uma direção, respostas!
Um minuto para o fim do mundo
Toda sua vida em 60 segundos
Uma volta no ponteiro do relógio pra viver”
Daniel estava dando um show com a guitarra junto de Martin, ofuscando Félix propositalmente. O momento da bateria ainda não havia chegado.
“O tempo corre contra mim
Sempre foi assim e sempre vai ser
Vivendo apenas pra vencer a falta que me faz você
De olhos fechados eu tento esconder a dor agora
Por favor entenda eu preciso ir embora porque”
A sugestão de Pedrinho começou, dando mais ênfase ao vocal. Rick e Julie estavam arrepiados da cabeça aos pés tamanho talento estava sendo derramado pelas caixas de som.
“Quando estou com você
Sinto meu mundo acabar
Perco o chão sob os meus pés
Me falta o ar pra respirar
E só de pensar em te perder por um segundo
Eu sei que isso é o fim do mundo”
Julie sentiu cada pêlo do seu corpo arrepiar com a chegada do refrão. Não só pela letra, mas porque Daniel, Félix e Martin usavam as suas vozes, dividindo o microfone. Félix estava curvado para o microfone ao seu lado, enquanto Martin e Daniel dividiam o mesmo microfone. Arriscando olhar para o produtor, se animou ao notar que ele estava com os olhos fechados, imerso em seu próprio mundo, até que os abriu de forma muito rápida, completamente desacreditado do que ouvia.
“Volto o relógio para trás tentando adiar o fim
Tentando esconder o medo de te perder quando me sinto assim
De olhos fechados eu tento enganar meu coração
Fugir pra outro lugar em uma outra direção porque”
Daniel olhava na direção de Julie, tentando receber um sinal sobre o que estava acontecendo do outro lado do vidro, mas não tinha conseguido nada. Rick estaria gostando? Porque Julie estava com uma careta estranha para ele?
“Eu sei que isso é o fim do mundo
Eu sei que isso é o fim
Eu sei que isso é o fim
Eu sei que isso é o fim do mundo!”
—E então? — Daniel não se aguentou, arrancando Rick da sua própria bolha.
—Eu… Eu…. Podem vir aqui para fora, rapazes? — Nem mesmo o produtor sabia o que estava sentindo de verde.
Ele queria produzir os garotos, isso estava mais do que óbvio, mas não entendia o porque o solo masculino tinha mexido tanto com ele, o lembrando da época da escola. Com aquilo martelando na sua cabeça, ele não sabia o que fazer, mas precisava urgentemente contratá-los.
—Eu…. Uau…. Vocês são incríveis! Por onde se esconderam por todo esse tempo?
—Era uma situação meio complicada… — Félix coçou a cabeça.
—Mas o senhor gostou? — Julie estava impaciente, não conseguindo decifrar o homem.
—Muito. Estou disposto a oferecer um contrato com toda a banda por um ano, o que acham?
—Poderemos usar as máscaras em público?
Rick pensou um pouco.
—Podem, essa é a marca de vocês.
Todos eles se olharam antes de acenarem com a cabeça desesperadamente.
—Queremos muito!
—Ótimo, eu só….. — Rick olhou mais uma vez para os garotos, se incomodando com aquilo. Por que parecia tão familiar ...?
—Está tudo bem, senhor? — Martin entrou em pânico com o rumo da situação.
—Sim, é só que…. Por algum motivo muito estranho vocês me parecem familiares…
—Familiares como? — Julie arriscou, percebendo os garotos se entreolharem preocupados.
—Não sei muito bem, mas ouvir vocês cantando…. Me fez lembrar da minha época de escola.
—E-escola? — Daniel gaguejou mostrando todo o seu nervosismo.
—É, quando eu era bem novo ocorreu uma fatalidade com alguns alunos do último ano do científico… Eles tinham uma banda, mas foram assassinados…..
—Atropelados…. — Martin corrigiu baixinho.
—Isso, atropelados. A escola ficou de luto por quase uma semana, quase todo o ensino médio compareceu ao enterro, mas eu era muito novo, não me deixaram ir. Mas a voz de vocês me remeteu muito a essa época, eu era um dos únicos que….. Espera, você falou atropelados? — Rick enfim percebeu o que Martin dissera.
—O senhor disse assassinados, eu só corrigi. Foi um atropelamento, por um caminhão frigorífico para ser mais específico. — Martin entrou no modo automático, não querendo que mentiras sobre sua história fossem contadas.
—Martin….! — Julie tentou apertar o seu braço, mas ele não estava nem aí.
—Como sabe disso? Porque pesquisaram sobre esse tipo de coisa? Eram uma banda cover?
Eles podiam ter parado por aí, mas o estrago já estava feito.
Julie entrou em pânico ao notar os olhares entre si da banda, tentando desesperadamente procurar uma saída para aquilo, mas não dava mais.
—Não pesquisamos, nós vivemos isso. — Daniel confessou de olhos fechados. — Colégio São Cristóban, turma de 1981?
—Qualquer um que fosse a uma hemeroteca e pesquisasse o jornal do dia descobriria isso. — Rick estava desacreditado, achando que os garotos tinham um parafuso a menos por quererem se passar por uma banda adolescente tragicamente morta trinta anos antes.
—Porque falaríamos sobre o acidente? Se fôssemos o cover não diríamos como morremos, só ignoraríamos essa parte!
—Vocês são….
—Foi você quem nos pediu um autógrafo, não foi? — Félix se lembrou, vendo a cor desaparecer do rosto de Rick. — Invadiu o intervalo do ensino médio só para autografarmos o seu LP. Tínhamos feito poucas cópias, quase ninguém tinha, mas você foi o único a pedir um autógrafo.
—Assinamos bem na capa, debaixo das nossas fotos, você disse que gostava muito do nosso trabalho e que queria ir a um show, mas como só tinha doze anos seus pais não o deixariam ir sozinho. Pediu que fizéssemos um na escola. — Martin se lembrou, completando a fala dele.
Era impossível que mais alguém além dos envolvidos soubessem de uma coisa daquelas. Agarrando-se na cadeira da mesa de som, Rick tentava a todo custo recuperar a sua respiração e acalmar seus batimentos cardíacos.
—Você perguntou porque não tiramos as máscaras daquela vez. — Daniel tinha acabado com a senhoria, já que era mais velho do que ele. — Acho que você não empregaria três fantasmas, e a julgar pela sua aparência talvez sequer ficassem consciente na nossa presença.
—Fan… Fantasmas…. As roupas de astronauta…..
—Estávamos sem as máscaras naquele dia, mas nós avisamos que éramos fantasmas, vocês que não acreditaram.
—Julie, pode pegar uma água pra ele? — Daniel pediu, vendo o estado do homem.
Aquilo tudo era muita coisa para Rick absorver. Ele se lembrava exatamente da sua infância e pré adolescência, de como era fascinado pela Apolo 81, se achava por estudar na mesma escola que eles! Mas aí o acidente aconteceu e ele foi um dos que mais chorou em frente ao memorial montado no corredor da escola, depositando flores e lágrimas por todo o tempo que permitiu ser montado. Mais tarde as fotografias foram realocadas para a estante de troféus no corredor ao lado, junto de personalidades importantes que haviam passado pela escola — muito provavelmente estando lá até os dias de hoje. Inconsolável, não permitiriam que ele fosse ao enterro, fato esse corrigido anos depois quando tinha idade o suficiente para andar sozinho na rua. Eles eram os seus ídolos, ter um autógrafo foi o ponto alto da sua adolescência. Tinha até mesmo seguido no ramo da música em forma de homenagem aos rapazes — não pela fantasia infantil de um dia ser aceito na Apolo, imagina….
E depois de 30 anos, eles estavam parados bem ali na sua frente, vivos….
Quando Julie voltou com a água, Rick bebeu tudo em longos goles, ainda encarando os garotos. Como não tinha percebido antes? Tirando a barba de Daniel, eles estavam idênticos! Os cabelos um pouco mais curtos, mas idênticos!
—Acho que perdemos o nosso contrato, não é….? — Martin se lamuriou, olhando com pesar para Julie.
—Não, é claro que não! Estão mais do que contratados! Vocês…. Uau…. Tem noção de como eu era super fã de vocês? Como eu fiquei mal com o acidente? Como eu…. Eu só sou o que sou hoje porque queria ser como vocês!
—Caramba…. — Julie estava chocada, encontrando os homens a sua frente.
—Hã…. De nada? — Daniel arriscou.
—E agora vocês estão, bem aqui na minha frente, VIVOS, e querendo um emprego….É claro que podem trabalhar aqui.
— Ficamos felizes por ter ajudado você e imensamente por ter nos dado essa chance. Entende o motivo das máscaras?
—Não podem ser reconhecidos, é claro… Só se passaram 30 anos, é recente, os seus pais…
—Relaxa, eles não vão se lembrar da gente. Era parte do acordo para voltarmos.
—Acho que mereço saber como voltaram.
—Primeiro o contrato, depois a história. — Daniel negociou, trazendo à tona seu melhor sorriso cafajeste.
Se Julie achou que ele estava brincando com o perigoso, ficou aliviada por perceber que Rick estava sorrindo feito uma criança. Algo dizia que Daniel tinha agido da mesma maneira quando ele pediu o autógrafo.
—Preciso de três semanas para aprontá-lo, tudo bem para vocês?
—Estamos a sua disposição, garoto. — Daniel espremeu um pouco mais, brincando com a sorte.
—Então nos vemos em três semanas. Alguma coisa que eu precise saber?
—Eu vou começar o terceiro ano em alguns meses, então não sei se vou poder ficar aqui sempre.
—Nós trabalhamos por meio período, e no início de março faremos uma prova para conseguir nosso certificado do ensino médio. O acidente poderia ter sido depois da conclusão do ano, mas foi antes. — Daniel revirou os olhos. — Acho que podemos transferir nossos trabalhos depois que as aulas do curso terminarem no final deste mês, mas precisamos fazer a prova em março.
—Excelente, vou arrumar tudo e mandar para a equipe jurídica. Em três semanas assinamos os contratos. Julie, por ser menor de idade vou precisar que seu pai assine junto de você. Mandarei uma cópia por correio, não queremos ele na próxima reunião, certo?
E com um aperto de mão em cada integrante, os Insólitos saíram em silêncio da gravadora, voltando a respirar já na esquina.
—Essa vai ser a última pessoa que vai saber sobre a condição de vocês, não é?
—A última, eu prometo. — Daniel apertou a mão de Julie. — Ele conhecia a gente, uma hora ou outra se tocaria disso.
—Viram a cara dele quando falei sobre o autógrafo? Parecia o garoto de 12 anos de novo se tremendo pedindo nossa assinatura e fugindo do inspetor.
—Meu pai vai desmaiar quando descobrir sobre o contrato!
—Acho que hoje ele leva para os finalmentes a briga com seu vizinho.
—Vamos para a loja ou para sua casa?
—Minha casa, Bia deve estar por perto, é só pedirmos para ela ir até lá e esperarmos meu pai para comemorar.
E com aqueles planos, Os Insólitos praticamente flutuaram de volta para a edícula, sequer acreditando que eram os mais novos contratados da gravadora, não eram mais uma banda independente.
Daniel e Julie deveriam brigar mais vezes.
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