Mais Uma Vez
33 Capítulo 32: Quebra-cabeças
Notas iniciais
Capítulo 32: Quebra-cabeças
Bella
— Você não faz ideia, Bella. — ele caiu cansado no sofá. — Tanya sumiu.
— O quê?!
Na mesma hora que perguntei, fui em busca do controle do rádio para desligá-lo.
— Eu liguei hoje pra saber como ela estava, e foi o que me disseram. Ninguém sabe onde ela está. O celular e o carro ficaram em casa, mas ela levou uma mala. O pai dela está pressionando a polícia pra que façam uma busca antes do tempo de praxe e toda a família está mobilizada.
— Ele sabe que você e eu… — perguntei, num impulso.
— Não. Ele não sabe de nada, só pediu pra que eu ajudasse. Disse que se eu soubesse onde ela poderia estar, que eu fosse atrás. Mas eu não faço ideia. Eu não quero ir pra casa deles, Bella, não quero me envolver mais ainda… O que eu faço? Não quero o mal de Tanya.
— Ok. Se acalma. Vamos pensar juntos. Mas antes eu vou pegar uma toalha e roupas secas, você deve estar congelando.
Tentei ir o mais rápido possível, e logo voltei com os itens para que ele se secasse e trocasse. O coitado estava tremendo de frio, e provavelmente de nervoso também.
— Obrigado. — falou, se livrando do agasalho preto molhado, secando-se e vestindo um casaco que eu tinha comprado há tempos para presentear o meu pai e nunca entreguei por falta de tempo.
Eu me sentei ao seu lado.
— Agora me conta exatamente o que aconteceu ontem. O que foi que você disse a ela?
— Eu falei que nós precisávamos conversar. Ela já pareceu desconsertada ao ouvir isso... Então eu comecei dizendo que estive repensando muitas coisas da minha vida, principalmente me questionando sobre a relação. Falei que ela era uma pessoa muito importante pra mim, e que eu sempre seria grato pelo seu apoio incondicional. Mas Tanya é muito esperta. Tenho certeza que ela já sabia o que estava por vir. E não quis mais me escutar... — ele desviou o olhar por um instante. — Ela… tentou me distrair. Mas é claro que eu a impedi. Não aconteceu nada.
Eu não podia negar que a ideia de ter outra mulher o tocando, agora que estávamos voltando a nos conectar, me deixou desconfortável. Mas eu confiava nele e tentei demonstrar isso.
— Tudo bem… continue.
— Eu disse que estava pensando no bem dela, e que eu não estava mais investido na relação como antes. Falei que achava melhor para nós dois terminar algo que não teria futuro.
— E ela… falou alguma coisa de mim?
— Foi a primeira coisa que ela perguntou. Eu não queria mentir, mas ao mesmo tempo não queria te jogar na cova dos leões. Então eu jurei que não tinha nada a ver com você nem com mulher nenhuma, mas sim sobre mim e ela, e sobre tudo que estávamos fazendo errado. Que eu estava terminando para que pudéssemos seguir nossos caminhos separados.
— Isso parece ok, eu acho.
— Mas foi aí que tudo desandou de vez. Eu não esperava aquilo. Alguma coisa dentro dela despertou e ela começou a balbuciar umas frases sem contexto. Muito, muito nervosa e agitada. Ela parecia possuída. Não parava de repetir "você sabe. Meu Deus, você sabe".
— Como assim?
— Eu não entendi nada, também. No alto da sua confusão mental, ela disse que estava arrependida, que me amava, implorando pra que eu não a deixasse. Ficava falando que era culpa dela e perguntando como eu tinha descoberto.
— Descoberto o quê?
— Eu não faço ideia, Bella. E estou até com medo de saber o que é, porque logo depois disso eu tentei arrancar informações, mas ela saiu correndo do apartamento. Desceu as escadas desvairada. Ela foi parar na rua e atravessou correndo. Quase foi pega por um taxi, imagina o meu susto.
— Deus do céu… Ela ficou bem?
— Sim. Ela não se machucou, só parecia em choque. Eu a trouxe de volta, nós subimos, eu lhe dei um calmante forte e fiquei com ela até que dormisse.
O buraco era bem mais embaixo do que eu pensava. Essa revelação me deixou assustada com o que o futuro nos reservava. Seria assim pra sempre? Até onde Tanya poderia chegar? Meu coração era metade medo e metade remorso por ter colaborado nessa situação toda.
— Isso tudo me apavora um pouco, pra ser honesta.
— Eu sei, a mim também. Foi uma cena que eu não vou esquecer tão cedo. Um inferno.
— Eu realmente desejo que Tanya esteja bem. Fico pensando como o pai dela está nesse momento… Joaquin não merece mais sofrimento.
— O pior de tudo é essa sensação de não saber onde ela está, como ela está… é angustiante demais. Tanya já teve muitas crises, mas essa foi a pior de todas. — ele ficou cabisbaixo, pegando em seus cabelos. Falou quase inaudível. — Eu já quase a perdi uma vez. Se isso acontecer por minha causa...
Eu segurei seus ombros, acariciando.
— Shhh. Nada vai acontecer. Talvez ela nem esteja surtada de verdade. — falei, tentando buscar explicações que fizessem sentido e que pudessem acalmá-lo. — Talvez... ela só quer que você vá atrás dela. Seria uma forma de provar que você se importa e que ainda a ama. Não acho que seja por mal, mas pelo que você me conta sobre ela, parece ser uma pessoa realmente carente de atenção, especialmente a sua.
— Tanya não estava normal. Não estava raciocinando a tal ponto. — Edward enfim interrompeu meu blablablá desesperado.
Ficamos quietos por algum tempo. Ele se levantou, tomou um copo d'água, andando pela sala absorto em seus pensamentos.
— O que você pretende fazer agora? — perguntei suavemente. Ele deu de ombros.
— Eu queria ajudar a procurá-la, queria dar apoio ao pai dela, mas... ao mesmo tempo não quero me envolver mais ainda. Tenho medo que isso passe uma mensagem errada a Tanya. O que você sugere?
Meu coração se apertou ao ver sua angústia. Ver Edward sofrendo me matava aos poucos.
— Acho que é melhor você aparecer no apartamento, sim. — respondi. — Aquela família já fez muito por você. Eu sei que vocês vão achá-la logo, logo.
— Como? Como?
— Olha, você pode ajudar na busca, você foi o último a vê-la. Pense onde ela poderia estar... Tente lembrar do que ela disse naquela noite, mesmo enquanto estava em confusão mental. Você a conhece melhor que ninguém.
Edward foi até a porta da cozinha e retornou. Certamente tentando se lembrar de algum detalhe relevante.
— Ela saiu sem muitas coisas, não deve ter ido longe… — disse, e de repente seus olhos acenderam. — E Julie. Ela falou sobre a Julie, a terapeuta dela. Tanya gritou "a Julie te contou!" enquanto descia as escadas.
— Você acha que Tanya pode estar com ela? — eu falei, me levantando.
— Julie já teria feito contato caso estivesse. Mas talvez ela ajude.
— Então vá atrás dessa moça.
— É o que eu vou fazer agora. — Edward se aproximou, pegou minhas mãos e as beijou. — Obrigado por tudo. Obrigado por estar ao meu lado. Eu não sei como agradecer o suficiente.
Eu me estiquei e beijei sua boca levemente. — Não precisa agradecer.
— Bella… — sua voz tremeu e com sua respiração entrecortada, vi que ele se esforçava para não chorar. Meu coração partiu ao meio.
— Está tudo bem. — eu tentei reafirmar.
Ele passou uma mão rapidamente sob os olhos úmidos, e continuou a falar. Seu semblante ficou muito sério.
— Eu prometo que essa vai ser a última provação que vamos passar. Chega de drama nas nossas vidas. Eu estou com você, e muito perto da liberdade. Você tem que lembrar disso.
Eu apenas assenti a cabeça, um nó na garganta me impedindo de engolir. Queria dizer que o amava e estava ao seu lado, mas me contive em demonstrar meu apoio e compreensão com um abraço forte e minhas outras palavras.
— Estarei aqui, no que eu puder ajudar. Quando tiver notícias, me avise.
— Obrigado... Obrigado. Avisarei.
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Claire
— Ela é a mulher misteriosa que fala com o garoto pelo telefone. — eu concluí em voz alta apontando para a enorme tela.
— Como você sabe? — Rose sussurrou do meu lado, enquanto Rachel me passava mais pipoca.
— Porque é óbvio! — respondi de boca cheia mesmo.
E não deu outra: a próxima cena provou que eu estava certa. Eu provavelmente já tinha visto mais filmes de suspense que as pessoas normais, então já conseguia adivinhar todos os truques e possíveis desfechos. Minha mãe uma vez comentou que Hollywood andava muito repetitiva, e eu tinha que concordar.
Apesar de tudo, o protagonista era gatinho e a trilha sonora legal, então consegui prestar atenção ao final do filme, até a hora que meu celular vibrou no meu colo. Sem conseguir conter a curiosidade, peguei e olhei a telinha. A mensagem do meu pai apenas pedia que eu ligasse quando saísse do cinema, o que me deixou mais curiosa ainda.
— Oi, pai, sou eu. Acabei de sair da sala. — atendi ao seu recado assim que consegui sinal na porcaria do celular. O barulho de todo aquele pessoal saindo da sala também não ajudou.
— Ah que bom. — ele pareceu aliviado, mas também distante.
— Então…
— Claire, eu preciso ir resolver um problema e não vou poder te encontrar mais tarde. Na verdade eu já estou a caminho… não sei que horas volto pra casa hoje. Você pode pedir uma carona a Rose?
Minha barriga esfriou, e a forma como as meninas que me acompavam me olharam naquele instante denunciou que eu devia estar com uma cara esquisita.
— Pai, o que aconteceu? — perguntei tentando parecer calma.
— Aconteceu que… É complicado, Claire. Depois eu te explico melhor, estou dirigindo e preciso chegar logo.
— O que foi? Aconteceu alguma coisa com meus avós?! — eu quase gritei alarmada, e Rose logo veio para o meu lado tentar ouvir a conversa.
— Não, eles estão bem. É… Tanya.
— Ah tá. — suspirei, pouco paciente. Tinha que ser! Tanya, eu sussurrei para minha prima, a fim de tranquilizá-la.
— Hoje de manhã ela saiu de casa e ninguém sabe onde ela está. Estou tentando resolver isso.
— Quê? Espera aí, como assim ela sumiu? — Eu quase acrescentei "essa mulher é maluca!", mas não ajudaria em nada a situação.
— Sumindo. Filha, eu vou desligar, está bem? Avise a sua mãe se mudar de planos e não for pra casa. Depois nos falamos.
— Ok… Boa sorte.
— Vou precisar. Tchau.
Seu tom de voz ao despedir-se me deixou incomodada. Estava tudo muito estranho...
— E aí, o que tá rolando? — a voz de Rose me despertou.
— Pelo que eu entendi, a doida da Tanya sumiu do mapa e ninguém sabe onde está. Acho que meu pai foi atrás dela.
— Ei, essa é aquela namorada dele que você detesta? — Rachel perguntou.
— A própria.
— Bom, então parece que suas preces foram atendidas e a mulher sumiu mesmo. — ela zombou, mas algo me fez sentir um peso no peito.
— Será que aconteceu alguma coisa ruim de verdade? Quer dizer, eu não gosto dela, mas também não é como se eu desejasse sua morte…
— Olha o drama! — Rachel riu da minha cara. — Relaxa, Claire. Ela só deve estar sem bateria no celular. Daqui a pouco ela aparece e volta a pentelhar seu pai.
— Sabe, eu tenho um pouco de pena dela. — Rose acrescentou, timidamente, mas captando a atenção de nós duas.
— Por quê? — perguntamos quase em uníssono.
— Não, nada. Bobagem minha. — ela sorriu, mas eu vi seu olhar desviar para Rachel um instante, o que só me instigou a colocar minha prima contra a parede quando estivéssemos a sós. Algo me dizia que ela devia saber coisas que eu não estava por dentro.
— Ok, mudando de assunto… Que tal a gente se aproveitar da aniversariante do dia e tentar ganhar sobremesa grátis em algum lugar?
— Ah não, Claire, você prometeu que essa saída não tinha nada a ver com aniversários.
— Pare de besteira, Rachel. Aliás, dá azar não cantar parabéns no dia do aniversário! Vamos lá.
— Se você cantar parabéns num restaurante eu nunca mais falo contigo.
— Olha o drama, Rachel. — eu zombei, imitando sua fala para mim mais cedo.
— Enquanto vocês duas discutem, vamos andando para a praça de alimentação? Tem um monstro no meu estômago. — Rose protestou.
— Ouvi alguém falando em comida aí? — dois braços me abraçaram por trás, e eu virei com um grito.
—Jake! — eu o abracei forte antes de roubar um beijo casto o suficiente para trocarmos na frente da irmã dele. — Por que não disse que estava na cidade?
— Quis fazer surpresa pra você e pra minha irmãzinha querida. — disse enquanto beijava o topo da cabeça de Rachel. — Ia pegar a sessão com vocês, mas cheguei tarde. Oi, Rose.
— Oi, Jake. Olha, não perdeu muita coisa. Era meio chato mesmo.
— Bom, tudo bem, não é como se eu fosse assistir de verdade… — senti seu aperto na minha cintura, imediatamente fazendo meu coração acelerar e um calor subir até meu rosto. Rachel, percebendo minha reação soltou uma gargalhada.
— Aham, garanhão. Deixa só o pai dela saber disso.
— Rachel! — eu protestei, mas Rosalie se intrometeu.
— Espera aí, você ainda não contou pro tio Edward que está namorando, né?
— Eu vou contar! — afirmei.
— Vai sim, na véspera do seu casamento. — Rachel tornou a me pentelhar. — Essa medrosa está enrolando até hoje.
— Claire, isso não vai dar certo. Poxa, ele vai ficar chateado que você escondeu por tanto tempo. — Rose explicou.
— Relaxa, já tenho tudo sob controle. — falei, mesmo que fosse a maior mentira do mundo. — Então, vamos comer?
— Vocês podem ir, eu vou pra casa. — resmungou Rachel.
Rindo da cara emburrada da minha melhor amiga, eu agarrei seu pescoço e dei um beijo em sua bochecha.
— Foi mal. Eu sei que você odeia seu aniversário, por alguma razão estranha, mas por favor, eu sei que você quer sobremesa grátis também. Vamos? Prometo não cantar parabéns.
— Que escolha eu tenho, né? — ela bufou, e deixou ser arrastada para o restaurante de hamburguer mais gostoso que achamos no shopping. — Mas o seu aniversário já está chegando também, minha vingança será maligna.
Como prometido, Rachel não cantou parabéns, e me fez assoprar a velinha rosa da generosa fatia de cheesecake que o garçom trouxe por conta da casa. É claro que eu sabia muito bem o motivo dela odiar esse dia. Seu aniversário a lembrava de sua mãe, ela já havia mencionado uma vez. Eu sempre tentava fazer minha amiga mais feliz nesse dia, pois só conseguia imaginar como era difícil para ela não ter a mãe por perto para comemorar. Quando assoprei sua vela, desejei saúde e felicidade para Rachel, seu irmão e seu pai.
Mais tarde, Rose, que acabara de conseguir a carta de motorista e agora só queria saber de dirigir, deu uma carona para todos nós.
E assim que me despedi da minha amiga e do meu namorado que prometeu me ligar mais tarde, eu precisei perguntar aquilo que estava me incomodando há horas.
— Agora você vai ter que me contar o que quis dizer com aquilo de ter pena da Tanya.
— Fala sério que você ficou esse tempo todo pensando nisso? — ela riu, tomando o rumo para a minha casa.
— Você sabe que sim! Vai, fala logo!
— Fofoqueira. — ela desdenhou, e em contrapartida eu dei um peteleco em seu braço. — Ai! Garota, a primeira regra para entrar no meu carro é: jamais bata na motorista!
— Nem doeu. Vai, Rosie, conta, por favor.
— Está bem. — falou, tomando um tom mais sério. — O que você sabe da vida dela?
Pensei sobre isso por um momento, e percebi que eu sabia muito pouco. Eu simplesmente não tinha papo com a noiva do meu pai. E também não gastava meu tempo conversando sobre ela com ele.
— Bom, eu sei que o pai dela é dono da rede de hotéis onde meu pai trabalha… que por acaso é o tema do livro que a minha mãe está escrevendo. Sei que Tanya tem um cargo lá, mas pra falar a verdade eu não sei se trabalha mesmo, ou é só fachada. Ah, e eu sei que ela conheceu meu pai na clínica dos terapeutas deles.
— Hm… Ela age um pouco estranho às vezes, não acha?
— O que eu acho mesmo é que ela morre de ciúmes de mim. Às vezes até implica comigo na cara dura. Ainda mais quando está perto do meu pai, ela quase não me deixa chegar perto dele.
— Não sei sobre isso, mas eu reparei que nos encontros familiares ela sempre parece estar muito alegre, eufórica, até…
— De uma forma irritante, sim. Mas o que tem a ver isso?
— Eu acho que isso é tudo superficial. Digo, fabricado. É como se ela escondesse alguma coisa por trás de tudo aquilo, sabe?
— Você acha? — perguntei, mas conseguia perceber o que ela queria dizer.
— Meu pai disse que essa moça teve alguns problemas sérios… Barra pesada. A juventude dela foi meio trágica.
— Como assim? O que o tio Jasper te falou?
— Na verdade, eu ouvi ele conversando com o tio Edward um tempo atrás. Quando eles começaram a namorar.
— E depois eu que sou a fofoqueira.
— Eles acharam que eu estava dormindo na sala! Cala a boca e me ouve. — ela riu, porém logo se recuperou. — É, parece que a Tanya perdeu a mãe muito novinha, e depois disso viveu anos fora, estudando em um internato de ricos na Europa. Foi lá que ela teve problemas com remédios quando era adolescente e também uns problemas de comportamento.
— Que tipo de problemas?
— Foi presa... e depois foi pra uma reabilitação.
— Ela foi presa?! — eu exclamei, porque como assim, gente?
— Calma, não foi nada demais. Quer dizer, ela foi detida por dirigir sob o efeito das pilulas. Não deve nem ter passado a noite na delegacia, deve ter pago a fiança em dois tempos.
Eu estava literalmente boquiaberta.
Nunca tinha sequer cogitado tudo aquilo sobre a vida de Tanya. A orfã milionária e problemática que havia crescido em internato europeu antes de voltar a Nova York, abusava de drogas e tinha uma ficha suja… parecia coisa de Gossip Girl. Mas não, aquela era a mulher que possivelmente casaria com o meu pai. E ah meu Deus, ele ia se casar com uma maluca drogada?
— Então Tanya é… viciada em drogas? — perguntei, morrendo de medo da resposta.
— Não, não desse jeito que você está pensando. Acho que ela só é viciada em remédios tarja preta, coisas que a gente compra em farmácia mesmo, mas com prescrição. Nossos pais estavam conversando sobre tratamentos pra maníacos depressivos, e eu acho que a Tanya é uma também. — ela pausou e respirou fundo. — O que eu quero dizer, Claire, é que a mulher tem problemas psicológicos de verdade. Ela cresceu longe de casa, longe da família. Imagina como deve ser a cabeça dessa moça.
A história estava deixando de ser um draminha de entretenimento, e eu ficava mais incomodada conforme a ficha caía. Me lembrei do pouco que já tinha conversado com Rachel sobre a ausência da sua mãe, e sabia que era uma dor que eu nunca aguentaria. Imaginei como seria passar por tudo o que Rose contava, sem ter um apoio… meu estômago revirou.
— Tanya é mesmo orfã de mãe?
— Parece que sim, desde novinha.
— Isso é triste.
— Muito.
— Mas não faz sentido. — protestei, tentando manter a compostura e não me simpatizar demais com aquela mulher. Ela continuava sendo a BiscaTanya que me enchia o saco.
— O que não faz sentido?
— Pra alguém que já sofreu tanto, ela podia ser um pouquinho mais legal e humilde, né? Ela sempre foi uma vaca comigo.
— Ah Claire, as pessoas são difíceis mesmo, e podem ficar ainda mais depois de passar por certas coisas. Não digo que ela seja uma santa, longe disso… Mas ela deve ter motivos. E você também nunca foi muito simpática com ela.
— Eu? Que absurdo!
— Nem vem de história, garota. Eu lembro bem da primeira vez que o tio Edward apresentou Tanya a família. Você ficou a noite toda no meu ouvido zoando os peitos falsos dela.
— Isso foi há 4 anos, eu era uma criança sem noção! E fala sério, aquele silicone é super mal feito, todo mundo comenta. Sinceramente, até hoje não sei o que meu pai viu nela.
— Olha aí. Você continua implicando com a Tanya até hoje. O que eu acho é que você podia dar um desconto pra essa moça. E pro seu pai também. Não é legal ficar julgando uma relação que a gente mal conhece, não sabe o que se passa na intimidade. Eu bem sei o quanto isso é horrível. Cada coisa que ouço sobre Emmett e eu.
— Eu concordo com você, mas… eu acho que conheço o suficiente.
— Você não sabia de nada disso que eu contei. E ficaria sem saber. — ela contra-argumentou.
Sim, eu nunca soube. Como vi que não tinha mais argumentos, fiquei quieta até chegar em casa. Eu odiava admitir, mas minha prima estava certa. O sentimento de incomodo dentro de mim só aumentava, a medida que ia refletindo sobre essas revelações. Eu queria continuar odiando Tanya. Mas a pena e o remorso cresciam, era mais forte do que minha resolução.
Quando abri a porta de casa, avistei minha mãe que saia da cozinha.
— Cheguei!
— Oi. Em casa cedo. — ela carregava um balde. Era dia de faxina.
— Ah, droga, esqueci de ligar. Não fui pra casa do papai, ele teve que ir resolver um problema da noiva enquanto eu estava no cinema, aí Rose me deu uma carona.
— Ah é? O que houve?
— Mãe, aquela doida da Tanya sumiu de casa e ninguém sabe pra onde ela foi. Acredita nisso?
— Pior que eu acredito. — ela falou, soltando uma risada sem humor. — Já teve notícias?
— Ainda não. Já tem algumas horas… Aliás, vou ligar pra saber o que tá rolando agora. — disse, pegando meu celular.
— Deixa, Claire. — ela me impediu com a mão livre. — Deixa o seu pai. Daqui a pouco ele deve te ligar, tenho certeza.
— E minha ansiedade, fica como?
— Ah! Eu tenho um remédio ótimo pra isso. — ela falou animada, apontando uma trouxa de roupas sujas sobre o sofá. — Botar roupa pra lavar.
— Mas eu acabei de chegar. — protestei.
— Que bom, assim você já aproveita que está de pé e não fica com preguiça. — antes de sair andando, deu um beijo na minha testa. — Vai, por favor. Tenho que terminar de passar um pano no chão e depois vou ao mercado.
— Um único fim de semana que você tem comigo, e me manda ir lavar roupa. Sacanagem. — eu resmunguei, já saindo pela porta até chegar no minusculo quartinho de bagunça da casa, onde estava a máquina.
— Te amo! — ela gritou lá de dentro, e eu respondi igualmente.
Não é como se eu fosse expert em lavar roupas, mas uma vez minha mãe descobriu que eu tinha aprendido alguns truques que minha avó Esme ensinou em um verão, e desde então essa tornou-se "a minha" tarefa doméstica. Ou melhor, minha mãe decretou assim.
Não havia muito o que fazer. Por sorte não achei manchas, e com isso tudo ficou mais rápido. Só estranhei um pouco ao puxar um agasalho preto que não era meu, e eu não lembrava que fosse da minha mãe, até porque era tão grande que devia ser tamanho masculino. Joguei na máquina concluindo que talvez fosse de Jake, já que até me pareceu familiar.
Quando voltei para a sala, minha mãe já tinha saído para o supermercado. Aproveitei e coloquei meu iPod para tocar no som, e passei o tempo da lavagem e da secadora da única forma que era possível naquele momento: dançando sozinha na sala.
Ok, eu admito que provavelmente parecia ridícula ali. Ao contrário dos quadris da Shakira, os meus mentiam e muito, mas esse era meu guilty pleasure e eu conseguia facilmente me divertir comigo mesma.
A playlist de dança estava quase no final quando minha mãe voltou, porém a essa altura eu já havia perdido o pique e tinha me estatelado no sofá com um copo de água fresca, agora só batendo os pés no ritmo.
— Encontrei a Kate e o marido saindo de casa. Ela perguntou porque não foi convidada pra festa. — minha mãe falou alto, enquanto guardava as coisas na cozinha.
— Que festa? — perguntei do sofá.
— Exatamente o que eu respondi. — ela berrou. — Kate só riu e foi embora. Mas agora eu entendi tudo!
— Ahn? — estávamos as duas gritando feito doidas.
— Isso foi uma dica pra você abaixar o… — ela começou gritando, mas antes de terminar a frase a playlist terminou e o silêncio total reinou. — ...som.
A sincronia foi tão perfeita que nós caímos na gargalhada.
— Vem cá, aquelas roupas não terminaram de secar? — minha mãe veio sentar ao meu lado com um pacote de Doritos. Eu peguei um punhado.
— Hm, é mesmo. Já deve ter terminado. — falei mastigando. — Mas agora eu to com preguiça.
— Claro, ficou aí a tarde toda rebolando. Agora não tem mais força pra nada.
— Como você adivinhou? — eu senti uma pontinha de vergonha tomar conta.
Minha mãe riu da minha cara, como de costume. — Claire, você está um pimentão e toda brilhando de suor. Eu te conheço, filha.
— É um ótimo exercício aeróbico. — tentei me defender.
— Agora você decidiu mesmo fazer exercício? Achei que a experiência na academia tinha te desanimado pra sempre.
— Meu pai está me dando uma força. Além disso, eu gosto, dá licença?
— Eu sei, garotinha. Só estava tirando um sarro com a sua cara. Você sabe que eu só faço faxina com música e às vezes danço sozinha também. — ela piscou um olho e eu sorri em silêncio.
— Podemos ver um filme no jantar?
— Uhum. Já está pronto, é uma sopa do almoço. Mas antes eu preciso descansar um pouco.
— Eu também.
— Claire, as roupas.
— Preguiça…
— Vai logo. — ela pediu.
Eu suspirei, porém levantei rapidamente. Voltei com as roupas quentinhas que me davam vontade de dormir em cima, e sentei numa poltrona para separá-las. Minha mãe estava mexendo nos nossos dvds, escolhendo o filme com a tv ligada e me dizendo sugestões.
— O Poderoso Chefão?
— Eu nunca consigo ver o final desse filme, sempre durmo.
— Um Lugar Chamado Notting Hill?
— Meh… O Hugh Grant sempre faz o mesmo papel, já reparou?
— Tá difícil te agradar hoje. Ah, já sei. Esse você nunca viu. Minha Mãe É Uma Sereia.
— É aquele com a Cher e a Winona? Topo! — falei, percebendo que o moletom estranho que vi mais cedo não se encaixava nem na minha pilha de roupas nem na dela. — Mãe?
— OI. — ela já havia levantado para ir à cozinha servir nossa sopa.
— Que moletom preto é esse aqui? É enorme. Isso é seu?
— Moletom? Não lembro de ter usado nenh… — ela voltou pra ver. — Ah, esse… Não é meu, é que eu peguei emprestado outro dia.
— Emprestado? De quem?
Não deu tempo de ela responder. Na mesma hora, o telefone tocou e minha mãe deu um pequeno salto, parecendo assustada. Já era tarde da noite. Eu me estiquei para atender, porém ela chegou antes.
Depois de alguns ahams e uhums que me deixaram apreensiva, eu já sabia quem telefonava. Era meu pai, com certeza.
— Deixa eu falar com ele? — murmurei, ansiosa. Ela negou com a cabeça. Desligou antes que eu pudesse pedir novamente, e logo veio a notícia.
— Encontraram a Tanya. Eles estão no hospital.
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