Mais Uma Vez: Extras

9 Extra: Capítulo 38


Notas iniciais
Depois de vários extras com safadezas, senti que eles precisavam de um momento fofo.

EXTRA: Capítulo 38, "Comidas, Carros e Beijos"

Edward

A primeira vez que a pirralha quase me matou do coração foi aos quatro anos de idade quando, por um descuido meu, ela escorregou na borda da piscina dos meus pais durante um churrasco. Eu a peguei e cuidei do ferimento no queixo na mesma hora, e o susto acabou sendo maior do que o machucado. Depois disso, ao longo dos anos, Claire quase me matou de susto várias outras vezes.

A vez de hoje, porém, havia sido muito peculiar. Memorável.

O susto que Bella e eu levamos ao ouvir sua voz, no meio da rua, na ocasião mais improvável, e o seu olhar furioso ficariam para sempre na minha memória. Eu nunca tinha visto a minha filha daquele jeito, e eu devia dizer que estava até um pouco orgulhoso. Sempre soube que ela tinha uma personalidade decidida, mas sua reação agora significava que ela tinha voz e força suficientes para persistir no que achava correto e importante para sua vida.

Bom, apesar da espertinha ter se metido no carro do namorado escondida, e por isso ela levaria uma bronca mais tarde.

Eu sabia que Claire não ficaria chateada conosco pelo segredo por muito tempo, porém. Ela não era de guardar mágoa – um traço que percebemos desde cedo nela. Entretanto, eu sentia que ela demoraria a se acostumar com tudo. Não era para menos. Eu também ainda tentava tirar uma conclusão de todos os acontecimentos da noite mais intensa dos últimos meses.

Além disso, eu ainda teria que achar coragem para lhe contar tudo sobre a minha partida, quase dez anos atrás. Ainda precisava debater com Bella sobre o que, exatamente, nós iríamos dizer. Mas eu sabia, não importaria o que eu dissesse, seria uma conversa dura.

A realidade disso ficou ainda mais clara quando Claire perguntou se eu lembrava do que havia dito naquela noite. Uma história que eu inventei para amenizar sua dor.

Eu me lembrava, e ao mesmo tempo não. Eu havia dito tantas coisas naquele dia, e ao mesmo tempo não falei nada. Eu só queria apagar da minha memória o rosto confuso da minha filha quando a deixei para trás naquele apartamento. Mas eu tinha ciência de que não podia – todas essas memórias eram parte da minha história e de quem eu era, não dava para apenas sumir com elas.

— Mais ou menos... – eu respondi e voltei a dirigir quando o semáforo ficou verde. – Foi uma noite turbulenta pra mim.

Então ela emendou concluindo que lá no fundo, sempre desejou que Bella e eu voltássemos a ser um casal, pois eu tinha lhe prometido que voltaria para casa um dia.

Ouvi aquilo com peso no coração. A inocência de criança e a esperança ainda estavam em suas palavras. Meu peito doeu, de repente refletindo sobre como, nesse tempo todo enquanto eu tentava lidar com meus demônios e meus sentimentos por Bella, eu quase não prestei atenção ao que a nossa filha sentia sobre a separação.

Ela sempre pareceu forte e indiferente, como se tivesse aceitado numa boa, e me incomodava pensar que ela poderia ter sofrido calada, esperançosa por conta de uma promessa boba minha.

— Acho que isso acontece com muitos filhos de pais separados. – retruquei gentilmente, e fiquei quieto, rezando para que ela não insistisse mais no assunto, por não saber ainda o que pensar ou sentir a respeito.

No entanto, foi inútil. Era claro que ela não iria parar por aí, e me perguntou se eu não iria contar o que rolou na fatídica noite.

A verdade era que eu não me sentia nem um pouco pronto para compartilhar tudo aquilo com a minha filha. Eu havia levado semanas para fazer Bella entender meu lado; com Claire possivelmente seria igual. Por hoje, já havíamos tido emoções demais. Tive medo de perturbá-la ainda mais, de arruinar a felicidade que ela disse estar sentindo com as novidades.

— Vou. Claro. – suspirei, enfim respondendo. – Mas gostaria que fosse outra vez, é uma história pesada…

Ela concordou, felizmente. Eu sanei sua dúvida mais urgente dizendo que sim, tinha tudo a ver com meus tratamentos psicológicos, e ela pareceu satisfeita, me deixando escapar. Eu duvidava se merecia tanta compreensão. Minha menina Claire era preciosa.

Chegando no restaurante, eu tentei não pensar sobre essas coisas, e no quanto me deixava ansioso. O aqui e o agora eram mais importantes, era isso que eu tinha aprendido em anos de terapia.

Me foquei em observar a interação das duas, que conversavam com sincronia e fluência de dar inveja, sentadas lado a lado na pequena mesa redonda. Falavam acaloradamente de um livro sobre jovens lutando em arenas até a morte numa sociedade distópica ou algo parecido. Era difícil acompanhar, mas eu sorri sem perceber.

As duas eram tão lindas e inteligentes, tão apaixonadas pela vida e tão sagazes, que conseguiam me driblar e deixar tonto. Eu esperava pelo dia que eu não fosse mais um mero espectador desse jogo, que um dia eu pudesse me encaixar sutilmente nessa sintonia que elas construíram por anos longe de mim. Mas me dei conta de que talvez esse dia estivesse próximo. Pois agora eu tinha as duas na minha vida por inteiro, novamente, preenchendo quase todos os espaços vazios que antes doíam.

Isso.

Esse era um daqueles momentos especiais na vida de um homem. Num clique, senti me apaixonar mais uma vez pela mulher da minha vida e pela melhor parte de nós dois, a nossa pequena.

Bella me pegou olhando, e perguntou sussurrando no meu ouvido, – Que houve?

— Nada não, só estou te amando.

Eu a vi derreter. Ponto para mim.

— Sempre com as palavras certas... – sorriu. – Você devia escrever romances, Edward Cullen.

Eu ri, pois afinal eu tinha falado de propósito. Um homem também tem suas armas.

— Deixo esse trabalho pra profissionais como você, amor. – pisquei um olho.

— O que vocês estão cochichando aí? – Claire perguntou de lá, atracada com um rolinho primavera, a esfomeada.

— Estamos flertando, dá licença? – Bella respondeu, travessa.

— Ah, me desculpe se agora estou traumatizada e não aguento mais segredos de vocês. – ela falou, zombeteira e exagerada.

— Então a senhorita quer saber de tudo, tudinho, até quando estamos namorando? Pode deixar. Presta bem atenção agora. – Bella disse e, de surpresa, puxou meu rosto e me beijou em cheio na boca. De língua.

A reclamação enojada de Claire foi instantânea, e eu ri durante o beijo, tentando decidir quem estava sendo mais infantil naquela hora.

— Meu Deus, o que eu mereci pra ter pais assim? – ela resmungava. – Vocês às vezes passam os limites da vergonha alheia! Estamos em público.

Bella se deu por satisfeita e me soltou.

— Eu penso a mesma coisa dos meus pais, filha. – eu comentei, limpando meu queixo discretamente. – Esse é nosso dever. Se a gente não envergonhar os filhos, não estamos fazendo nossos papeis direito.

— Ah tá bom, claro, faz muito sentido. Uhum. – Ela rolou os olhos cheios de ironia, sacudindo a cabeça, como sempre fazia quando não dava nenhuma moral para nossas bobagens. Era bom saber que pouco havia mudado desde algumas horas atrás, apesar de tudo.

Bella riu.

— Você vai entender a diversão disso quando tiver seus filhos. "Só implicamos porque te amamos", não foi isso que você disse pra mim? O importante é que a gente te ama. – ela usou as palavras de Claire contra a própria.

— É, que seja. Mas também, se não me amassem, eu já teria denunciado vocês ao conselho tutelar e aí, adeus Clairezinha na vida de vocês.

— Que adeus, o quê? Esse tipo de denúncia nem existe, não fala besteira.

— Quem disse? Outro dia eu vi no Discovery Home and Health uma família que perdeu a guarda dos filhos por falta de amor e atenção.

— Você está confundindo. Isso aconteceu no seu jogo do The Sims quando levaram seus gatos…

— Urgh. Nem me lembre disso, me sinto péssima até hoje!

E assim elas continuaram o eterno bate-papo que eu vi nascer naquelas longas conversas que Bella tinha com sua barriga, quinze anos atrás.

Me divertindo e me fazendo feliz pelo resto da noite. Pelo resto da vida.

Notas finais
Uma vez levaram meus gatos no The Sims 3. Nunca me recuperei do trauma. Quem pegou a referência a Jogos Vorazes?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.