Mais um verão

37 Conversando com deuses e indo parar na enfermaria


PERCY (Point of View)

Depois que eu escolhi um bom escudo, cujo peso e tamanho eram ideais para Andrew, eu o entreguei. Quando ele o pegou, o escudo começou a brilhar, e eu falei para Andrew pensar em algo como um bracelete. Poucos instantes depois, o brilho havia desaparecido e Andrew segurava um bracelete de bronze-celestial com um pingente de escudo.

– Bom, agora você já tem um escudo. – falei, e Andrew parecia confuso.

Mas Andrew parecia confuso desde a hora que entramos aqui.

– Vamos, tenho que te levar à Arena. – falei e saímos do arsenal.

Andamos por alguns minutos, mas enfim chegamos. Vários outros semideuses já treinavam e jogavam esgrima, pois o som do metal batendo nas outras espadas podia ser ouvido. Entrei na Arena, e Andrew me seguiu. Os outros olhavam para nós, e abriam espaço. Eu achava isso legal às vezes... Tá bem, eu sempre achava isso legal.

Fomos até o centro da Arena onde não havia quase ninguém. Olhei para Andrew como se quisesse dizer “Vamos lá” ou “Está na hora” e tirei Contracorrente do bolso da calça. Andrew olhava para mim como se não estivesse entendendo. Cara, será que ele não é meu meio-irmão que foi confundido com um filho de Hypnos?! Eu estou começando a achar que sou mais inteligente do que esse cara...

– E então, vamos jogar esgrima ou não? – perguntei, enquanto apertei o botão da minha caneta mágica. Um segundo depois ela não era mais caneta, mas sim uma espada de bronze-celestial, minha boa e velha Contracorrente.

Andrew olhou para mim como se eu tivesse dito a coisa mais imbecil do mundo.

– Como eu vou jogar esgrima se eu só tenho uma lança? – ele disse calmamente, foi aí que eu percebi que Andrew ainda precisava aprender muito.

Mas o cara é novato... Então, ele ainda tem crédito.

Suspirei e cruzei os braços. Será mesmo que ele sempre usou aquela arma apenas como lança?

– Ah cara, você não tá falando sério né? – perguntei, pensando que ele estava brincando com a minha cara, mas pela expressão facial dele, percebi que não era brincadeira. Suspirei de novo – Deixe-me ver a sua moeda mágica.

Ele estendeu a mão e eu peguei a moeda. Andrew olhava para mim como se eu tivesse ficado louco. Balancei a cabeça negativamente e sorri. Ele arqueou uma sobrancelha.

– Você sempre a joga para cima e ela vira lança, não é? – perguntei, ainda analisando a moeda.

– Sim... – Andrew respondeu. O cara não parecia nada bem...

Escolhi um dos lados da moeda que tinha uma ilustração de uma espécie de lança e joguei-a para cima e magicamente, após um intenso brilho, ela se transformou em uma lança – como esperado. Andrew sorriu vitorioso, como se achasse que eu não conseguiria fazer aquela moeda virar uma espada. Joguei a lança para cima, para que o processo se revertesse, e ela voltasse a ser uma moeda. Quando eu tinha uma moeda novamente nas mãos, virei o lado, onde um símbolo que eu não conhecia estava ilustrado. Coloquei no centro da mão, agora com esse novo lado virado para cima, e a joguei para cima. Brilhou mais intensamente que antes. Todos nós tivemos que fechar os olhos por causa do brilho, mas quando eu abri os meus olhos novamente, não estava segurando mais uma moeda ou uma lança – mas sim uma espada.

Andrew olhava para mim como se isso não pudesse ter acontecido. Eu já mencionei que estava com medo de que ele enlouquecesse?

– C-como... V-você... – Andrew tentava formar uma frase. Sua expressão facial era confusa como antes.

– Sério que você só havia usado essa arma como uma lança? – perguntei, e ele balançou a cabeça, e mesmo tremendo, assentiu.

Estendi as mãos e entreguei a ele a sua mais nova espada de bronze-celestial. Achei melhor deixa-lo caminhar um pouco, para que pudesse compreender tudo que estava acontecendo.

– Cara, pode ir. – falei – Vai caminhar um pouco, esfriar a cabeça. Depois nós jogamos esgrima.

E assim ele fez. Deixou a Arena de Combates, sendo observado por todos que estavam ali. E eu procurei alguém com quem jogar esgrima.

*****

ANDREW (Point of View)

Você já teve aquela sensação de que tudo está acontecendo rápido demais? É assim que eu me sinto agora. Depois que vi minha moeda que só se transformava em lança se transformar em uma espada, fiquei mais confuso do que estava antes, se é que isso é possível.

Agora eu estava sentado, encostado no tronco de uma árvore, no centro de uma clareira de um denso bosque que ficava próximo do Acampamento. Não havia ninguém ali perto, então eu podia ficar em paz e tentar pensar.

– Isso não pode estar acontecendo... – murmurei baixinho – Eu não fui feito para ser um semideus.

– Não seja tolo, garoto. – ouvi uma voz grave em minha mente.

Por um momento, pensei nunca ter escutado essa voz antes, mas lembrei-me de que ela era igual àquela voz do dia em que eu e Sophia havíamos encontrado Percy e Annabeth, naquela praia de São Francisco.

– Q-quem é você?! O que quer? ­– gritei e olhei para os lados, procurando o dono daquela voz.

Como eu havia pensado, não tinha mais ninguém ali. Apenas eu, a voz e meus pensamentos.

– Seja forte. Não sinta-se fraco! – ouvi aquela voz novamente.

Seja lá quem for, essa voz estava me preocupando.

– Diga quem você é! – gritei novamente, agora olhando para o céu.

– Sou Hypnos, o deus do sono.

E aí minha ficha caiu. Meu pai, que eu sempre achei nunca ter falado comigo, estava ali, nos meus pensamentos, conversando comigo.

– O-o que você quer?! ­– gritei mais uma vez.

– Eu preciso de você daqui há algum tempo. Você não poderá participar da Grande Profecia de Perseu.

– Grande Profecia? Que Profecia!?

– Você não precisa saber disso, garoto. Pense apenas na sua missão.

– Que missão!? – agora eu estava mesmo desesperado.

– Daqui há algum tempo, tudo se esclarecerá. Até lá, seja forte. Aguente firme. Você é o único que tem capacidade para tal tarefa, por isso o reclamei. Seu poder deverá ficar guardado por certo tempo até que tudo seja esclarecido.

E aí, eu não ouvi mais nada. Meus olhos fecharam-se contra minha vontade, e eu caí.

*****

Acordei deitado em uma cama, em um lugar cheio de camas. Abri os olhos, e pude ver Sophia me observando.

– ANDREW!? – ela parecia estar chorando – GRAÇAS AOS DEUSES VOCÊ ACORDOU! O QUE ACONTECEU?

– Eu... Eu não lembro.

– VOCÊ LEMBRA DE MIM? – ela parecia estar apreensiva.

– Claro que sim, Sophia.

Em seguida ela suspirou em alívio. Será que ela estava contente por eu lembrar dela?

– Que lugar é esse? – perguntei, sentando na cama.

– É a enfermaria. – ela disse – Eu te encontrei desacordado no meio do bosque, aí chamei ajuda e Percy e os outros te trouxeram para cá. Que bom Andrew! Você está vivo!

E depois, ela deu alguns beijos na minha bochecha. Corei um pouco e percebi que ela também.

– D-desculpa, é que... – ela tentou se explicar.

– Tudo bem. – falei – Onde estão os outros?

– Ah, sim. Vou avisá-los que você já acordou. – ela disse, e saiu daquele lugar, que ela havia dito ser a enfermaria.

Menos de um minuto depois ela voltou acompanhada por Quíron, Percy, Grover e Annabeth. Quíron olhava para mim com preocupação, assim como os outros.

– Sophia nos contou que você não lembra de nada... – disse Quíron, e eu assenti.

– Eu estava sentado... Ouvi coisas... Caí... E agora estou aqui. – falei. Annabeth tinha uma mão no queixo, como se estivesse tentando ligar uma coisa à outra – Quanto tempo eu estou desacordado?

– Apenas algumas horas. – disse Annabeth – São uma e meia.

Então eu havia perdido o almoço. Isso não é muito legal.

– Temos uma sopa especial para você. – disse Quíron. Agora ele usava uma cadeira de rodas, e não me pergunte como as pernas de cavalo dele entravam ali dentro. Eu estava tão atordoado que nem pensei em perguntar isso. Ele andou até uma prateleira e pegou uma tigela, onde havia uma colher, mas a tigela parecia estar vazia.

– Mas essa tigela está vazia. – falei. Ele olhou para mim e sorriu. Em seguida murmurou algo, e a tigela encheu-se de um líquido marrom.

– Mas antes, você precisará de um pouco de ambrosia e néctar. Sophia, poderia pegar um pouco e dar à Andrew?

– Ah, claro que sim Quíron. – respondeu Sophia, que estava mais aliviada que antes.

Ela foi até outra prateleira e pegou um pote e um copo. Estes tinham algo dentro. Ela veio até mim, e mandou eu tirar um pedaço daquela coisa amarela e pegar o copo. Assim o fiz. Em seguida, Quíron mandou que eu comesse aquela coisa amarela. Comi o pequeno pedaço, e em seguida tomei um gole do líquido que havia dentro do copo. Tinha gosto de torta de maça, igual à que minha vó fazia quando eu era mais novo. Mas como aquilo podia ter gosto da torta de maça da minha vó, se aquilo parecia um suco comum? Quíron riu, aparentando saber o que eu estava pensando.

– Vamos deixar vocês dois conversando. – falou Quíron – Nos vemos mais tarde, Andrew.

E logo todos saíram dali, apenas Sophia ficou. Ficamos conversando por algum tempo, enquanto ela me dava colheradas daquilo que estava dentro da tigela. Até que tinha um gosto bom.

– O que é isso? – perguntei, depois de engolir mais uma colherada.

– Sopa de cogumelos. – Sophia respondeu, sorrindo.

Tossi, tentando colocar aquilo para fora.

– Algum problema? – ela logo alertou-se – Você é alérgico?!

– Não, eu só não gosto de cogumelos.

Então ela sorriu aquele lindo sorriso que sempre me deixava feliz.

– Obrigado. – agradeci, após mais uma colherada daquilo. Até que não estava tão ruim.

– Pelo quê? – Sophia pareceu não entender.

– Por me ajudar. – falei, e ela sorriu novamente aquele sorriso.

– Você faria a mesma coisa por mim. – ela disse, ainda sorrindo.

Assenti, e passamos o restante da tarde conversando.