Mais cinco minutos, talvez?
29 Capitulo 29- Erik
Nada que um calmante e 12 horas seguidas de sono não tenham resolvido.
Acordei um pouco grogue algumas vezes durante a noite e sempre acabava vendo meu pai ao meu lado nesse tempo; o que foi um fenômeno engraçado, considerando que eu tinha certeza que, se pudesse, ele estaria o mais longe de mim possível. Mas eu ainda me lembro de que em cada um desses momentos em que recuperei a consciência, ele apenas sussurrava que tudo ficaria bem e para que eu voltasse a dormir, da mesma forma que fazia quando eu tinha febre quando criança.
Só que dessa vez, não foi uma febre. Foi um colapso mental.
Ninguém pediu a minha opinião sobre o assunto, mas a verdade é que não fiquei surpreso por algo assim ter acontecido depois de tudo aquilo. Eu diria até que demorou demais para acontecer. E tenho certeza de que se eu contasse para qualquer um deles tudo o que tinha se passado comigo e com a minha vida nos últimos meses — ou anos—, eles também concordariam comigo.
O que não significava que, de fato, eu contaria.
— Você pode falar sobre o que quiser, Erik. Sinta-se livre. — Foi o que a psicóloga me disse no dia seguinte quando me sentei na frente dela. Não pude deixar de achar bastante irônico da parte dela falar sobre liberdade, considerando que eu precisava esperar um total de 50 minutos para poder sair de lá novamente. — Lembre-se que tudo aqui é trabalhado com sigilo. Só falamos sobre o que você quiser falar e nada sairá dessa sala, a não ser que você queira.
Gostei de como ela fazia parecer que eu ainda tinha algum controle sobre alguma coisa.
Eu estava melhor, obrigado. Não parecia mais que eu iria surtar novamente nem nada assim. Apesar de que eu tinha uma teoria de que isso poderia ser muito bem graças a quantidade imensa de psicofármacos correndo pelas minhas veias naquele momento e que eles haviam me dado algumas horas antes de eu entrar no consultório psicológico.
Não tinha mais como fugir do tratamento, então acabei sucumbindo a ele...
E, falando sério, eu não tinha a menor ideia sobre o que falar para ela, mas pensar que poderia ter que passar 50 minutos apenas nos encarando era ainda mais desconfortável.
— Sobre ontem... — Eu comecei, olhando para as minhas mãos e um tom de desculpas. — Foi algo esporádico. Eu geralmente não fico daquele jeito...
— Que jeito? — Ela me perguntou de volta, como se não tivesse visto os enfermeiros me segurarem no dia anterior e me espetarem com uma seringa cheia de calmantes até eu apagar.
— Bem, você sabe... Transtornado daquela forma. — Eu falei em um tom de voz tão baixo que me surpreendi por ela ter escutado. — Mas só fiquei assim porque recebi uma notícia ruim.
A expressão dela não mudou em nada. Era como se estivéssemos livremente conversando sobre o que seria o almoço mais tarde.
— Gostaria de compartilhar sobre essa notícia ruim?
Na verdade, não queria não. Falar em voz alta parecia tornar a coisa toda real e eu não tinha muita certeza de que meu cérebro estava pronto para levar aquilo como algo real.
Mas de alguma forma, eu ainda respondi a ela:
— Um amigo meu. — Minha voz falhou um pouco. — Acho que... Me falaram que ele...
Apertei meus lábios e balancei a cabeça, porque não consegui terminar a frase. No entanto, acredito que neste ponto da vida ela já estava muito preparada para lidar com jovens possivelmente tendo crises de choro naquele consultório, já que ela me deu um pequeno sorriso compreensivo e me empurrou uma caixa de lenços.
— Algo aconteceu com seu amigo?
Eu assenti com a cabeça, porque não acho que queria mais falar sobre isso.
— Vocês dois eram muito próximos? — Ela continuou a questionar.
E eu ri quando essa pergunta foi feita. Bem, quero dizer, se nós éramos próximos? Tinha como ser mais próximos do que fomos nos últimos meses? Eu tinha certeza absolutamente de que não.
— Você não pode nem imaginar o quanto... — Foi o que eu respondi a ela.
A sessão se arrastou por mais trinta minutos depois disso. Ela foi sincera quando disse que só falaríamos sobre o que eu queria falar. Porém eu não queria falar sobre nada relacionado a mim ou a Diego, então no tempo que restou ela deixou que eu apenas olhasse em volta enquanto conversávamos sobre coisas idiotas, como por exemplo sobre as estações estarem mudando novamente.
Quando o temporizador marcou o fim da sessão, eu dei graças a Deus secretamente e torci para ter parecido normal o suficiente para não ter que voltar ali.
Mas então ela disse para o meu pai, que aguardava na sala de espera como se eu estivesse fazendo uma grande cirurgia, que achava importante estender nossas sessões para pelo menos três vezes na semana. O que queria dizer que eu teria que passar por aquilo um dia sim e um dia não. E também falou que era bom que eu continuasse em contato com a psiquiatra. O que também queria dizer que aqueles remédios não seriam suspensos tão cedo.
Os olhos do meu pai estavam vermelhos. Não tinha muita certeza se foi por ter passado a noite toda acordado me vigiando ou porque possivelmente ele havia chorado. Qualquer uma das opções me deixavam culpado.
Ele queria que eu ficasse internado por mais tempo, mas a equipe médica discordou, por incrível que pareça. Eles disseram que era melhor eu ir para casa ficar com a minha família. Nessa hora, quando ouvi isso, soltei uma risada que sem querer saiu um pouco maldosa demais. Mas foi porque achei engraçado como disseram que eu precisava da minha família naquele momento, como se eu não tivesse precisado dela nos últimos quase dezenove anos de vida. E também porque foi engraçado ver meu pai redescobrir esse fato.
Bem, fui para casa, mas voltei ao hospital no dia seguinte, dessa vez para ver a psiquiatra. Então ela passou mais alguns coquetéis de medicação e eu voltei para casa novamente. E no dia seguinte, voltei de novo para outra consulta com a psicóloga...
Se você quer saber... Era um saco de rotina!
— Então, o que exatamente eu tenho? — Um dia perguntei a minha psicóloga. — E quanto tempo até eu voltar ao normal?
Queria que ela me dissesse logo o que era que tinha de errado comigo, então poderíamos terminar logo com aquilo. Mas ela apenas balançou a cabeça para minha pergunta, como se fosse uma pergunta estupida. E talvez realmente tenha sido.
— Quem dita o tempo é você, Erik. — Ela me disse. — O tratamento é importante para que você se sinta melhor, não para que ganhe um rótulo. Você é uma pessoa, não um diagnóstico.
De fato, ela acertou no que disse. Passei tanto tempo da minha vida como um rotulo que me esquecia as vezes que eu ainda era uma pessoa. E foi legal da parte dela avisar que tudo dependia de mim.
Porque foi aí que eu percebi que provavelmente levaria muito tempo.
Além da terapia convencional, eles também me mandaram para a terapia de grupo. Acontecia todas as terças e quintas, mas participei apenas uma vez antes de desistir. Não conseguia ver sentido em como ouvir pessoas falando sobre como suas vidas tinham sido horríveis até ali, poderiam me dar alguma motivação para alguma coisa. Eles queriam que acolhêssemos a dor um do outro, mas eu já tinha a minha própria dor para lidar, eu não queria a demais ninguém! Quer dizer, parecia uma grande competição para ver quem estava mais no fundo do poço, qual era o sentido disso? “Olha como essas pessoas estão piores do que você, não se sente melhor agora?”... Não, definitivamente não!
E eram em dias como esses que eu mais sentia falta de Diego e nem todos os remédios do mundo conseguiam me impedir de sentir ao menos isso. Porque agora, não tinha ninguém para conversar nos dias ruins, nem para desviar um pouco a atenção da minha vida caótica e também porque agora precisava viver todas as vinte e quatro horas do meu dia novamente, e acabei me lembrando o quanto isso era horrível.
Bem, todo mundo sabe que todos nós vamos morrer um dia.
As pessoas não gostam de falar sobre isso, mas é a verdade. E chega a ser engraçado como passamos a vida inteira conscientes desse fato e mesmo assim não conseguimos nos acostumar com ele. Alguns dizem que isso ocorre pelo grande gesto injusto do universo de nos deixar ter nove meses para nos preparar para uma nova vida— um nascimento—, mas não nos dá um minuto sequer para nos preparar para a morte.
Eu discordava disso.
A verdade é que também temos tempo para nos acostumar com a ideia da morte. Muito tempo, na verdade. Temos uma vida inteira para isso! Desde o momento em que respiramos pela primeira vez, cada segundo, minuto, hora, dia, mês ou ano... Temos tudo isso para começar a nos acostumar com a ideia de que vamos morrer. No entanto, quando esse momento finalmente chega até nós ou para alguém que gostamos, nós vamos no sentir lesados. Roubados e injustiçados, como se não estivéssemos esperando por isso. Como se não estivéssemos preparados para isso. Mas a verdade é que estamos sim...Ou pelo menos deveríamos estar, porque passamos uma vida inteira literalmente aguardando esse dia.
Talvez o problema fosse esse. O fato de eu entender isso, mas não aceitar.
— Eu é que deveria simplesmente ter morrido... — Foi o que eu me disse em voz alta, mas me senti culpado logo em seguida. Porque agora eu sentia que a vida que eu vivia era a vida de outra pessoa. E eu não podia desperdiçar isso como eu simplesmente fazia antes.
As pessoas descobrem seu lado positivo depois que você morre. Mas o mesmo não acontece quando você enlouquece...
Por falar nisso, a sala de espera da maldita terapia em grupo gostava de tocar músicas antes das sessões começarem. Não que eu fosse participar daquele circo dos horrores de relatos absurdos e trágicos novamente, mas meu pai insistia em me levar e eu fingia que estava fazendo a minha parte indo. Embora isso não queria dizer que eu ficaria ali, ouvindo a decadência dos outros para me tornar mais pirado do que eu já era. Então matei tempo do lado de fora, onde havia um espaço de ar livre, para nos dar alguma sensação parecida com a liberdade.
Hallelujah dava para ser escutada mesmo do lado de fora.
Oh, não que eu odiasse a melodia ou algo assim, que fique claro. Mas na minha opinião, aquela não era a melhor música para ser tocada antes de uma sessão de pessoas contando suas desgraças.
Ou talvez fosse e eu que não sabia interpretar...
— Você também está fugindo deles?
Então foi assim que aconteceu.
Em um minuto eu estava sentado, olhando para o céu acima de mim enquanto cegava meus próprios olhos olhando para o sol, e no outro, estava escutando uma voz grave, preguiçosa e arrastada, tão nostálgica que reverberava bem mais do que apenas nos meus ouvidos.
Virei minha cabeça lentamente em direção a voz, mas tudo o que eu enxergava era pontos negros devido o tempo que encarei o sol.
— Está? — A voz me perguntou de novo. — Pode confessar, não vou te dedurar.
Meus olhos estavam lacrimejando e eu não tinha muita certeza se era por poder ouvir aquela voz de novo ou por causa da claridade. Não sabia dizer se era por tudo isso ou por causa do embotamento causado pela medicação, mas tudo que consegui foi soltar um sussurro com a voz falha:
— Sim... Sim, estou fugindo deles.
— Ah! — Ele riu tipo “haha, eu sabia”. — Fico feliz em saber que não sou o único que não está muito a fim de participar daquele bingo distorcido de ver quem está mais na merda.
Os pontos pretos da minha visão começaram a se dissipar e ela começou a voltar novamente. E então eu vi. E por um minuto não sei se consegui entender que estava vendo. E não apenas ouvindo.
Talvez os remédios estivessem fazendo o reverso do que deveriam fazer, e agora eu estava tendo alucinações também. Eles me impediam de sentir, mas não me impediam de pensar.
O garoto que eu vi usava a roupa dos pacientes internos do hospital, com uma pele cor de caramelo que havia se tornado um pouco pálida devido à falta de sol, e olhos verdes vibrantes que pareciam saber mais do que deveriam, junto com sobrancelhas grossas e um sorriso idiota no rosto...,No entanto, ainda havia ataduras em volta da cabeça e ele estava em uma cadeira de rodas. Mesmo assim, nada nele parecia de um paciente frágil. Não mesmo.
Havia mais vida nele do que em mim.
Mas sempre tinha sido assim, não é mesmo?
— Por que... Por que você está aqui? — Perguntei debilmente. Como se fosse uma conversa muito distante e eu fosse apenas um espectador.
Era irreal demais. Inacreditável demais.
— Pela mesma droga de motivo que todo mundo está aqui: Porque me obrigaram! — Ele revirou os olhos. E então pareceu notar meu olhar fixo sobre ele. — Ah, eu sei, parece terrível, não é? Acredite, estava pior alguns meses atrás...
Mas não parecia. Não parecia terrível em nada. Pelo contrário, parecia exatamente com a versão ao vivo e real do garoto que eu tinha visto na foto do jornal, alguns meses atrás. Mesmo com as cicatrizes, as ataduras e a cadeira de rodas.
Era exatamente igual a pessoa que eu achei que nunca mais poderia ver em toda a minha vida.
— Você... Você não deveria ter morrido? — Essa foi mais uma pergunta estupida para a minha longa coleção de perguntas estupidas. Mas considerando que ainda não estava confiando totalmente na minha cabeça naquele momento, achei bastante justo fazê-la.
Ele também não pareceu irritado ou se incomodou com isso.
— Provavelmente sim. — Foi o que ele disse, dando de ombros como se não fosse grande coisa. — Fui engolido pela morte uma ou duas vezes. Só que eu devo ser um pouco indigesto, já que ela acabou me cuspindo de volta.
Não sabia se era uma piada. Nem se eu deveria rir. Nem o que deveria fazer. Não soube o que fazer quando achei que ele estivesse morto e sabia menos ainda agora que tinha visto ele vivo.
Acabei engolindo em seco.
— Sinto muito. — Eu disse a ele, por tantos motivos que nem conseguia escolher apenas um.
Ele dispensou com as mãos, como se aquilo fosse desnecessário.
— Não lamente por mim, eu estou ok. — Ele disse, lentamente, como se convencesse uma criança pequena. Então bateu nas alças laterais da cadeira com os punhos. — É só temporário. Até os ossos se calcificarem de novo.
— Ah... — Eu disse de forma estupida. — Que bom!
Ele me encarou por um momento e depois riu, e eu podia jurar que ele estava me chamando de idiota mentalmente.
— E você? — Ele me perguntou. — Por que estava se lamentando dizendo que acha que deveria ter morrido? Fez alguma merda ou só está deprimido?
Fiz uma grande merda e estou deprimido...
Apesar do pensamento automático, não consegui esconder a cara surpresa. Não sabia que ele tinha escutado aquilo. E quando escutei aquelas palavras vindo da boca de outra pessoa que não fosse a minha, me senti estupido de repente. Não sei se ele percebeu, mas senti meu sangue subir para o meu rosto.
Fiz uma longa pausa antes de poder falar novamente.
— É só que...
Eu achei que você estava morto, seu idiota! Achei que eu tinha estragado tudo novamente! Porque passei as últimas semanas inteiras dopado demais para não sentir dor pela morte de alguém que eu nunca nem conheci pessoalmente e que eu achava que só trazia caos para minha vida! E porque senti falta desse mesmo caos e bagunça. Porque senti sua falta!
Eu pensei, mas não disse. Não consegui dizer. E graças a Deus que eu não disse!
— Tudo bem não falar. — Ele me tranquilizou quando percebeu meu silêncio sepulcral. — Não é como se eu quisesse fazer nossa própria roda de apoio aqui fora ou qualquer coisa.
Então ele simplesmente ficou lá, cantarolando alguma musica idiota que ainda estava tocando na sala de espera enquanto bagunçava ainda mais o que restou dos meus neurônios. Impressionante ainda ser capaz de fazer isso quando não estávamos mais no mesmo corpo...
Depois de dez minutos dessa forma, não consegui aguentar mais e me virei para ele:
— Fala a verdade, eu estou sonhando ou tendo algum delírio?
Após minha explosão repentina ele voltou a atenção para mim, me dando uma olhada de cima abaixo com a sobrancelha arqueada:
— Não sei... Você fumou ou consumiu alguma coisa antes de vir pra cá?
— Psicotrópicos contam?
— Devem contar. — Ele deu de ombros.
— Diego... — O nome finalmente escapou da minha boca.
— Sim?
—...
—...
— Diego? — Chamei de novo, só para ter certeza.
— Siiim? — Ele também repetiu, com o mesmo tom lento e confuso que o meu.
Senti meus olhos e nariz pinicarem e escutei um som parecido com um soluço sair da minha garganta. A ficha estava finalmente caindo, e era intenso demais para qualquer coisa reprimir. Me levantei imediatamente, ficando de frente para ele, e provavelmente na única oportunidade de estar mais alto que ele por um momento.
— Para onde no mundo você foi? — Senti as palavras rasparem na minha garganta, abafadas e dolorosas. — Eu fiquei esse tempo todo esperando para saber sobre você. Foram mais de quatro meses sem poder saber absolutamente nada! Eu esperei cada maldito segundo para poder ir atrás para saber como você estava, mas então... De repente você tinha morrido e eu não sabia o que fazer. E eu me senti tão, tão... culpado por tudo que praticamente enlouqueci. Se eu não tivesse dado aquela ideia. Se eu não tivesse pulado... Não estou dizendo que eu era normal antes, mas eu realmente pirei por sua causa. É por isso que estou aqui, só pra você saber. E eu passei as últimas semanas inteiras pensando que, se não fosse por minha causa, você ainda estaria bem... E, no entanto, ... No entanto você realmente está bem! E eu não sei se fico feliz ou se tenho vontade de te matar por causa disso...
As palavras despejaram da minha boca como uma cachoeira. Tudo o que eu havia guardado nos meses em que fiquei no hospital. Tudo o que havia engolido nas ultimas semanas porque acreditei que nunca mais poderia dizer nada a ele novamente. Porque achei que nunca mais iria poder ouvi-lo novamente.
Eu nem sabia que me importava tanto com Diego até saber que ele poderia mesmo ter morrido e que nunca mais teríamos nenhum tipo de contato.
E acho que foi assim que entendi porque as pessoas falam coisas boas dos mortos. É por causa dos arrependimentos. É a mesma lógica que há por trás do ditado “só dar valor depois da perda”.
Diego não disse nada enquanto eu derramava minhas emoções daquela forma em cima dele. Ele apenas piscou os olhos arregalados para mim e assentiu de vez em quando, como se eu fosse completamente maluco. E eu provavelmente parecia mesmo com um.
Então, tão simples quanto foi riscar o fosforo que me fez explodir daquela forma, ele fez questão de derramar um balde de água fria em todas as minhas emoções novamente.
— Calma! Segura o surto, meu parceiro... — Ele franziu o cenho, com uma expressão confusa. — A gente se conhece por acaso?
Não havia reconhecimento nenhum nos olhos dele. Era como se eu e uma arvore qualquer tivéssemos a mesma aparência.
Foi como se alguém tivesse apertado o botão de “pausa” em mim. Eu simplesmente parei. Da mesma forma que havia levantado, com os lábios abertos para cuspir mais um monte de palavras, com os olhos marejados e com o coração batendo tão rápido que eu podia sentir nos meus ouvidos... Tudo isso foi completamente paralisado com aquelas simples palavras, tão frias e distantes.
Eu sabia que algo assim podia acontecer. Sempre soube. Mas ainda assim foi um pouco chocante ouvir diretamente. Principalmente depois de todo o sentimento sufocado das últimas semanas e do alívio momentâneo que senti ao saber que ele ainda estava aqui. Tudo isso foi completamente dissipado com aquela linha invisível que aquelas palavras desenharam. O suficiente para que o ar que entrou nos meus pulmões naquele momento tenha parecido agulhas de tricô.
Desejei por um segundo que os últimos cinco minutos nunca tivessem existido.
Só que antes que eu pudesse balançar a cabeça e retirar tudo o que eu disse momentos antes, Diego abriu um grande sorriso para mim e riu alto.
Eu ainda estava paralisado.
— Relaxa, eu só tô tirando uma com a sua cara. — Ele disse de bom humor, limpando as lagrimas que haviam se acumulado em seus olhos devido ao ataque de riso. — Eu sempre quis dizer isso para alguém! Sabe, tipo nos filmes?
Eu ainda estava paralisado.
— Ah, qual é? não leva para o coração, Erik! — Ele cutucou minha barriga com o indicador. — Você tinha que ter visto a sua cara...
Eu pisquei algumas vezes e apertei meus lábios.
E eu juro, por tudo que há de mais sagrado, que nunca senti tanta vontade de matar alguém na minha vida!
— Por que fez isso? — Minha voz saiu rouca e tremula. — Por que você é sempre tão... Tão...
— Filho da puta? É, eu sei. Foi mal. — Mas ele não parecia nada arrependido.
— Eu ia dizer cruel. Você é cruel! — Perdi o controle do volume da minha voz. — Eu acabei de dizer... O quanto eu ... o quanto...
Dessa vez não consegui suportar e estava mesmo chorando.
De raiva.
Eu estava com tanto ódio dele e de mim mesmo por estar me sentindo daquela forma, que mordi meus lábios até sentir o gosto metálico do sangue.
— Ah, não precisa chorar... — Ele se aproximou de mim, abrindo os braços em um abraço. — Desculpa, vai... Você parecia um pouco descontrolado e eu só queria quebrar o clima tenso...
E ele conseguiu. Quebrou tanto o clima que todo sentimento de saudade e nostalgia que tinha sentindo naqueles meses, foi substituído por uma vontade enorme de bater nele.
Mas meu corpo ainda traia a minha mente e foi em direção a ele.
Ele era real. Era uma pessoa real. E estava vivo!
Meus joelhos se dobraram no chão e meu rosto afundou no peito dele, e eu podia ouvir o coração lá dentro. Nunca imaginei que teria vontade de chorar por saber que um coração podia bater. Foi a primeira vez que nos tocamos, finalmente. E também primeira vez em muito tempo que alguém me abraçava. Ele cheirava da mesma forma repugnante que os hospitais, mas ainda assim, era tão reconfortante que até as lagrimas se detiveram.
— Você é ainda menor quando visto de outro ângulo... — Ele comentou, batendo carinhosamente nos meus ombros.
— Cala a boca! — Eu estava tentando aproveitar o momento. Não queria que a grande boca dele estragasse ainda mais as coisas... — Senti sua falta...
Eu nunca fui tão abertamente sincero em toda a minha vida!
— Sim. Eu sei! — Foi a resposta dele, no entanto.
— Maldito narcisista...— Afundei meu rosto ainda mais contra ele, para esconder a vergonha por ter dito aquelas palavras daquele jeito.
— Eu estou falando sério. Eu realmente sei! — Ele afastou meu rosto por um momento me olhando fixamente. Acho que poder olhar para ele e ver a expressão intensa sobre mim foi uma sensação um pouco estranha. — Eu senti isso também.
— Sentiu a minha falta também? — Por algum motivo, perguntei.
Mas a resposta foi mais surpreendente do que se ele simplesmente tivesse me dito que “sim”.
— Não, estou dizendo literalmente que senti que você sentiu a minha falta. — Ele respondeu, dessa vez com um tom de voz mais sério. — Mesmo não estando mais no seu corpo, descobri que ainda posso sentir as suas emoções.
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