Notas iniciais
Esse é um capítulo que talvez faça algumas pessoas chorarem. Vejo vocês nas notas finais!

CAPÍTULO 16

—... sem o respirar.

Saga estava sentado no tapete do consultório, com Lizzie. Os dois brincavam de montar. A loirinha estava concentrada em sua torre, enquanto Saga terminava o forte.

—Tio Saga. – A menina chamou, deixando as peças de lado e direcionando o olhar para Saga. – O que é um papai?

O psicólogo foi tomado de surpresa com a pergunta, mas sorriu para a pequena.

—Hm... um papai é? Um papai é um menino adulto que cuida de um bebê, dá muito amor e carinho. Que protege e faz sorrir. É igual a uma mamãe, mas, ao invés de ser uma menina adulta é um menino, entende?

—Mais ou menos... O tio Mu é o papai do Kiki. O Kiki ama muito ele e o tio Mu também ama muito o Kiki, ai o Kiki chama ele de papai. Eu amo muito a mamãe e a mamãe também amava eu muito. O Kiki só tem o papai dele e a Lizzie só tinha a mamãe dela.

—Entendo, mas por que me perguntou isso agora, pequena? – O médico indagou, buscando entender o raciocínio da pequena.

— É pur que a Lizzie num tem um papai, então queria saber como é.

—Ah é? Não tem ninguém que cuide de você e que te ame como sua mamãe te amava? – Saga perguntou. Ele sabia que aquilo poderia não ser o certo, mas ele sabia também, pela evolução da menina, o quanto ela amava Afrodite e Camus e o quanto aquele amor era recíproco. Lizzie não precisou de tempo para responder.

—O Flô e o Cami! – Disse, cheia de entusiasmo. —A Lizzie ama muito eles! O Flô gosta de pentiar o cabelo da Lizzie e vestir com um monte de roupa bonita! Ele ficou no hospital com a Lizzie e foi muito bonzinho. O Cami sabe faze umas comidinhas gostosas e tem um abraço apertado e quentinho! A Lizzie gosta muito deles e qué ficá sempre pertinho.

Lizzie tinha um sorriso genuíno no rosto. Saga estava totalmente satisfeito, seus relatórios vinham sendo os mais favoráveis o possível para que Camus e Afrodite pudessem adotar a menina, pois era perceptível como formavam uma bela família. Olhou para Afrodite, que estava próximo a porta, em uma conversa ao celular praticamente desde o momento em que havia chegado lá. Era melhor assim, pelo menos seria uma boa surpresa ver como reagiria.

Ouviu batidas na porta e tratou de levantar, levando Lizzie pela mão, que soltou-o assim que se aproximaram de Afrodite. A menina agarrou as pernas do estilista, enquanto Saga abria a porta, sendo apenas o tempo de Camus por metade do corpo para dentro.

—Flô, você quer ser meu papai? – Ela perguntou, olhando nos olhos de Afrodite.

O loiro ficou sem reação, sua boca se abriu, mas o som não saía. Deixou a mão cair, ignorando o telefone e abaixando-se, para poder olhar a menina de perto. Seus olhos estavam marejados. Camus não se moveu até que Lizzie virou-se para ele e estendeu a mão.

—O Cami também! Tudo bem a Lizzie ter dois papais, né tio Saga? – A pequena indagou, recebendo uma resposta positiva do psicólogo. Camus pegou a mão da menina e se colocou ao lado de Afrodite, que já deixava algumas lágrimas percorrerem seu rosto, então os dois a abraçaram.

—É claro que pode, minha florzinha! Seremos os melhores papais do mundo pra você, tá? – Afrodite respondeu, tentando limpar o rosto. Um enorme sorriso se formou em seu rosto. Camus nada disse, apenas beijou a bochecha da menina e pegou-a nos braços.

—--x---

—Não acha precipitado isso? – Camus indagou, assim que ficou a sós com o psicólogo. – Ainda não temos certeza se vamos conseguir a guarda definitiva dela, Doutor.

—É como ela se sente, Sr. Legrand. Não podemos reprimir o sentimento de uma criança, ainda mais uma que passou pelo trauma que ela passou. – Retrucou, tentando ser plausível. – Este ainda é o quarto mês de tratamento e a evolução dela é está sendo a mais favorável em comparação a todos os outros pacientes que tenho com o mesmo tempo de tratamento. É claro que cada um reage a terapia de formas diferentes. Mas a afeição que ela sente por vocês com certeza é o maior combustível para isso. E isso não é de ontem ou de hoje. Desde o momento em que pisou nesse consultório ela já demonstrava um amor muito grande por vocês. Especialmente pelo Afrodite. Assim como vocês dois já a amavam da mesma forma, não acha?

O ruivo não negou. Sabia que o que sentia por Lizzie não era algo passageiro. Não conseguia mais se ver sem a presença da pequena em sua casa, junto dele e de Afrodite. Sabia que se ela não pudesse mais estar com eles em algum momento, os sorrisos de Afrodite não seriam mais tão radiantes, pois o loiro teria perdido um pedaço de si. Assim como Camus também perderia.

Saga sorriu, percebendo que havia convencido o investigador. Sabia que Camus estava feliz, assim como sabia de suas preocupações, mas o ruivo precisava relaxar. Confiar mais no seu coração, ao invés da cabeça, algumas vezes.

—--x---

Apesar do cansaço e do sono, eu não conseguia dormir. Afrodite estava exausto, saturado pela alta demanda de trabalho após o evento da revista. Não havia passado um dia sem ir ao ateliê e, quando retornava para casa, mal comia e logo apagava na cama. Lizzie dormia agarrada ao loiro, enquanto eu estava ali, insone. A ultima mensagem do Escorpião deixava-me intrigado e fazia minha cabeça fervilhar. De alguma forma, ele havia conseguido enviar mensagens de texto para o todo o efetivo policial da Gerdermarie. “Você devia procurar em outros lugares, investigador. A Suécia tinha um belo jardim... pena que foi completamente deflorado.”

Já havíamos entrado em contado com o Serviço de Polícia da Suécia, a Polisen, para que colaborassem com a nossa investigação. Mas, o que mais me deixava inquieto era justamente o fato de ser a Suécia, terra natal de Afrodite. Além de buscar vítimas com as mesmas características de meu marido, ainda tinha uma possível ligação com seu país de origem. Uma ânsia me consumia só de imaginar que aquele maldito pudesse se aproximar de Afrodite. Eu precisava captura-lo o mais rápido possível e acabar de vez com toda essa angústia.

Deixei o tempo passar, conseguindo apenas alguns cochilos rápidos em meio à madrugada e logo que o dia amanheceu me pus de pé. Deparei-me com Afrodite acordado assim que saí do banho. Sentei-me ao seu lado, deixando-o ajeitar meu cabelo em um rabo de cavalo no alto da cabeça.

—Bom dia, meu anjo. Têm acordado mais cedo ultimamente. – Falei, após ganhar um beijo rápido do loiro.

—É... Estou tentando ir mais cedo ao ateliê para chegar cedo em casa, mas está difícil. Muita coisa pra fazer. – Ele respondeu, levantando-se, indo até o armário para escolher a roupa que vestiria.

—Sei exatamente como é. – Respondi, acariciando o rostinho sereno de Lizzie, que ainda dormia. — Eu vou deixar o seu café e o da Lizzie pronto, está bem?

—Sim, obrigado.

Recolhi minha farda e me encaminhei à cozinha para preparar o café. Em pouco tempo despedi-me de Afrodite e Lizzie e sai de casa.

—--x---

Olhava fixamente para as duas fichas abertas sobre minha mesa. Os depoimentos das duas vítimas que havíamos conseguido resgatar com vida estavam por cima. Eram palavras difíceis de serem ditas, cenas gravadas de forma vívida na mente de cada uma delas, mas quase intransponíveis para o papel, regadas a lágrimas, soluços e olhares de sofrimento.

—Senhor Camus, recebemos os documentos da Rikskriminalpolisen. Foram entregues diretamente ao Senhor Dohko e ele o aguarda em sua sala. – Um dos assistentes de Dohko veio me avisar.

—Certo, obrigado. – Agradeci, levantando-me de minha mesa e recolhendo as fichas, para então seguir ao encontro do Superintendente. Bati na porta de sua sala, anunciando-me e recebendo a permissão para entrar.

—Acabei de receber as fichas enviadas pelo serviço de investigação da Suécia. Quero que você me ajude a disseca-las. – Falou, entregando-me alguns dos envelopes. – O país tem um sistema rígido de segurança, porém, o número de registros de estupro é alto. Pedi apenas por aqueles que se enquadram no padrão e que estão dentro do período que você sugeriu. – Explicou. Seguindo a lógica de mensagens enviadas pelo nosso colaborador misterioso de codinome Escorpião, havia sugerido a Dohko que pedisse pelos casos ocorridos na data de dez anos atrás.

—Certo. Talvez não encontremos nada, mas não podemos deixar essa informação passar batida. – Falei. Ainda não sabíamos se o Escorpião ela cumplice de Máscara da Morte e estava jogando conosco, ou se pretendia realmente nos ajudar.

—A maioria das fichas está classificada como informação altamente sigilosa e não posso deixar a equipe inteira manusear esses papeis, apenas você e Aiolos estão autorizados. Irão trabalhar em minha sala, analisando ficha por ficha para que mais ninguém tenha acesso a elas. Vamos reunir o máximo de informação e pegar esse filho da puta que está bagunçando nosso país. – Falou convicto.

Em menos de quinze minutos já estava acomodado em sua sala, com as fichas empilhadas em uma mesa próxima ao arquivo que era mantido ali e logo Aiolos chegou para dividir a tarefa comigo. Ele era o braço direito de Dohko e o segundo em comando no departamento, sendo de total confiança do superintendente.

O tempo passou rápido. Cada informação relevante, cada detalhe que se sobressaltava era anotado, lemos e relemos varias vezes as mesmas fichas. Até que peguei uma das classificadas como altamente sigilosas. O nome e o rosto da vítima estavam censurados para protege-la, assim como os dados de seus pais e de onde morava. Trazia apenas a descrição física e outros dados como tipo sanguíneo e data de nascimento. Era um rapaz, menor de idade na época, na faixa dos quinze anos. Possuía olhos azuis, pele branca e cabelos loiros, longos e cacheados. Respirei fundo. Era difícil não pensar em Afrodite ao ver tantas imagens de pessoas com as mesmas características. Aquilo mexia comigo e eu precisava mentalizar a cada nova ficha, dizer para mim mesmo que meu marido não era nenhuma daquelas vítimas.

O relatório se iniciava com algo que era comum em muitos dos casos: A vítima havia sido seduzida pelo agressor. Um funcionário do colégio onde o rapaz estudava.

03 de Outubro de 2006.

A Polisen foi chamada para resolver um caso de estupro ocorrido na escola XXXXXXXXXXXX, às 11h43min. A vítima foi encontrada por um colega de classe dentro do almoxarifado, inconsciente. Segundo depoimentos, o garoto estava nu, vendado, amarrado e amordaçado, com marcas e hematomas por várias partes do corpo, além de cortes e arranhões. Após exames, foram encontrados no corpo da vítima: sêmen, fragmentos de vidro e cera de vela, na parte interna do ânus, agulhas na língua, nas mãos e nos pés, fragmentos de couro, fio de nylon e madeira em áreas do corpo próximo as marcas. Restos de cola na região dos pulsos e tornozelo, onde ele havia sido amarrado. Suco de limão e vinagre também foram encontrados nas áreas onde havia cortes e arranhões. A vítima ficou 16 horas inconsciente e dose dias em estado de choque, alimentando-se de líquidos e soro.

Havia sido uma tortura física e mental extremamente violenta e brutal. Eu não conseguia imaginar como alguém se levantaria após ter o corpo e o espírito destruídos de tal forma. Eu desejava que ninguém tivesse que passar por algo como aquilo, queria poder proteger cada uma dessas pessoas, para que não sofressem tal agressão. Mas era em momentos assim que percebia o quão raso era o meu alcance. Em minha própria cidade, meu próprio país, pessoas sofriam aquela violência toda e eu não conseguia protegê-las. Não conseguia, sequer, prender o desgraçado que causava tanto sofrimento.

Respirei fundo antes de passar para a página seguinte. Mas o que encontrei fez meu estômago congelar e senti como se o meu sangue tivesse parado de circular. Apesar da censura na foto, consegui reconhecer aquele uniforme característico. Era o mesmo uniforme do colégio onde Afrodite estudava antes de ir para a França. Na mesma página, estava a foto do rosto do criminoso. Por um instante eu não queria acreditar. Mas era ele, apesar da cor de cabelo e o formato do nariz estarem diferentes, com certeza era ele. Carlo Benetti, ali com o nome de Matteo Ranchezzi. Segurei o ímpeto de anunciar que havia encontrado a informação que buscávamos. Precisava continuar. Precisava ver o restante das fotos, ler todo o relatório, todos os depoimentos. Tinha a necessidade de ter certeza de que era apenas uma coincidência a vítima daquele desgraçado ter estudado na mesma escola em que meu marido estudou, ter a mesma aparência que ele tinha e a mesma idade na época. Mas, apenas uma foto foi o suficiente para despedaçar minha esperança. Uma foto de corpo inteiro nu, tirada por um aluno não identificado, na situação descrita na ficha. A mesma foto, reproduzida mais duas vezes, com aproximação da área inferior e superior do corpo. E junto com essa foto, a marca de nascença que Afrodite carregava na lateral direita do corpo, nas costelas próximo ao mamilo.

Senti minha respiração arder e meus olhos ficarem turvos. O sangue corria gelado em minhas veias e uma estranha falta de ar acometeu-me. Eu não podia imaginar... não queria acreditar... como iria encarar Afrodite depois disso?!

—Camus? Camus?! Você está bem? – Ouvi a voz de Aiolos tentar me trazer de volta a realidade. Olhei para ele, sem realmente enxergá-lo. – Você ficou branco de repente, está tudo bem?

—S-sim. – Respondi, tentando disfarçar meu mal-estar e recuperar o fôlego. – Só preciso... respirar um ar fresco.

Levantei-me, pegando apenas a chave do meu carro. Eu precisava sair dali, ou não iria aguentar.

Notas finais
Olá! Dessa vez o capítulo veio rapidinho né?! Pois é, um misto de felicidade de tristeza não é? Sei que muitos de vocês não imaginavam que seria dessa forma que Camus iria descobrir tudo, maaaas... eu não podia fazer o Afrodite dizer tudo pelo o qual passou, seria um peso enorme de mais pra ele. A partir daqui, o rumo da fanfic já está tomado e possivelmente se encerrará no capítulo 20. O capítulo 17 já está finalizado e será postado dentro de 10 dias. Não esqueçam de deixar aquele comentário lindo me dizendo o que estão achando, okay?! Isso ajuda muito no crescimento da história ^^ BEIJOS! L.W.