Mais uma História sobre Destino
1 Capítulo 1
Sobre o que eu escrevo? Meus demônios internos? Minhas inseguranças? Sobre uma realidade que nunca vai acontecer? Escrever é colocar para fora a mais pura essência de si mesmo, independente do que você tenha aí dentro. Mas e quando você se sente vazio? Quando nem sua mente e nem seu coração falam com você, você não se sente perdido? Sem saber o que fazer? Você escreve para si mesmo ou para alguém? São tantas questões para algo que aparenta ser simples, apenas registrar em palavras o que sai de você, mas nós temos medo do resultado revelar coisas que nós tentamos esconder de nós mesmos, algo que nós preferimos fingir que não existe, mas no fundo nós sabemos que está lá.
Mais um dia começa. A luz do sol invade o quarto lentamente, a cortina balança com o vento suave, olho através da janela e vejo as nuvens avermelhadas sendo banhadas pela luz do nascer do sol. Há apenas o som de passarinhos, fora eles o mundo não acordou ainda.
Acordo subitamente de um sono profundo, demoro-me na cama até me sentir pronta para levantar e viver mais um dia. A atmosfera da manhã me inspira, todos os dias tudo pode mudar assim que o sol se levanta, ele nos dá uma nova chance todos os dias. Isso me dá força para continuar vivendo.
Levanto e me arrumo rapidamente, a partir do momento em que fecho o cadeado do portão de casa sinto um frio na barriga, como se algo estivesse me esperando, mas todos os dias ele não vem. Mas eu sigo esperando, sempre.
O silêncio das manhãs me fascina, parece que sou apenas eu no mundo, posso ouvir o som de meus passos, minha respiração, o som das coisas balançando na mochila, quando o mundo fica em silêncio eu consigo ouvir a mim mesma.
Menos o som da minha própria voz.
Há duas coisas que definem quem você é logo de cara, sua voz e o seu nome. Nomes pré-destinam quem você será quando nascer, e a sua voz diz praticamente todo o resto sobre você, saber identificar a essência de uma pessoa apenas pela voz dela é uma arte.
A questão é que mesmo sendo os pais que escolhem os nomes dos filhos, o nome escolhido sempre acaba se encaixando na pessoa mais tarde, como se fosse uma intuição sobrenatural que aquele nome foi pré-destinado á aquele indivíduo. Isso aconteceu com todos, menos comigo. Quando me chamam pelo nome eu não tenho o reflexo de responder imediatamente, eu preciso me lembrar de que esse é o nome que foi dado a mim, como se algo em mim me dissesse que aquela não sou eu.
A voz as pessoas não escolhem, então teoricamente elas deveriam encaixar perfeitamente, certo? Errado. Eu nunca me identifiquei com minha voz, esperei a puberdade passar para ver se ela mudaria mas ainda sinto insegurança, é como se outra pessoa falasse dentro de mim. Por essa razão eu quase nunca abro a boca, e sempre prefiro o silêncio. É claro que cotidianamente eu falo normalmente, tentando ignorar essas questões internas totalmente irrelevantes ao ver da sociedade, mas no fundo algo dentro de mim espera algo acontecer para mudar meu nome.
Tenho um dia normal na escola, pessoas para todos os lados, professores cansados, alunos desinteressados, todos olhando a hora passar para ir embora. Sinto que sou a única que realmente está ali e não em outro lugar, a única que acha as aulas dos professores tão fascinantes ao ponto de enxergá-los como artistas. Nada é mais bonito do que uma pessoa despejando sobre quem quer ouvir o seu amor e conhecimento sobre qualquer assunto, isso é extraordinário.
Faço várias anotações em meu caderno, minha memória funciona a base da escrita, eu aprendo tudo que eu escrevo. As vezes eu me sinto tão inserida no assunto da aula que escrevo tão rápido quanto o professor fala, e quando eu acabo parece que a página está fervendo, meus dedos ficam quentes. A emoção de aprender queima através de mim.
Depois da escola vou para o lugar que mais me traz paz no mundo todo. Onde sempre está meus pensamentos, meus desejos, sonhos e planos. Meu amor. Nossa história de amor não é de um conto de fadas, é cheia de dor, angústia e incerteza, mas por alguma razão o amor sobreviveu a tudo isso. Costumo dizer a ele que nascemos para ficar juntos, não como “almas gêmeas”, mas algo como “deus nos uniu por uma razão”. Nossos destinos estavam predestinados, e desde que se encontraram estão seguindo uma única linha, juntos.
Sempre fico pensando em outras coisas no caminho até a casa dele para não ficar ansiosa, mas sempre que avisto ele começo a sorrir sem parar, e ele sempre percebe. Nós nos abraçamos, nos beijamos, entrelaçamos as mãos e caminhamos até nosso destino. A textura e o calor de suas mãos me vicia. Onde há calor há vida, e onde há vida há amor. Posso sentir o amor dele por mim através do calor de suas mãos entrelaçadas as minhas.
Quando estou com ele eu esqueço das minhas questões com meu nome ou minha voz, fico distraída demais prestando atenção nele ou concentrada tentando passar para ele algo que aprendi. O som do meu nome na voz dele é algo que me conforta.
Meu dia acaba quando chego em casa, faço as mesmas ações e me reviro na cama até dormir, faz semanas que não tenho sonhos, mas guardo um segredo sobre eles, algo que nunca afetou minha vida real mas sempre aconteceu. E nessa noite.. aconteceu de novo.
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