Mais cinco minutos, talvez?
1 Capítulo 1- Diego.
Notas iniciais
Erik Bryan me odeia.
Não que ele tenha reais motivos para isso. Quer dizer, o máximo que eu fiz foi ter usado o corpo dele em uma briga contra uns caras com uma mão bem pesada – que por sinal, acabaram quebrando o nariz do Erik– e fiz uma tatuagem no corpo branquelo e sem graça dele, porque achei que seria interessante ter uma caveira tatuada na bunda. Ah, e também usei acidentalmente o corpo dele para fins completamente sexuais, justamente com o cara que o Erik mais repudia.
Mas não são motivos para se odiar alguém, certo?
E não é como se a culpa fosse realmente minha. Acredite. Eu daria tudo para ter o meu próprio corpo novamente, mas infelizmente as coisas não saíram como planejado.
É provável que agora você esteja pensando: “que tipo de imbecil começa uma história pelo meio e não pelo começo? ”, mas espere, eu vou contar como foi que eu, infelizmente, acabei dividindo o corpo com um garoto deprimente e que sofre bullying até do cachorro do vizinho.
Vamos começar pelo básico: eu era um cara normal, com uma vida normal. Sem superpoderes, fantasia ou qualquer coisa desse nível. O único diferencial era que, de vez em quando, eu gostava de quebrar os dentes e cara de algumas pessoas que se achavam os picas da cidade, mas até ai, tudo bem. Eu tinha dezessete anos, tinha um irmão e tinha meu pai. E eu provavelmente também tinha uma mãe em algum lugar do planeta, porém não a via desde que ela resolveu montar na garupa de um motoqueiro e ir curtir a vida com ele.
Outro fato interessante é que meu pai era dono de uma academia de artes marciais e foi lá que eu descobri o meu talento nato para lutas...
Ok, não foi exatamente lá. Foi na escola, quando um garoto resolveu se meter a besta comigo e eu “acidentalmente” joguei a cadeira na cara dele. Mas essa é uma história para outro dia.
Estava falando de como eu e Erik acabamos juntos. Literalmente.
Pois é...
Se voltássemos o relógio um pouco no tempo, posso dizer que o dia em que a minha vida terminou era um belíssimo domingo à tarde. Eu estava arduamente tentando convencer meu irmão, Caleb, a me emprestar à maravilhosa Harley Davidson dele. E o babaca nem pestanejou em vomitar um “não” na minha cara.
Nós adoramos motos, sabe? É coisa de família. Puxamos a mamãe.
Foi por isso, é claro, que eu tive que contestar e perguntar o porquê diabos de ele não querer emprestar aquela bela moto, caríssima, para que eu pudesse ir até o outro lado da cidade, quebrar a cara do líder de uma gangue de merda, que estava me desafiando há meses.
— Nem ferrando. Eu seria louco se emprestasse a minha moto para você. Por que não vai de ônibus ou sei lá? – Foi o que ele me respondeu.
— Porque um ônibus não causa o mesmo efeito que uma Harley Davidson! – E para mim, esse argumento por si só anulava qualquer outro.
Mas definitivamente, não para o meu irmão. Ele continuou firme e se recusou terminalmente a me emprestar a moto.
Então... Eu abaixei a cabeça, aceitei a sábia decisão de Caleb e fui par ao meu quarto jogar videogame.
Só que não.
Se eu tivesse feito isso, eu não estaria aqui agora contando essa merda que virou a situação.
Bem, a verdade é que, de fato, eu dei as costas pro meu irmão. Mas logo em seguida, assim que ele se distraiu, eu voltei e peguei emprestada, sem consentimento, as chaves dele. Afinal, o que poderia acontecer de mau em um adolescente, sem carteira, em alta velocidade, dirigir uma moto furtada?
Ok, eu nunca disse que era algum tipo de santo, mas deixe-me contar: Coisas ruins acontecem. E bater a pobre moto, de frente, com a merda de um caminhão, é uma coisa muito, mas muito, ruim.
Na verdade, na hora eu não pensei muito se ia morrer ou não. Acho que até torci para morrer, sabe? Porque se eu sobrevivesse e Caleb visse o estado em que a moto ficou... Bom, digamos que eu não ia ficar muito melhor que a moto.
Mas também não foi muito legal ver o meu corpo todo arrebentado e ensanguentado naquele chão. Dezessete anos voados totalmente para o espaço em questão de segundos. Simples assim: Um minuto e tudo se foi. Minha alma, minha dignidade, minha vida...
Dramático, não é?
Porém o problema maior foi que antes mesmo de poder entrar no clima de “ghost- do outro lado da vida” a coisa toda já tinha dado errado.
Sabe aqueles dilemas sobre o que acontece depois que você morre? Então... Vou te contar:
Eu fui para o reino dos mortos. E foi um completo desastre.
Acontece que os caras do outro plano espiritual, ou sei lá que merda eles eram, vão pedir para você fazer um maldito check-in. Sim, um check-in. Acho que pra confirmar o recebimento da sua alma ou sei lá. Então eu fui, fiz tudo o que tinha que fazer e estava pronto pra entrar nos portões do paraíso ou não... Apenas para descobrir que o meu nome não constava em lugar nenhum da lista da morte e que provavelmente havia tido um “engano”.
FODENDO. ENGANO!
Se eu fiquei puto?
É claro que eu fiquei puto! Mas quem não ficaria? Você descobre que está morto por “engano”! Como alguém consegue morrer por engano, pelo amor de Deus?
É, aparentemente, eu conseguia. Mais essa para minha lista de conquistas. Viva eu!
Enfim...
Depois de lidar com essa informação de uma maneira pouco civilizada, mas que me dá preguiça de descrever aqui, eu pedi, gentilmente, que os fulaninhos espirituais dessem seus pulos e consertassem a merda que eles haviam feito. Quero dizer, me ressuscitassem ou sei lá. Eu só queria que eles fizessem qualquer coisa que me deixasse... Bem, menos morto.
E, para minha surpresa, eles me garantiram que minha alma seria, sim, devolvida a terra. Um serviço quase excelente até aí...O problema é que: Eles não explicaram muito bem como essa coisa ia acontecer. E também não mencionaram que “ser devolvido a terra” não era o mesmo que voltar pro meu próprio corpo lindo, cheiroso e saudável.
Falando nisso... Não foi nem um pouco legal voltar. Foi como cair de um prédio de mil andares e sentir a pancada de quando você bate no chão.
E, Deus, como eu queria que realmente tivesse sido apenas o chão...
Mas não. Foi um corpo. Um corpo muito pequeno, por falar nisso. Já tentou vestir uma roupa com o número cinco vezes menor que o seu? Porque foi exatamente essa sensação que eu tive. Sufocado, apertado e esmagado.
Mas mesmo com todo o desconforto eu abri meus olhos. E, acredite, esse foi o primeiro grande erro. Quero dizer, depois de já ter morrido por acidente.
Eu não acordei em um hospital. Nem em casa. E nem mesmo na rodovia onde o acidente tinha acontecido. Não mesmo. Em vez de qualquer um desses lugares... Eu acordei no meio do luxo. Um quarto grande, lençóis de seda, cortinas de veludo... Pra você ter uma ideia, a primeira coisa que eu pensei foi: "Eu fiquei rico e não me avisaram?". Porque, sabe, não é todo dia que você abre os olhos e percebe que está deitando em uma cama que provavelmente vale mais do que o salário que o seu pai ganha o ano inteiro.
E, pra falar a verdade, eu ainda não sabia que estava com o corpo do Erik. Muito menos que estava na casa dele, e mais precisamente no quarto dele.
A segunda coisa que eu notei foi: O vidro vazio de remédios. Em uma mão muito pálida e pequena para ser minha.
Talvez só com essa informação eu já poderia ter percebido que havia algo muito errado naquela situação, mas isso realmente não me ocorreu. E como poderia? Meu cérebro — O cérebro do Erik — Estava funcionando tão bem quanto um carro com o motor fundido. Acho que nem se eu tivesse virado uma garrafa de whisky eu estaria me sentindo tão mal.
Mas o pior foi que, apesar de a alma ser minha, o corpo ainda era dele. E não há corpo no mundo que funcione depois de tanto medicamento. Porém, como eu não estava em posição de morrer de novo... Vomitei toda aquela porcaria no tapete (Talvez que ele me odeie por ter vomitado no tapete...). E foi justamente na hora em que uma mulher, desesperada, abriu a porta do quarto e me olhou com os olhos quase pulando para fora das orbitas.
— Erik! – Ela berrou e a minha cabeça estremeceu. – Você... O que estava tentando fazer? O que estava tentando fazer?
Olhei em volta, me perguntando com que tipo de ser aquela maluca estava gritando, mas só havia nós dois ali.
A mulher correu até mim, tirando violentamente o frasco de remédio da minha mão e o jogando para o outro lado do quarto, como se a peste negra estivesse lá dentro.
— O que você estava pensando, Erik? — Ela me sacudiu e eu quase vomitei de novo. — E quanto a mim? Ou seu pai? Por acaso ele passou pela sua cabeça?
Fiquei piscando pra ela até me dar conta de que o tal “Erik” era eu.
— Espera aí, minha tia – Me apressei em dizer, apesar da língua dormente. – O que tá acontecendo? Quem diabos é você? Como conhece o meu pai? E por que fica me chamando de Erik?
...
E... Eu acabei no hospital.
Mas fui liberado umas duas horas depois. O médico virou pra a mulher e disse que, milagrosamente, eu estava completamente bem e, no máximo, tinha ficado desorientado pela quantidade de remédios que havia enjerido. Só que como eu já tinha vomitado, aparentemente não corria mais nenhum risco.
Então, de maneira totalmente aleatória, fui obrigado a ouvir um sermão digno de respeito sobre valorizar a vida e não recorrer ao suicídio. O que era irônico porque... Eu não tinha tentado me matar! Muito pelo contrário, eu estava tentando sobreviver!
Comecei a me perguntar se eu estava participando de algum surto coletivo.
—Por ora, não irei relatar sobre isso para o seu pai, Erik. Mas se fizer novamente, juro que coloco você em um hospício! Você imagina com que cara eu poderia dizer a ele que você tentou suicídio? – A mulher continuou a buzinar no meu ouvido.
— Eu não tentei suicídio, cacete! – Joguei as mãos para cima, exasperado. Cara, aquilo já estava me cansando. E a minha voz estava esquisita. Por que a minha voz estava tão esquisita? Mistérios do além....
— E o fato de ter vomitado mais de quarenta e cinco pílulas para dormir foi mera coincidência? Poderia então me explicar qual era a sua intenção ao fazer isso? – Ela ironizou, batendo o pé impacientemente no chão.
Respirei fundo e deixei ela falando sozinha. Em parte, porque eu ainda não sabia como explicar aquilo, e em outra, porque senão eu ia acabar ficando mais puto do que eu já estava. Eu nem conhecia ela!
Para completar a minha sina, a porcaria do cabelo ficava me irritando toda hora caindo no meu olho. Achei esse fato em particular o mais entranho, porque o meu cabelo sempre foi curto e cacheado, mas quando passava a mão pareciam ridiculamente lisos.
Puxei uma mecha e olhei com mais atenção.
E aí percebi que estava loiro.
E então eu gritei.
Não, gritar é eufemismo. Eu surtei completamente! Sai correndo e gritando pelo corredor do hospital como se estivesse sendo perseguido por morcegos silvestres, e entrei no primeiro banheiro que vi pela frente – que por sinal, era o feminino.
Então olhei atentamente para a minha cara no espelho.
Mas não era a minha cara! Na verdade, eu nunca nem tinha visto aquele rosto até aquele momento.
A pessoa do reflexo era um garoto magricelo, branco feito um fantasma, com um cabelo loiro pálido irritantemente comprido até os ombros e que ficava caindo nos olhinhos azuis e tudo mais. Sem falar que ele era um tampinha com um pouco mais de 1’65 de altura. Quando se está acostumado a ver um belo latino, alto, moreno de cabelos cacheados... Acredite, aquilo foi à visão do inferno.
Sem brincadeira. Por minuto achei mesmo que tinha sido condenado ao inferno e aquilo ali era a minha penitencia.
Pra começar... Onde estavam os músculos? Onde estavam as minhas tatuagens? Onde estava todo aquele corpo trabalhado, sarado e maravilhoso que deu um trabalho do cão para conseguir?
Tinha sumido. Simplesmente sumido!
E no lugar, me deram um corpinho de um garoto frágil com cara de mulher (que Erik não me escute dizer isso. Amém.). Mas em resumo, a única semelhança entre Erik e eu, é que somos da raça humana. De resto... Decadência total. Só ladeira abaixo...
Bem, o que mais você esperava? Uma reação positiva da minha parte? Ah, pelo amor de Deus! Eu queria quebrar a cara do infeliz que havia feito àquela merda comigo!
Embora, naquele momento, tenha me contentado em apenas dar um murro no espelho do banheiro. Coisa bem idiota de se fazer, diga se de passagem. Acabei com um corte muito feio naquela pele de pêssego do vale que era a mão do Erik. Não que eu tenha me importando muito. Eu tinha outras prioridades pra me preocupar. Tipo o fato de que aquela mão nem era minha, por exemplo.
Mas preocupou, e muito, a senhora que provavelmente era a mãe dele. Ela fez outro escândalo quando viu o estado da minha mão.
E o resultado final: Cinco pontos na mão esquerda e mais uma hora de sermão por ter quebrado o espelho do banheiro.
Nessa altura do campeonato, eu já não fazia a menor ideia do que poderia ter acontecido ao meu verdadeiro corpo. Mas pela situação, já dava pra ter uma boa ideia. Eu havia morrido mesmo. Bati as botas, fui para a terra dos pés-juntos, vesti o paletó de madeira e seja lá como você quiser chamar.
— Você não pode mais faltar a escola ou irá perder outro ano. – A mãe do Erik disse depois que saímos do hospital. – Mas não deixe que nada sobre o incidente de hoje vaze, entendido? Não queremos mais um tumulto por sua causa.
Olhei para cara dela.
— Escola? Sério? — Eu estava preso em um corpo que não era o meu, que tinha acabado de tentar suicídio, e ela estava me falando sobre a merda da escola? — Por que eu voltaria para lá?
— Você não vai perde o último ano, eu já disse. — Ela resmungou. — E você vai terminar de me enlouquecer se continuar em casa. Então, não importa o que você diga, a partir de amanhã você vai voltar para a escola.
Eu passei mais de dez anos sem ver a minha mãe, mas me lembro dela o suficiente para saber que era uma mulher legal (o máximo de legal que alguém que abandona os próprios filhos pode ser), mas a mãe do Erik era uma completa ditadora. Ela enchia o saco por qualquer porcaria! Eu estava quase a mandando ir tomar banho na soda!
Só que não mais naquele dia. Aquele corpo havia chegado ao seu limite, e tudo que ele conseguia fazer era pedir por cama. Então quando chegamos em minha pseudo casa e pseudo quarto, eu me joguei, literalmente no chão. Dormi por lá mesmo.
Naquele momento, mal sabia eu, que o primeiro dia na escola do Erik mudaria para sempre a minha vida. Aliás, a minha pós-vida.
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