Mais um verão
28 Um presente de Poseidon
PERCY (Point of View)
Quando deixei o hotel, estava muito irritado. E machucado. Sério, ouvir sua namorada dizer que você não consegue pensar em nada útil, machuca. Se bem que ela não usou essas palavras, mas foi isso que ela quis dizer. Fazia quatro dias desde que eu e Annabeth começamos a namorar. Quatro dias desde que assumi que sem ela não conseguiria mais viver. E agora brigamos. Será que é algum sinal divino, dizendo que não devemos ficar juntos? Não faço ideia.
Estava escurecendo. As luzes dos postes de iluminação começavam a acender. Atravessei a rua, e a faixa de areia da praia, indo em direção ao mar. Algumas pessoas caminhavam pela praia, outras estavam muito ocupadas tentando descobrir o que aconteceu hoje à tarde, a alguns metros dali.
Para nós, semideuses, é fácil explicar. Enfrentamos um grupo de monstros, e conseguimos destruí-los. Já para os humanos, não é tão simples assim. Como eles viram o que aconteceu hoje à tarde, eu não sei. Sei que eles não viram a verdade, por causa da névoa. A névoa ajuda, transformando a realidade em algo simples e fácil, para que os humanos entendam.
Quando estava a um metro do mar, sentei-me na areia. Fiquei olhando para a água, que refletia o brilho da lua. Lembrei-me de momentos antes de deixar o quarto do hotel, lembrei-me da discussão que tivemos.
~Flashback ON~
– Barco.
– O quê? – perguntou Annabeth.
– Que tal irmos a barco? – perguntei.
– Ah, essa é uma ótima ideia, você tem um barco em sua mochila? – perguntou Annabeth, sarcástica.
– Eu... Ainda não havia pensado nisso.
– Claro que não! – disse Annabeth, irritada.
– O que você tem, hein? – perguntei.
– Nada! Só estou pensando: na única vez que você dá uma ideia, não há como executá-la! – falou Annabeth, e eu comecei a ficar irritado.
– E precisa ficar brava comigo por causa disso? – perguntei, nessa parte já estava irritado.
– Gente... – tentou dizer Sophia.
– Espera! – dissemos eu e Annabeth, em uníssono.
– Você que pensa em tudo! Então por que não pensa em algo? – perguntei a Annabeth.
– Você poderia ajudar! – ela disse.
– Eu tento!
– Mas sempre que tenta, nunca consegue.
– ENTÃO AGORA VOCÊ VAI FICAR ME HUMILHANDO? – perguntei, levantando.
– NÃO ESTOU HUMILHANDO NINGUÉM, APENAS DIZENDO A VERDADE. – disse Annabeth, também levantando.
– ENTÃO POR QUE VOCÊ NÃO ENCONTRA UM NAMORADO MAIS INTELIGENTE? – falei bastante irritado.
A essa altura Annabeth e eu estávamos discutindo rosto a rosto, praticamente colados. Eu sei que Annabeth queria voltar logo para o Acampamento, mas eu estava tentando pensar em algo! Eu até dei uma ideia, mas notei que não daria certo. Só por que eu não estava conseguindo pensar em algo útil ela tem que ficar brava comigo? Não, é claro que não. Fui até a porta do quarto, e sai.
– PARA ONDE VOCÊ VAI, PERSEU JACKSON? – ela perguntou, gritando.
– VOCÊ NÃO É TÃO INTELIGENTE? DEVERIA SABER! – gritei.
~Flashback OFF~
Eu queria provar que dou ideias boas, e que podem ser executadas. Eu queria poder impressionar Annabeth. Eu queria encontrar um barco, para nos levar ao Acampamento, mostrando a todos que eu consigo pensar em algo útil. Então, eu vi uma luz vinda de dentro da água, levantei-me e decidi ver o que era. À medida que eu entrava no mar, eu via cenas da minha vida passando novamente por meus olhos.
Vi todas as batalhas que eu e Annabeth cravamos, até hoje.
– Depois de tudo o que passamos, ela ainda acha que sou um incompetente? – me perguntei.
Então quando percebi, já estava por inteiro debaixo d’água. Pensei em ter escutado uma resposta. Uma resposta dada por uma voz conhecida. A voz de Atena.
– Sim! Ela acha que você é um incompetente! Agora a largue, e vá viver sua vida longe da minha Annabeth, rapaz!
Espera! Talvez eu não tenha pensado que escutei essa voz, talvez eu tenha mesmo escutado! Talvez isso tudo seja armação de Atena, que nunca aprovou minha aproximação com Annabeth, e que com certeza também não aprova meu relacionamento com ela!
– Se está tentando nos separar, não vai conseguir Atena. – disse. Ouvi gargalhadas.
Parece que para os semideuses, as coisas ficam mais complicadas a cada dia. Não só pelo fato de correr perigo em qualquer lugar fora do Acampamento Meio-Sangue, mas também por estar sendo vigiado, como uma marionete dos deuses. Atena estava brincando com meu namoro com Annabeth. E eu não podia permitir isso.
– Ela não vai conseguir interferir em nada no seu namoro com Annabeth, Percy!
Ouvi outra voz em minha mente. Mas dessa vez não era Atena. Parecia... Afrodite?
– Não deixe seu relacionamento se abalar por conta de uma discussão. – disse a voz, que eu acreditava ser de Afrodite – E sobre a volta para o Acampamento, fale com Poseidon. Ele deve conseguir ajudar.
É isso! Como eu não pensei nisso antes? Eu posso tentar falar com Poseidon, para ver se ele me arranja um barco, para que nós, todos nós, consigamos voltar ao Acampamento! Tomara que Poseidon não esteja muito ocupado...
– Ahn... Poseidon? – comecei a falar, olhando para o mar. – Nós estamos em São Francisco, sabe? E queremos voltar ao Acampamento. Será que podia me emprestar um barco, depois eu devolvo, junto de várias oferendas e...
– Percy, se eu quisesse mais oferendas, não estaria falando com você agora. – disse outra voz, que eu acreditava ser de Poseidon. – Siga o litoral, à sua direita. Deve encontrar o que procura por lá.
– Obrigado, pai.
Voltei à superfície, deixando o mar, e seguindo a direção que Poseidon forneceu. Andei por vários minutos, aquela praia parecia enorme à noite. Cheguei a uma parte deserta da praia. Estava sozinho, no meio de metros de areia e na minha frente, o mar. Olhei para todos os lados, procurando por algo, algo que Poseidon havia dito que podia nos ajudar à voltar ao Acampamento. Quando vi uma enorme onda vinda do mar. Não entendi como ela se formou, já que o mar estava tranquilo há poucos segundos, mas não pude deixar de notar o quão rápido ela se aproximava. Ela invadiu a praia tão rapidamente que eu não pude pensar em ficar seco. Fiquei absolutamente envolvido por toda aquela água. Estava tão surpreso e assustado que não consegui pensar ou controlar a água. Em um vislumbre, vi o meu colar do Acampamento se soltar do meu pescoço. Estendi a mão para tentar alcançá-lo, sem sucesso. Agora eu estava girando, como se toda aquela água tivesse vontade própria, e nesse momento quisesse virar um maremoto. E então, apaguei.
Acordei com pessoas gritando meu nome.
– Oh, Percy! Que bom que está vivo! – falou uma garota, colocando as mãos sobre meu rosto.
– Graças aos deuses, Percy! Você está bem! – falou outra garota, um pouco mais distante.
Com ajuda de uma dessas pessoas, consegui sentar-me na areia, enquanto abria os olhos, e tentava focar em uma imagem.
– Percy, você está bem? Sou eu, Annabeth!
– Annabeth? – perguntei surpreso. – O que você tá fazendo aqui?
– Nós viemos te procurar depois que você deixou o hotel. Passamos a noite aqui, tentando te encontrar! Graças aos deuses, Percy! – dizia Annabeth, me abraçando e chorando.
– É verdade, Annabeth não conseguia parar de chorar nem um segundo sequer. – falou um garoto, que mesmo com a minha visão turva, reconheci quem era pela voz.
Poucos segundos depois, minha visão clareou, voltando ao normal. Vi Annabeth, seus olhos estavam bastante vermelhos. E então, ela me puxou mais para perto, e me beijou. Nos separamos por falta de ar, um pouco vermelhos por estarmos sendo observados.
– Percy! Me desculpa por tudo, por favor! Eu não devia ter dito aquilo, eu, eu... – falava Annabeth, quando eu coloquei o dedo indicador sobre seus lábios, calando-a.
– Eu quem te devo desculpas, Annabeth. Eu sou mesmo um incompetente, não consigo pensar nem fazer nada pra ajudar. – disse, olhando em seus olhos.
– Mas... E isso atrás de você? Se não foi você quem conseguiu, quem foi? – perguntou a outra garota, que eu agora reconheci que era Sophia, apontando para trás de mim.
Rapidamente me virei, e me surpreendi. Ali estava um enorme navio luxuoso, atracado na praia.
– Poseidon... – falei. – Obrigado.
– Foi Poseidon quem trouxe isso aqui? – perguntou Andrew, surpreso.
– Sim. Eu queria mostrar que também sirvo, e não sou um completo idiota, arranjando um jeito de nos levar para o Acampamento, aí pedi para meu pai um barco, e ele me deu esse navio... Eu consegui. Me perdoa, Sabidinha? – falei, olhando para os olhos cinzentos de Annabeth.
– Não há o que perdoar Percy! Eu quem peço para que me desculpe. Fui uma completa imbecil.
– A culpa não foi nossa. Eu vi! Atena não aprova nosso namoro, por isso ela fez isso tudo para nos separar. – expliquei, Annabeth agora parecia chocada.
– Minha própria mãe... – disse Annabeth, com lágrimas nos olhos.
Puxei Annabeth mais para perto de mim, e dei um longo abraço.
– Você sabe que ela sempre reprovou nossa amizade... – falei.
– Eu não quero te perder, Percy! – ela falou.
– Você não vai me perder. Eu sempre vou estar aqui, do seu lado, Sabidinha.
– Percy, Annabeth... Eu odeio estragar o momento, mas acho que temos companhia. – disse Andrew.
Todos nós olhamos para onde Andrew estava apontando. Naquela direção, um grande grupo de lestrigões vinha ao nosso encontro.
– Nossa, são muitos! – disse Sophia, admirada.
– No estado em que nos encontramos, não conseguiremos derrotá-los! – falou Annabeth, eu assenti.
– Vamos para o navio! – falei, levantando junto de Annabeth, correndo em direção ao presente que ganhei do meu pai. Tenho que me lembrar de fazer muitas oferendas a ele quando voltar ao Acampamento.
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