Mais Uma Vez

1 Eu não estou pronta


Mei caminhava com dificuldades, sem rumo, tremia de frio por causa das vestes finas. Seus olhos piscavam freneticamente na tentativa de enxergar algo sobre a penumbra daquela rua. Seu cabelo preto, agora, emaranhado tampava metade de seu rosto pálido. Sussurrava alguma coisa que nem ela mesma era capaz de ouvir.

Ela não sabia por quanto tempo iria resistir. A rua deserta trazia más lembranças à garota: a irmã assassinada. O pai que nunca conhecera. Aquilo estava literalmente um pesadelo. Nem mesmo soubera como chegou ali. Mas tinha a esperança de encontrar algo mais do que apenas o que era.

Perdida nos pensamentos, não notou o barulho monótono de rodas a sua esquerda, uma carruagem parou.

“Mei, O que esta fazendo aqui? Volte, por favor, volte”.

A garota levantou o olhar que, agora, refletidos a luz da lua expressava todo seu sofrimento nas lagrimas dos pequenos olhos castanhos escuros. Mas não viu nada, Não pode encontrar a origem da voz e nem a carruagem que tinha ouvido. Prédios grandes e negros compunha a rua que parecia infinita de escuridão dos seus dois lados. Tirou o que restava de forças e continuou a caminhada.

Sentiu olhos astutos observando sua figura penosa. Ouviu ruídos, sussurros, e sentiu vultos negros a cercarem, aos poucos sua visão ficou indistinta e tudo escureceu.

Estendida no chão torna a abrir os olhos dolentes. Uma forte chuva caia em seu rosto dando a sensação que estava sendo perfurada por laminas afiada. Levantou-se.

Viu uma luz, talvez o fim da rua ou o fim daquele sofrimento torturante. A luz penetrou seus olhos como o calor do fogo. Sentiu-se convidada a seguir a luz.

Seu coração palpitava descompassado, ela arfava. Um calor imenso dominou seu corpo, tudo o que se podia ver agora era a luz que fazia doer-lhe os olhos. Sentiu-se segura envolta aquele clarão. Quando menos esperava uma mulher surgiu flutuando em meio a forte luz. Tinha cabelos castanhos escuros que flutuavam sobre a leve brisa no meio daquele nada. A mulher sorriu para Mei. Mesmo tendo a expressão de seu rosto enfadada, transmitiu para Mei certa segurança. Mei Arregalou os olhos tentando ver melhor. A mulher então sussurrou algo quase inaudível antes de dissipar-se em névoa. Mas Mei pode entender claramente o que a mulher disse:

“Não desista” Disse sua mãe.

— Mei, Acorda... Vai se atrasar pra aula.

A garota ouviu a voz da mãe e os murros na porta de seu quarto.

— Já vou Mãe — Respondeu sonolenta

— Quando estiver pronta pode descer. Seu café esta na mesa... Ah e, coloquei seu uniforme novo em cima das caixas de roupas.

— Preciso mesmo fazer isso? — perguntou Mei virando a cabeça no travesseiro e olhando pra porta.

— É claro que sim — Respondeu a Mãe prontamente.

Mei sentou-se na cama. Olhou pra parede e viu seu pôster do The Beatles.

Ah, esses caras eram ótimos, Murmurou esfregando os olhos. Levantou-se e foi ate as caixas de roupas que ainda não fora desfeita pelo motivo de acabarem de ter se mudado para nova casa. Estendeu o Moletom preto e em verde e branco estava escrito: “Tomaz Edison”. Arqueou a sobrancelha. Sério? O da lâmpada? Pensou. Viu o espelho encostado no canto da parede, parou em frente ele. Experimentou o moletom por fora o esticando pelos dois braços. Tentou sorrir para si mesma, mas desistiu ao ver sua expressão exausta pela noite de pouco sono. Ela odiava se mudar, e mais uma vez estava fazendo aquilo contra sua vontade. Vestiu-se e desceu para a cozinha.

— Bom dia — Disse a mãe dando às boas vindas a garota — Você esta linda!

— Ah, oi mãe.

Elena estava como sempre animada, sorridente. Seu cabelo castanho escuro brilhava adoravelmente na luz que entrava pela janela dos fundos da casa. Preparava torradas.

— Mãe, é o da lâmpada? — Perguntou Mei abandonando a bolsa em uma das cadeiras em volta da mesa.

— Lâmpada? — disse Elena virando-se para a garota.

— Sim, o do uniforme — disse apontando para seu peito — o colégio.

— Ah, sim... Acho que sim. — disse a mãe sentando-se a mesa — esta animada?

— nenhum pouco!

— Filha... — A mãe remoeu — você sabe que...

— Ta, Ta bom eu sei... É sempre a mesma historia: Não estávamos nos dando bem lá, você estava ficando sem dinheiro. Precisamos pela terceira vez nos mudarmos e blá blá blá.

Mei se sentiu um pouco culpada ao ver que a mãe abaixara a cabeça enquanto ela falava. Mas era sempre assim! Quando ia mudar? Mei já não suportava ficar pulando de cidade em cidade. Queria amigos estáveis. Queria não dizer Adeus, aquilo doía.

A torradeira apitou. Elena se levantou pegou dois pratos e serviu a garota.

— Desculpa Mãe — Disse Mei — é que... Você sabe como eu me sinto.

— Sim, eu sei filha, Mas eu prometo que agora ficamos aqui — disse enquanto abraçava a garota.

Mei sentiu-se confortada com aquilo. Amava sua mãe mais que tudo, era seu maior bem.

Lembrou-se do sonho. Por um segundo desligou-se vendo a imagem da mãe flutuando no meio da luz branca. O que aquilo significava? Ela não sabia. Na maioria das vezes tinha sonhos estranhos como este.

— E então? Pronta? — perguntou Elena

— É... Acho que sim — Respondeu Mei.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.