Mais Uma Vez

45 Capítulo 44: Segunda Chance


Notas iniciais
Obrigada a Dandara por betar o capítulo e surtar com a Bella ♥ Oi! Como estamos? Espero que bem. Apresento um dos meus capítulos favoritos da fic, que amei escrever, acho que tá lindo. Leia com carinho, lembre de me dizer o que achou!

Capítulo 44: Segunda Chance

— Eu odeio essa mulher. Odeio!

— Ela é sua mãe, Isabella. Não fala isso.

— Dane-se que é a minha mãe, ela não tem direito de me prejudicar assim! Parece até que eu pedi pra ela encobrir um crime, porra, só pedi um dinheiro que é meu!

— Não grita, por favor. Só vai piorar tudo.

— Não dá, pai. Se eu não gritar, eu vou explodir.

Meu pai. Tão paciente. Tão pacífico. Traços que eu geralmente adorava nele. Agora, me davam nos nervos.

De pé na porta no meu quarto, ele assistia todo o meu frenesi atrás de roupas para colocar na mala empoeirada que peguei embaixo da cama com muita dificuldade. O planetinha que eu carregava no corpo me deixava lenta e desajeitada quando eu mais precisava de velocidade.

Além do choro incessante, eu ofegava, mais cansada que o normal – embora nem lembrasse mais como o normal era há tempos.

— Filha. Larga essa mala. – eu o ignorava. – Você não vai embora.

— Vou sim! Chega.

— Eu não vou deixar. Te proíbo.

— Eu te amo, pai, mas você não tem que deixar ou proibir nada. Não dá mais. Já cheguei no meu limite. Vou pra longe desse inferno antes que eu me queime mais ainda.

Quase podia ouvir seus ombros caindo, derrotados. Pois é, eu sabia ser uma vaca quando queria também. Havia aprendido com a melhor.

— Tudo bem, mas fica aqui por essa noite… Bella, se acalma, vamos deixar os ânimos darem uma baixada, sentamos com sua mãe no café da manhã e conversamos civilizadamente. Nada como uma boa noite de sono pra resolver um problema.

— Não tem conversa. Ela já fez a escolha dela, você viu, não vai abrir mão. – Eu jogava livros, cds e meu caderno de escrita na mala. Por que minha vida não podia ser normal? Por que minha mãe tinha que ser tão complicada? – Faço dezoito anos em três meses. Tem um bebê na minha barriga, porra! Ela precisa entender que não sou mais criança e a partir de agora eu decido sobre a minha vida e a vida da minha filha!

Eu tagarelava minha irritação ao vento. Papai já sabia de tudo isso, eu havia repetido tantas vezes. O bom é que ele ainda tentava me fazer ficar. Deixava menos dolorido saber que alguém nessa casa me respeitava e me entendia de verdade.

— Eu sei. Eu sei, estou do seu lado. Mas você não está em condições de sair agora. Nem tem pra onde ir. Se acalma e pensa direito no que está fazendo.

— Eu sei o que estou fazendo. Edward tá chegando, já falei com ele.

Meu pai calou-se, triste e decepcionado, eu sabia mesmo sem vê-lo. Meu olhar estava focado na minha tarefa de fuga. Não o encarei nesse processo todo, morta de medo de me quebrar ao ver seus olhos doces implorando que eu ficasse.

Minha mãe havia saído de casa logo após a discussão porque era isso que ela fazia. Quando não tinha mais argumentos, simplesmente saía de cena para voltar por cima. Era assim que ela sempre ganhava as brigas, e eu me arrependia de nunca ter agido igual enquanto crescia.

Mas hoje seria diferente.

— Pra onde vocês vão?

— Não sei. Vamos ficar um tempo na casa dos pais dele, depois a gente dá um jeito…

— Vocês são malucos? Você vai parir em quatro meses e já teve problema uma vez, não tem essa de dar um jeito, você tem que ficar segura em casa.

— Eu sei me cuidar, pai, por favor, confia em mim. Só não me pede pra ficar, porque isso agora é impossível.

Terminei de arrumar tudo em quinze minutos, um recorde. Não que tivesse muita coisa. Poucas roupas, itens essenciais, minha mochila da escola, a mala da maternidade e o All Star nos meus pés. O resto, pediria para alguém vir buscar depois, talvez Esme que tinha mais respeito com Renee do que eu.

— Que loucura, meu Deus… – meu pai dizia, ainda perplexo.

— Loucura é o que eu tenho vivido aqui. Loucura é o que eu terei se continuar nessa casa.

Fechei o zíper com as lágrimas turvando meus olhos quando ouvi a buzina já conhecida. Nem olhei pela janela para saber que meu namorado me esperava lá fora.

Jogando minha mochila nas costas, a malinha da neném numa mão e a minha na outra, suspirei pesadamente, caminhando para fora daquela casa. Me sentia com quinhentos quilos, dentro, fora e ao redor.

— Pelo menos deixa eu levar isso até a porta. – meu pai puxou minhas malas para me aliviar. O choro veio de novo, porém ao menos agora tinha as mãos livres para poder catar o disco do Radiohead que não caberia em nenhum lugar e eu com certeza sentiria falta.

Tentei não pensar em tudo que deixava. Minha jaqueta favorita do Hard Rock Cafe, a cadeira de balanço, o poster idiota do Barrados no Baile que pendurei aos 12 e nunca tive coragem de tirar. A cada passo, minha infância ficava para trás.

Meu pai não fazia mais esforço algum para tentar me parar, e eu não sabia dizer se estava grata ou decepcionada. Na porta, nosso abraço foi longo e desajeitado. Parecia que meu corpo tinha desaprendido como abraçar, e os pézinhos dela quicavam meu estômago já embrulhado, como num protesto.

— Eu queria que as coisas fossem diferentes. Queria tanto. – confessei, desabando de soluçar em seu peito. Nunca estive tão cansada.

Papai acariciava meu cabelo de forma ritmada, e mesmo que eu quisesse muito, aquilo não conseguiu me acalmar como sempre acalmava.

— Eu sei, querida. Eu também.

— Você me desculpa?

— Pelo quê?

— Desculpa… Por não ser a filha que vocês desejavam. Por ser uma vergonha pra família.

Senti seu corpo enrijecer, antes de se mover para pegar meu rosto e me obrigar a encará-lo de verdade pela primeira vez em uma hora.

— Isabella. Eu vou dizer uma vez só. Nunca mais repita isso. Ouviu? Nunca mais. Você não é uma vergonha. Nem pra mim, nem pra sua mãe. Entendeu? – Eu não conseguia falar nada, então só assenti a cabeça, embora não acreditasse em nada daquilo.

Além de ser impossível respirar com essa barriga, chorar como um bezerro também não ajudava. Só quis chorar mais.

— Obrigada, pai. Eu te amo.

— Eu também te amo.

— Preciso ir. – falei abrindo a porta, cheia de alívio ao ver Edward me esperando fora do carro emprestado de Alice. Era minha liberdade e meu futuro em um metro e noventa de gente.

— Baby. – ele beijou minha testa antes de pegar as coisas da minha mão para que eu entrasse. Minha cabeça doía tanto e eu só lembrava de Carlisle dizendo que eu não podia me estressar, puta merda.

— Os seus pais estão de acordo com isso, rapaz?

— Estão sim, Charlie. Fica tranquilo.

— Me mande notícias, filha. – meu pai implorou na janela do carro, mas eu sequer pude responder.

Num corte seco de nossa despedida, a voz dela surgiu do outro lado da rua. Intencionalmente cruel como só ela sabia ser.

— O que significa isso, Isabella?!

xxxx

Emergi da banheira subitamente, buscando meu ar que havia ficado no fundo dela por meio minuto. As gotas escorriam do meu cabelo, entrando salgadas na minha boca.

Tinha vindo para cá me esconder e chorar um pouco antes de enfrentar o mundo real amanhã. As lembranças hoje estavam vindo a todo momento, um bando de intrusas. O dia inteiro foi de prender o choro.

Oitenta e quatro mil doláres.

84 mil 530, para ser exata. Foi o valor daquela briga em junho de 1995.

Era meu, minha mãe sempre me disse – enchia a boca para dizer, até. Minha poupança para a faculdade que ela e meu pai haviam começado a juntar assim que nasci.

Se era meu, e eu já estava quase na idade de ir para a faculdade, então eu já poderia ter acesso e fazer o que quisesse com o dinheiro, incluindo comprar uma casa para morar com o pai da minha filha, certo?

— Não vou deixar você destruir seu futuro mais do que já destruiu, Isabella. Esse dinheiro fica guardado até você terminar seus estudos como eu e seu pai planejamos. – fora sua palavra final. O martelo batido que mudaria os rumos da minha vida para sempre, a partir daquele momento.

Era incrível como hoje isso tudo parecia tão distante, em outra vida, e ao mesmo tempo, ainda estava bastante vivo dentro de mim.

Os sentimentos haviam se transformado, claro. Eu não me importava mais com o dinheiro, eu não dependia mais da aprovação dos meus pais, e hoje, sendo mãe, talvez pudesse até entender um pouco sua tortuosa maneira de tentar me proteger.

Entretanto, aquele nó continuava lá. Mal resolvido, doloroso, tudo um breu naquele cantinho escondido do meu coração. Talvez minha última porta ainda trancada, de tantas que precisei passar a chave para não sucumbir às dores.

As palavras de Edward para a irmã no funeral de seu pai ecoavam na minha cabeça, tão propícias ao momento: eu sei, mas ainda dói.

Ainda doía.

Os dias seguintes à morte de Anthony não haviam sido fáceis.

Edward tinha feito sua malinha para ficar um tempo na minha casa, sendo paparicado por Claire e eu, pois jamais conseguiríamos deixá-lo sozinho. À noite, eu o segurava para dormir como uma criança, o pouco que conseguia – ainda tinha pesadelos, acordava aos pulos. Coisas que só o tempo melhoraria.

Não reclamei. Ele não dava trabalho, pelo contrário. Apesar de estar visivelmente mais quieto, era um ótimo hóspede, uma adição bem-vinda à nossa casa. Quando não estava no trabalho, se ocupava cozinhando ou jogando video-game com Claire, sem muita conversa. Minha preocupação continuava, porém me acalmava saber que ele estava bem amparado pela terapia e pelo apoio da família.

Nunca vi tantas vezes Edward trocando mensagens no celular com sua irmã, soltando risadinhas e sendo bobo. Percebi ser só uma de suas facetas que eu não via, as coisas que ele fazia quando não estávamos juntos.

Hoje era domingo, um dia antes do encontro que marquei com minha mãe.

Edward ficou sabendo mais cedo, precisei contar depois de ficar tanto tempo aérea e emotiva. Me abraçou, feliz, quando soube, me encorajando a não dar para trás. Claire estava junto e se uniu ao abraço, embora tivesse deixado claro o quanto estava receosa com a possibilidade de eu me magoar.

— Acho legal você ir falar com a vó Renee, finalmente, mas se você voltar chateada, eu vou querer o número dela. Mexeu com a minha mãe, mexeu comigo. Mesmo se for a própria mãe dela. – ameaçou. Foi nessa hora que apertei minha filha pela fofura de garota que era, até ela reclamar. – Ai! Apertar a bochecha é sacanagem, hein. Quero ver se eu apertar a sua.

Seu pai e eu rimos antes de atacar suas bochechas com beijinhos. Edward aproveitou aquele momento para contar à ela a sua própria novidade que estava guardando há dias.

— Então, Claire, eu também tenho uma novidade.

— Boa ou ruim? Se for ruim, nem precisa contar, já é domingo à noite, deprimente por si só.

— Acho que é boa. Não sei ainda. – seu olhar para mim foi nervosismo puro. – Mas… É que nossa família aumentou. Sua tia e eu descobrimos duas irmãs, filhas do Anthony.

— Que susto, por um momento achei que ia falar que a mamãe tava grávida. – ela me olhou torto, e eu revirei os olhos. – Ah, que legal, pai. Quer dizer, elas são legais? Devo estar feliz?

— Vou descobrir em breve. Marcamos um encontro pra conversar com uma delas, a Brianna. Ela deve ter a idade de Rosalie.

— Nossa. Esse cara… Até família escondida tinha. Cheio de encrenca, né.

Edward riu de seu jeito despojado.

— Pois é. A Brianna falou que quer conhecer a gente, eu e Alice. A outra não parece querer papo, mas quem sabe um dia. Ela é a Elizabeth. Que, se eu bem me lembro, é o nome da minha avó paterna. Sua bisavó de sangue.

— Ok, é informação demais de uma vez só. Explica essa história direito. Como vocês souberam delas?

Edward terminou de contar tudo, o quanto dava e o quanto ele sabia. Mas não havia sido a única conversa séria que tivemos no dia.

Horas mais tarde, antes que eu me retirasse para o refúgio solitário da minha banheira após o jantar, ele me chamou no quarto.

— Obrigada pelo jantar, tava tudo uma delícia. – falei, beijando sua cabeça. Estava sentado na minha mesa respondendo emails no notebook. – Você tá virando um cozinheiro incrível. Nunca esperei isso.

— É o mínimo que posso fazer, né? Estando aqui na sua casa, alterando a rotina de vocês… E agradeço pelo elogio. É muito esforço envolvido.

— Você sabe que não tem problema nenhum, a gente ama ter você aqui. – eu fazia um cafuné no seu cabelo. – E nos alimentando, então, o amor se multiplica umas cem vezes.

Ele riu, me abraçando pela cintura e beijando minha barriga. Mas seu riso sumiu quando tornou a me olhar.

— Você vai fazer alguma coisa agora? – Perguntou.

— Tomar banho.

— Podemos conversar antes?

— Sobre?

— Só queria esclarecer aquelas questões que a gente não resolveu no dia do funeral… Sobre Tanya e tudo mais.

— Certo. – meu estômago pesou, e eu sentei-me na cama. Pouco pronta, mas resiliente. – Tá bom. Fala.

— Bom. – ele fechou o computador, girando a cadeira para mim. – Primeiro, quero pedir desculpas por te ignorar naquela semana. Eu não estava conseguindo lidar com tudo ao mesmo tempo, e ainda ter que te encarar... Sei que tenho essa tendência a ficar recluso pra evitar lidar com as coisas. Acabei caindo na minha própria armadilha e fui um imbecil com você.

Eu assenti lentamente.

— Tudo bem.

— Não, não tá tudo bem, eu sei que foi ruim pra você. Errei.

— Mas não foi tão ruim, nem senti raiva, só preocupação. Fiquei paranoica, achei que estava distante pelo que discutimos sobre Tanya. Eu não queria que você achasse que eu estava realmente furiosa de ciúmes.

— Não achei isso em momento algum. Eu só precisava de um tempo pra pensar no que fazer em relação à ela... Mas depois Anthony voltou a me procurar, e o resto da história você já sabe. Eu não queria te arrastar pro meio dessa bola de neve.

Ele parecia tão arrependido. Sorri tristonha.

— Não adiantou muito, né? Acabei preocupada de qualquer forma. Primeiro com seu sumiço, depois com a reação que você teve naquela madrugada…

— Eu sei. Aprendi a lição, mais uma. Perdão.

— Não precisa pedir perdão, foi a forma que você conseguiu achar pra lidar com tudo. – eu disse, absolvendo-o de uma culpa que jamais atribuiria a ele. Me recostei na cama. – Engraçado.

— O quê?

— Eu devia ter previsto, sabe… Tanya me alertou que isso aconteceria.

— Como?

— Na festa do livro, quando conversamos no banheiro. Ela me fez prometer que eu não te abandonaria quando as coisas ficassem difíceis, quando você tivesse suas crises… Mas só agora eu entendi de verdade o que ela quis dizer.

Visivelmente emocionado, ele assentiu.

— É, ela se preocupava muito comigo mesmo. Era fácil me abrir com ela. A gente se entendia nesse departamento. Não é à toa que nos conhecemos na sala de espera dos nossos psicólogos.

— Ela te conhece bem, né?

— Você conhece mais.

Sorri com sua tentativa de me tranquilizar.

— Tanya conhece um lado seu que eu não conhecia de verdade. Mas eu quero conhecer. Já disse, se eu te quero por inteiro, preciso encarar essa parte de você também. Você só precisa confiar em mim, Edward.

— Eu sei, amor. Eu sei. Juro que vou tentar mais. – suspirando pesadamente, deixou o corpo cair na cadeira, recostando-se. – Então... Tanya me mandou mensagem novamente esses dias. Duas na verdade. Uma pra dizer que ficou sabendo o que aconteceu, através dos funcionários do Hotel, me mandando condolências. E outra pra reforçar o convite que fez.

— O convite pra você ir vê-la antes de se mudar pra Espanha.

— Isso.

— Você quer se encontrar com ela. – afirmei, uma verdade que eu já tinha sacado há tempos. Edward desviou o olhar por um segundo.

— Por que acha isso?

— Se você não quisesse ir, não teria sumido e ficado tão culpado por ter trazido o assunto pra mim, nem com a cabeça cheia de conflitos e tendo crises de ansiedade. Estou mentindo?

Ele esticou-se sobre a cama e pegou minha mão, acariciando.

— Eu te amo.

— Eu também te amo.

— Por isso fiquei culpado. Fiquei com vergonha de não ter contado antes sobre o convite. Porque não cumpri nosso trato que é tão importante pra você, sobre sermos honestos. Eu sei que você ficou mais chateada com isso do que qualquer outra coisa.

— Fiquei. – suspirei.

Não podia mentir para mim mesma. No meu coração, esse encontro era a última coisa que eu gostaria que acontecesse. Mas essa questão, diante de tudo, já parecia tão pequena e me fazia sentir boba. Eu teria que deixar o medo e orgulho de lado, e finalmente dar o aval que ele precisava.

— Bem, sobre o convite…

— Sobre o convite. – eu o interrompi, limpando a garganta do bolo que se formara. – Quando você me contou, fiquei assustada, pensando um monte de bobagens, exagerei na reação. Mas agora vendo em outra perspectiva, acho que você deve ir, sim. Será bom pra vocês dois.

— Acha mesmo?

— Essa semana com você… Agora eu consigo entender bem o que ela quis dizer pra mim. Vocês tem uma história juntos, não posso negar. Não posso impedir que deem esse ponto final nela.

Meu namorado me encarou franzindo a testa, surpreso, como se fosse brincadeira.

— Tem certeza? Você não vai se chatear se eu for?

— Não darei pulinhos de alegria, óbvio, mas aquele encontro no banheiro da festa me marcou… Tanya tem uma visão muito lúcida sobre as coisas, ela entende que já acabou, que você me ama e isso não vai mudar. Se ela tentar qualquer coisa… Bem, você é adulto e sabe se virar.

Ponderando por um tempo, ele acabou concordando com a cabeça, mesmo que relutante, antes de vir para a cama me abraçar forte.

— Eu não te mereço. Obrigado por ser paciente comigo. Nunca vou saber agradecer o suficiente.

— Você que me ensina a ser assim, desde sempre. – As lágrimas ameaçaram cair já ali. Quantas vezes ele já tinha sido paciente com todos os meus dramas e defeitos desde o início da nossa história?

— Posso preparar uma banheira pra você?

— Você sabe?

— Já te vi fazendo algumas vezes, então acho que sei. Vai relaxando aí, já te chamo.

Relaxar de verdade foi impossível.

Ele me chamou um tempo depois e me deixou lá na banheira com um beijo na testa. Minha única companhia eram aqueles pensamentos que me fizeram desabar em um choro baixinho.

Depois de quase uma hora, saí ainda secando o cabelo, ainda pensando porquê minha memória teimava em reviver aquela terrível lembrança do dia que saí da casa dos meus pais aos quase cinco meses de gravidez.

Fingi normalidade colocando meus cremes noturnos de sempre, antes de encontrar Edward já na cama, adormecido. Tentei entrar nas cobertas com cuidado, porém falhei e me xinguei por acordá-lo de seu sono leve e ultimamente problemático.

— Demorou. Tá tudo bem? – Ele piscou um pouco na luz fraca do abajur.

— Tá…

— Você tava chorando.

— Aham. – funguei sem tentar disfarçar meu rosto provavelmente inchado.

— Por minha causa? – Aquela ruga de preocupação apareceu em sua testa.

— Não. Outra coisa. Amanhã a gente conversa.

— Ok. – ele pegou minha mão para deixar um beijo. – Boa noite…

Não demorou para que Edward voltasse a dormir ao meu lado. Já eu, fiquei algumas horas olhando para o teto, concatenando cenários, criando falas, respostas, diálogos para meu encontro de amanhã.

.

.

Acordei um pouco antes do despertador com uma voz na minha cabeça falando “84 mil 530 dólares”. O dia seria longo.

A manhã se arrastou, a concentração no trabalho foi escassa em meio aos meus bocejos e copos de café. O padrão repetiu-se até dar cinco da tarde. Não fui para casa, pois não daria tempo. Marcamos às seis em ponto, e eu gastei a hora batendo perna pelas lojas do centro, olhando vitrines com a cabeça longe.

Meu celular vibrou quando entrei no carro para sair, disparando meu coração.

[Renee]
Estou chegando no restaurante.
É só dizer seu nome?

Eu tinha feito reserva num lugar perto do meu trabalho, que Edward me levava às vezes. Fora escolhido a dedo por ser familiar e a comida tradicional o bastante para me trazerem um conforto necessário. Era o que eu rezava para acontecer.

[Isabella]
Isso, Isabella Swan.
Já estou indo também.

[Renee]
Minha memória é ruim,
mas ainda não esqueci seu nome, Amelia.

Eu ri de surpresa, sem esforço nenhum, talvez a primeira risada do dia.

Se me pedissem para descrever a minha mãe em poucas palavras, seria irônica e debochada na mesma medida que rígida e ácida. Minha torcida era para que apenas o bom humor tivesse continuado igual.

Respondi com um “Hahaha!” e segui a curta viagem no meu carro, tamborilando os dedos enquanto o semáforo não abria. A ansiedade que senti antes de encontrar Edward pela primeira vez naquele café para ouvir sua verdadeira história nem chegava perto do que sentia agora.

Era diferente. Eu estava diferente. Esperava que Renee estivesse também.

Quando cheguei ao restaurante, estacionei alguns carros atrás da entrada, evitando olhar para achar seu rosto por ali. Meu coração palpitava ridiculamente, meus dedos quase deixaram cair o celular quando peguei para falar com meu namorado.

— Já chegou? – Ele foi mais rápido e ligou antes.

— Cheguei, mas tô parada na porta, dentro do carro... – Baixei a cabeça no volante, sentindo tudo girar de olhos fechados. – Acho que não vou conseguir comer nada, eu devia ter marcado um cafezinho. Aliás, não, porque ela odeia café, só ia reclamar. Um chá.

— Vai dar tudo certo, relaxa. Você já fez coisas mais difíceis.

— Você já conheceu a minha mãe?! Vou ter que encará-la pessoalmente depois de uma década. Não consigo pensar em nada mais difícil que isso.

Você literalmente já deu à luz, amor. Vai tranquila, no seu tempo. Respira. É só sua mãe.

Era só a minha mãe. Eu me agarrei à sua voz suave me dizendo as palavras de conforto para conseguir sair do carro e andar até a porta do restaurante. Porém, quanto mais repetia na minha mente, pior ficava.

Era só a minha mãe. Mas também não era.

Aquela era a mulher que me fez viver sob a pressão de ser a filha perfeita, que me fez sentir vergonha de ser quem eu era e quem eu estava me tornando. Ela nunca me disse, mas eu sabia que eu era seu maior fracasso. Era nítido em seus olhos e na sua ausência.

Tudo havia ficado no passado, era essa a ideia na qual eu devia me apoiar.

Mas se isso era o passado, por que eu ainda tinha tanto medo do que sua presença seria capaz de fazer em mim?

xxxx

— O que significa isso, Isabella?!

— Deixa ela, Renee. – meu pai interveio, entrando na frente da minha janela antes que ela pudesse chegar perto.

— Você acha que eu vou deixar filha minha sair escondida igual criminosa? Você deixa ela fazer o que bem entender, é por isso que estamos onde estamos!

— Edward, vamos embora. – falei antes que ela tentasse me puxar daquele carro. Ele levou uma eternidade até fechar a porta traseira e entrar.

Meu coração palpitava, tanto no meu peito quanto na minha nuca. Lá dentro, ela não parava de chutar minha costela. Eu não sabia se queria vomitar ou desmaiar, ou tudo junto.

— Para com essa palhaçada, Isabella. Entra em casa. Agora. – eu ouvia minha mãe batendo no vidro ao meu lado. Fechei os olhos tentando ignorar, tentando focar em respirar e sobreviver. – Olha o escândalo que você fez aqui fora. Os vizinhos todos olhando. Vem pra casa logo, deixa de pirraça.

Edward enfim entrou, colocando o cinto e fechando a porta.

— Você tá bem? Quer mesmo ir?

— Liga essa merda de carro! – Eu gritei sem motivo, mas com toda a razão.

Ele fez o que eu pedi, arrancando com o carro que nem era dele, para que eu fosse para uma casa que nem era nossa. Tudo errado. O que eu estava fazendo da minha vida?

Minhas lágrimas voltaram, queimando minha face.

— Bella. – ele chamou de novo, a voz calculadamente calma como eu já conhecia. – Eu vou perguntar de novo porque você tá muito nervosa e pálida e tá me assustando. Você tá bem? A gente precisa ligar pro meu pai?

— Eu só tô com dor de cabeça e meio tonta. Enjoada, sei lá. – eu, ainda de olhos fechados, massageava minhas têmporas, a cabeça encostada no banco.

Ele ficou quieto por longos minutos. Graças a Deus. Falar era a última coisa que eu queria agora, e Edward era legal o bastante pra entender isso, sempre foi.

A casa dele não era tão longe da minha, porém comecei a sentir muito mais curvas do que estava acostumada no trajeto que já havia feito milhares de vezes. Quando resolvi abrir os olhos, foi para ver que tínhamos entrado numa avenida, saindo do subúrbio.

— Você perdeu a entrada?

— A gente vai pro hospital.

— Quê?! Não, cara! Amanhã tem aula, não poss—

— Foda-se a aula. Eu não vou conseguir ficar em casa com você desse jeito.

— Não precisa, eu tô bem, juro. Só preciso de um banho e relaxar com um sorvete na cama. Se quiser me oferecer uma massagem nos pés, eu aceito.

Edward balançava a cabeça, olhos fixos no trânsito como o motorista excelente que era, todo calmo e no controle da situação. Mas eu via seu maxilar trincando os dentes como fazia quando estava nervoso.

— Nem adianta, Bella. Você tá com os mesmos sintomas da outra vez. Não vou arriscar.

— Por favor, não. – choraminguei. – Você sabe que eu odeio hospital.

— Ninguém gosta de hospital, espertinha.

Rolei os olhos enquanto bufava, minha mão indo acariciar minha barriga porque ela tinha dado um salto especial dessa vez. Engoli em seco tentando não dar atenção à ligeira dor que senti no baixo ventre.

— Saco. Você viaja na preocupação às vezes…

— É pro bem de vocês. – ele pegou minha mão quando parou no semáforo, a que eu tocava minha barriga, e levou à boca. Beijou meus dedos rodando a aliança idiota de compromisso que ele me implorava para usar, mas que agora eu não conseguia viver sem. Tão delicado, que por um segundo conseguiu amolecer a dureza do meu corpo.

Mas não o suficiente para me fazer esquecer que ele ainda queria me levar para a porra do hospital.

— Então você devia saber que o que é pro meu bem agora é ficar deitada numa cama quentinha. – tentei, sem forças.

— Só estou fazendo meu dever aqui.

Eu queria que ele estivesse errado. Muito mesmo. Mas quando chegamos à emergência, o banco de couro do carro estava molhado de vermelho.

Não era muito. Apenas o suficiente para me deixar ainda mais nervosa e meu namorado puxando os cabelos, sem conseguir entender que as atendentes não podiam tirar o Dr. Carlisle Cullen de uma cirurgia só porque o filho estava mandando.

Aconteceu tudo de novo, como da primeira vez há dois meses.

Tiveram que esperar meu pai chegar porque, para todos os efeitos, eu ainda era menor de idade e devia estar acompanhada para alguns procedimentos. Me colocaram numa cadeira de rodas até a sala de exames naquela roupinha ridícula, fiquei esperando por minutos intermináveis.

Foi a mesma médica que me atendeu, uma gineco-obstetra de mãos geladas que meteu o dedo lá dentro me machucando toda, enquanto as minhas lágrimas escorriam em silêncio. Eu só pedia para estar tudo bem. Mas sabia que estava tudo errado. Merda.

Meu pai ficou na recepção, enquanto Edward esperou no corredor, coitado, todo nervoso, até que pudesse entrar na hora do ultrassom. Ele me beijava na testa delicadamente como se eu fosse de porcelana, sua mão na minha provendo o alívio e o calor que eu necessitava. Eu tremia naquela salinha.

Acho que ambos não respiramos até aquele barulhinho do coração preencher o espaço. Forte, me lembrava uma ventania. Edward deixou sair o ar com a testa colada na minha.

— Garotos, vocês podem ficar tranquilos. – a Dra. Carey falou. – O bebê está forte, os exames estão ok, a não ser pela sua pressão, Bella. O sangramento foi causado por alguns vasos rompidos. Você relatou que fez esforço mais cedo, certo?

Assenti, de repente envergonhada depois da adrenalina ter passado. Eu devia ter planejado tudo isso melhor. Talvez minha mãe estivesse certa sobre eu só fazer merda ultimamente. Eu merecia o castigo.

— Certo...

— Não pode. Da próxima vez, peça ajuda.

— Dra. Carey… – Edward, como em todo exame, encarava a tela do ultrassom concentradíssimo. – A gente já consegue saber o sexo?

— Ainda não. Não estou conseguindo ver, o feto não está numa posição favorável. Talvez em duas ou três semanas.

— É uma menina, vai por mim. – respondi. – Nem precisa de exame.

Não era possível que eu sonhava com uma garotinha o tempo todo apenas para ter um menino no final. Edward clicou a língua num ‘tsc’ discordante, sacudindo a cabeça.

— Eu devia apostar com você. Sinto que é menino.

— Pode apostar, você vai perder.

— Vinte dólares? – Meu namorado esticou a mão, e eu apertei.

— Vintão e uma camiseta nova do Radiohead. – disse, e nós sorrimos ligeiramente, por um momento esquecendo o inferno que estava sendo nossas vidas hoje. A Dra. começou a limpar o gel da minha barriga. – Até que enfim. Estou liberada?

— Nem pensar. A senhorita aprontou demais hoje. Sua pressão me preocupa, você teve um pico e ainda está um pouco acima do desejado. Vou administrar um remédio e pedir que fique em observação aqui essa noite.

— Não precisa. – tentei me levantar, colocando peso nos cotovelos, mas ainda estava meio tonta e voltei a cair na maca. – Já estou bem melhor. O paracetamol funcionou pra cabeça.

— Mas é claro que ela vai ficar, doutora. – Edward tomou a frente. – Obrigado por nos atender.

— Te odeio. – falei entre dentes a maior mentira do mundo.

Ele passaria a noite comigo na enfermaria, embora meu pai tivesse disputado a vaga também. Era contra as regras do hospital, claro, ele era apenas meu namorado. Mas Carlisle conseguiu mexer seus pauzinhos.

— Você sabe que eu não vou conseguir pregar o olho em casa, né? – meu pai resmungou entrando no meu quadrado da enfermaria, trazendo um lanche para eu comer antes de ir embora. Não que eu tivesse apetite.

— Pode ir, pai. Não se preocupa. Tô melhor, de verdade. Você ouviu a Dra. Carey.

— Ok, eu vou. Mas nada de saliência no hospital, vocês dois, hein.

— Pai! Pelo amor de Deus. – Por que ele era assim?

Enquanto eu morria de vergonha e Edward prendia o riso, meu pai se abaixou, beijando minha cabeça e alisando minha bochecha, me obrigando a fechar os olhos e aproveitar o carinho.

— Que susto você me deu, menina.

— Desculpa.

— Chega de desculpas, não é hora disso. – disse se ajeitando para sair. – Bom, já que fui descartado, estou indo. Qualquer coisa diferente, me liga, ouviu? Cuida dela, Cullen.

— Sempre.

Vieram me colocar uns fios de monitoramento cardíaco, e eu só fiquei feliz que dessa vez não houve nenhuma agulha me furando para o soro.

A família Cullen toda ligou para o celular de Edward para saber como eu estava antes de dormir. Minhas amigas ligaram, minha tia e meu tio e minha avó também, porque a fofoca corria solta na família.

Não queria, mas fiquei lutando contra o sono até quase onze horas, esperando minha mãe telefonar.

Dormi antes daquilo se realizar.

xxxx

Ela já estava numa mesa de canto quando consegui reunir coragem para entrar no restaurante.

Andei com a postura reta sobre meus saltos, tendo que me refrear para não ajeitar meu cabelo solto pela milésima vez. Se eu não mexesse, talvez chamasse menos sua atenção e eu me salvaria de algum comentário.

Pé ante pé, fui me aproximando. Ela me avistou de longe e sorriu de lábios cerrados. Eu não conseguia reciprocar, meu peito acelerado demais pedia que eu olhasse para qualquer lugar por enquanto, ao invés de manter contato visual.

Foi só quando cheguei bem perto da mesa que reparei que eu devia ter treinado antes como cumprimentá-la. Um “olá” e um aperto de mão eram formal demais, “como vai” não fazia sentido após tantos anos, e um abraço parecia tão distante nessa altura.

O espaço encurtou-se entre nós, e enfim, eu estava lá.

Foram três segundos de silêncio, ambas paradas. Encarei-a tentando, em vão, sorrir. Ela também não sorria mais, porém eu não conseguia decifrar seu olhar. Meus dedos agarravam minha bolsa-carteira em minhas mãos, até fiquei com medo de deixar marcas.

O tempo era uma coisa tão estranha. Eu só conseguia ver que ele passava através das pessoas ao meu redor.

E o tempo, definitivamente, havia passado para Renee.

O loiro que me atormentava em algumas memórias havia sido substituído por castanho escuro, ainda curtinho, apesar de mais ralo. Na pele menos firme, as rugas de preocupação na testa contavam da vida de constante estresse que ela sempre levou. Ao menos, agora era ex-fumante. Isso eu soube há uns cinco anos, me contou por telefone.

A única coisa que não havia mudado era o perfume.

O aroma de violeta e anis projetava no ar me fazendo viajar algumas décadas atrás. Ainda lembrava de entrar escondida em seu quarto e deixar cair um vidro inteiro, desajeitada ao tentar borrifá-lo. Só não levei uma surra porque ela nunca foi de castigos físicos, mas tenho certeza que vontade não faltou.

— Oi, mãe. – eu tomei coragem e falei primeiro, o que bastou para que ela erguesse de repente, chegando dois passos mais perto, sem que eu tivesse reação.

— Oi, Bella. – ela abraçou meu corpo travado, e todo meu esforço para segurar o choro quase foi por água abaixo. Foi rápido. Felizmente, afastou-se antes, voltando ao seu lugar. – Muito obrigada por vir. Eu sei que sua agenda é lotada.

Tomei a cadeira em frente, grata por nossa mesa ser de quatro lugares. Ficaria menos claustrofóbica assim.

— Sem problemas. Hoje é um dia tranquilo. – menti. Nenhum dia da semana era tranquilo no meu trabalho.

Caímos num silêncio que me fez torcer para algum garçom brotar do chão, e Renee pareceu ler meu pensamento, logo fazendo um sinal. Esperamos por dois minutos até ele chegar, mas esse meio tempo foi uma eternidade. Meu coração ainda pulava, eu respirava fundo. Pelo pouco que me permiti observá-la, ela estava como eu, pior talvez.

Foi inevitável pensar o quão diferentes nós éramos, comparada à minha relação com Claire, e uma tristeza grande ameaçou me encobrir conforme eu me dava conta.

Eu havia nascido dessa mulher, e mesmo assim, me sentia tão distante. Não deveria ser dessa forma.

Ela provavelmente ouviu meu suspiro entrecortado, porque decidiu limpar a garganta, se ajeitando na cadeira. Eu brincava com o guardanapo entre os dedos.

— É… Eu sei que isso é estranho. – ela pigarreou. – Pra você. E pra mim também é.

— Bota estranho nisso…

— Está tudo bem? Com você e Claire, quero dizer.

— Sim. Ela está ótima, começou o primeiro emprego nesse verão. Monitora num acampamento de ciência.

— Que benção. Ela parece ser muito inteligente pelo que já ouvi.

Abri um leve sorriso, ainda sem conseguir encará-la por mais de alguns instantes.

— Muito, esperta até demais.

— Aprontando muito, né? Já está numa idade perigosa. – Perguntou me fazendo soltar uma pequena risada nervosa, porque é claro que ela simplesmente sabia o que significava minha frase.

— Quase nada. Bem menos do que eu na mesma idade. Mas Claire é esperta mesmo, inteligente. Tem muita facilidade pra números e ciências exatas. E ama música, toca bateria...

— Incrível. – ela arqueou as sobrancelhas. – Você sempre foi péssima nessas coisas todas.

— Uau. Valeu, mãe. – disse com sarcasmo, porque apesar de ser verdade, soou como alfinetada.

— Desculpa, não me leve a mal. Você tinha outros talentos… Sempre escreveu muito bem, não posso negar.

O elogio me pegou de surpresa.

— Obrigada, mãe. – falei suavemente, sarcasmo nenhum dessa vez. Até tive vontade de contar mais. – Eu escrevi um livro. Estou escrevendo outro.

— Ah sim, eu sei. Parabéns, fiquei feliz em saber.

— Como soube?

— Seu pai me mandou uma cópia do jornal que você apareceu.

Eu nem sei porque estava surpresa, era claro que eles mantinham algum tipo de contato, apesar do meu pai fingir que não. Apenas bufei uma risada, sacudindo a cabeça.

— Eu devia imaginar. E agradeço, de novo.

— E como está Edward?

— Meu pai contou dele também?

— Não. – fez uma pausa quando eu fiquei em silêncio, encucada. – Eu ainda tenho você adicionada no Facebook, Bella.

— O que isso quer dizer? Você sabe muito da minha vida através do Facebook?

— Só o que você me permite ver.

Baixei os olhos novamente, pensando no tanto que eu de fato havia deliberadamente escondido dela. Não devia ser assim, minha cabeça repetia. Que merda.

— Edward está bem, melhorando. O pai dele faleceu semana passada. – avisei suavemente, acrescentando em voz baixa. – Isso com certeza você não sabe.

— Meu Deus, Carlisle? – Sua voz de pesar quase me fez ficar preocupada.

— Não, o pai biológico.

— Ah, verdade, eu tinha esquecido... Bem, diga a ele que mandei meus sentimentos.

O garçom finalmente chegou para anotar os pedidos e encher nossas taças de água. Eu nunca desejei tanto poder beber uma taça de vinho, mas havia prometido parar de beber enquanto dirigia. Quando ele nos deixou, Renee inovou ao evitar a quietude.

Seu olhar me inspecionava, eu queria me contorcer na cadeira como uma criança.

— Que foi? – Perguntei, sem aguentar, e ela desviou-se envergonhada, pega no flagra.

— Nada.

— Nada? Minha mãe ensinou que ficar encarando é feio, sabe.

Aquilo fez brotar um sorriso trepidante em seu rosto, antes de voltar-se para mim novamente.

— Eu só estava tentando entender que é a mesma garota que eu vi pela última vez há dez anos. Fotos realmente não são confiáveis…

— Como assim?

— Você está tão bonita. Elegante, composta. Virou uma mulher. – Senti meu cenho franzir, tudo em mim recusando aquela fala.

— Mãe, eu já era mulher quando você foi embora. Tinha vinte e quatro anos.

— Era menina. Ainda não tinha vivido quase nada.

— Não acho. – eu sacudi a cabeça. – Sinto que deixei de ser menina quando fiquei sozinha com Claire em casa pela primeira vez.

— Em casa não, na casa de Esme. – disse, sua voz pequena demais para a quantidade de fel que lançou.

— V0cê vai ficar jogando isso na minha cara pra sempre?

— Não. – falou, novamente me surpreendendo ao parecer arrependida. – Perdão, filha, não devia ter tocado nesse assunto. – ela reforçou, mas eu senti as palavras de defesa saindo da minha boca sem pensar.

— Você não consegue entender que Esme e Carlisle me acolheram e nem precisavam ter feito isso? Eles compreenderam o que eu precisava naquele momento. Eu precisava de paz, eles me deram paz. É por isso que considerei aquela casa minha por tanto tempo.

— Eu sei. – sua voz partiu-se, e ela tomou um gole d’água para se recompor. – Eu sei e sou grata pelo que eles fizeram. Eu realmente não estava nos meus melhores momentos. Acho que eu nunca me desculpei de verdade por tudo… Eu gostaria.

Minhas memórias agora estavam sendo esfregadas na minha cara enquanto eu respirava para tentar barrar o choro.

— Não. – falei secamente. – Mas também não sei se vai fazer diferença a essa altura. Eu precisava mesmo era ouvir naquela época, quando ainda era uma menina, como disse… – ela concordou com a cabeça, e ficamos em silêncio. Não por muito tempo. Eu não aguentaria. – Ontem eu fiquei lembrando daquele dia… Nossa briga. Quando saí da sua casa.

Vi seu olhar cair, entristecido.

— Foi um dia feio.

— Por que você não foi me visitar no hospital nem me ligou naquela noite, mãe? Fala a verdade. Esme me falou que meu pai não deixou, mas não acreditei.

— Ele realmente pediu. – falou, defensiva.

— Não vem com essa, por favor. Eu nunca deixaria minha filha grávida no hospital sem mim, mesmo que meu marido pedisse, não faz sentido. Você era dura, mas não insensível nesse nível.

— Eu estava cansada, Bella. Cansada de brigar, de errar. Achei que seria melhor não ir, mesmo. Você não gostaria de me ver lá, e eu já estava me sentindo culpada o suficiente por ter causado tudo aquilo.

— Eu era uma adolescente em crise, cheia de hormônios me fazendo pirar! É claro que eu diria que não queria te ver, mas não te ver lá de verdade doeu bem mais. Você podia ter ligado, eu precisava desse carinho.

Eu vi seus olhos fugirem novamente, constrangida, até que voltou a falar em um tom sombrio.

— Você sabe que eu sempre tive dificuldade de demonstrar sentimentos.

— Isso não é verdade. Você sempre soube demonstrar sentimentos muito bem. Só não eram os que eu queria ou precisava. – enquanto falava, lágrimas traidoras queimavam meus olhos até escorrer. Funguei, tentando discretamente limpar com o guardanapo. – Me prometi que não ia chorar, que merda. No meio do restaurante...

— Filha... – ela me interrompeu. – Você precisa saber que eu me arrependo de muitas atitudes que tive com você, principalmente por ter brigado, me arrependo da forma como me comportei na sua gravidez. Agora eu tenho noção de como fui dura, mas eu só queria te proteger.

— Me proteger me expondo a tanto estresse, a tanta dor?

— Você é mãe também, você sabe como algumas de nossas escolhas não tem sentido lógico, a gente erra muito achando que está acertando. Entende o meu dilema? Por favor, tem que entender. Se coloca no meu lugar.

Era demais.

Eu precisei desviar o olhar, escondendo a cabeça em minhas mãos, com os cotovelos na mesa. Parecia que a ferida havia sido exposta e cutucada com sal. Essa dor terminaria algum dia? Deixei escapar um pouco de choro antes de voltar à superfície.

Inspirei e exalei o ar longamente, erguendo a cabeça. Ela ainda aguardava uma resposta.

— Não consigo. – foi a vez da minha voz quebrar. – Eu amo Claire mais que minha própria vida, eu faria de tudo pra proteger minha filha, mas acima de tudo eu a respeito. Muito. Eu nunca gritaria ou humilharia, nunca passaria por cima dos desejos pessoais dela, nem exigiria mais do que ela pode dar.

— Isso significa que você é uma mãe bem melhor do que eu. Mas saiba que eu fiz o que pude como mãe. Nada foi sua culpa, Isabella, nada.

— Não era o que me parecia quando eu era menor.

— Se você me deixar explicar, eu gostaria de falar sobre algumas coisas que percebi nos últimos tempos. Coisas que aprendi.

Meu ego tentava extrapolar pela minha boca alguma frase passiva-agressiva, alguma retórica defensiva que me reafirmaria como um ser humano melhor do que Renee. Mas eu não deixei. Engoli o orgulho e o desprezo num respiro. Eu precisava ouvi-la.

— Então fala.

— Você sabe que eu tive uma criação muito rígida, não sabe? Meu pai era militar, você não chegou a conhecer seu avô, mas ouviu histórias.

— Sim, eu lembro.

Ela se debruçou sobre a mesa, as mãos que sempre foram muito expressivas estavam entrelaçadas à sua frente, os dedos sendo estalados e mexidos nervosamente.

— Quando cresci e formei minha família, eu pensava que era meu dever trabalhar duro e garantir que fôssemos a família mais exemplar. Uma besteira, uma utopia. – ela sacudia a cabeça, irritada consigo mesma. – Quando algo dava errado, era em você e no seu pai onde eu descontava todo estresse, toda minha dor e frustração. Eu não sabia como sentir raiva sem culpar alguém. Nunca aprendi a lidar com os meus próprios sentimentos, imagina com os seus.

Eu a observei, tentando fazer tudo se encaixar na minha cabeça, que lutava com meu coração.

Não era difícil sentir empatia pelo que falava sobre maternidade, após tantas situações que me fizeram duvidar meu valor como mãe. No fim, eu também sempre fui a melhor mãe que pude ser, dentro das minhas capacidades.

Mas uma absolvição ainda parecia tão distante. Havia um abismo entre errar enquanto se tenta acertar e ser puramente cruel, fatalmente egoísta. Talvez eu precisasse mais era me entender com a pessoa Renee do que com a Renee, minha mãe.

— Eu não sei o que falar, mãe.

— Não precisa falar nada agora.

— Por que você demorou tanto tempo pra me dizer essas coisas?

— Porque não tinha essa consciência antes. Em Phoenix eu passei por muitas provações que me forçaram a amadurecer. Conheci pessoas na Igreja, fiz psicanálise por um tempo, tudo isso me ajudou a enxergar. Você sabe que eu aprecio a honestidade acima de tudo, e eu precisava começar a ser honesta comigo mesma. Perdi muito sendo quem eu era.

Eu apenas a olhei, já confusa sobre o que ela queria dizer, de fato. Minha cabeça girava. Como se adivinhasse que eu precisava de um alívio da situação, meu celular tocou, e eu peguei.

Minha filha tinha acabado de me mandar uma mensagem que fez sorrir em meio ao pranto, o que só me fez chorar mais.

[Claire]

papai falou que vc ja ta no restaurante.
te amo te amo te amo (3x pra dar sorte)
lembra que vc é forte pra caramba,
me carregou por 9 meses (meu avô falou que eu pesava
o mesmo que um pequeno peru de Natal. credo)

ai agora to com fome, traz lasanha pra janta?

— Está tudo bem? – Minha mãe perguntou, porque eu devia estar uma bagunça nesse minuto.

— Está… Preciso ir ao banheiro, já volto. – Foi tudo que consegui dizer, levantando e quase correndo para lá.

Lavei o rosto, assoei o nariz, chequei minha situação no espelho enquanto me dava um tempo para respirar. Sabia que nada seria resolvido hoje, era tudo apenas o começo.

Quando voltei, Renee estava secando o rosto e passando seu pó compacto, um costume antigo.

— Se já gastei sua paciência e você quiser ir embora, sinta-se à vontade. – falou quando me viu sentar. – Eu cancelo os pratos.

— Não. Tudo bem. Eu só… Acho que vou precisar de um tempo pra pensar sobre tudo isso. Tenho tantas perguntas…

— Estou aqui pra isso, Bella. Pode perguntar o que quiser.

Eu debati apenas durante meio segundo, porque havia uma pergunta que não conseguiria ficar para a próxima.

— Você quer o meu perdão, mãe? Foi pra isso que voltou a Nova York?

— Não. Seria indecente colocar essa pressão em você.

— Então por quê...?

— Phil está doente. – ela explicou sem rodeios, me pegando desprevenida. Sua voz era como de alguém já conformada com a situação, então imaginei que não foi algo recente.

— Nossa. E… É grave?

— Esclerose múltipla. Está controlada, mas não é nenhum parque de diversões.

— Eu sinto muito.

— Obrigada. Acontece que Nova York é o maior centro de pesquisa da doença no país, por isso achamos melhor vir. Ele ganha bem na aposentadoria, pode pagar os melhores médicos, estamos buscando por um especialista.

Meu coração baqueado amoleceu um pouco. Eu sabia o quanto ela era próxima do marido, mesmo sem nunca tê-lo conhecido pessoalmente.

— Ele vai ter um acompanhamento excelente aqui, que bom. Você falou com Esme e Carlisle? Talvez possam ajudar.

Ela baixou o olhar, e eu podia jurar que vi um traço de vergonha.

— Não. Só você e seu pai sabem que eu voltei. Não falo com Esme há quase dez anos.

— Desde que foi pra Phoenix. – Era mais ou menos o mesmo tempo desde que nos vimos pela última vez.

— Exato. Você continua muito próxima dela, não?

Como dizer à minha própria mãe que Esme era a mãe que ela não foi para mim? Como explicar que eu tinha uma ligação tão mais profunda com uma mulher que não era meu sangue?

Por falta de coragem e palavras melhores, apenas respondi:

— Muito.

xxxx

Quando acordei naquela cama dura da enfermaria gelada, Esme foi quem vi primeiro.

— Cadê Edward?

Ela sorriu.

— Foi tomar um café. Bom dia, flor do dia.

— Bom dia... Achei que ele tinha ido pra aula sem mim.

— Você não vai pra aula hoje, fica tranquila. Nem ele.

— Nem pensar, a gente tem prova final sexta. Geometria. Se eu faltar, tô fudida.

— O professor Jeremy já sabe da situação, ele vai me dar o material pra vocês estudarem depois. – Eu respirei fundo ouvindo aquilo. Ter uma sogra professora da minha escola ajudava pra caramba mesmo. – Se sente melhor?

— Tô bem, na medida do possível. Sem dores. – levantei a coberta para espiar o meio das minhas pernas. – Sem sangramentos também. Cadê meu pai?

— Em casa, mas já está vindo pra cá antes de ir trabalhar. Bebe sua água, tá aí do lado. Tem um remédio que a Dra. mandou tomar assim que acordasse também.

Tomei o copo que alguém tinha deixado e eu nem ouvi de tão pesado que dormi, me espreguiçando na cama desconfortável.

A briga de ontem ainda se encontrava muito vívida na minha cabeça e meu corpo, como eu tivesse sobrevivido a um atropelamento. Por dentro, um vazio muito contraditório com o tanto que eu carregava em mim no momento. Eu estava triste. Pra caralho.

Esme percebeu.

— Sua mãe passou aqui. – disse, e eu voltei a encará-la. – Nós conversamos um pouco. Disse que não ligou ontem porque Charlie não deixou, ele não queria que você se estressasse de novo. Mas não quis te acordar. Teve que ir dar duas aulas nos primeiros períodos, falou que volta pra te buscar.

— Eu não vou voltar com ela.

— Bella…

— Não adianta, Esme. Eu não quero mais. Não tem mais como ficar naquela casa. Nossa relação acabou.

— Você não pode terminar com a sua mãe como se termina um namoro, querida.

Eu bufei uma risada.

— Claro que posso. É só eu não olhar mais pra cara dela, e aí ela finge que eu não existo.

— Se você estiver mais calma agora e quiser conversar sobre isso, eu posso tentar te ajudar. – ela sentou-se na minha cama perto dos meus pés, fazendo o carinho que eu torci que fizesse. E lá vinham as lágrimas novamente, um rio sem barreiras.

Engoli o choro para falar.

— Eu só queria que ela me apoiasse, sabe. Nas minhas decisões. Sem ficar me julgando por tudo, sempre dizendo que tá tudo errado.

— Edward me contou por alto o que aconteceu. Renee não aceitou sua proposta, né?

— Não. E ainda me esculhambou.

— Isso é que me deixa furiosa. – ela sacudia a cabeça, o peito inflado de raiva. – Sua mãe não podia ter agido daquela forma, que exagero sem sentido. Era pra vocês terem entrado em um consenso.

— Esme… Você acha que estou errada de pedir pra ela liberar minha poupança antes do tempo? De verdade, pode ser sincera.

Ela me encarou direto nos olhos, tão séria. Eu tive que desviar, já que não podia sair correndo para me esconder.

— Acho. Acho precipitado, é um dinheiro suado que seus pais juntaram a vida toda, é uma garantia pro seu futuro.

— Mas que futuro é esse, afinal? Eu nem sei se vou mais pra faculdade. Nenhum lugar em sã consciência vai aceitar uma garota com um bebê nos braços.

Vi seu rosto suavizar, até que sorriu levemente, um olhar como se tivesse dó de mim. Não gostei.

— A universidade não é o ensino médio, menina. É claro que você vai, quando for a hora certa, se você ainda quiser ir. Não é seu sonho fazer Jornalismo?

O bolo na minha garganta aumentou. Todos os sonhos já tinham ficado tão distantes agora. Era difícil lembrar quem eu era.

— É… Era. Sei lá. Não sei se nasci pra ser dona de casa, mas no momento não consigo pensar em outra coisa sem ser cuidar da criança.

— Tudo bem, é um sentimento completamente normal pra uma grávida, é saudável. Mas sua vida não vai ser só isso. E nem pode.

— O que vai ser minha vida, então? – Perguntei quase cruzando os dedos em figa para que ela me desse alguma resposta. Em vez disso, apenas voltou a fazer carinho levemente na minha canela.

— O futuro a Deus pertence. Só posso te falar que ter planejamento a longo prazo faz parte de cuidar de um filho. E eu realmente acho que com uma faculdade você vai muito mais longe, vai conseguir empregos melhores e aí sim, vai poder ser independente dos seus pais. Poder dar uma vida melhor pro bebê.

Eu suspirei, já cansada de algo que ainda nem havia começado.

— Vai demorar tanto pra isso... É tão distante que eu não consigo nem visualizar.

— Ainda não consegue. Mas você vai, eu tenho certeza. Deixe esse dinheiro quieto pra quando precisar de verdade, faculdade é um negócio caro. Daqui a uns anos vai entender e agradecer por seus pais terem feito esse investimento.

É claro que minha sogra estava certa. Eu nunca vi uma pessoa com tanta sabedoria de vida quanto ela. Edward teve a quem puxar, mesmo.

Ainda assim, era difícil dar o braço a torcer e admitir que eu não passava de uma adolescente grávida e perdida no mundo dos adultos, totalmente dependente das migalhas dos nossos pais. Humilhante era pouco.

— Eu só queria ter um pouco de privacidade com Edward… Nosso cantinho.

Minha sogra fez uma cara estranha. Eu sequer tentei entender, mas parecia algo entre pena e vontade de rir.

— Eu sei que isso é muito importante, mas enquanto nenhum dos dois tiver um emprego de verdade, você tem que aceitar que isso simplesmente não é uma possibilidade.

— E o que a gente faz, então? Eu não voltar a morar com a minha mãe, de jeito nenhum.

— Não, querida, eu também nem acho que seja saudável você continuar morando lá. Pelo menos não enquanto Renee não se resolver com ela mesma. Você e Edward tem todo o apoio pra ficar na nossa casa, é grande o bastante. Eu prometo que vamos dar o espaço que vocês precisam.

— Tem certeza, Esme? A gente só ia ficar por um tempinho até achar alguma coisa, nem que fosse um quarto e sala.

Ela esticou-se para apertar minha mão, sorrindo, e eu nem entendi o motivo.

— Meu bem, você não tem ideia do que é um recém-nascido, vai querer bem mais que um quarto e sala. – ela riu. – Por favor, aceite o convite. Fiquem lá o tempo que for necessário. Eu e Carlisle já temos uma neta, esqueceu? Somos avós comportados, pergunte a Alice.

Eu sorri, porque eles pareciam mesmo avós maravilhosos. Uma família tão feliz e unida, era impossível não invejá-los, às vezes. Mesmo sem querer admitir, eu sabia que era minha melhor chance de não me ferrar completamente.

— Tá… Eu vou ter que aceitar. – concordei. – Só que já aviso que minha mãe não vai gostar nada de saber disso. Inclusive, acho melhor até me arrumar logo pra sair desse hospital antes que ela venha me arrastar de volta pra casa.

Esme me parou antes que eu sequer pensasse em arrancar os fios que ainda estavam pendurados na máquina.

— Eu converso com ela. Fica tranquila. Agora, você vai ficar quietinha esperando a Dra. Carey vir te dar alta e tomar seu café da manhã porque eu não quero deixar meu neto com fome.

— Neta. – corrigi pelo hábito. Seu rosto se iluminou, porém eu respondi antes que perguntasse. – Não, ainda não sabemos o sexo. Mas eu tenho certeza que é menina.

— Ah não, você vai apostar com a minha mãe também? – Edward entrou no meu cubículo falando mais alto que o necessário. – Cuidado com essa daí, mãe, isso é esquema de grávida pra ganhar dinheiro.

Eu apenas mostrei meu dedo do meio para ele, tirando uma gargalhada conjunta de nós três, que nos rendeu vários “shh” pela enfermaria.

Olhando os dois ali, meu peito ficou um pouco mais calmo sabendo que eu teria tudo isso nos próximos meses. Risadas e paz, alguma que fosse. Até que enfim.

xxxx

Nossos pratos chegaram com um certo atraso, como se estivessem só esperando nossa conversa dar uma trégua. Me perguntava o quão tensas parecíamos à distância, as pessoas me vendo chorando ali. Voltar aqui seria difícil.

Num acordo silencioso, resolvemos deixar o resto da conversa para outro dia. Ambas exaustas, nos permitimos apenas provar a comida deliciosa e comentar frivolidades, algo que nunca havia feito antes com ela.

Renee parecia um pouco mais leve, apesar de tudo. Sua aura parecia mais aberta, mansa, menos reativa comparada ao que eu me lembrava do passado. Me dava uma pontinha de esperança.

Não tínhamos tanto em comum além da paixão por livros, e foi esse nosso assunto pelo resto da noite. Tudo muito seguro, raso, dando pé para nós duas, enquanto testávamos até onde podíamos chegar. Foi nosso jeito de não sucumbir à pressão imensa que o encontro nos trouxe.

Ela fez questão de pagar a conta, embora eu tivesse insistido. Na porta, nossa despedida ainda continha um pouco do nervosismo do início.

— Foi bom te ver. Obrigada por aceitar. – Mais uma vez, Renee iniciou o abraço. Mas agora, eu me deixei ser abraçada. Fechei os olhos ao sentir sua mão pegando mechas do meu cabelo, enquanto falava baixo. – E desculpe por te fazer chorar aqui. Eu não choro mais porque a vida me obrigou a engolir. Vontade não faltou.

— Eu sei. – funguei, me afastando.

— Vamos marcar de novo? Eu gostaria muito de ver minha neta.

— Mãe… Não sei se já é o momento certo. – Assim que falei, as palavras do meu pai vieram à mente. O tempo estava passando. Ali no rosto dela, era evidente. Precisei mudar de ideia. – Mas vou conversar com Claire, vejo se ela quer te ver, e aí marcamos.

— Vai ver se ela quer… Ok. – Renee repetiu minhas palavras com certo rancor. Eu quase podia ver sua língua sendo mordida pela crítica que quis fazer. Que eu desse liberdade à minha filha adolescente de escolher se gostaria ou não de ter uma relação com alguém da família devia ser uma barbárie na sua cartilha.

— Eu te ligo. – disse, enfim andando para meu carro. – Boa noite.

— Bella. – o tom da sua voz me fez parar e voltar rapidamente.

— Sim?

— Você é feliz?

Hesitei com a pergunta tão complicada para ser respondida em plena rua escura do centro de Nova York, quis fugir.

Mas ela parecia dependente da minha resposta, como se sua consciência precisasse saber para se aliviar um pouco por hoje. Se um perdão eu ainda não poderia lhe dar, ao menos isso conseguiria. Talvez seria bom para mim, também.

— Felicidade é um negócio abstrato, não acha? Felicidade vem em momentos… Mas acho que posso dizer que sim. Estou vivendo um momento muito feliz, vários, os mais felizes que já me senti. Apesar de tudo.

Renee me deixou ir após assentir silenciosamente com a cabeça, era sua forma de mostrar contentamento.

Quando cheguei em casa naquela noite, a TV estava ligada e eu evitei o barulho ao entrar, pois Edward e Claire dormiam no sofá. Ele com a boca aberta para trás e o controle na mão, ela com os pés em seu colo, dividiam a mesma mantinha.

Quantas vezes eu já tinha visto essa cena desde que ela era bebê e Edward ainda tinha todos os fios de cabelo da mesma cor?

Meu coração estava apertado por ter sido remexido, meus ombros pesados da carga emocional do dia. Mas me permiti aproveitar o momento, no cantinho, sorrindo em silêncio. A felicidade tinha vindo me visitar novamente.

Notas finais
Meu aniversário foi há dois dias, ainda dá tempo de me dar um presentinho hein hahahaha Deixe seu comentário, vai me trazer um momentinho de felicidade (espero que esse capítulo tenha trazido o mesmo pra vc!). Até a próxima, beijos!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.