Mais cinco minutos, talvez?
30 capítulo 30- Erik
Notas iniciais
—Mas... Como é que é? — Foi o que eu consegui dizer depois de algum tempo digerindo toda aquela enxurrada de informações.
Diego apenas deu de ombros como se isso não fosse grande coisa. E eu nem saberia dizer se ele estava de fato errado por agir assim. Afinal, depois de tudo, acho que eu também já deveria estar acostumado com esse tipo de situação aleatória vinda do nada.
— Bom, você sabe, acho que não dava pra sair dessa situação toda sem nenhum efeito colateral. — Foi o que ele disse sem olhar nos meus olhos. — Bem bosta, eu sei, mas podia ser pior, então...
A expressão de Diego deixava claro que era como se ele estivesse ocultando mais alguma coisa. Mas, infelizmente, naquele momento eu estava chocado demais com a primeira parte da informação para poder perceber.
— E o efeito colateral tinha que ser justamente isso?
Bem, ainda era constrangedor. Eu não havia estado nada bem nos últimos dias e saber que mais uma vez Diego estava exposto a isso, ainda conseguia ser desconfortável.
— Acredite, amigo, eu também não fiquei nada satisfeito quando descobri que alguém conectou o bluetooth da sua mente em mim. — Ele me deu um sorriso um pouco duro. — Pensa o seguinte: Se você surta... O que acha que acontece comigo?
Preferi não pensar sobre isso.
E nem precisei, já que antes que eu pudesse responder qualquer coisa, Diego já estava emendando a frase:
— Mas por outro lado, foi muito adorável descobrir que você gostava tanto assim de mim. Quer dizer, sempre achei que você me odiava por causa de tudo que aconteceu! Isso foi surpreendentemente positivo. Uma gracinha da sua parte!
Pude sentir todo o sangue subindo para o meu rosto novamente naquele momento. Claro, Diego não poderia deixar esse tipo de oportunidade constrangedora passar. Não mesmo.
Não era como se alguma coisa nessa situação toda tivesse alguma graça, mas Diego estava rindo como uma criança feliz e eu podia jurar que se eu pudesse, veria o ego dele se inflando como um enorme balão e chegando ao céu.
— Não é essa a questão. Qualquer pessoa ficaria chocada depois de passar pelo que eu passei. E, por falar nisso, por que sumiu? — Voltei a questionar. — Eu fui até sua casa e os vizinhos me falaram que você morreu! Como você acha que eu poderia ficar?
O rosto de Diego se transformou em uma careta de desgosto.
— Meus vizinhos te falaram isso? E você simplesmente comprou a ideia? — Ele revirou os olhos como se eu fosse idiota. — Erik, se ao invés disso, você tivesse perguntado como eu me parecia, tenho certeza que eles iam te dizer que eu era verde com bolinhas roxas. Não dá pra acreditar nesse povo, entende?
— Mas você desapareceu! — Repeti. — Eu não tive noticias suas por tanto tempo e... Então você se mudou e... Simplesmente sumiu!
— Meu Deus, eu não sumi! — Ele rebateu de forma irritada. — Meu pai e meu irmão se mudaram, sim. Mas eu nunca nem sai da droga do hospital, Erik. Sofri um acidente, lembra? Não tirei férias no caribe e nem me mudei para as Maldivas. Se você fosse um tiquinho menos surtado e lógico, teria ido me procurar no hospital!
Bem, de fato agora eu realmente estava me sentindo bem estupido.
Então olhei para os meus pés para que Diego não notasse a expressão sombria do meu rosto.
— Não queria confirmar... — Foi o que eu disse em voz baixa. — Ouvir uma vez foi assustador o suficiente. Se fosse ao hospital e ouvisse isso de novo, eu...
Balancei minha cabeça só em pensar nisso.
Então levantei meu olhar novamente:
— Por que sua família se mudou? Por que.... — Eu queria perguntar porque Caleb nunca me visitou no hospital durante todos aqueles meses, mas me senti idiota antes mesmo de abrir a boca. Afinal, que responsabilidade Caleb tinha comigo para que eu cobrasse algo assim?
Quando essa pergunta foi feita, Diego pareceu congelar por uns segundos.
Ele me deu um meio sorriso antes de responder e então suspirou.
— Na verdade, nós sempre pensamos em mudar. Só que...— Ele hesitou. — Meu pai sempre achou que um dia a minha mãe voltaria. E se nós tivéssemos nos mudado ela daria com a cara no portão, igual aconteceu com você. Então ficamos lá todos esses anos por pura conveniência. Agora, ela voltou, e resolvemos nos mudar. É isso. Fim.
Quanto mais tempo eu passava ali conversando com Diego, mais certeza eu tinha de que os últimos meses não haviam sido nada simples para ele, apesar de ele tentar fazer parecer o contrário. Diego tinha uma aura brilhante. Não precisava ser nenhum médium ou ter poder divino para conseguir ver isso. Além disso, ele conseguia ser a pessoa mais resiliente que eu já havia conhecido em toda a minha vida. Então se havia chegado ao ponto de eu poder ver nitidamente o quanto ele estava de fato... cansado, mostrava o quanto tinha sido duro pra ele.
— Não sabia que sua mãe tinha voltado... — Comentei. Eu ainda me lembrava de quando conversei com Caleb sobre isso, e de como ele parecia machucado. Passei tanto tempo lidando com meus próprios fantasmas que acho que esqueci que aquele par de irmãos também tinha seus próprios demônios para enfrentar. — E como... — Pigarrei tentando fazer meu tom de voz sair mais casual e não tão desesperado ou curioso demais. — Como Caleb está?
Uma sobrancelha de Diego subiu naquele momento, me dando todas as pistas que minha ideia inicial de parecer tranquilo não tinha dado muito certo. E de repente eu me dei conta de que estar frente a frente com um Diego que possuía todas emoções escritas na testa, era ainda mais constrangedor.
— Ele está um porre! — Ele respondeu mesmo assim, com um tom seco. — Ta certo que ele não é o capitão simpatia, mas ele ta chato pra caralho ultimamente. Nossa mãe está se casando novamente e ele age como se isso fosse causar a devastação da humanidade!
— Sua mãe está se casando?
Diego de repente pareceu surpreso e me encarou.
— Oh, é mesmo! Você não chegou a saber, certo? Foi na mesma época que toda aquela bagunça chegou ao auge...— Ele apertou os lábios por um momento.— Ela está se casando com o pai de Isaac.
Não consegui esconder o choque no meu rosto. Para ser preciso, não consigo nem encontrar o ponto que mais me choca em tudo isso. A mãe de Diego ter voltado? Ela estar se casando com o pai de Isaac? Isaac, Diego e Caleb na mesma família?
— Isso...— Comecei, mas Diego foi mais rápido em terminar a frase:
— Não faz sentido, não é? — Ele jogou a cabeça para trás e riu sem muito humor. — Acho que algumas coisas nessa vida não acontecem para que a gente encontre sentido. Elas só... acontecem.
A razão por trás dessa frase não estalou nenhum significado a mais em minha mente, mas a expressão séria de Diego acabou por chamar minha atenção.
Porque ele estava olhando diretamente para mim, como se pudesse ver através das minhas roupas ou algo assim.
— O... O quê?— Não consegui conter o nervosismo ao ser encarado assim, do nada. — Tem mais alguma revelação bombástica pra me fazer?
Diego desviou o olhar e pareceu pensar se deveria continuar a falar ou não. E por um minuto realmente pensei que de fato ele iria me revelar mais alguma coisa estapafúrdia.
Mas, em vez disso, ele me perguntou algo que foi muito além do que eu imaginava:
— Erik, você... — Ele hesitou por um momento.— Você acredita em almas gêmeas?
Franzi o cenho ao ouvir isso.
Diego não me parecia do tipo romântico ou piegas o suficiente para falar sobre isso. E ao mesmo tempo, eu não conseguia acreditar o suficiente que aquilo era referido ao casamento de sua mãe com o pai de Isaac. Então...
—O que quer dizer? — Perguntei.— Por acaso acha que sua mãe e o pai de Isaac são... Alma gêmeas?
Não consegui conter o tom de estranheza na minha voz ao dizer isso em voz alta.
Os olhos de Diego se arregalaram e fez uma cara de nojo.
— Quê? Obvio que não! — Ele respondeu com asco.
— Então de onde veio isso?
— Eu só estava pensando. — Ele deu de ombros.— Eu costumava pensar que esse tipo de coisa é uma extrema estupidez, mas comecei a achar que talvez realmente exista algo como isso.
— Uma alma gêmea? — Repeti um pouco transtornado.— Honestamente, nunca pensei sobre esse tópico. Além disso, sempre vi esse tipo de coisa como um tipo de filosofia barata para vender romances.
—Não precisa ser necessariamente sobre romance. É mais sobre ter uma conexão profunda demais com alguém.— Diego disse, enquanto encarava as costas de sua mão.
Olhei para onde ele estava olhando, prestando mais atenção dessa vez a uma das muitas tatuagens que ele possuía. Havia um símbolo comum de “yin-yang” tatuado ali.
Assim como Diego, fiquei encarando o símbolo preto e branco por um tempo. E me dei conta de que, de fato, havia apenas uma pessoa nesse mundo que eu poderia dizer que existia esse tipo de conexão quase que complementar.
— Esse... Papo estranho tem alguma coisa a ver com o fato de ainda estarmos ligados? — Perguntei. — Sabe, com essa coisa de você ainda poder sentir o mesmo que eu e tudo mais?
Diego levantou a cabeça para mim e eu pude ver um toque de surpresa passar rapidamente pelos seus olhos.
Ele abriu um sorriso para mim.
— O que você está pensando?
— O que eu estou pensando? — Também ri de volta, com essa ideia toda.— Não sei! Você quer dizer que somos almas gêmeas ou algo assim?
Não sei se deveria me arriscar em fazer esse tipo de piada. Mas de fato não sabia mais o que pensar. Não conseguia pensar em outro motivo para estarmos naquele assunto.
E, para minha surpresa, Diego não considerou como uma piada.
Ele apenas assentiu para mim e disse:
— Talvez.
Mesmo quando fui para casa mais tarde naquele dia, eu ainda estava pensando sobre essa conversa estranha.
Na verdade, tudo aquele dia tinha sido estranho.
Diego estava vivo. Isso era a parte mais importante. Por outro lado, eu não sabia como organizar meu pensamentos sobre todo o resto.
Talvez tenha sido por isso que, naquela noite, quando eu, meu pai e Felícia estávamos sentados á mesa para jantar — Uma das muitas sugestões da minha terapeuta de tentar transformar minha família em algo funcional— eu tenha resolvido puxar um tópico de conversa.
— Pai, Felícia... O que vocês pensam sobre almas gêmeas?
Assim que minha voz saiu, Felícia congelou instantaneamente com um pedaço de frango ainda preso em seu garfo a caminho da boca, enquanto meu pai engasgava com um gole de água.
Depois de pigarrear algumas vezes e ter conseguido recuperar a respiração, meu pai foi o primeiro a falar:
— Você... Conheceu alguém que chamou sua atenção, Erik? — Foi o que ele perguntou, no entanto.
—Não, não é isso. — Respondi.— Apenas... Quero dizer, queria saber se vocês acreditam que possamos ter uma conexão tão forte com alguém a ponto de achar que essa pessoa realmente precisa fazer parte de sua vida ou sei lá...
— Bem, por que não?— Para minha surpresa, foi Felícia quem respondeu.— Algumas pessoas pensam nisso apenas como um mito, mas acho que não há nada de errado em querer alguém ao nosso lado e que nos faça querer ser uma melhor versão de nós mesmos. Se você acha que encontrou alguém assim, fico feliz por você, Erik.
Confesso que fiquei surpreso com a fala de Felícia. Primeiro porque acho que essa havia sido a primeira conversa mais longa em família que havíamos tido em muito tempo. E segundo porque ela parecia realmente sincera no que disse.
— Realmente acredita em algo assim? — Meu pai perguntou a ela. Como sempre, ele é um homem de mente pequena.
Felícia assentiu calmamente para ele.
— A maioria das pessoas não acredita mais nesse tipo de coisa porque acham que nunca irão encontrar alguém assim. Mas isso não significa que não exista.— Ela disse.
“Não precisa ser sobre romance”, me lembrei das palavras de Diego. E acho que ele estava certo.
Porque apesar de tudo, nunca pensei ou tive interesse em Diego de uma forma romântica e acredito que ele tampouco pensava assim de mim. Porém Diego havia se tornado algo que fazia parte de mim. O que vivemos e compartilhamos ia muito além de qualquer outro tipo de relacionamento que poderíamos ter com outra pessoa. Havíamos sentido o que o outro sentia, na mesma pele e com os mesmos olhos... Mas com visões de mundo diferentes. E por isso que mais ninguém nesse mundo nunca poderia me entender como ele, da mesma forma que acho que eu nunca poderia ter uma conexão tão forte com outro alguém além dele.
Sorri com esse pensamento.
Talvez ele estivesse certo e no fim, éramos mesmo almas gêmeas.
Dois dias depois, resolvi visitar Diego no hospital
Ele havia gentilmente convencido a equipe medica do hospital que, de fato, eu não era um ameaça a ninguém e poderia entrar. O que foi algo particularmente constrangedor, considerando que a fonte de toda a minha má reputação era ele mesmo.
Diego já não estava mais na ala da UTI, por falar nisso. Em vez disso ele havia sido transferido para ala ortopédica do hospital, onde passava mais tempo em fisioterapias. Mas nesse horário, aparentemente, ele sempre estava no quarto.
No entanto, não foi a voz de Diego que me fez estacar e parar antes mesmo de abrir a porta do quarto. Mas sim outra. Uma da qual cada nervo do meu corpo se lembrava, mas não ouvia há muito tempo.
— Você estava flertando com uma enfermeira por causa de um pudim de chocolate? Isso faz algum sentido?
Era a voz de Isaac.
Não com o tom ríspido e seco com o qual ele costumava usar comigo. Em vez disso era algo muito mais brando, apesar do tom de repreensão.
— O que? Qual o problema? — Diego rebateu sem parecer muito constrangido ou culpado.—Se sorrir um pouquinho e piscar pra ela me garante sobremesa extra nas refeições eu não me importo em fazer isso!
— Você é um peixe ou um mendigo? Por que é tão fácil seduzir você com comida?
— Eu passei dois meses tomando sopa de canudinho! Eu mereço alguma vantagem!
Fiquei parado do lado de fora enquanto escutava a discussão idiota dentro da sala.
Eles... Pareciam próximos.
Quando ficaram tão próximos?
Seria pelo fato dos pais deles estarem se casando? Certamente, não. Isaac era uma pessoa muito complicada para aceitar isso de forma positiva.
No entanto, ele não parecia de mal humor. Não mesmo.
Então percebi que, nunca, em todos aqueles anos, Isaac nunca tinha ido me visitar quando eu estava hospitalizado. Ele nunca foi quando éramos crianças, nem quando adolescentes... E nem mesmo nos últimos meses. Ele nunca sequer perguntou sobre mim ou sobre como eu estava.
Senti minha respiração ficar atravessada em minha garganta.
E acho que entendi o problema com o trauma. É que as vezes, por um período de tempo, ele fica adormecido dentro de nós, e achamos que ele não nos afeta mais. Mas então, alguma coisa, uma pequena faísca nos traz de volta ao inferno novamente.
Eu não queria me sentir assim, mas não conseguia não me sentir assim...
A conversa dentro da sala diminuiu de repente, e então eu pude ouvir a voz de Isaac soar um pouco preocupada:
— O que foi? Por que você está pálido de repente?
Me toquei naquele instante que de fato, talvez a minha ligação com Diego não deveria ser levada na brincadeira.
Não sei como, mas com as mãos um pouco tremulas, reuni coragem para abrir a porta e encarar as duas pessoas lá dentro.
Mas antes que isso acontecesse, senti uma mão quente pousando no meu ombro e me virando em direção ao dono dela.
Meu olhar e o de Caleb se encontraram naquele momento. No entanto, sem me dar a chance de falar qualquer coisa, ele apenas levou um dedo indicador ao lábios em sinal de silencio e me levou para uma ala um pouco mais longe dali.
Então ele se virou pra mim e sorriu.
Um sorriso que parecia cansado, mas muito diferente de todos que eu já havia visto antes. Porque parecia existir um certo alivio nele.
— É realmente muito bom ver você de novo, Erik!— Foi o que ele disse.
E eu não consegui não sorrir de volta, me esquecendo totalmente da sensações incomoda que eu estava sentindo alguns segundos antes. Porque Caleb pareceu realmente sincero em dizer aquilo.
— É bom ver você de novo também...— respondi de volta.
— Como você tem estado? — Ele me perguntou.
Por algum motivo, não senti vontade de fingir e dizer que estava bem, como sempre fazia. Não conseguia fingir quando estava com Caleb e, mais um vez, não me pareceu necessário.
— Não muito bem, pra dizer a verdade.— Falei a ele.— Mas eu estou tentando. Acho que já estive pior antes.
—Sinto muito nunca ter ido visita-lo. — Ele se recostou em uma das janelas do corredor onde estávamos, olhando para o céu do lado de fora. — Diego me contou que você ficou preocupado ao não ter contato conosco, mas... Pra ser sincero, não sabia se você ainda gostaria de ter algo a ver comigo ou meu irmão depois que tudo isso acabasse.
Isso me pegou de surpresa. Porque, na realidade, sempre achei que teria sido o contrário. Sempre pensei que nenhum deles iria ter qualquer coisas a ver comigo. Porque, afinal, o que eu era para eles?
— Não, eu nunca pensei nada disso!— Falei rapidamente. — Por que pensaria algo assim?
— Você parece sempre querer manter as pessoas longe.— Caleb disse.
Isso me pegou um pouco de surpresa.
Havia isso, essa parte dele que me incomodava e de certa forma me atraia sempre que eu conversava com Caleb. Honestamente, eu não o conhecia muito profundamente, mas realmente gostava de como ele fazia parecer que eu era uma pessoa fácil de ser compreendida e de se lidar, quando nós dois sabíamos que era o oposto disso.
Encarei meus próprios pés um pouco constrangido.
— Não era minha intenção dessa vez.— E então tomei coragem para dizer um pouco mais:— Para falar a verdade, eu...esperei que viesse. Eu realmente queria que tivesse vindo.
Caleb então virou para mim.
— Quantas pessoas te visitaram quando estava no hospital?
Franzi o cenho com essa pergunta. Esse era um tipo de questionamento campo minado que até mesmo minha terapeuta parecia ter medo de pisar em alguma mina.
Mas Caleb não teve esse receio.
— Tirando meu pai e felícia...— Fingi contar uma certa quantidade nos dedos.— Ninguém.
Caleb não me deu um olhar surpreso. Porque de fato, não era uma surpresa. Ele apenas assentiu.
— Está tudo bem!— Eu disse mesmo assim, como se de alguma forma eu precisasse consolar Caleb por esse resultado estranho que eu demonstrei a ele.— Eu meio que já me acostumei a não ter alguém pra se importar comigo.
Não pretendia soar dramático ou algo assim quando disse isso, mas acabei me sentindo estupido assim que essa frase saiu da minha boca, pois Caleb me recompensou com um suspiro.
—Pra dizer a verdade, Erik, não acho que o fato de ninguém se importar com você seja o problema.— ele disse calmamente.— Mas é que você mesmo também não se importa. E, por conta disso, mesmo que milhões de pessoas fossem até você, nunca seria o suficiente. Porque no fim, esse vazio que você sente, não pode ser preenchido com o sentimento de outra pessoa. É por isso que nem meu irmão, ou eu e nem mesmo Isaac podemos fazer nada por você.
Um pequeno calafrio me atingiu até os ossos quando ouvi o nome de Isaac.
—Por que está me dando esse sermão do nada?
— Não é um sermão. — Ele caminhou até mim e colocou a mão no alto da minha cabeça.— Eu apenas vi sua expressão do lado de fora do quarto de Diego.
Ah, então era isso...
—Você ainda está obcecado com aquele garoto?— Ele me perguntou seriamente.
— Eu não...!— Minha palavras travaram na garganta.— Eu não sou obcecado com Isaac!
Caleb piscou para mim sem maiores reações.
— Então porque você parecia uma esposa que acabou de descobrir que foi vitima de adultério enquanto olhava para a porta do meu irmão? — Ele suspirou sem me dar a chance de responder.— Eu ouvi a história de vocês nos últimos meses.
—Olha, eu não sei o que Diego disse, mas eu...
— Não foi Diego quem me disse. — Ele me interrompeu para minha surpresa.— Foi o próprio Isaac.
E mais uma vez, eu realmente não esperava por isso.
Por algum motivo, saber que nos últimos meses, enquanto eu estava só e lidando com minhas dificuldades no hospital, aqueles três pareciam se tornar muito próximos... Era um pouco incomodo.
Acabei rindo para ninguém em particular.
— Bem, e então? — Eu perguntei a Caleb.— Você agora também acha que eu sou um cretino manipulador?
Eu tinha um histórico com todas as pessoas que conversavam Isaac, e todas elas tinham algo em comum: Sempre terminavam me odiando. Como se o ódio fosse uma peste contagiosa que passava para todo o lugar que eu ia... ou que Isaac ia.
Caleb não pareceu abalado com minhas palavras. Sua expressão nem mesmo mudou e ele não se afastou de mim.
— Eu pareço alguém que pensa isso?— Ele cutucou minha testa com o dedo indicador, desestabilizando meu equilíbrio por um momento.— Não diga coisas que você não quer dizer só porque está com medo.
Olhei para meus próprios sapatos um pouco constrangido.
— Desculpe...
— Não começa com a sessão desculpa!—Caleb recriminou.— Já disse que não suporto isso.
— Descu... certo!— Me corrigi antes de cometer o mesmo erro.— O que Isaac disse a você? Que eu era obcecado por ele?
Caleb cruzou os braços.
— Eu ouvi sobre como nos últimos anos, ele fez da sua vida um inferno.— Ele disse o óbvio.
—Então isso não prova que não sou eu que sou obcecado por Isaac, e sim o contrário?
—Verdade...—Ele inicialmente concordou. Mas Caleb não tinha terminado ainda: — Só que a parte em que Isaac mudou de escola mais de seis vezes para se livrar de você e que por algum motivo, toda vez você se transferia para a mesma escola... Isso foi um pouco chocante.
Levantei meu rosto e o encarei.
Eu não sabia o que dizer.
— É verdade?— Caleb me perguntou.
Passei minha mão sobre meu rosto e joguei um pouco do cabelo que estava caindo em meus olhos para trás.
— Que diferença isso faz?— Foi o que eu respondi, finalmente olhando para ele.
Pensei que veria o olhar de Caleb se tornar amago e decepcionado, mas em vez disso ele fez algo ainda mais surpreendente.
Ele riu.
— Você realmente é uma pessoa muito...Muito surpreendente.
Ele riu por mais um tempo e depois de um momento de puro silencio entre nós, tive coragem o suficiente para perguntar:
— Você está... Bravo? — Não que fizesse sentindo, mas o fato da possibilidade de Caleb estar bravo comigo me incomodava um pouco.
— Por que eu deveria? — Ele me devolveu a pergunta.
— Bem, porque... Porque talvez eu parece um doido pra você e meio que mereça tudo o que aconteceu. Quer dizer, que pessoa normal vai atrás do próprio inferno? — Perguntei isso não para Caleb, mas para mim mesmo.
Caleb não disse nada por um tempo e nem sei que tipo de expressão mostrei a ele, mas depois de um tempo sentindo braço quente envolver meus ombros.
— Algumas pessoas tomam atitudes duvidosas sobre suas vidas, não porque elas querem realmente viver de forma ruim, Erik. Mas porque elas não sabem como viver de outra forma.
Apertei meus lábios sem responder nada.
— Mas isso não significa que você não possa aprender. — Ele me consolou.— Além disso, aquele cara, Isaac, você não deveria se preocupar com ele. O castigo dele já está em andamento.
Isso fez com que eu voltasse a olhar para Caleb.
— Por que diz isso?
Um pequeno brilho cruel pareceu cruzar o olhar de Caleb, porém foi tão breve que pensei ter sido minha impressão.
— Ele parece gostar do meu irmão. — Ele disse sem rodeios o que eu já sabia há um tempo. — Isso pode ser pior do que o inferno. Ele só não descobriu isso ainda.
Alguma coisa no tom de Caleb me fez sentir um pouco de pena por Isaac por algum motivo.
— Falando nisso, você veio para visitar Diego, certo? — ele retirou o braço dos meus ombros e so então eu percebi que ainda estávamos abraços. E mesmo sendo temporada de calor, me senti um pouco frio. — Eu irei tirar o paspalho de lá pra que você se sinta mais à vontade.
Não recusei a oferta de Caleb.
— En, obrigado!
Antes de sair totalmente, Caleb se virou para mim mais um vez e sorriu:
— Aproposito... — Ele fez uma pausa. — Não é verdade que ninguém se importa com você. Diego gosta muito de você e...
Ele não terminou a frase, apenas sorriu e balançou a cabeça como se desistisse da ideia sobre o que ia falar, voltando a andar pelo corredor.
E eu me senti mais uma vez na beira daquela ponte, prestes a salta para um caminho desconhecido e perigoso, quando me peguei pensando que adoraria que ele tivesse completado aquela frase com um “e eu também.”.
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