Mais um romance adolescente

1 Capítulo 1: O francês de São Paulo


CAPÍTULO 1: O FRANCÊS DE SÃO PAULO

Fiz uma amiga recentemente que tem opiniões muito parecidas com as minhas quanto a relacionamentos, mas ela ganha de mim em um aspecto. Ela tem iniciativa. E conversando sobre nossos crushs passados ela incentivou meu plano mirabolante para forçar um encontro com esse rapaz: Kevin.

Há 1 ano, em fevereiro, fui para Paris visitar minha amiga Aline que está fazendo intercâmbio por lá. Óbvio que as passagens estavam mais baratas na época de carnaval, então como o bom pobre que sou sacrifiquei todo o suor e glitter envolvidos para fazer essa viagem clássica e romântica. Quero que saibam que eu NUNCA pensei em ir para França, mas oportunidades não se desperdiçam. Era econômico ficar no dormitório e bem, ia estar viajando com minha amiga!!! Grande decepção.

Eis o problema: eu estava com alguém na época. Eduardo. Não, não era um namorado, mas eu gostava do sujeito. Antes da viagem fiquei um mês pensando em como compartilhar com ele que eu não gostaria de me sentir comprometida e que se me interessasse por alguém gostaria de aproveitar. Após muita reflexão percebi que dificilmente seria confrontada com uma situação desse tipo e que poderia magoá-lo ao premeditar esse tipo de situação. Decidi que essa conversa não era necessária e que seria desagradável ter que lidar com um possível rompimento antes da viagem.

Como que para pagar minha língua, horas após minha chegada descubro que minha amiga pretende ir em uma boate com seus amigos brasileiros que conheceu na universidade francesa. Super empolgada para conhecer novas pessoas, animo ir junto e no começo da noite chegamos na casa do crush dela para um esquenta.

Por ter acabado de chegar naquele país e não ter confiança naquele grupo de pessoas, decidi beber o mínimo possível para me sentir e estar segura, o que também significa que minha timidez prevaleceu e conforme mais pessoas chegavam, mais tímida eu me tornava. Não sei se vocês tem noção de quão pequeno é um apartamento universitário, mas é do tamanho de um cômodo em uma casa normal. Quando já haviam umas 10 pessoas ali não era possível acompanhar nenhuma conversa com clareza e por algum motivo vim a entender que dois dos meninos eram gays, sendo um deles o Kevin. Irrelevante, certo?

Não! Após um tempo dançando sobraram poucas pessoas e, evitando cruzar olhares com o crush da minha amiga, fui me aproximando de Kevin. Em determinado ponto estávamos dançando juntos de forma provocante, mas inocente já que não achei que ele estivesse atraído por mim. Como tocava funk e reggaeton, estava dançando de costas para ele e quando me virei fui beijada. Um beijo normal, melhor que muitos, pior do que alguns. Tomada por uma coragem dessas que vem sem explicação dei-lhe dicas de como beijar para me agradar: um pouco mais de língua, mas cuidado com movimentos repetitivos. E para minha surpresa, ao invés de ofendê-lo e espantá-lo, ele aceitou. Nesse ponto eu já estava totalmente envolvida.

Começou então a tour de como voltar para casa. Restamos eu, Kevin, Aline e seu crush, Gustavo. Ela morava a 3 ônibus dali, o metrô já estava fechado e era de madrugada (2 da manhã?). Por sorte ela também havia ganhado seus beijos e não me lembro como foi decidido, mas fomos todos juntos para o prédio em que os dois meninos moravam. Conversei um pouco com ele enquanto aguardávamos o ônibus, papo sério, porque infelizmente eu sou séria. Qual seu curso, como você veio pra cá, o que faz no estágio? E pra mim foi interessante, nem sabia que havia o curso de Engenharia Física.

O mais surpreendente é o quão carinhoso ele foi e o quão confortável eu fiquei com seu toque. Contato físico é uma limitação minha e na maior parte das vezes me causa repulsa. É algo que eu deveria levar pra terapia e tentar resolver, eu sei. Foram pequenos gestos que não invadiram meu espaço pessoal e nem interferiram no meu conforto, como fazer uma massagem no pé enquanto conversávamos.

É engraçado como gestos banais podem carregar pesos tão diferentes para duas pessoas. Imagino que para ele foi um contato natural e que por isso ele nem deve ter criado memórias dessa cena, mas foi um momento tão gostoso pra mim que estou aqui contando pra vocês. Depois disso fomos dormir e eu tentei ignorar minha fome abissal já que ninguém falou a respeito e eu era a visita da visita.

Vejo muita gente que se sente enganada por dar mais valor a uma situação do que a outra pessoa, mas acho que pessoas têm diferentes formas e intensidades diferentes de demonstrar carinho. Então penso que a pessoa estava agindo de acordo com o que ela sentia e isso é honesto. Para não se confundir, reparar em como essa pessoa interage com outros colegas e amigos ajuda, pois você pode perceber o quão importante e frequente para ela é aquela demonstração de afeto que ocorreu entre vocês.

Também não sei bem como ficou decidido que dormiríamos em casais ao invés de divididos por sexo, mas lá fui eu para o apartamento de Kevin. Com aquela intimidade recém adquirida deitamos na mesma cama. De solteiro. Dormi deitada em seu peito e me lembro vagamente de termos conversado sobre afeto. Ele me pediu que avisasse se fosse grudento por estarmos abraçadinhos para dormir e ao acordar lembro de ficar chocada por ele também me considerar carinhosa. Ou grudenta? Tenho que admitir que quando estou à vontade gosto de explorar o corpo da pessoa e enquanto conversávamos passava a mão por sua pele macia.

Tenho que admitir que adoro provocar pessoas, gosto de ver a excitação nos olhos de quem desejo. Não demorou muito para que eu percebesse que meu carinho trazia também reflexos de excitação e que leves passadas de mão em seu abdômen lhe arrepiava. Seu corpo que tinha estado quente a noite inteira agora fervia. Tesão. Eu o queria e ele me queria, mas minha mente estava a mil pensando se estava pronta para lidar com uma possível acusação de traição. Alterada como estava achei que não era um bom momento para tomar essa decisão e afastei suas tentativas de me masturbar. Ainda tinha duas semanas inteiras para vê-lo.

Eventualmente saímos da cama e ele conseguiu me impressionar ainda mais. Descobrimos um gosto em comum no rap, me apresentou alguns clássicos, me contou que tocava piano e pretendia tocar o violão para mim. Quando Aline e Gustavo vieram para almoçarmos todos juntos conversamos sobre sagas de livros famosas como Harry Potter e Game of Thrones e ainda sobre os livros de filosofia que tentava ler em francês. Conversar com alguém que entende suas referências ou se interessa por elas é impagável.

Eu tinha ainda a expectativa que ficássemos a sós a tarde, mas outra colega do prédio apareceu e fomos embora.

Tentei parar de pensar nele, mas para minha humilhação a viagem já tinha sido completamente influenciada por esse evento. Precisando de um reforço para seguir minha viagem sozinha acabei mandando uma mensagem um dia ou dois depois. Hoje vejo que foi uma abordagem um tanto quanto agressiva e tentaria criar com ele uma relação antes de colocar esse assunto em pauta, porque é uma pessoa pela qual realmente me interesso e ficaria feliz de ter desenvolvido uma amizade.

“Então, como vou ficar mais duas semanas aqui queria saber se foi uma one night thing ou se você tem interesse em se encontrar de novo.” Acredito que mandei algo assim. Ser direta é importante amigos, mas também é preciso humanizar o outro e é possível aumentar o interesse através do contato. Não repitam o meu erro. Me arrependo porque tinha medo de que ele não tivesse interesse nem na minha amizade, mas ao menos já teria essa resposta. O retorno que ele me deu foi uma lista dos compromissos nesse período que o deixariam sem tempo.

E assim nossa relação foi encerrada na França. Infelizmente não consegui esquecer o bendito garoto e agora entramos na etapa de reconquista.

Notas finais
No próximo capítulo vamos falar mais sobre o plano infalível para reencontrar Kevin.