Mais Uma Vez
20 Capítulo 19: Curando Feridas
Notas iniciais
Só quero lembrar a vocês que todo meu conhecimento médico se resume a 8 temporadas de Grey's Anatomy, e só. Se algo estiver errado no texto, podem me corrigir. heheh
Ah, e antes que perguntem onde Alice e Jasper estão, vou recordar: Alice está num festival de teatro amador com sua companhia da escola (professora de Glee, ela? magina hahah). Jasper está num congresso de psicologia no Canadá.
Capítulo 19: Curando feridas
Eu nunca pensei que pudesse ser tão agoniante ficar sentada em uma sala de espera. O ambiente era tenso e sinistro. Todos que estavam ali mantinham um semblante padrão — o de desespero ansioso, apenas esperando por uma notícia ou algo que nos indicasse que seus entes estavam bem.
Rosalie Hale sofreu uma fissura na bacia e um trauma interno no útero. O feto ainda está vivo, mas a situação dele é delicada. A paciente está entrando em procedimento cirúrgico agora. As palavras da Dra. Heinz ainda pairavam na minha mente, como se eu as ouvisse em modo de repetição dentro dos meus ouvidos.
Já havia passado meia hora desde que a doutora voltara para dentro da sala de emergência. Parecia uma eternidade.
Ao meu lado, Esme segurava um terço e rezava baixo. Ela parecia estar extremamente balançada. Quando eu fechava os olhos, ainda conseguia ver todo o sangue que Rose perdera no vestiário e dentro da ambulância. Eu a acompanhei até o hospital, e durante todo o caminho, segurei sua mão como se nunca mais fosse largar. Meus nervos resolveram ir à flor da pele quando, perto de chegarmos ao local, ainda na ambulância, meu celular tocou.
Eu atendi à Alice com a voz mais controlada que eu conseguia. Ela me perguntou como estava indo a apresentação das garotas, e por pouco não chorei quando ela disse que ligava pois havia sentido um aperto no peito. Eu havia inventado qualquer desculpa para tranquilizá-la, desligando rapidamente.
Ouvi passos vindos em direção da sala de espera, e ergui a cabeça, aflita. Fiquei parcialmente aliviada quando vi Carlisle se apressar para chegar até nós. Ele devia ter acabado de sair da cirurgia em que estava quando eu lhe telefonei.
Com um suspiro, me levantei e o encontrei no meio do caminho. Nos abraçamos e ele beijou minha testa.
- Obrigado por trazê-la. Você foi brava.
- Não fiz mais do que eu devia fazer.
- Como ela está? – falou olhando para Esme.
- Eu pedi para darem um calmante, porque estava muito nervosa.
Carlisle assentiu e foi sentar ao lado da esposa. Ela lentamente ergueu a cabeça, parecendo tão perdida em suas preces silenciosas. Quando viu o marido, jogou os braços em torno do pescoço dele e o abraçou com força. As primeiras lágrimas que ela derrubava desde que chegou aqui começaram a cair.
- Ela vai ficar bem? Me diga, Carlisle, minha neta vai ficar bem? – perguntou freneticamente.
- Sim, meu bem. Sim. – respondeu suave. Eu apostava todas as minhas fichas que aquilo era apenas uma mentira para acalmar Esme, já que ele certamente não tivera tempo de coletar informações. Mas serviu o seu objetivo e, aos poucos, a cor no rosto da minha ex-sogra voltou a aparecer.
Eu fiquei ali observando a cena por mais alguns minutos, antes que Carlisle virasse o rosto para mim.
- Vocês já avisaram a Alice e Jasper? – inquiriu.
Eu estalei os dedos, de nervoso.
- Não. Eu ainda não tive coragem de ligar... nem saberia como dar uma notícia delicada pelo telefone.
- Eu ligo. – falou assumindo sua posição de médico, e levantou-se, lentamente se desvencilhando de Esme. — Volto já.
Eu assenti, e assisti sua figura de jaleco branco desaparecer para dentro do hospital. Poucos instantes depois, eu vi a movimentação do lado oposto, na entrada. Edward vinha acompanhado de Claire e ao lado deles, o namorado de Rose. Antes de sair da escola, pedi que Edward procurasse nossa filha e o garoto, e os trouxesse para cá. Riley havia ido embora deixando seus desejos de melhoras para nossa família.
Os três vieram quase correndo quando avistaram meu aceno de mão.
- Ah meu Deus, mãe. O que aconteceu? Como minha prima está? Ela está bem, não está? – minha filha disparou perguntas, vindo me abraçar. Seus olhos pareciam genuinamente preocupados.
- Eu sinceramente não sei, Claire. Rose entrou em cirurgia há uns quarenta minutos. Temos que aguardar pelas notícias.
- Merda. Mas que merda! – o grandalhão moreno ao lado de Claire esbravejou antes de sentar-se na cadeira vazia. Algumas vozes ao nosso redor pediram silêncio, e ele aquiesceu, parecendo culpado. — Desculpe. Mas eu não consigo acreditar que...
- Ora, rapaz, não venha com falso martírio. Você sabia de tudo e mesmo assim deixou que Rose fizesse uma besteira daquelas! – Esme disparou com veneno na voz, chegando a me assustar.
- Não. – ele sacudiu a cabeça. — Eu juro que não fazia ideia. Merda, se eu soubesse, nunca teria permitido.
- Então Rose realmente estava... grávida? – perguntou Edward.
- Sim. Está ainda. Ela perdeu muito sangue e sofreu um trauma intra-uterino. Só o tempo vai dizer se o feto ficará bem ou não.
- Um filho. – balbiciou Emmett com a cabeça entre as mãos. Ele parecia transtornado, e mais ainda, apavorado. Eu queria esticar a mão e acariciar suas costas, pois eu conhecia muito bem a sensação.
- Eu tenho suspeitas de que ninguém além de Rose sabia disso. – falei. — Vamos apenas pensar positivo, rezar, ou seja lá o que pudermos fazer para que tudo fique bem, ok?
Nós todos nos sentamos em uma fileira na sala de espera. Carlisle voltou, nos informando que já havia contactado os pais de Rose. Eu o olhei apreensiva.
- Alice foi mais forte do que eu pensava. Ou pelo menos foi assim que pareceu. Ela disse que já sabia que havia algo de errado acontecendo. – explicou quando Edward perguntou sobre a irmã e o cunhado. — E Jasper... bem, eu nunca imaginaria, mas ele pareceu bastante abalado. Acho que estava chorando.
- E quando eles vão conseguir voltar? – perguntei.
- Eles disseram que iriam tentar pegar os voos o mais cedo que puderem, mas eu sinceramente não sei se vai ser possível. O feriado é no final de semana, e os aeroportos estão lotados.
Eu assenti a cabeça, desejando internamente que eles conseguissem chegar a tempo de estar em Nova York quando Rose acordasse. Sem dúvidas ela gostaria de ter os pais ao seu lado.
Ao pensar nisso, levantei e pedi licença para usar o celular, quando me dei conta de que eu mesma não iria poder estar com meu pai nesse fim de semana.
- Alô? – sua voz soou do outro lado, sempre sendo reconfortante aos meus ouvidos.
- Oi, pai. Sou eu.
- Bells? Está tudo bem? Está com a voz estranha.
- Está tudo bem comigo e com Claire, mas... aconteceu um imprevisto, e nós não vamos poder ir até aí no feriado.
- Ah. Tudo bem, filha... – ele parecia decepcionado, o que só partiu ainda mais meu coração que já estava pequeníssimo. Maldito destino. Será que ele já não tinha se cansado de jogar covardemente com a minha vida?
- Oh, pai, não fique chateado, por favor? – implorei. — Foi um imprevisto realmente grave.
- Você está com uma voz péssima, Bella. Me diga do que se trata, e eu perdoo sua ausência.
Soltei um suspiro prolongado, decidindo se contava ou não o que acontecia. Não era um assunto meu. Por outro lado, também não era como se ele fosse um completo estranho à família, então resolvi dizer.
- Você se lembra da Rosalie, filha de Alice e Jasper, não lembra?
- Claro que sim.
- Bom, hoje mais cedo a St. Patrick teve um festival de encerramento do ano letivo. E durante a apresentação dos líderes de torcida, Rose sofreu um acidente. Uma queda de quase três metros de altura.
- E foi sério? – perguntou preocupado.
- Eu não acho que ela corra risco de vida, mas o ferimento na bacia foi grave. E tem mais... ela está grávida, pai. – pronunciei a última parte com extrema delicadeza, assim como me parecia toda a situação.
- Meu Deus. Uma moça tão nova...
- É. – sibilei um tanto ácida. Como se fosse um grande insulto engravidar durante a adolescência. Às vezes era duro lidar com essa realidade.
- Bella, me desculpe, eu não... – falou ele, talvez percebendo o deslize cometido. — Quer dizer, é só que o raio cair duas vezes na mesma família é...
- Pai. – o interrompi. Ele realmente não levava o menor jeito com as palavras. Mas eu o amava mesmo assim, e sempre o perdoava. Meu pai só queria o meu bem, acima de tudo. — Eu entendi o que você quis dizer. Estamos todos muito chocados também. Mas vamos rezar pra que dê tudo certo, ok?
- Claro, minha querida, claro.
- Está bem, eu preciso voltar lá pra dentro. – disse com um suspiro. Eu já sentia que seria uma longa noite. Ou um longo fim de semana, para ser exata.
- Ok. Se vocês precisarem de qualquer coisa, podem contar comigo.
- Obrigada. Eu ligo para dar notícias.
- Está bem. Mande minha solidariedade a Esme e Carlisle, e a Alice e o marido, especialmente.
- Mando. Um beijo, pai.
- Um beijo, criança.
Andar por aqueles corredores antes de voltar para a sala de espera, sabendo que ali estava uma parte da família que eu tinha adotado em certo momento da minha vida, tinha um tom nostálgico e melancólico. A semelhança de uma situação parecida com algo que vivi era inegável, e não escapava da minha mente.
A gestação de Claire não foi nada fácil. No início eu tive sangramentos, o que era normal em casos de garotas na idade que eu tinha — se os médicos disseram a verdade, ou se apenas lançaram mão de uma meia verdade para me acalmar, eu não sei. O fato é que saber que tudo era influência de um estresse psicológico havia sido um alento.
O alívio que senti por saber que não havia nada de errado com minha saúde ou com a do bebê, entretanto, não anulava o peso sobre as minhas costas. Os quatro primeiros meses foram um inferno dentro de casa; minha mãe discutia com meu pai, e claro, comigo quase todos os dias.
Depois da segunda noite que passei no hospital em observação, Esme resolveu intervir. Ela já estava decidida, e praticamente me carregou para morar na casa dos Cullen, sob sua supervisão e do marido médico. Renee concordou tão rápido quando pedi sua permissão para sair de casa, que quase acreditei que ela queria me ver bem longe. Por pouco não me senti expulsa. Por muito pouco...
Eu estava chorando. Como nunca antes.
- Me desculpe, pai. – funguei. Ele me abraçou com o carinho de sempre, e a segurança que eu sempre sentia.
- Shh. – afagou meus cabelos. Meu pai não podia mais me segurar com a firmeza de antes. Agora havia a minha barriga entre nós.
- Eu não queria ter que ir embora tão cedo, mas... eu não estou aguentando mais.
- Eu sei, criança, eu sei. – falou, e eu podia jurar que vi a lágrima traiçoeira escorregar por seu rosto. Mas o rastro molhado que ele limpou foi no meu. — Vai ser melhor assim. Eu só peço que...
- Pode falar, pai. – disse me afastando mais.
- Tenha paciência com a sua mãe. Ela só quer o seu bem. Um dia você vai entender isso.
- Ok. – falei, mesmo sabendo que aquilo era balela apenas para me tranquilizar.
- Você sempre será minha garotinha, não se esqueça disso.
Senti meu peito se esmagar quando a vívida lembrança me infiltrou, e eu fui obrigada a me encaminhar até os assentos antes que eu começasse a chorar feito uma louca no meio do corredor do hospital.
Os minutos se arrastaram enquanto esperávamos por notícias.
O movimento ao redor do local não era capaz de quebrar toda a tensão que pairava sobre o nosso núcleo reunido. Volta e meia eu pegava Esme fuzilando Emmett com os olhos, entre um Pai Nosso e outro. Era muito ruim vê-la parecendo tão transtornada, quanto saber que aquele rapaz era uma vítima como todos nós. Até mesmo Rose.
Duas horas haviam passado quando o celular de Esme tocou. Pela primeira vez em todo esse tempo, ela levantou-se de seu lugar. Quando voltou, explicou que a ligação fora de Alice.
- Ela disse que precisa esperar que uma outra professora vá até Phoenix. Não pode deixar os alunos que estão sob responsabilidade dela. – falou.
- E Jasper? – perguntou Edward.
- Alice está se comunicando com ele. Disse que ele já desmarcou suas próximas palestras no congresso, mas parece que todos os voos para Nova York até domingo estão lotados. Vai tentar pegar algum com uma conexão.
- Como estava a voz dela? – indaguei sutilmente.
- Estranha. Fria. – contou Esme com um suspiro pesado. — Estou sofrendo pela minha filha, Bella. E pela minha neta. É um sofrimento em dobro.
Eu me estiquei para segurar sua mão e apertar.
– Vamos ter fé. Vai ficar tudo bem, eu sinto isso.
Já passava das onze da noite quando duas médicas se aproximaram da sala de espera, perguntando pela família de Rosalie Cullen Hale.
- Somos nós. – Esme foi a primeira e dizer, levantando-se. Todos fizemos o mesmo em seguida.
- A cirurgia transcorreu bem. Porém, a paciente perdeu sangue, e a transfusão precisou ser feita imediatamente. Ela está estável e ficará na UTI até que a situação normalize. O bebê infelizmente não sobreviveu, mas nós conseguimos reparar os danos no útero. – explicou a Dra. Heinz.
- Isso quer dizer que a minha namorada vai poder ter outros filhos? – a voz diferente de Emmett soou inesperadamente.
- Ainda não podemos afirmar com certeza, mas há 90% de chances de que tudo fique bem. – ela disse.
- Não podemos vê-la ainda, doutora? – perguntei.
- Ainda não, vocês precisam esperar até que ela seja transferida para o quarto. – falou e virou-se para Carlisle. — Dr. Cullen, gostaria de me acompanhar pra que eu explique melhor os procedimentos que fizemos, e lidar com a papelada?
- Ah, claro. – falou ele, segurando as mãos da esposa. — Esme, querida. Você se importa se eu te deixar por dez minutos?
- Pode ir. Mas não demore. – ela disse em meio a lágrimas. Carlisle beijou-lhe a testa antes de se afastar, sendo acompanhado pelas duas médicas.
Assim que ele desapareceu, Esme desabou de volta na cadeira, colocando a cabeça entre as mãos. Ela parecia pálida.
- Mãe? – chamou Edward, rapidamente se agachando para ficar na altura dela. — Está tudo bem?
- Não é nada. Só uma tontura.
- Esme, você está branca como essa parede. – falei. — Que horas são? Já fazem horas que não comemos nada. Vou buscar alguma coisa de sal pra você.
- Não precisa, Bella. – ela disse, mas sua voz falhou. — Eu mesma vou, preciso tomar ar.
Bastou que ela se erguesse da cadeira, porém, para que caísse nos braços de Edward. Eu fui rápida o bastante para dividir o apoio do peso com ele.
- Ah, meu Deus, a vovó desmaiou! – Claire praticamente gritou.
- Vá procurar o seu avô, filha. – instruí com urgência, a fim de que ela saísse e não ficasse tão impressionada. Olhei para Edward sem saber como proceder. — O que fazemos?
- Me ajude a colocá-la sentada. Não é a primeira vez que isso acontece.
- Vocês precisam de ajuda? – perguntou Emmett.
- Sim. – falei. — Ela está pesada pra mim. Ajude Edward.
Ele fez como eu havia dito. Carlisle voltou correndo com Claire poucos minutos depois, enquanto abanávamos o rosto de Esme com uma revista velha.
O Dr. Cullen a encaminhou para o ambulatório, e após verificar a pressão da esposa, constatou uma queda brusca.
- Ela precisa descansar. – falou o óbvio. Ele próprio parecia abalado com tudo.
- Pai, não acha melhor que ela vá para casa? Ela não está em condições de ficar por aqui. Foi um longo dia. – disse Edward.
- Eu também acho, Carlisle. Eu posso ficar e fazer companhia a Rose durante a noite. Esme está uma pilha de nervos desde que chegamos ao hospital.
Carlisle olhou para mim e para Edward por alguns instantes enquanto debatia internamente. Ele exalou o ar e olhou seu relógio de pulso. Enfim, assentiu.
- Vocês têm razão. Como médico eu diria para ela ficar em observação aqui, mas como marido, e conhecendo minha esposa, eu sei que ela está carregando toda essa situação nas costas. Ficar esperando só vai prejudicá-la ainda mais.
- Ok. – falei. — E leve Claire para dormir na sua casa, por favor? Não acho apropriado ela ficar aqui. Faça com que ela coma alguma coisa também.
- Claro. – ele disse.
Minutos depois, Esme acordou, zonza. Ela protestou quando Carlisle avisou os planos, mas ele resolveu o impasse ao carregá-la no colo, como uma criança. Seria uma cena cômica se não fosse nessa sitaução. Oferecemos carona a Emmett também, entretanto ele não queria sair de jeito nenhum, mesmo sabendo que não iria poder dormir no quarto com Rose.
Edward e eu nos despedimos dos três, com a promessa de que ligaríamos caso houvesse qualquer notícia. Eu logo peguei meu celular para informar a Alice e a Jasper sobre a cirurgia terminada. Alice soou realmente fora de si. Não desesperada, apenas... calma. Como se o impacto da surpresa ruim tivesse sido tão grande, que ela tornara-se entorpecida. Eu conhecia muito bem essa sensação.
Pouco depois, eu senti a fraqueza por horas sem alimento me abater, e resolvi descer para a cafeteria. Edward e Emmett vieram atrás de mim. O clima era pesado e estranho, e a ocasião tão desconfortável não ajudava em nada.
Por volta das 3 da manhã, fomos chamados novamente, mas dessa vez porque Rosalie havia, enfim, sido removida para o quarto e que estava acordada.
- Vocês são da família, correto? – falou a enfermeira que parecia jovem demais para o cargo.
- Só eu. Sou o tio dela, Edward Cullen.
- Você poderá entrar para vê-la agora, se quiser. Quando acordou, porém, a paciente chamou várias vezes por Bella. – disse a enfermeira, direcionando-se para mim. — É a senhorita?
- Sou eu.
- Ela relutou quando mencionei chamar os parentes e disse que queria apenas você presente. Falou que você era esposa do tio dela. Mas... creio que não será possível. Não podemos permitir pessoas de fora da família na visita pós-operatória.
Meu coração bateu mais rápido.
- A mim? Ela chamou a mim? – olhei para Edward, e para o pobre Emmett que parecia tão desnorteado quanto eu. — Por favor, me deixe entrar. São 3 da manhã, ninguém vai ficar supervisionando quem entra lá ou não.
- Me desculpe, senhorita, mas são as regras.
- Enfermeira… Layla. – Edward deu um passo a frente, de repente, para ler a identificação sobre o peito da jovem. — Não dificulte as coisas. Os pais de Rosalie já não puderam estar aqui, e eu tenho certeza que meu pai, Dr. Carlisle Cullen iria apreciar o seu favor.
Sua tentativa de pressionar a enfermeira ao mencionar Carlisle havia sido óbvia, mas funcionou. Aparentemente, seu pai era conhecido e respeitado nesse hospital.
Quando entrei no penúltimo quarto à direita, fechei a porta com cuidado. O local estava numa penumbra silenciosa, com um abajur aceso. Apesar da luz de lâmpada quente, o quarto não parecia nada aconchegante. Eu realmente odiava hospitais.
Rosalie abriu os olhos e virou-se para mim. Sua expressão variou de completamente vazia para uma de vergonha, e ela desviou o olhar com rapidez. Sua face parecia ainda mais pálida por conta do cabelo loiro que a adornava.
- Oi. – falei baixo me aproximando, suavemente. Ela suspirou profundo, mas retornou a me olhar.
- Oi.
- Posso sentar? – perguntei, gesticulando para a cadeira ao lado da cama.
- Por favor.
Eu me sentei. Fiquei em silêncio por alguns instantes, ponderando o que falaria em seguida.
Por fim, decidi pelo seguro.
– Como você se sente?
Rosalie lambeu os lábios que tremiam, e eu soube que assim que começasse a falar, lágrimas rolariam por seu rosto.
- Estranha… Vazia.
- Eles explicaram a você o que aconteceu?
- Um pouco. Eu não quis saber de muitos detalhes.
- A Dra. Heinz disse que está tudo em ordem aí dentro. – falei tentando animá-la, mesmo sabendo que falharia. — Quer dizer, você não deve perder a capacidade de ter filhos, se é isso que te preocupa.
- Não sei se é isso que me incomoda. – disse evasivamente.
- Você quer falar sobre isso?
Eu vi seus olhos azuis rodearem o quarto à sua frente por uma eternidade em busca de alguma coisa, até que Rose decidiu falar.
- Eu sempre pensei em ter filhos, Bella. Sabe, eu e meu namorado… a gente tinha um plano. Iríamos pra faculdade juntos, arranjaríamos um emprego depois da formatura, nos casaríamos e teríamos três filhos. Mas daí aconteceu isso desse jeito. E logo agora.
- Eu sei exatamente como é esse sentimento de que algo desviou para o caminho que a gente não escolheu.
- Sim, você sabe. Por isso que é a única pessoa com quem eu poderia contar, Bella. Você é a única que não me julgaria agora… E eu estou me sentindo tão culpada.
Eu peguei sua mão e a apertei.
- Eu nunca te julgaria. Mas eu só queria entender… Como conseguiu esconder uma gravidez esse tempo todo? E por quê?
- Eu já disse, eu tinha um plano pra minha vida! – falou com a voz alterada.
- O que isso quer dizer? Você… pretendia abortar? – indaguei.
- Eu queria tentar dar pra adoção. Sabe, como em Juno? – ela falou me pegando de surpresa, e eu sorri com tristeza para sua ingenuidade adolescente. — Eu iria me formar no mês que vem, e depois me mudaria pra faculdade na Califórnia. Ninguém nunca ia saber, e eu poderia ficar usando meus moletons antigos até que todo mundo acreditasse que eu só estava gorda.
- Meu bem, a realidade nunca é tão simples quanto os filmes. – eu que o diga, completei mentalmente. — Além disso, você iria esconder para sempre? Uma gravidez não é algo que passa despercebido. Como você não pediu ajuda, não contou nada pra sua família?
- Mas o que eu podia fazer? Eu estava apavorada. Eu nunca me senti tão sozinha como nesses últimos meses. Eu não precisaria da ajuda de ninguém se tudo tivesse dado certo.
- E seu namorado Emmett?
- Eu nunca contei, e ele também jamais reparou em nada de errado comigo. Eu não podia deixar que a vida dele fosse arruinada. Os pais dele provavelmente o expulsariam de casa, porque o sr. McCarthy é militar, e dos mais rígidos.
Meu coração estava partido por essa menina. Eu não conseguia sentir nada além de pena por sua ingenuidade e total desamparo.
- Essa história toda é absurda. Eu não vou te recriminar, porque eu sei muito bem como é assustador ter dezoito anos e carregar outra vida dentro de você, mas tenha consciência de que você foi muito imprudente, colocando em risco sua vida desse jeito.
- Eu sei. – falou, e expirou frustradamente por entre as lágrimas. — Minha mãe deve estar tão decepcionada.
- Ela ainda não está aqui, nem o seu pai. Não conseguiram pegar um voo ainda. E eles só pareciam muito tristes pelo telefone.
De repente, ela agarrou minha mão com força. Seus olhos arregalaram-se com uma convicção súbita.
- Por favor, Bella. – falou em frenesi. — Me prometa que você vai me proteger dos meus pais? Por favor? Se eles quiserem me matar, me expulsar de casa, sei lá. Prometa que vai interceder por mim?
- Não seja tola. Alice e Jasper jamais te fariam algo de ruim. Mas você tem meu apoio. Eu estou aqui.
Ela assentiu a cabeça sem dizer mais nada. Sua boca abriu em um bocejo enorme.
- Você quer alguma coisa? Quer falar com alguém? – inquiri. — Seus avós foram pra casa descansar, mas eu posso chamá-los também. Ou posso ligar para os seus pais, se você quiser falar com eles.
- Não, ainda não estou pronta. Só quero dormir. Minha cabeça está zonza. Você poderia fazer um favor pra mim, Bella?
- Claro.
- Chame Emmett. Eu quero que ele durma aqui comigo.
Eu me levantei, concordando com a cabeça, e me inclinei para beijar sua testa.
- Boa noite.
- Boa noite, Bella. Descanse você também.
- Vou tentar. – falei me afastando e abrindo a porta.
- Ah, e… Obrigada. Por tudo. – ela sussurrou e eu sorri complacente antes de sair.
O cansaço do dia finalmente me abateu, e eu me arrastei para o posto onde estávamos há horas. Avisei para Emmett que entrasse, e ele quase correu até o quarto. Edward estava terminando uma ligação com Alice quando eu me sentei ao seu lado.
- Já avisei que está tudo bem. É claro que eu não disse que Rose não queria ver ninguém da família, então só falei que ela havia acordado por alguns minutos, mas já dormiu novamente. – ele falou. — Então, como ela está?
- Abatida e transtornada. Mas acho que vai se recuperar com a ajuda certa.
- Tomara que sim.
Um bocejo involuntário escapou da minha boca.
- Você quer ir para casa? – perguntou Edward ao meu lado. — Eu posso te levar.
- Não. É melhor ficar aqui. Rose parece querer que eu fique.
- Faz sentido. Foi a você que ela procurou primeiro.
- Sim. Acho que está contando com que eu a apoie. Quer dizer, por toda a nossa história e...
- Eu sei. Entendo. – Edward assentiu a cabeça. — Bom, meu pai deve chegar ao amanhecer. Nós podemos dormir, por enquanto. Aquele sofá parece confortável.
Eu olhei para onde ele apontava. A sala de espera já estava vazia.
- O quê? Você quer deitar ali? – ri de leve.
- Não, você deita. Eu posso sentar na ponta, tenho o sono pesado. Ninguém vai nos incomodar.
Dando de ombros, eu me mudei para o sofá, de qualquer forma. Meu cansaço era maior do que a vergonha por dormir em público. Me deitei encostando a cabeça sobre o apoio de braço, enroscando meu corpo em mim mesma. Edward sentou-se do meu lado oposto. O sofá não era grande — três lugares apertados -, então eu tentei ficar o máximo possível dentro do meu espaço.
- Ok, eu menti. Esse sofá não parecia nada confortável. – ele falou quando eu pisquei os olhos de sono pela primeira vez. Ele riu e eu esbocei um sorriso. — Minhas costas vão me matar amanhã. E você também não precisa ficar encolhida aí, Bella.
- Estou bem aqui.
- Não seja tão durona. – falou, dando um puxão no meu pé. — Vem, pode colocar os pés no meu colo. Vai ser melhor.
- Edward, eu não acho que seja uma boa ideia...
- Está bem. Você que sabe.
Não demorou cinco minutos para que eu sentisse o desconforto nos músculos da minha perna e uma dor no joelho. Bufando, tirei os sapatos, estiquei os pés e mudei minha posição de modo que meus calcanhares tocassem o colo de Edward. Ele não falou nada ou sequer abriu os olhos, com a cabeça encostada nas costas do sofá. Apenas aconchegou meus pés sobre seu corpo e pôs as mãos quentes na minha pele fria.
Eu entrei em um sono profundo logo em seguida.
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- Edward, isso não vai dar certo. – eu sussurrei. Sentia medo, mas minha barriga estava cheia de borboletas pela excitação.
- Confie em mim. – ele continuou puxando minha mão para que entrássemos no carro. O sol brilhava forte, mesmo que eu estivesse tremendo de frio. — Vamos viver um pouco, Bella. Imagina sair da escola e ir pra faculdade sem nunca ter feito nenhuma loucura adolescente?
- Exatamente por isso que não é uma boa ideia. É uma loucura!
Ele fingiu não me ouvir, apenas me beijou.
- Você fica fofa fazendo esse biquinho.
E assim deu a partida em seu Escort 1993 prateado. Eu juro que esse garoto iria nos meter numa grande encrenca qualquer dia desses!
Meu pai iria me matar se soubesse que eu tinha fugido do meu castigo. Não que eu me importasse muito com isso. Eu estava enamorada demais por Edward para medir consequências.
Num piscar de olhos, nós já estávamos sentados sobre a pedra que permitia ver todo o horizonte de Nova York, e mais um pouco. As luzes lá em baixo eram hipnotizantes e o céu sobre nossas cabeças parecia que iria nos amassar e engolir tamanha sua enormidade.
- Ei, eu também quero mais. – protestei quando meu namorado tragou novamente do baseado que havia conseguido com Josh, o seu melhor amigo da escola.
- Tem certeza? Você já quase perdeu um pulmão de tanto tossir da primeira vez. – ele falou como se fosse muito experiente, mesmo esse sendo seu primeiro cigarro de maconha. Nós já havíamos compartilhado praticamente tudo em muitas "primeiras vezes" diferentes. E essa deveria ser mais uma.
- Vou ser melhor agora. – peguei o troço da mão dele, colocando na boca. — Vê só.
Meu corpo estava relaxado demais, embora minha cabeça estivesse densa o bastante para me fazer sentir com mais intensidade tudo à minha volta. O segundo dos três cigarros havia acabado, e agora eu deitava enroscada em Edward sobre a grama, os dois dentro do saco de dormir, com uma manta grossa por cima. Eu me sentia tão bem. Não queria que esse momento acabasse nunca.
- Eu te amo. Demais. Até dói. – ouvi minha voz falar de repente, soando longe e estranha.
- É igual pra mim. É uma coisa doida. – ele falou brincando com meus dedos sobre seu peito. Edward cheirava tão bem, e ouvir sua respiração me acalmava.
- Eu não quero te perder.
- Eu sou seu pra sempre. Você não vai se livrar de mim tão fácil.
Sabia que era uma tentativa de piada, mas eu não ri.
- Tomara que não mesmo. – eu estava começando a encharcar sua camiseta com lágrimas.
- Baby, por que está chorando? – perguntou se levantando e limpando meu rosto.
- Porque... porque daqui a alguns meses tudo vai ser diferente. Você vai pra sua faculdade e eu vou pra minha. Eu vou te perder.
- Nunca. – falou me dando um beijo e se afastando pra olhar nos meus olhos. — Nunca, ouviu?
Eu concordei, porém já estava tirando nossas roupas. Precisava dele como jamais antes. Edward me invadiu e a sensação era maravilhosa, como todas as vezes.
- Isso é errado, Bella... – falou entre meus beijos urgentes.
- Shh. Ninguém vai ver.
- Não é isso... não tem camisinha.
- Não me importo. Comecei com a pílula, não lembra?
Várias frações de tempo depois, dormíamos com nossos corpos nus e satisfeitos sob o céu atipicamente estrelado de Nova York...
Primeiro senti a dor ardente em minha nuca. Em seguida a luz forte penetrou minhas órbitas oculares me certificando de que eu acordasse. O elemento que estava presente me envolvendo minhas percepções a todo momento, entretanto, era o casaco que me aquecia e encostava em meu nariz. O cheio nele era forte e eu reconheceria em qualquer peça de roupa.
Me sentei no sofá da sala de espera do hospital de súbito, perdida e desnorteada. Eu estava sozinha ali, embora as janelas já mostrassem o sol brilhando lá fora e eu via movimentação ao longe.
Eu não podia acreditar que tinha dormido tão profundamente e em tão pouco tempo. O sonho que tive havia sido muito próximo à realidade. Uma reconstituição quase perfeita do dia em que nossa filha havia sido gerada.
Eu estava tão alucinadamente apaixonada por Edward naquela época, que só agora eu podia ver as coisas com clareza. Como o quão fácil eu havia confiado nele. O quanto eu abriria mão de qualquer coisa para ficar ao seu lado. E o sentimento era completamente verdadeiro.
Tudo em meu cérebro agora gritava coisas óbvias que eu teimava em esconder sempre. Eu queria varrê-las para debaixo do tapete, como todas as vezes, mas havia se tornado impossível.
Nada do que havia acontecido entre Edward e eu foi falso. Nada do que estaria no passado seria mudado. Tudo o que poderia mudar seria nosso presente e futuro. Ou pelo menos eram a essas afirmações as quais eu me agarrava nesse instante, mesmo a contragosto. Céus, eu estava tão confusa, que podia me perder aqui dentro caso não externasse de uma vez tudo o que continha preso.
Somava-se a isso o fato de que, ultimamente, ficava cada vez mais difícil evitar pensar naquelas benditas palavras que, dentre tantas, Edward disse por cartas antes de concretizá-las pessoalmente. Eu te amo, pra sempre.
Essa recordação machucava incessantemente desde que fora criada. Eu não poderia mais continuar assim, agora eu tinha certeza. Acima de tudo, eu estava exausta. Física e mentalmente.
Me levantei para espreguiçar e, em seguida, coloquei o paletó escuro de Edward dobrado sobre meu antebraço. Saí à procura de comida, água e informações. Enquanto eu caminhava, porém, a forte resolução se formava na minha mente, falando mais alto, berrando. Só sei que, quando percebi, estanquei no lugar ao ouvir sua voz no final do corredor.
Edward estava sozinho, falando ao celular. Assim que me viu, sorriu e acenou para mim. Todas as possibilidades boas e ruins passaram pela minha cabeça novamente. Poderia ser a nossa ruína ou a nossa salvação.
Será que eu estava pronta para ouvi-lo? Eu pensava que o dia demoraria a chegar, mas a vontade de passar a limpo todo o tipo de revelação que me abatia nas últimas semanas veio impactante.
Como se lesse meu pensamento, Edward olhou para mim e franziu o cenho desligando o telefone. Eu fui adiante antes que mudasse de ideia, caminhando com passos firmes.
Eu sabia que tinha, enfim, tomado a minha decisão.
- Edward. – ele me olhou com curiosidade. Eu suspirei encorajadoramente antes de falar.
- Estou pronta.
Notas finais
A fic está pesada no drama, toda trabalhada na mexicanidade, e eu to com medo de estar exagerada. Mas prometo que dias um pouco melhores virão.
Me digam o que acharam nas reviews!
Beijo!
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