Mais uma última vez
1 I know it's not the truth when you say, "I'm fine"
Notas iniciais
Eu goxto desse ship, e tinha ficado no frisson todo com o filme, mas dps deixei o ânimo baixar e ir pra gavetinha de fics que não escrevo, mas ploto e imagino com detalhes :)
Mas, tcharam!
Agora.
Olhava aquela foto, estava surrada e com marca de dobraduras de tanto enfurnar ela no compartimento lateral de sua carteira. Olhava-a com saudade e com a sensação de que toda a sua vida poderia ter sido diferente daquela que tinha agora. Seus medos seriam outros, seus acertos seriam outros… Sua vida inteira seria diferente se seguisse seu coração ao invés de toda a sua escolha lógica, embora também emocional para com àquela que lhe deu origem.
Sorriu mais uma vez para a imagem dos dois jovens no papel fotográfico antes de voltar a dobrar para recolocar no compartimento de sua carteira, assim como guardar de novo aqueles sentimentos no pequeno compartimento de sua mente… e coração. Em poucas horas o avião pousaria, e reencontraria David Shield, seu melhor amigo… seu grande amor.
Antes.
Tinha o sol, o vento e a música na rádio enquanto David dirigia com um enorme sorriso no rosto, uma das mãos no volante, o cotovelo esquerdo apoiado na janela do carro e sua mão quase segurando os fios que voavam livres conforme o vento invadia o conversível.
Haviam acertado alguns pontos daquela amizade, e de um futuro trabalho em equipe, David seria um excelente braço direito e quanto a isso, Yagi não tinha a menor dúvida. Era companheiro, leal, inteligente e prestativo, e, assim como ele, buscava ajudar aos outros. Talvez fosse isso que fizesse seu coração bater mais forte quando David o olhava e sorria. Talvez quisesse muito acreditar que era isso, e não algo mais.
Forçava-se a acreditar em tudo, menos na verdade. Mas a verdade era:
Yagi Toshinori gostava de vê-lo roubando suas batatas-fritas naquela lanchonete que sempre paravam, porque David alegava precisar de combustível, que resumia-se em fritura e açúcar. Gostava de vê-lo apoiar os cotovelos na mesa, entrelaçar os dedos e apoiar o queixo sobre eles enquanto o olhava distraidamente. Gostava de como a pontinha do nariz dele mexia junto à boca pouco antes de ele virar para o lado e espirrar por conta do cheiro de fritura do local. Gostava dos pequenos detalhes que fazia de David Shield, único.
— Queria testar algo hoje, se estiver disponível. — David sempre começava assim, Yagi já sabia. Sabia o que ele iria propor. Que fosse junto a ele para testar, de fato, alguma de suas criações. Trajes, testou uma vez uma capa que lhe conferia uma pose imponente, embora tivesse pisado nela uma… ou 7 vezes no meio tempo que a experimentou.
— Claro.
Quando terminavam de comer, David corria pagar os lanches antes que Yagi tivesse chance, era, ele não sabia, uma tática. Assim, Toshinori se via “forçado” a retribuir de alguma outra forma, então sempre aparecia com rosquinhas pela manhã para curtirem um momento de tranquilidade no terraço.
Foi assim que tudo começou.
Foi naquele terraço também que aconteceu o primeiro beijo.
— Você se lembra daquela capa? — David questionou-o enquanto sentava-se na cama ao seu lado, o sorriso tão evidente que Toshinori não tinha opção, senão espelhá-lo.
— A que era grande demais? Lembro. Vivia pisando nela.
Curtiam a leveza do pós-sexo, da confidência e da certeza de estarem no lugar certo, com a pessoa certa. Onde podiam ser exatamente quem eram. Onde David não fingia não precisar de óculos, mas onde, agora, não usava por sorte, porque provavelmente teria caído sobre Toshinori quando se inclinou sobre ele para beijá-lo.
Os dia passavam, a vida era, enfim… boa.
Tinha alguém que o amava, alguém que ele amava. Um companheiro de verdade, alguém cujo coração havia entregado de tão boa vontade. Havia encontrado algo bom para sua vida, alguém que lhe fosse perfeito.
— Eu te amo, Toshinori.
O corpo dele estava quente, os braços envolviam seu pescoço, a mão dele tocava se rosto, os lábios resvalaram sobre os seus enquanto sua pélvis investia contra a dele. O som da cama rangendo, os gemidos de David quando ele ia mais fundo, quando beijava seu pescoço e sentia o cheiro daquele perfume, do suor… do sexo.
— Eu também te amo.
E não era mentira. Nunca foi… mas eles… eles não poderiam ser reais. O que tinham, não poderia ser mais do que um sonho, um desejo… um passado.
No momento, entregou-se apenas ao orgasmo e no movimento dos corpos a alcançá-lo. Nos olhos de David fechando-se aos poucos enquanto os lábios mantinham-se abertos para recuperar o fôlego.
Agora.
Havia um tempo. Um momento onde teria algumas horas, com sorte, de ficar à sós com David, não que isso facilitasse sua vida em algo, pelo contrário. Izuku estava conhecendo a ilha, Melissa serviria de guia turística, a melhor. E ele, bem, Yagi Toshinori poderia rever seu melhor amigo, aquele cuja foto jazia dobrada na carteira como a melhor e mais dolorosa recordação de sua vida.
Tinham, pouco mais de duas horas. E naquele momento bastava.
Os lábios prensavam-se uns contra os outros. David não havia mudado quase nada com o passar dos anos, havia uma barba agora, uns fios grisalhos bem discretos. Óculos agora em todo o momento, ao invés de só quando estava sozinho ou com ele. Havia também uma filha, claro, mas não cabia ali, não era algo a ser mencionado quando despiam-se, quando David tocava com ternura o seu corpo e suas cicatrizes, sobretudo àquela que havia lhe custado tanto. Havia doçura no modo como ele o olhava, como o beijava, como tocava. Havia desejo também, parte de um desespero latente que parecia saber que aquela seria a última vez que seus corpos se permitiriam aquilo. Que poderiam uma última vez amar de modo carnal, e não apenas à distância como havia sido em todos aqueles últimos anos. Toshinori havia há muito deixado seu coração com David. Era inteiramente dele naquele aspecto, e todo o resto era inteiramente doado a manter tudo o que Nana havia conquistado com esforço e dedicação. Poderia ter tido uma vida inteiramente diferente se tivesse, no antes, ficado com David. O agora talvez não fosse de sexo sobre a mesa, das pernas dele ao redor de sua cintura enquanto as calças estavam penduradas, no caso de David, numa só perna, no caso de Toshinori, nos tornozelos. Se no antes tivesse optado por ficar ao lado dele, o agora talvez fosse mais gentil e sem pressa. O beijo do agora talvez fosse mais delicado, os gemidos seriam mais contidos, talvez. Ou esse pequeno momento no aqui e agora não teria sofrido sequer alteração, porque ainda desejariam isso, o encaixe dos corpos, o tesão, a busca em escalada do clímax.
Era mais uma última vez. Era mais um último beijo, dessa vez na sala de David ao invés do terraço onde também fora o primeiro beijo. Ainda se amavam. Toshinori nunca deixaria de amá-lo, nunca deixaria de se preocupar também com o que aconteceria a David se seu arquiinimigo o descobrisse como seu verdadeiro ponto fraco. O antes não poderia ser mudado, não naquele tempo, não sabendo o que sabe agora.
Seu coração seria sempre de David, sempre. Mas sua alma estava naquilo que Nana Shimura havia lhe ensinado, no que ela havia dado sua vida para manter. E no que, agora, ele também dava sua vida para manter.
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