Mais Uma Vez
43 Capítulo 42: Presságio
Notas iniciais
Capítulo 42: Presságio
Bella
— Claire, rápido, liga pra polícia! – Ouvi Edward assim que pisei na sala.
— Que foi?!
— Tem uma mulher aqui querendo me matar de tanta beleza.
— Ai, que idiota! – Empurrei seu ombro, mas logo ajeitei seu blazer, com medo de amassar. Ele riu.
— Você está um espetáculo, amor.
— Obrigada. Igualmente.
Era a primeira sexta-feira de junho, uma semana após nossa viagem até Charlie, e estávamos prontos para a festa de lançamento do novo site da revista. Aparentemente, minhas horas tentando acertar maquiagem e cabelo com tutoriais no Youtube que Claire me mostrou deram certo.
— Você está linda mesmo, mãe – ela falou, largando o videogame que jogava com o pai para me olhar, pegando o celular. – Fiquem ali, vou tirar umas fotos de vocês.
— Vão ter milhares na internet hoje, não precisa.
— Precisa! É a primeira vez que vocês vão a um evento grande oficialmente juntos – Ela disse algo que eu havia reparado e comentado mais cedo. Meu estômago se arrepiou. – Quero uma lembrança do meu casalzinho.
— Nossa, falou igual minha mãe babona quando a gente ia às festas da escola. – Edward resmungou, mas traspassou o braço pela minha cintura, posando na frente da escada. Me escondi de vergonha em seu pescoço no início, mas Claire bateu as fotos até se dar por satisfeita, nos dispensando com um joinha.
— Ok, estamos indo. – peguei minha bolsa. – Tem comida na geladeira, vê se não vai gastar dinheiro pedindo porcaria, hein. Vai ficar aí sozinha mesmo?
— Ninguém quer ficar comigo hoje. Jake e Rachel estão no aniversário do primo. Hannah tem um encontro, Kim está vendo Netflix. Flopei horrores, abandonada por todos.
— Oh dó! Talvez você já esteja dormindo quando a gente chegar, não espere acordada.
— Tá, tá. – ela já tinha voltado ao jogo. – Boa festa, divirtam-se!
Eu bem que tentaria.
Edward parecia tão calmo, e eu não fazia ideia como. Sorria tranquilamente quando chegamos ao restaurante descolado em Manhattan, comentando como era bonito o lugar.
— Que mão gelada. – disse ao me ajudar a sair do táxi.
— Estou nervosa como se eu nunca tivesse ido a um evento importante do trabalho.
— Que houve? – perguntou quando paramos na fila da entrada.
— É só... uma ansiedade, sei lá. Não sei como vai ser quando a gente chegar junto. O irmão da minha chefe está confirmado na lista. – falei a última frase mais baixo, sobre a possibilidade de Joaquin Denali estar aqui.
— Já conversamos sobre isso. Não vamos ligar pra provocações, se houver. Apenas sorria e releve. Os outros são os outros, e não tem que se meter com a gente. A não ser que você queira que eles se metam.
— Não quero que se metam.
— Então.
— Certo. – respirei fundo.
— Tudo bem. Então, vamos?
Senti muitos olhares quando entramos, embora a maioria das pessoas fossem meus colegas de trabalho que provavelmente só estavam curiosos para saber quem era o homem lindo ao meu lado.
A hostess nos levou até a mesa designada, e logo cumprimentamos meus companheiros. Apresentei Edward a todos. Alguns já o conheciam e ficaram surpresos, outros gostaram de saber que eu, finalmente, estava num relacionamento.
Era incrível – e patético – como a vida amorosa de uma mulher solteira mexia com as pessoas.
Não foi difícil achar Carmen, apesar de ter sido difícil chegar até ela. Os repórteres e fotógrafos a cercavam, e ela era o puro orgulho da sua revista, que agora havia entrado de vez na era digital, repaginada, iria competir com as outras grandes da internet.
Não nos falávamos há alguns dias, em meio a correria para deixar tudo pronto. Ela primeiro me olhou, mas vi a surpresa tomando seu semblante ao notar Edward. Isso durou dois segundos, até que assumiu sua personalidade esfuziante de sempre.
— Oi, mi querida. – Me deu os dois beijinhos costumeiros reservados para os eventos e virou-se para Edward, o sorriso emplastado no rosto, os cantos quase tremendo. – Edward Cullen. Há quanto tempo, não?
Sendo tia de Tanya, Carmen e ele já haviam se encontrado em alguns eventos familiares. Edward até me contou sobre os porres épicos que ela tomava nas festas em sua cobertura. A relação deles era bem diferente da que eu tinha com ela, era um outro lado que eu não conhecia. Imagino como devia ser estranho para ambos esse momento.
— Sim, acho que a última vez foi no lançamento do livro do Le Printemps em março. – ele apertou sua mão. – Parabéns pelo novo site, tenho certeza que vai ser um sucesso.
— Obrigada... Você veio com a Isabella?
— Sim. Ele está comigo. – avisei tentando parecer normal. E sim, amarelei em dizer diretamente que éramos um casal agora. Mas ela havia entendido.
Um silêncio bem constrangedor se seguiu. Carmen apenas assentiu a cabeça nos entreolhando e sorrindo.
— Então, espero que gostem da festa.
— Está tudo lindo. – ele respondeu.
— Sim. Como sempre, você é uma ótima anfitriã, Carmen.
— Imagina, obrigada. – ela amava a bajulação. – Bem, procure a Maya sobre as entrevistas de hoje, quero que os editores-chefes falem um pouco também. Ah, lembre-se de vir tirar fotos com a equipe depois que eu fizer a apresentação oficial.
— Tudo bem, Carmen. Até mais.
Horas depois de mais encontros e reencontros, no meio do jantar, avistamos Joaquin conversando numa roda de homens brancos de terno – como sempre –, e ele ergueu seu copo de uísque, acenando a cabeça. Edward replicou do mesmo modo. Eu apenas sorri contida.
Ao menos, ele não ousou vir até nós. Isso já estava de bom tamanho para a minha ansiedade dessa noite. O término dela foi a melhor parte.
— Estou exausta por conta do estresse, sabe? – comentei, quando voltávamos para casa, no táxi. – Não me sentia assim desde aquele jantar com os meus amigos.
Como eu desejava, havia reunido alguns dos meus amigos para jantar lá em casa mês passado, para conhecerem meu “novo” namorado. Eu nunca me esqueceria dos olhares arregalados quando viram Edward chegando e me cumprimentando com um beijo.
Graças a Deus, todos foram acolhedores, a noite foi divertida enquanto eu tentava fazê-los entender a nossa história. A terapia familiar que fizemos nos últimos meses, com certeza, ajudou bastante – assim como a garrafa de vinho que bebi inteira sozinha.
— Nervosa só porque fui seu acompanhante hoje?
— Se eu falar que não, estaria mentindo.
— Foi tudo bem, eu acho. – ele disse. – Bom, agora jogamos a notícia pro universo, não falta mais ninguém saber. É um peso a menos.
— É, acho que sim...
Semanas depois, o aniversário de Edward em junho veio, e embora Esme tivesse insistido em realizar uma grande festa como todo ano, ele apenas reuniu alguns amigos mais próximos e a família num restaurante. Estava contente. Em seu discurso no parabéns, disse que já tinha tudo o que precisava naquela mesa, e obviamente, todos ficaram bobos pelo seu charme natural.
Foi Edward que lembrou que fazia exatamente um ano desde que tudo mudou em nossas vidas.
— Quanta diferença pro aniversário do ano passado, não? – Comentou ao chegarmos em casa, pesados de tanto sushi.
Levei um momento até entender e lembrar. A loucura em sua casa, em nosso antigo quarto, quando o ataquei e usei seu corpo como válvula de escape.
— Ah… Pois é. – sentei no sofá, tirando os sapatos. – Essa é a beleza do tempo: ele passa.
— Você não gosta de lembrar disso, né?
— Não é um momento que eu tenha orgulho, e definitivamente jamais faria de novo. Usar o sexo como punição é terrível, nada saudável.
— Não romantizo o momento, hoje em dia, porque eu também evolui desde então. Mas se te consola, eu acho que foi honesto. Foi feio, mas era o que você precisava fazer. E eu deixei.
Ele sentou ao meu lado, sozinhos na penumbra da sala. Seus dedos acariciaram minha bochecha, preocupado comigo.
– Era a única forma de expurgar toda a dor que eu sentia, toda a raiva e choque sobre as descobertas que fiz. Não faz sentido pra mim agora, vendo de longe, e me envergonha. Era como se eu estivesse fora do meu corpo, eu quase não lembro direito.
— Eu sei muito bem como é isso, acredite.
Peguei sua mão e beijei.
— É bom poder falar sobre isso com você, assim… Abertamente.
— Sim. Maravilhas que só uma terapia proporciona.
— A Martha vai adorar saber que disse isso. – eu ri. – Vamos subir? Preciso deitar.
— Vamos. Mas antes, um sal de frutas, porque esse jovem de trinta e quatro anos já está com o estômago um pouco gasto.
O tempo passou tão rápido, que na semana antes de eu sair para minha viagem de férias, nós quase não conseguimos nos ver. Eu precisava deixar tudo pronto no trabalho e em casa.
Finalmente, o último dia de junho chegou, e naquela noite quente de verão, estaria embarcando com Esme para Nice, litoral da França, nosso primeiro destino.
Edward fez questão de me levar até o aeroporto, e no caminho, fomos buscar Claire em seu trabalho de meio-período das férias. Encontramos Carlisle também se despedindo de Esme. Atrás dela, suas amigas, as simpáticas e animadas moças e senhoras que iriam conosco.
Os últimos minutos até o voo foram passados grudada com minha filha e meu namorado. Jurei que não choraria quando a voz nos chamou para o embarque. Claro que não me aguentei.
Não seria a primeira vez que viajaria sem os dois, mas agora era diferente. A dinâmica familiar que tínhamos criado em nossa rotina nesse ano estava tão forte, e interrompê-la assim, mesmo que momentaneamente, trazia uma leve angústia.
— Ah, não, sem choro. São só quinze dias! – Claire ralhou, me abraçando. – Você vai se divertir, tirar muitas fotos, ir à praia pra se livrar dessa cor de palmito e me trazer vários presentes, tá?
Eu só ri.
— Vou tentar. Mas eu queria mesmo que vocês fossem comigo. – fiz um último biquinho.
— Um dia, meu amor. Eu prometo. – Edward falou, me pegando apertado e terminando com um beijo. – Reitero o que Claire falou. Divirta-se, é uma ordem!
— Tá bom. – Sequei as lágrimas. – Eu amo vocês, tanto.
Ao meu lado, ouvi Esme se despedindo do marido, até que meu sogro virou-se para mim, me dando um abraço carinhoso.
— Fique de olho nela quando começarem a vir os drinks. Minha esposa tende a ficar soltinha demais com o Aperol na beira da praia. Pode dar trabalho.
— Tudo bem. Mas não prometo nada. – eu ri.
— Até porque ela vai ficar soltinha também, não tem alternativa. – Esme emendou, piscando para mim e fazendo minha apreensão se dissipar.
Despediu-se do filho e da neta, e logo andamos ao nosso portão com acenos e desejos de boa viagem dos três que ficariam em Nova York, partindo para nossa aventura de verão.
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A brisa do mar me atingiu as narinas naquela tarde morna. Respirei fundo, abaixando meu livro e fechando os olhos.
Esme não brincou quando disse que o grupo era animado.
Em uma semana, eu já havia feito mais do que faria em meses em casa. Já tínhamos visitado três cidades, cinco praias, ido a quatro boates, vários restaurantes, lojinhas e casas de cultura. Me sentia cansada, mas o tipo de cansaço bom.
Hoje decidi ficar para trás, só curtindo a praia em frente ao hotel e cochilando sob o guarda-sol depois de beber uma Margarita. Elas tinham ido fazer kitesurf. Preferi não me arriscar nessa ventura.
Eu já pegava no sono quando meu celular vibrou com uma ligação. Tirei-o da minha sacola de pano embaixo da cadeira de praia, já sorrindo. Devia ser Edward para reclamar do trabalho e novamente dizer que estava com inveja das minhas fotos no Facebook.
Porém o nome na tela fez meu estômago dar um nó. Minha mãe me ligava, pela primeira vez em vários meses.
A última vez que atendi tinha sido em janeiro, e ela queria desejar Feliz Ano Novo. Há três meses, ela vinha telefonando a cada quinze dias, e eu ignorando. Mas agora, eu sabia bem o motivo de sua ligação. Ela provavelmente já devia estar em Nova York, para valer. E se estando lá eu já não queria pensar nisso, agora então, sem chances.
Deixei tocar até cair na caixa postal. Eu havia feito um pacto comigo mesma; sequer estava atendendo ligações do trabalho, a não ser que fossem urgentes. Não iria me estressar durante minha tão sonhada viagem.
Resolvi desbloquear o celular para mandar mensagem a Edward, buscando calma e distração de todas as paranoias que começaram a surgir naquele instante.
[Bella]
Trabalhando?
[Edward]
Dei uma pausa, tô almoçando na minha sala.
Hoje está puxado. SOS!
Onde estão agora?
Resolvi ligar pelo Facetime ao invés de continuar digitando. Agradeci pelo wi-fi que a prefeitura tinha colocado na praia quando ele atendeu, fazendo careta ao me ver no vídeo da telinha.
— Ah, não. Precisa mesmo esfregar na minha cara que está de biquininho pegando sol, enquanto eu estou nesse escritório maldito?
Eu ri.
— Estou ficando bronzeada, olha. – mexi um pouco na alça do meu biquíni vermelho para mostrar.
— Hmm, sério? Não estou vendo muito bem, pode abaixar o sutiã mais um pouco pra eu ver melhor?
— Eu tô em público, seu doido!
— E daí? Se você quiser, vá em frente, o povo está acostumado com topless na Europa. — ele mastigava uma salada barulhenta.
— Você realmente está sugerindo que sua namorada fique com os peitos de fora pra todo mundo ver?
— Bem... Se eu puder ver agora também...
Apenas revirei os olhos, sorrindo para sua travessura.
Ficar longe estava sendo mais difícil do que eu previa. Já há alguns meses, nossa vida sexual estava movimentada – pelo menos três vezes por semana –, e a abstinência começava a bater. Até tínhamos tentado uma brincadeira por vídeo, mas era complicado com o fuso horário e sua mãe dormindo na cama ao lado da minha.
— Estou sozinha aqui. – eu mudei de assunto. – Sua mãe e as amigas foram fazer kitesurf.
— Deus do céu, não deixe meu pai saber disso. Elas foram com Marco Polo, o instrutor sarado, né?
Dessa vez, eu ri bem alto.
— Sim, como você sabe?
— Foi esse cara que encantou as madames uns anos atrás quando foram a essa praia, e convenceu a testarem vários esportes radicais. Meu pai não deu a mínima pras loucuras que elas fizeram, só ficou com ciúmes do bonitão nas fotos.
— Bem, ele não convenceu a essa madame aqui. – falei orgulhosa de mim. – Como está Claire?
— Ótima, mas custou a levantar hoje, era puro cansaço. Disse que tem ensaio da banda depois do trabalho.
— Então não deixe que chegue muito tarde. Quero ligar antes de dormir. – Tínhamos decidido não deixar nossa adolescente sozinha em casa durante essas semanas, e Edward estava dormindo no meu quarto. Não poderia mentir, minha curiosidade era grande para saber como estava sendo essa convivência diária dos dois sozinhos pela primeira vez.
— Vou tentar, mas você sabe como ela é com esses ensaios.
— Obcecada. Se precisar, vai lá buscar. Coerção funciona, às vezes.
— Certo. — sua risada foi curta. – Então… Você está bem?
— Claro. – respondi rápido demais. – Por quê?
— Sei lá, parecia meio estranha quando ligou, meio preocupada.
— Devia ser o sol na minha cara. – menti. – Você está bem?
— Eh... Ando meio estressado, o hotel está uma loucura de verão, dentre outras coisas... Mas depois a gente conversa melhor. Não vou te prender, também tenho que terminar um relatório pras cinco.
— Ok. Até mais, então. Bom trabalho.
— Até mais, amor. Boa praia.
Desligamos e voltei a fazer o mesmo que antes: o dolce far niente, o mais doce e belo nada.
A segunda semana, já na Itália, foi igualmente recheada de eventos e afazeres, porém me dei ao luxo de recusar alguns para de fato descansar, dormir ou ficar com a bunda para o sol.
Minha mãe não ligou novamente, porém enviou uma única mensagem: "Precisamos conversar, Bella, é importante". O remorso só crescia em mim, e por um momento cogitei telefonar ali mesmo, até perceber a auto-sabotagem que estaria praticando para estragar minhas férias.
O dia do retorno aos Estados Unidos foi chuvoso. Um caos.
Uma tempestade de verão assolava Palermo, nosso avião fora até atingindo por um raio minutos após a decolagem. Ficamos bem, porém a turbulência que enfrentamos me deixou enjoada por horas.
Depois de tantos dias de plenitude e felicidade, esse retorno complicado pareceu um presságio da tempestade que estava prestes a cair em nossas vidas.
Claire e Edward estavam me esperando no aeroporto como eu os deixei. Lindos e sorridentes. Corri para abraçá-los, beijando e cheirando e apertando meus amores.
— Estava morrendo de saudades. – falei, esmagada entre ambos. – Vocês não tem noção do voo horrível que foi esse! Por um segundo achei que nunca mais fosse vê-los.
— Credo, mãe, vira essa boca pra lá! – Claire falou.
— O que houve? – Edward perguntou, pegando minha mochila pesada. – Cadê minha mãe?
— Se despedindo do pessoal. Choveu o céu inteiro na decolagem, acredita que um raio nos acertou?
— Nossa, e por que não cancelaram esse voo?
— Não sei, a chuva começou a intensificar na hora que estávamos pegando altitude. Imprevisível.
Quando Esme chegou, mandou que parássemos de chorar por algo que nem havia acontecido. Sempre otimista e pragmática. Felizmente, passamos o caminho todo até sua casa fofocando sobre as melhores partes da viagem.
— Ainda bem que meu pai está de plantão. – Edward começou a tirar um sarro da mãe. – Imagina se Dr. Carlisle ouve a senhora falando assim do Marco Polo.
— Sou casada, mas não sou morta. Gosto de ver gente bonita, sim, qual o problema?
Nós rimos.
— Nenhum, imagina.
— Além do mais, seu pai sabe que ele é meu garanhão desde sempre e para sempre. Quem dorme comigo todo dia?
Edward fez um som característico dos filhos com nojo da vida sexual dos pais.
— Ok, já me arrependi de começar essa conversa. Contem como foram as visitas aos vinhedos italianos, vai.
— Teve um dia que estávamos passando entre as videiras, de repente, só ouvimos um grito, e cadê a Bella? Estava estatelada no chão com a bunda cheia de terra e vinho no vestido. Olhando a taça vazia na mão toda arregalada sem entender nada. Ficou de porre, tadinha.
— Ei! Estava ventando, meu cabelo caindo no rosto e tinha uma trecho de lama no meio do caminho. Eu não estava de porre.
— Quantos vinhos já tínhamos degustado, querida? – Esme retrucou.
— Nem foram tantos. Só uns dez...
Edward apenas me olhou pelo retrovisor, sorrindo e enviando um beijinho.
— Queria ter estado lá pra ver isso.
Chegando na casa dos Cullen, nos despedimos e agradecemos mutuamente pela companhia da outra, dizendo como havia sido divertido.
— Venham tomar um banho de piscina no próximo fim de semana antes que o verão acabe! – Ela convidou, abrindo sua porta.
O Godzilla, vira-lata preto que haviam adotado no início do ano, veio correndo fazer festa. "Godzilla" pois era um monstrinho que comia tudo que via pela frente. Foi ideia de Claire.
— Ah, eu quero, Vó! – Ela se animou, abaixando para falar com o cachorro que veio cheirá-la também. – Oi, Godz.
— Pode deixar, vamos marcar. – falei. – Edward precisa de um pouco de sol.
— E precisa desestressar também. – Esme completou, olhando o filho, que se encolheu um pouco sob sua inspeção. – Ele está com uma carinha... Essas olheiras. Não tem dormido bem, né? O que foi?
— Imagina, mãe, estou ótimo. Só... trabalhando demais.
— Sei. Se cuidem, hein. – ela pegou Godzilla no colo e nos acenou enquanto voltávamos para o carro. – Até mais!
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No dia seguinte, almoçamos e esperamos até Claire sair para o cinema com as amigas.
Edward me olhou na sala e com um clique, nos agarramos no meio do caminho. A saudade era imensa, quase um mês. A tensão sexual já se acumulava desde que cheguei no aeroporto.
— Porra. Finalmente. – ele gemeu na cadeira, quando subi em seu colo, já tirando sua camisa.
— Concordo.
— Vamos subir? – Beijou meu pescoço.
— Por favor.
Ele agarrou minha bunda e levantou de uma vez. Eu nunca tinha dito em voz alta, mas adorava o fato de que agora Edward fazia exercícios e tinha força para me carregar assim com facilidade. Isso, dentre tantas outras coisas, era novo também. Me excitava um tanto, era algo que jamais pensei em gostar.
Enrosquei minhas pernas e ele foi me carregando pela sala, me beijando o tempo todo até chegarmos na escada. Desci do seu colo, mas subimos roubando beijos, arrancando as roupas.
Chegamos ao quarto com sua boca na minha enquanto seus dedos me exploravam. Caímos na cama e mordi seu lábio inferior quando circulou meu clitóris, quase dolorido de tão excitado.
Edward sugava meu pescoço, descendo devagar para deliciar-se em mordiscar, chupar e lamber meus mamilos duríssimos.
— Quando você apareceu naquele vídeo de bíquini vermelho me provocando com essa marquinha, fiquei horas pensando neles, sabia?
— É? – Eu só suspirava, de olhos fechados agradecendo aos Céus por cada toque.
— Fui obrigado a tocar uma punheta no banheiro do escritório.
— Foi gostoso?
— Só seria melhor se você estivesse lá.
— Podia ter filmado e me enviado.
Edward riu, certamente lembrando daquele dia que brincamos ao telefone e ele me enviou um video nada tímido.
— Você adora me ver, né?
— Amo.
Dessa vez, diferente das últimas, ele fez algo que só na juventude fazíamos: pegou o lubrificante na cabeceira e subiu meu corpo, um joelho de cada lado, para colocar seu membro entre meus seios, me fazendo uni-los para que ele fodesse como gostaria.
Permiti. A essa altura, permitiria qualquer coisa.
Quando se deu por satisfeito, subiu o pau para a minha boca. Um silencioso pedido que aquiesci prontamente, abrindo o máximo que conseguia para chupá-lo.
Nossos olhos grudados, Edward começou a mover os quadris lentamente, se apoiando na cama. Vê-lo tão vulnerável assim era viciante. Deixei que tirasse seu prazer de mim, era incrivelmente excitante para mim, também.
— Tá se masturbando? – Perguntou e eu apenas sorri com ele entre meus lábios, confirmando. Ele gemeu um xingamento antes de sair da minha boca e rapidamente colocar uma camisinha.
Aproveitando minhas pernas abertas, ele enganchou uma no cotovelo e me penetrou de uma vez. Nem sei como não gozamos na hora, tamanha intensidade. Tudo por dentro queimava.
Ele não se moveu por alguns segundos, até que eu abracei seu corpo com minhas pernas e apertei seu membro por dentro. Foi sua perdição. Lentamente, começou a estocar, meu corpo inteiro arrepiado, em alerta para o dele.
— Saudades, amor. – lamuriei enquanto sentia Edward por todo lado.
— Eu também. Demais. – beijou minha boca só para avançar seu ritmo, meus mamilos roçando seus pelos.
No quarto, apenas nossos sons e o sol do fim de tarde, tudo alaranjado, pegando fogo. Desejei que a sensação fosse interminável. Desde que voltamos, era sempre assim. Como se fosse a primeira e a última vez, tudo junto.
Agarrei sua bunda para direcioná-lo, fui de encontro aos seus quadris. Ele colocou um travesseiro sob mim e conseguiu achar um jeito de esfregar meu clitóris com o baixo-ventre em cada estocada, seus pelos arranhando meu ponto mais sensível.
Eu gritei.
— Tá bom assim? – Perguntou tão sem força, quase não ouvi sob meus gemidos.
— Perfeito.
Lambi seu pescoço, agarrando seu cabelo. Talvez tenha mordido seu ombro. Quando soltou um gemido longo no meu ouvido, berrei o primeiro orgasmo da noite.
Berramos. Ele veio logo em seguida.
— Te amo. Te amo. – repetia, beijando minha testa, olhos e boca. Me fazendo sentir a mais amada do mundo, só nosso, naquele instante.
Edward estava mesmo inspirado e disposto.
Sua ereção voltou mais cedo do que estávamos acostumados e logo estava dentro de mim novamente, sussurrando como sentiu falta da minha buceta, do meu cheiro, do meu gosto, do meu corpo.
Em algum momento da noite, conseguimos parar para ir buscar uma água, ir ao banheiro e ligar um ventilador – apenas para voltar em seguida e começar tudo de novo. Ele gozou na minha boca, eu na dele. Matamos a saudade da forma mais suja e maravilhosa possível.
Saímos do quarto exaustos, saciados. Famintos.
Edward preparava uma comidinha enquanto eu tomava banho. Quando saí, a comida estava terminando no forno e ele falava ao celular. Seu semblante e tom de voz não me desceram bem.
Cheguei na cozinha, ele desligou apressado.
— Quem era?
— Coisa de trabalho. Desculpa.
— Em pleno sábado à noite?
— Pois é…
— Problemas?
— Sempre. Mas não vamos falar disso. Vamos falar sobre esse salmão, que eu estou doido que você prove.
O salmão estava delicioso, assim como o vinho branco que tomei sozinha e a nossa conversa. Da janela, a brisa fresca com o cheiro das flores do quintal de Kate deixava tudo mais perfeito. Meu coração apertava-se, já com saudades desse momento.
Tudo estava bom demais, eu não queria sequer pensar demais logicamente nessa conclusão, para não estragar. Os anos haviam feito isso comigo. Meus pensamentos, mesmo intuitivos, tornavam-se cautelosos.
Horas mais tarde, provei que tinha razão.
Claire já havia voltado para casa, e todos estávamos recolhidos nos quartos, prontos para dormir. Deitada em lençóis frescos, com meu computador no colo, eu revisava um arquivo para o livro da família Takahashi, que voltei a escrever.
Edward veio do banheiro após escovar os dentes secando as mãos na camiseta. Sua aura estava estranha.
— Preciso te falar uma coisa. – Sentou-se na ponta dos meus pés. A forma como falou me incomodou.
— Ok, essa é uma das frases que mais odeio na vida – eu ri, fechando o arquivo e o computador. – Mas pode falar.
— É que… Desde que voltamos a namorar, estamos praticando a comunicação aberta, certo? – Assenti para ele continuar. Seus olhos desviavam-se. – Bom, pisei na bola. Desculpa. Não tenho sido honesto contigo.
— Aqueles problemas com seu pai que você não quis me contar, né?
— Eh… Também tem alguns desses problemas, mas não é isso que eu quero falar agora.
— Não? Conta logo, fico nervosa quando você enrola.
— É que… Mais cedo quando eu estava no celular, na cozinha… Não era trabalho. Era Tanya.
Senti o estômago gelar, mas tentei esconder. Ele sabia que isso estaria fora do nosso acordo, deixamos claro. Para que Tanya e nós seguíssemos nossas vidas, era necessário cortar o máximo de relações possíveis.
— Caramba. – respirei. – Ela te ligou assim mesmo, num sábado à noite, sabendo que você estaria comigo? Que cara de pau.
— Na verdade, eu que liguei. Ela me mandou uma mensagem pedindo pra falar urgente e eu fiquei preocupado, retornei.
— Ahm... E aí?
— E aí que ela quer me ver. – Passou a mão no cabelo, nervoso. – Na verdade, quer se despedir. Parece que vai passar três anos na Espanha. Assinou com uma rede hoteleira e está indo em quinze dias.
— Você tem falado com ela?
— Não, só essa semana, ela me mandou umas mensagens. – Respondeu rapidamente. Eu apenas o fitei, tentando pegar a mentira, a história estava mal explicada. Ele reparou, emendando. – De verdade, não tenho falado com ela. Essa semana foi a primeira vez desde a festa do Le Printemps em março. Mas tenho, sim, falado com a Svetlana, a governanta, e às vezes com o John, mentor da reabilitação, que conheci na primeira internação dela. Pelo menos uma vez por mês, pra checar como está a recuperação de Tanya, sabe?
— Aham...
Tentei permanecer distante, olhar de fora. Tinha os pés no chão, porém eles estavam lá atrás. Difícil ainda decodificar o que sentia com a novidade.
Ciúmes existiam, embora muito pouco. Uma recaída de Edward para os braços dela não parecia possível nesse momento. Mas havia o medo, quase burlesco e infantil, de que isso fosse uma armadilha de Tanya para nos separar, nos trazer mais problemas. Talvez fosse bobagem, mas minha cabeça foi a mil inventando cenários.
Nós já tínhamos passado por tanto nessa trama particular de nossa história, e eu esperava qualquer coisa.
Edward pareceu notar minha aflição.
— Você está chateada, né?
— Claro que estou… A gente tinha combinado não se aproximar mais dela e da família Denali. Mesmo indiretamente, você manteve contato com Tanya. É claro que as pessoas ao redor contaram que você buscava notícias, isso deve ter dado algum tipo de esperança, não acha? Por isso ela ligou pra se despedir, mesmo vocês já tendo se despedido há tanto tempo.
— Talvez. Mas eu sempre pedi sigilo aos dois. Não acho que tenham contado, até porque seria ruim para o tratamento dela. John e Svetlana sabem que eu só ligo pra ter notícias distantes.
— Preferia ter conhecimento disso antes, Edward.
— Desculpe não ter contado. Achei que não faria diferença entre a gente, é algo tão particular meu. Só fiz isso pra conseguir ficar com a consciência tranquila, ainda carrego muita culpa por ter terminado daquele jeito.
— Eu sei. Seu sentimento é válido. Eu sei que não fomos os mais honestos e leais com ela. Mesmo assim, acho que eu preferia ficar sabendo. Mas agora já foi… E agora Tanya quer te ver pessoalmente em um encontro.
Vi sua cara franzir com a minha afirmativa. Eu conhecia aquela cara. Era remorso.
— Eu não sei o que fazer. Você acha que eu devo ir?
— Sinceramente, não sei o que pensar. Você quer ir?
— Sei lá. Não quero fazer nada que te deixe desconfortável, e eu sei que um café com a minha ex tem todo o potencial pra isso.
Sorri com um pouco de tristeza pela sua confusão e por ainda termos que estar tocando nesses assuntos. Não podíamos ter um minuto de paz?
Encarei firmemente.
— Edward... Faça o que sua intuição mandar, não precisa da minha aprovação. Quem sou eu pra decidir o que você deve fazer?
Ele pegou minhas mãos, beijando-as.
— Você é a mulher que eu amo e que escolhi ter na minha vida. Tanya é meu passado, mas você é mais importante agora. Eu vou levar em consideração sua opinião, não tem jeito.
Me afastei, incomodada.
— Não, não faz isso, por favor.
— O quê?
— Isso, poxa… Está botando um peso desnecessário nos meus ombros. Essa decisão é só sua. Por mim, você sabe que nunca mais falaríamos com nenhum Denali. Vocês já tiveram um adeus e já deveria ter cortado todos os laços. Mas parece impossível.
Ele ficou em silêncio, assentindo a cabeça. Deitei na cama, entrando nas cobertas, e Edward seguiu, deitando ao meu lado.
— Posso te abraçar? – Perguntou, com tanta precaução, como se não tivéssemos explorado todos os tipos de toques nessa cama há apenas algumas horas. O quarto ainda tinha nosso cheiro.
— Pode. – permiti, e ele me prendeu em sua conchinha. Eu apaguei a luz.
Meu coração pesava.
Eu confiava nele, confiava que estava de cabeça e corpo comigo, já havia dado inúmeras demonstrações. Mas um passado de coisas escondidas era difícil de apagar. Era quase inevitável que a insegurança me arrebatasse nessas horas.
— Se eu fosse... – Sua voz cortou o silêncio tenso. – Se eu fosse encontrá-la, gostaria que você fosse comigo. Se você quiser.
— Pra quê?
— Acho que ficaríamos mais tranquilos assim.
— Edward, eu não sou uma louca ciumenta, nem paranoica, pra ficar te fiscalizando. Sou realista. Não tenho medo que você vá me trair, se é o que está pensando.
— Não?
— Claro que não, se você quisesse me trair, você arranjaria um jeito. Não me preocupo com isso. Minha preocupação é Tanya ficar pensando que a história de vocês nunca acabou porque você continua procurando saber dela, e que ela não consiga ir adiante. Ou sei lá, que tente te convencer a me largar inventando coisas a meu respeito. Não sei do que ela seria capaz.
— Ela não é desse tipo, eu conheço.
— A gente não conhece as pessoas de verdade, até elas fazerem algo que nunca pensamos que seriam capazes de fazer. A História está aí pra provar...
Ele calou-se, então, entendendo.
Dormimos um sono pesado. No domingo, ele acordou antes de mim, fez o café e assim que terminamos de comer, deu um beijo em mim e Claire, dizendo que iria para casa arrumar uns papéis.
Não nos falamos mais naquele dia.
Poderia declarar que foi a nossa primeira briga desde que reatamos, embora sem gritos, sem discussões. Sem uma longa conversa pela manhã, sem a cabeça quente. E essa era a pior parte. Seu silêncio era sempre o mais preocupante.
Durante a semana, senti que Edward estava deliberadamente me evitando, minhas mensagens recebiam respostas monossilábicas. Eu queria conversar a fundo, mas dei-lhe espaço. Sabia que ele estava pensando no que fazer sobre a ex, talvez minha presença atrapalhasse.
Nada em mim apoiava esse encontro, mas eu sabia que devia ser racional, compreendia sua preocupação. A relação deles foi longa e intensa, era natural. Tanya era um ser humano em sofrimento, é claro que Edward iria se preocupar, tão empático como era. Eu provavelmente faria o mesmo se tivesse deixado um ex-namorado no meio de uma crise de dependência química.
Tentei aproveitar meus últimos dias de férias, espairecendo a cabeça. Saí com algumas amigas para almoçar, fui a exposições nos museus da cidade com Claire após seu trabalho. Até consegui um tempo para o cabeleireiro.
Edward me ligou algumas vezes para falar frivolidades ou sobre nossa filha. Tudo muito breve e curto, sem base para aprofundamento. A desculpa para não me ver era que estava trabalhando demais para nos encontrarmos pessoalmente, já que era o fim das férias, teriam vários eventos no Hotel e pela cidade.
Voltei ao trabalho na outra segunda-feira.
Meus companheiros de redação me recepcionaram com sorrisos, muitas perguntas sobre a viagem, e muito, mas muito serviço acumulado. Só desejei poder voltar no tempo, pegando meu calendário para sonhar com as próximas férias.
Com Edward, tudo continuou igual. Passou lá em casa algumas vezes para café da manhã ou jantar, mas sempre correndo, sempre com Claire por perto e nunca estávamos a sós.
Temia que ele tivesse ficado verdadeiramente culpado por me contar aquilo, que estivesse numa espiral auto-punitiva. Eu já conhecia suas tendências. Eu só queria dizer que não havia motivo, fazê-lo entender meus medos e resolver de uma forma adulta e honesta. Guardei minha raiva para não me estressar.
As coisas começaram a me preocupar de verdade quando Alice ligou para perguntar se eu sabia porque Edward não atendia o telefone.
— Alice, eu não sei também. Nós tivemos um desentendimento no fim de semana passado, nos falamos pouco desde então. Na verdade, ele ligou ontem, foi rápido. Acho que não está a fim de falar comigo agora.
— Eu estou com medo. Ele não me atende, nem a nossa mãe ele atendeu.
— Jura? – Estranhei. Algo estava errado, aquele bendito pressentimento em mim não passava. Não fazia sentido ele ignorar também Alice e Esme, se seu problema havia sido comigo e Tanya. – Não sei o que pode estar havendo… Ele tem estado meio distante e preocupado mesmo. Até antes de eu voltar.
— Tenho medo que ele esteja entrando num período depressivo. Isso aconteceu há um tempo, antes de vocês voltarem a namorar. E da última vez, o que desencadeou foi uma briga com nosso pai biológico. Edward ficou péssimo, ele costuma se isolar mesmo.
Minhas veias gelaram com a menção, lembrando de todas as pequenas vezes que ele havia mencionado aquele homem nos últimos meses. Não diria nada a Alice para não piorar as coisas. Apenas desliguei o telefone prometendo descobrir o que acontecia.
Na quarta-feira, enfim, tomei coragem para lhe chamar de verdade, nem que fosse para ajudar. Digitei a SMS no final do expediente. Meu peito saltava como se eu não estivesse namorando esse homem há quase um ano.
[Bella]
Saudades. Queria conversar...
[Edward]
Saudades tb.
Desculpe pela ausência essa semana.
Não estava bem. Conversar quando?
[Bella]
Estou saindo do trabalho.
Pode me encontrar?
[Edward]
Sbux em 15?
[Bella]
...Isso é um código que eu deveria entender?
[Edward]
Starbucks em 15 minutos.
[Bella]
Ahh, ele sabe escrever frases completas!
[Edward]
Linguagem de internet, vc devia aprender.
Agora vc é jornalista online tb
[Bella]
Alguém tá passando tempo demais
com a filha adolescente...
[Edward]
Ainda bem :)
[Bella]
Sim :) :)
Vamos?
[Edward]
Indo.
Sua resposta foi rápida e positiva. Estava brincando comigo, até. Isso era bom.
Mas como pressentimentos jamais passavam até o fato acontecer, fui caminhando ao Starbucks perto da redação com passos firmes. Alertas. Olhando todos os lados, rezando para nada acontecer.
Minhas rezas nunca chegaram ao destino.
Nem Edward.
Quinze minutos viraram meia hora, e logo sua mensagem veio: "Não consigo, desculpa". Apenas, sem mais explicações.
Fui para casa temerosa, cansada dessa semana estranha. Tentando não deixar nosso histórico de má comunicação, reclusão e segredos aumentar minhas paranóias.
Eu fazia uma sopa para o jantar, hipnotizada pelo girar da colher, pensando eternamente. Felizmente, fui salva do abismo quando Claire passou pela cozinha.
— Flor. – Chamei pelo apelido que há tempos não usava.
— Sim?
— Você tem falado com seu pai?
— Ué, ele me dá carona depois do trabalho quase todo dia, esqueceu?
— Ah, verdade… Mas você chegou a conversar, ficar um pouco com ele? Não saíram essa semana, né? Você foi na casa dele? – Vi que pegava um chocolate da geladeira e ralhei. – Não come besteira, vai estragar o apetite.
— Pff, até parece. – Debochou, mastigando. – Não, a última vez que fui no apartamento foi antes de você voltar de viagem. Nem saímos mais. Ele disse que está fudi—ferrado de trabalho por conta da alta temporada no hotel, meio cansadão. Por quê?
— Nada… Curiosidade.
— Por que ele não tem vindo dormir aqui? Vocês brigaram?
— Claire…
— Mãe, pode falar. Eu vou entender. Quer dizer, talvez não, mas faço um esforcinho.
— É coisa entre ele e eu.
— Coisa de adulto. – falou numa vozinha.
— Sim. E pare de ser enxerida.
Ela suspirou, debruçando-se ao meu lado no fogão para me encarar. Estava séria.
— Vou mandar a real, mãe. O papai está meio esquisito sim. Meio calado, uma cara de cansado. Não perguntei nada porque achei que fosse por causa da correria do trabalho. Mas parece que você sabe até menos que eu…
— É. Pois é. Ele está esquisito mesmo.
— Eu me preocupo, sabe. Detesto quando ele fica assim.
— Foi só uma briguinha boba nossa, filha. Relaxa. – Falei e sorri, tentando transmitir uma calma que eu não tinha. – Já-já isso passa e ele volta ao normal, bate aqui cheio de frutas frescas pro café da manhã e com a mochilinha pronta.
— Deus te ouça!
Naquela noite, custei a dormir.
Além de uma tempestade de raios e ventos, meu estômago ardia a cada relâmpago. Tentei melhorar com sal de frutas, indo buscar água. Lembrei dele no meio do caminho e o desconforto só piorou.
Quando voltei, meu celular vibrava na mesinha. Mesmo correndo para atender, cheguei tarde. Na ligação perdida, o número da casa de Edward. Estranhei ao olhar a hora.
Eram duas e meia da manhã.
A adrenalina veio com tudo, deixando-me pinicando de nervoso. Respirei fundo para retornar a ligação, o coração aos pulos. Apesar disso, tentaria não transparecer – pensei em brincar, dizer que teve sorte que eu estava acordada a essa hora.
Mas as palavras morreram em minha garganta assim que ele atendeu ao telefone. Sua voz rouca e grogue me arrepiaram.
— Bella? Pode vir aqui?
— Agora?
— Por favor… Vem.
Ele parecia se esforçar para falar.
— Edward, o que houve?
— Eu... Eu preciso de você. Vem rápido.
Eu já tinha ouvido aquela frase tantas vezes, porém nada em sua entonação agora indicava sexo. Um milhão de possibilidades passaram pela minha cabeça em poucos segundos – todas horríveis, que fizeram a dor no estômago aumentar a ponto de me deixar suando frio. Mesmo assim, respirei fundo e tentei me focar.
— Você está ferido? Precisa que eu chame uma ambulância? A polícia?
— Não, nada, juro… Só vem.
— Ok. Calma. Estou indo.
Sem pensar muito, desliguei e corri para trocar de roupa. Deixei um bilhete para Claire sobre minha cama, caso ela viesse me procurar no meio da noite, mesmo sendo improvável.
Em cinco minutos, estava estacionando em frente ao apartamento. Quando usei a chave extra que ele me deu, pensei quão ruim era inaugurá-la nessa situação.
— Edward? Sou eu. – chamei ao entrar com cuidado. Um sapato esquecido no chão da sala escura me fez tropeçar, e logo acendi a luz para encontrar o caos.
Roupas espalhadas pelo sofá dividiam lugar com um cinzeiro cheio e sujo, embora ele tivesse prometido ter parado há meses. Na bancada que separava a cozinha, vi um copo entornado e uma garrafa de uísque Jack Daniels pela metade. Mal sinal.
Não tive tempo de divagar, porém, pois ouvi a descarga sendo acionada no banheiro. Corri até lá.
A porta estava aberta. Achei-o sentado ao lado do vaso sanitário, encolhido com o rosto entre as pernas, vestindo apenas uma cueca boxer. Ele tremia ligeiramente, mas eu não sabia se era pelo chão frio ou outra coisa.
— Edward? – Me aproximei devagar e ajoelhei a sua frente.
— Vomitei.
— Mandou ver com o Jack? – Tentei uma piada para disfarçar o nervosismo, o que só piorou. Ele tossiu, ameaçando ânsia novamente. – Ei, eu tô aqui agora, tá tudo bem. Você quer uma água?
— Não. Só… Fica aqui comigo.
A penumbra escondia seus olhos, porém o desespero em sua voz era cristalino. Passei a mão em sua testa suada e fria, sentindo seu rosto molhado.
— Você estava chorando? Me fala o que houve?
Ele não ergueu a cabeça, apenas sacudiu lentamente. De sua boca começaram a sair soluços quase inaudíveis, resfolegados; Seu corpo todo balançava em um choro que não cessava, mas também não se libertava. Era angustiante.
Acendi uma luz para inspecioná-lo, checar por machucados aparentes. Nada. Pensei em levantar para trazer água e remédios, oferecer algum conforto, mas a ideia de deixá-lo sozinho me refreou. Sem saber o que fazer, acariciei seu cabelo, deixando que tomasse seu tempo.
Vários minutos depois, os soluços pararam, porém ele ainda se escondia de mim. E eu precisava fazer alguma coisa por ele. Algo me dizia que isso não era apenas uma bebedeira que ele necessitava de minha ajuda para curar. Só de pensar que ele não estava consumindo álcool há tempos por conta de sua medicação, me dava calafrios.
Precisaríamos ir para o hospital? Sua vida estaria em risco? Eu devia ter procurado saber melhor sobre isso, mas estava no escuro. Lutei para mascarar meu desespero.
— Edward, por favor. Eu preciso saber o que está acontecendo, pra poder te ajudar. Você sabe que pode me contar qualquer coisa.
Demorou mais alguns instantes de imenso suspense agoniante, eu estava prestes a sacudir seus ombros. Finalmente, ele cedeu, focando-se em mim.
O olhar absolutamente desolado e o sussurro carregado de pesar ficariam para sempre na minha memória.
— Acabou, Bella. Meu pai morreu.
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