Mais Uma Vez
32 Capítulo 31: Certeza
Notas iniciais
Capítulo 31: Certeza
Minha vida parecia muito com um sonho ultimamente. Não exatamente um sonho maravilhoso, tampouco ruim. Apenas... confuso. Daqueles que te fazem acordar pressentindo e esperando por algo a mais. Esperando por uma resolução que ficou no ar enquanto lutava-se para entender o que acontecia na escuridão do sono.
Edward não ficou calado dessa vez. A semana passou, e continuamos nos falando vez ou outra durante o dia. Algumas vezes a situação com sua noiva vinha à tona e ele desconversava. Eu não fiquei brava. Ao invés disso, resolvi dar o tempo que ele precisava, mas continuei sendo enfática sobre não querer me relacionar com ele enquanto ainda estivesse compromissado com alguém.
Às vezes era difícil acreditar que tudo estava acontecendo mesmo. Durante muitas noites eu me questionei se estava fazendo a coisa certa em deixá-lo voltar para minha vida, se isso seria bom para nossa filha. Me perguntei se não seria mesquinho da minha parte exigir que ele cortasse seus laços com alguém que havia sido tão importante em sua trajetória, só para estar ao meu lado. Porque eu sabia que uma vez desmanchado o noivado, Edward não teria escrúpulos de continuar alimentando o amor aparentemente tão doentio que Tanya sentia por ele.
Eu nunca quis ser o tipo de pessoa que proibe os seus de se relacionarem com gente que não gostasse por puro ciúme, mas essa ocasião era mais complicada do que isso. Não era ciúme. Eu não podia baixar minha guarda logo agora. Precisava de seu compromisso por inteiro, ou não o aceitaria de outra forma.
Duas semanas se passaram desde a última vez que Edward e eu nos vimos pessoalmente. Com o fim do mês se aproximando e novembro chegando, o volume de trabalho pareceu amontoar a todos. Eu tinha acabado de voltar de um jantar com Alice e Claire, onde acertamos detalhes da festa de aniversário da minha filha. Sua única exigência era que Vovô Charlie estivesse presente, por isso logo tratei de telefonar para garantir que ele viesse de Poughkeepsie no dia 15 e já deixamos marcado nosso encontro no fim do mês para o Dia de Ação de Graças.
Claire me chamou para assistir a um filme na sala antes de dormir, mas eu capotei no meio. Ela me sacudiu de leve para que eu acordasse.
— Psiu, vai pra cama. — sussurrou.
— Que horas são?
— Nove e quarenta.
— Nossa, cada dia eu sinto sono mais cedo. To velha.
— Você precisa de férias.
Eu levantei e dei um beijo em sua testa. — Em breve, meu amor. Boa noite.
— Boa noite!
Deixei ela na sala e subi para o quarto, rapidamente fazendo o mais básico dos rituais pré-sono. Mas eu logo percebi que não iria dormir tão cedo. Assim que sentei na cama com o meu celular para acertar seu despertador, o aparelho tocou na minha mão. Atendi com meu coração aos pulos com o susto.
— Alô? Edward?
— Oi.
Ele não me ligava tão tarde há muito tempo. Suas ligações eram sempre quando eu estava no trabalho ou almoçando.
— Oi. Está... tudo bem?
— Sim...
— Ah, que bom.
— Está indo dormir?
— Estava. Mas tudo bem.
— Oh. Desculpa. — ele suspirou, calando-se. E eu senti que havia algo errado pela forma como o silêncio se estendeu.
— Você está tão quieto. Seus silêncios me assustam às vezes, sabe... O que houve, Edward?
— Tive uma crise de ansiedade agora há pouco. Já passou. Eu só precisava falar com alguém. Mas você já vai dormir, então...
— Não tem problema. Conversa comigo.
Era a primeira vez que ele recorria a mim em um momento de crise, o que me fez sentir um tanto empoderada e esperançosa. Pelo que ele me contava, esse papel ficava a cargo de seu terapeuta ou Tanya. Edward ficou calado por longos segundos até soltar o ar e as palavras presas na garganta.
— Estou com tanto medo, Bella.
— Me conta. — levantei para trancar a porta do meu quarto só por precaução, enquanto ouvia sua voz dizer tudo o que passava pela sua mente sem pausas, quase cortando seu fôlego.
— Eu estava vendo TV na sala. Ficou desinteressante, então eu comecei a olhar em volta. Para o meu apartamento, tudo o que é meu. E aí eu comecei a pensar que talvez eu estivesse mesmo a ponto de fazer uma merda enorme. Não em relação a você, mas em relação a ela… a família dela. Eu comecei a me convencer de que eu estava a ponto de perder tudo o que eu tenho, de novo, e foi aí que o pânico aumentou. Eu não conseguia respirar nem me mover.
— Ok. Entendi. — eu não sabia muito bem o que falar para tranquilizá-lo, então segui o instinto. — Você ainda está tendo os sintomas da crise?
— Não mais, já fiz um exercício de respiração e tomei meu remédio. A ansiedade está moderada, mas eu não consigo parar de pensar. Estragar tudo uma vez na vida foi o suficiente pra eu aprender a lição, mas… E se dessa vez eu ferrar com tudo não só pra mim, mas pra você também? Eu sei que você não daria outra chance se eu te prejudicasse, e estaria coberta de razão. Eu te quero tanto, mas talvez eu devesse pensar em uma forma melhor de terminar com Tanya, algo que não desencadeie uma reação horrível. Não quero fazer uma escolha impulsiva e errada. Qual é a melhor forma de fazer isso, Bella? Estou perdido.
Apesar do apelo descarado em sua voz, eu precisei ser honesta. Não havia uma resposta.
— Eu... Eu não sei. Só sei que eu também estou com medo de tudo o que pode dar errado. Eu pedi pra que você fizesse isso por nós dois. Mas se você acha que essa é uma escolha impulsiva...
— Não é impulsivo sobre você, de jeito algum. É apenas sobre Tanya. O que você me falou no outro dia sobre eu estar preso a uma relação sem futuro é verdade. Eu nunca pensei nessa possibilidade, e agora estou às cegas. Já imaginei todas as situações pós-término, e só piora. Eu queria poder pedir pra você ceder, mas eu sei que é impossível.
— Ceder?
— Que você me desse mais tempo… Que eu pudesse ficar com você durante esse tempo, mesmo que eu ainda esteja ligado a Tanya de certa forma.
Aquilo soou absurdo para mim. Mas eu respirei fundo. Sabia que era necessário agora ser delicada com ele, porém firme.
— Edward, você está pedindo algo que não é justo pra nenhum de nós. A sensação que eu tenho é que você quer agradar a todos e se sair bem. Mas você sabe que precisa tomar uma posição e que alguém vai sair magoado dessa vez, não há escapatória. É essa a consequência das suas escolhas...
— Eu sei, eu sei. Você entende que eu não estou duvidando de nós, mas sim do que pode acontecer, não é? Quero dizer, eu amo você e é isso o que eu quero. Mas é tão complicado.
— Eu ouço a angústia na sua voz. Isso é sincero, eu sei. Só o que eu posso dizer agora é que eu não posso ceder. Não posso jogar com a sorte desse jeito, nem me sujeitar a um escândalo, a mais sofrimento.
— Isso não deveria ser tão sofrido pra gente. — ele pareceu inconformado. — Não é justo, depois de tudo.
— Não, não é. Só mantenha as coisas o mais simples possível. Não se preocupe demais com o que pode vir a ser. Me desculpe, mas é o máximo que eu posso te aconselhar.
— É muita coisa que me preocupa. A reação do pai dela, a irmã dele...
— Se eu bem conheço essas pessoas, eles são muito profissionais, acima de tudo. Espero não estar errada, mas eu sinto que eles jamais fariam algo pra prejudicar alguém por vingança. Soa até infantil falar essa palavra. Mas vamos ter cautela.
— Espero que esteja certa.
— Eu também. — disse suavemente. — Vá com a intuição. Você é quem melhor conhece Tanya. Deve saber prever suas reações. O que tiver de ser...
Nós passamos um bom tempo apenas ouvindo a respiração do outro. Aquele papo, ou melhor, o assunto estava me deixando cada vez mais incomodada e inquieta. Eu não via a hora dessas incertezas terminarem. Mas já considerava um progresso a sua disposição para dar um basta no assunto.
— Está melhor agora? — eu perguntei, sentindo o sono voltar.
— Sim. Já passou. Muito obrigado.
— Ok… Bom, vou desligar, preciso dormir.
— Espera. Quero te ver amanhã. Posso passar na hora do almoço?
Eu suspirei, cansada.
— Não sei, Edward… Estou bem atarefada essa semana.
— Por favor. Estou com saudades.
A verdade é que eu também sentia saudades. Não pensei muito sobre isso, e apenas respondi.
— Sábado.
— Sábado?
— É. Quando vier buscar Claire. Posso aceitar aquele convite de tomar café com vocês.
— Eu queria ficar a sós. — ele soou decepcionado. — Ah, entendi. Você não quer ficar sozinha comigo.
— Não é isso… quer dizer, mais ou menos. Eu não ando confiando em mim mesma quando estou com você. E enquanto a gente está nessa situação, eu prefiro ir com calma, ainda mais em público.
— Está bem. Faz sentido.
— Além do mais, pode ser bom pra ir acostumando Claire com esse novo… essa… você sabe. — eu esperava que ele soubesse, porque eu não fazia ideia do que chamar aquilo que estávamos vivendo.
— Relacionamento? — ele adicionou muito cautelosamente.
— É… Agora tenho que ir. Depois nos falamos.
— Certo. Boa noite, amor. E obrigado de novo.
— Sem problemas. Boa noite.
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Além de passar um tempo em casa trabalhando nos últimos detalhes do livro para o Hotel Printemps, eu havia adquirido um novo hobbie — ou melhor, um antigo hobbie que eu não praticava já há muitos anos. Estava aos poucos voltando a escrever ficção, algo que era minha salvação quando mais jovem. Com a possibilidade de ter meu nome circulando no ramo como autora de um livro e não apenas como sub-editora de uma revista, o sonho de lançar algo só meu ficava menos utópico. Não era nada para agora, isso eu sabia, porém era ótimo poder canalizar minhas energias em um projeto próprio.
Na sexta à noite, eu terminei de escrever mais um capítulo do livro encomendado — o penúltimo -, e enviei por email para Riley acrescentar seus escritos. No sábado o dia começou cedo. E logo que acordei, um frio na barriga tomou conta, me fazendo ansiar pelo dia que teríamos pela frente. Eu não fazia ideia de como eu faria para me juntar a Claire e o pai para tomar um café da manhã sem que ela desconfiasse de nada. De qualquer forma, arrumei minha bolsa e deixei tudo pronto no meu quarto.
Tentei agir como se eu fosse ser pega de surpresa pelo convite. Portanto preparei café forte e torradas como de costume. Sentei na bancada da cozinha por um longo tempo, lendo um livro, até ouvir Claire descer.
— Oi, mãe. — ela me abraçou rapidamente e saiu abrindo o armário de mantimentos e gavetas, jogando coisas aleatórias dentro da mochila.
— Oi… Posso perguntar por que você está assaltando a cozinha?
— Ai, meu pai acabou de ligar. Quer me levar num piquinique, ao invés da gente ir tomar café no hotel. Estou procurando algumas coisas pra levar… só que ele podia ter avisado antes!
— Ah. — eu quase sorri pensando no que ele estava aprontando. — Deixa eu te ajudar.
— Me arruma uma toalha, por favor.
Enquanto eu ia procurar a toalha, a campainha tocou.
— Eu atendo! — falei, um pouco empolgada demais. Claire lançou-me um olhar, como se eu fosse doida. Ao abrir a porta, Edward carregava a maior cesta de piquinique que eu já vi na vida. Ele me deu um selinho na boca e sussurrou.
— Oi.
— Oi. — eu sorri feito idiota.
— Claire já acordou?
— Já, ela está na cozinha procurando coisas para o piquinique… — falei, mais alto, nos encaminhando para lá. — Ela está meio chateada porque você devia ter avisado antes.
Nós dobramos a esquina da cozinha.
— Mãe, cadê aquele… AH MEU DEUS. — Claire exclamou no momento em que viu a cesta imensa. Sua pequena irritação desapareceu instantaneamente.
— Qual é? Eu falei que ia dar meu jeito! Não viu minha mensagem? — Edward disse desafiador. Claire andou boquiaberta e o ajudou a colocar a cesta sobre a bancada, para abri-la. Ela vasculhou o que tinha dentro como pinto no lixo.
— Tem de tudo aqui! Mas pai… — ela sorriu lamentando. — Eu acho que isso é muito pra duas pessoas.
Edward coçou a cabeça. Eu só assistia a cena com os braços cruzados e vontade de rir.
— Será? Droga, acho que é mesmo. Fiz as contas errado. — ele falou com a maior cara de inocente possível, antes de olhar para mim. — Bom, se sua mãe quiser vir com a gente…
— Quem, eu? — era a minha vez de me fazer de inocente.
— Er… não tem problema, a gente guarda pra depois. — Claire pareceu tensa.
— Nada disso. Faço questão. Seria falta de educação não te convidar, Bella. Vamos?
— Não precisa aceitar se não quiser, mãe.
— Claire, parece até que você não quer que eu aceite.
— Não é isso. É que… — ela chegou mais perto de mim e falou baixo. — Da última vez que ele veio junto, quando a gente foi na academia, foi meio estranho, né? Eu não quero causar nenhum climão entre vocês.
— Climão? — eu ri sacudindo a cabeça. Virei para Edward. — Tem muffin aí?
— De limão e de blueberry. — respondeu ele.
— Então eu aceito.
O céu estava limpo e o sol brilhava para aquecer um pouco a manhã fria de outono. Claire demorou algum tempo para se acostumar com a ideia, mas já estava fazendo piadas e rindo. Edward deixou o carro em casa e nós andamos até o parque mais perto. Achamos um lugar sob uma árvore frondosa, e nos sentamos ali, nós duas encostadas no tronco, e ele em frente a nós com a grande toalha amarela estendida no chão. Como eu não tinha comido as torradas que fiz mais cedo, não me contive e ataquei a cesta que estava me fazendo salivar.
Eu só não contava com o som da risada masculina baixa vindo em minha direção.
— Que foi? — perguntei com a boca cheia de muffin.
— É impressionante como você ataca a comida igualzinha a Claire. — Edward gargalhou.
— Ei! — nós duas reclamamos ao mesmo tempo, o que só o fez rir ainda mais, se dobrando para frente a fim de olhar a cesta.
— Sou um cara de sorte. — eu o ouvi murmurando.
— Quê? — Claire perguntou confusa.
— Nada não. Filha, prova essa panqueca com xarope de laranja.
Eu lancei um olhar para que ele se tocasse. Se continuasse dando bandeira desse jeito, nós teríamos um problema que ainda nem começamos a pensar como resolver.
A manhã foi agradável, e bem menos estranha do que poderia ser. Havia outras famílias e grupos de amigos fazendo piquinique ou brincando na área onde estávamos, o que deixava o parque cheio de vida. Eu particularmente adorava o cheiro que vinha da barraquinha ambulante de castanhas caramelizadas, estacionada ao nosso lado direito. Em certo ponto, um vira-lata preto veio correndo em nossa direção para pegar o osso rosa de brinquedo que havia caído por perto, amigavelmente, e Claire não resistiu a brincar com ele.
— Ei, eu te conheço! — Claire falou para o cachorro, procurando por uma identificação na coleira. Eu virei para ver se o dono ou dona estaria ali, e vi uma garota alta caminhando para nós.
— Claire? — a menina chamou, protegendo os olhos do sol. Minha filha olhou e sorriu, acenando para que ela chegasse mais perto.
— Hannah! Eu sabia que conhecia esse menino de algum lugar. — falou levantando-se para dar um abraço na amiga. Edward começou a afagar o cão.
— Desculpa, o Luke sempre fica onde tem comida. — Hannah explicou.
— Quer alguma coisa? A gente já acabou de comer e ainda sobrou, pode pegar o quiser. — Claire ofereceu.
— Não, obrigada. — ela sorriu.
— Ah, esses são meus pais, acho que você não os conhece. Bella e Edward. — nós dois acenamos ao ouvir nossos nomes. — Essa é Hannah, ela estuda comigo. Você já me levou na casa dela, mãe.
— Ah sim, eu lembro. Prazer! — cumprimentei.
— Oi, prazer! Nossa, Claire, que legal, eu não sabia que vocês tinham voltado a morar juntos. — a pobre Hannah falou no impulso, e eu só pude sentir pena da cara que minha filha fez.
— N-não… Eles só estão fazendo um piquinique comigo hoje.
— Ah. Entendi. — a menina ficou vermelha. — Mandei mal, desculpe.
— Tudo bem. — Claire sorriu sem jeito. Felizmente o silêncio constrangedor foi substituído pelo latido do Luke demandando atenção.
— Quer jogar um pouco com a gente? Estou há horas jogando esse osso e essa peste não cansa!
— Claro. Vamos lá. — Claire virou-se para nós e apontou um dedo. — Eu vou, mas eu volto. Comportem-se, vocês dois.
— Sempre. — Edward sorriu e esperou até que o trio estivesse longe para virar para mim, sentando-se ao meu lado no tronco da árvore. — Posso te beijar agora?
Eu ri. — Isso é só o que você pensa?
— Não é culpa minha. — seu olhar fixado na minha boca explicava exatamente o que ele quis dizer. Eu rolei os olhos. — Por favor? Ela tá bem longe e nem está olhando pra cá.
— Ela não está, mas alguém mais pode estar. Se Claire encontrou uma conhecida aqui, nós podemos encontrar também.
Edward levantou-se subitamente e esticou uma mão. Eu o olhei com desconfiança.
— Vem aqui pra eu te mostrar uma coisa.
— Onde?
— Venha. É rapidinho.
Eu aceitei sua mão e ele me puxou para trás da árvore. Me posicionou no lado oposto ao que estávamos antes, e pediu que eu olhasse para cima, parando ao meu lado.
— O que é?
— Tem um filhote de esquilo naquele galho, está vendo?
— Não… onde?
— Ali. Pra esquerda. Consegue ver?
— Ahm… — eu precisei me concentrar para distinguir o bicho da folhagem. — Achei! Ah que bonitinho, mas será que ele ficou preso ali? Vamos ajud-
O final da minha frase foi engolido pelos lábios de Edward que me pegaram totalmente desprevinida. Eu devia ter previsto. O truque mais velho da História! Fiquei imóvel por um tempo decidindo o que fazer, e então retribui o seu beijo por alguns segundos para que ele ficasse satisfeito por ora, e o afastei com as mãos.
— Vou te matar. — falei baixo, mas firme. — Não acredito que eu caí nessa. Você tem 15 anos?
— Desculpe. Não fique muito brava comigo… Por favor?
Eu suspirei, porque afinal eu entendia completamente a sua motivação.
— Ok. Mas esconda essa mão boba agora. — disse, tirando suas garrinhas da minha cintura.
— Mão boba? — ele riu. — Me desculpe se eu não consigo tirar os olhos de você, nem de parar te de tocar.
— Tá bom, Don Juan. Guarda essa máscara pra depois.
— Argh. Ainda lembra dessa porcaria de filme? Você adora um sedutor barato mesmo, como eu não estou me dando bem agora?
— De sedutor barato eu só gostava do Johnny Depp. — eu ri com a memória. — Deus, era hilário te ver com ciúmes dele. Continua sendo!
— Pode rir o quanto quiser. — ele pôs uma mão na minha nuca, chegando insuportavelmente perto para sussurrar. — As coisas que eu pretendo fazer com você, Bella... Vou te fazer rir a toa, mas não vai ser de deboche.
Engoli em seco e precisei respirar fundo para não fazer uma besteira.
— Isso é uma ameaça? — perguntei.
— É uma promessa.
Eu tive que o afastar novamente.
— Não ouviu a sua filha? Comporte-se.
— Nunca.
E assim ele sorriu como aquele adolescente de 16 anos que um dia mal sabia me desabotoar. Como quem não quer nada, mas quer tudo ao mesmo tempo. Meu coração acelerou, me dando um arrepio forte. Eu queria continuar perdida nos seus olhos para sempre e me grudar em seu corpo para nunca mais soltar. O frio na barriga foi tão intenso, de uma forma que eu não sentia há muitos e muitos anos.
A reação era completamente nova. E me assustou.
Eu não podia ficar aqui ao ar livre olhando para ele como se estivesse em transe, então me forcei a mover. Saí do seu alcance e contornei a árvore de volta, esperando meu coração regularizar. Sentei-me na sombra e enquanto pegava um copo d'água na cesta, Edward voltou para sentar ao lado.
— Claire ficou tão desapontada em não poder confirmar o que a amiga falou. — ele observou.
Suspirei pesadamente.
— Eu sei… Partiu meu coração.
— Bella… Ela ficaria tão feliz em saber de tudo. Eu tenho certeza que ela vai aceitar numa boa.
— O problema não é esse. Você sabe o que é. Perante a sociedade você ainda é noivo e tem um compromisso com alguém. Isso não é o exemplo que eu quero dar pra Claire. Por favor, não…
— Não insista. — ele completou por mim. — Eu sei. Desculpe.
Nós caímos num silêncio, contemplando por um bom tempo. Eu conseguia avistar minha filha correndo atrás do cão e rindo, e a cena me fez sorrir também, preenchendo-me com uma tranquilidade instantânea. Me sentia abençoada por ela ser feliz e saudável. Todas as dificuldades que eu passei para cuidar dela valiam a pena nesse momento.
Eu notei que Edward olhava para a mesma direção que eu, e não hesitei em perguntar o que se passava na sua cabeça. Sua resposta foi curiosa.
— Eu to aqui pensando… Não acha que é meio estranho, às vezes parar e se dar conta de que nós temos uma filha? — ele indagou.
— Não exatamente. São quinze anos convivendo com esse... fato.
— Eu sei, mas... Toda essa coisa de milagre da vida, é a coisa mais incrível do mundo. Veja bem, ela é nossa. Veio de nós dois, se não fosse por nós ela não estaria aqui. E ela é perfeita.
Eu ri de leve. — Engraçado, eu lembro que você tinha umas viagens assim quando ela nasceu. Não mudou nada desde então?
— Apenas tudo mudou. — ele riu. — Eu ainda acho tudo isso a experiência mais louca da minha vida. Mas é claro que eu me acostumei a ser pai. Eu me tornei pai na primeira vez que vi o rosto dela.
— Só depois que ela nasceu? — virei-me para ele, curiosa.
— Sim. Antes era um pouco... sei lá, abstrato. A sua conexão com ela obviamente sempre vai ser maior. Ela saiu de dentro de você, e essa é a coisa mais maluca e fantástica que pode acontecer, mesmo sendo tão natural.
— Você é um daqueles homens que acha universo feminino uma incógnita?
Ele riu. — Não, não me considero. Eu acompanhei partos naturais quando fazia Medicina, lembra? Aquilo só me deixou mais fascinado pelas mulheres.
— Fascinado como?
— Mulheres me impressionam muito de uma forma positiva. Fui cercado por elas a vida toda, não tem como ficar indiferente.
— Entendo. Me diz uma coisa… Se você pudesse voltar a estudar, ainda persistiria em Medicina?
— Acho que não. Já refleti muito sobre isso, e cheguei a conclusão que talvez Psicologia seria melhor.
— Sério? — perguntei surpresa.
— Sim. Hoje em dia eu fico muito mais intrigado pra entender a mente humana. As pessoas são muito diferentes de tudo que a gente espera.
— Nem me fale. Eu já parei de me surpreender demais com as pessoas. Tem vezes que eu me preparo pra tudo, espero todo o tipo de esquisitice ou loucura que possa sair.
— É... É melhor abraçar a loucura de vez em quando, do que lutar contra ela. Mas é bom também não julgar ninguém exatamente por isso. A gente nunca sabe o que o outro passou durante a vida que o fez ser do jeito que é.
— É verdade.
Nós ficamos quietos assistindo nossa filha. Eu busquei sua mão e sem fazer alardes, segurei para acariciá-la. Edward falou primeiro.
— Eu tenho muito orgulho de Claire. De como nós conseguimos criá-la mesmo com todos os problemas.
— Eu sei, eu também tenho.
— Eu amo tanto essa garota... Quando eu penso no quanto a amo muita coisa volta a fazer sentido, sabe? Eu volto a lembrar das minhas motivações. Mas em compensação, eu começo a questionar como é possível ter gente que maltrata os próprios filhos? É tão fácil amá-la. Como é que alguém como o meu pai poderia fazer tudo o que ele fez contra Alice e eu?
— Não tem comparação. Seu pai era um doente. Alcóolatra, não é isso?
— Sim.
— Eu pensei que você já tivesse o perdoado...
— Eu perdoei... Não dá pra ter raiva dele por causa da doença. E dou graças a Deus que ele tenha feito o que fez. Por causa dele Carlisle entrou na nossa vida. Mas eu não vou entender nunca porque ele fez tantas escolhas erradas. Meu pai não estava bêbado o tempo todo, ele fez escolhas lúcidas.
— Eu acho que... é mais fácil machucar os que estão mais perto, os mais vulneráveis. O amor deixa a gente vulnerável, você sabe. É mais fácil fugir dos problemas e magoar quem te ama, do que ter que encarar.
— É, acho que eu deveria saber disso. Sou craque em magoar quem está mais perto de mim.
— Ei! — chamei. — Pode parar com isso, você não é craque em magoar porra nenhuma. Eu estou aqui. Sua filha está aqui. Quer prova maior?
— Vou me lembrar disso quando começar a me odiar gratuitamente.
— Assim que se fala. — eu sorri. — Sem drama.
— Sem drama.
Nós não demoramos muito mais no parque. Perto do meio dia eu voltei para casa sozinha, e fui arrumar um pouco a bagunça. Quando chegou a noite, fui convencida pelas minhas amigas da época de faculdade a sair em uma noite só de garotas.
Eu adorava a versatilidade e inteligência desse grupo de amigas: os papos podiam ir das crises mundiais, às lutas sociais e as fofocas de celebridades. Mas em algum momento elas sempre acabavam falando de sexo. Na última noite como essa eu estava em uma seca de quase dois anos, então logo fiquei nervosa pensando se iriam me encher de perguntas. Eu não tinha problema em respondê-las, mas o único agravante era ter transado recentemente com ninguém menos que meu ex-marido.
E não deu outra. Mary estava lá, depois de sua lua de mel com Garrett, e compartilhou cada detalhe. Eu compartilhei muito pouco, apenas dei a entender que estava saindo com alguém, mas não queria contar ainda. Minhas quatro amigas sabiam os meus limites, e não perguntaram muito mais sobre quem era.
Eu não demorei muito no bar, estava bem cansada e só pensava na minha cama. Adormeci quase na mesma hora que caí no colchão, profundamente. No entanto minha noite de paz foi interrompida em alguma hora avançada da madrugada.
Todos os acontecimentos do dia, o álcool ingerido e o papo de sexo com as meninas me fizeram ter um sonho bastante intenso.
Acordei no meio da noite arfando e suada, sentindo todo meu corpo vibrar. Era um sonho sexual com um alguém qualquer, no qual eu era sempre privada de gozar ao final. A frustração e irritação extremas não me deixariam dormir novamente, então eu fiz a única coisa que poderia fazer para relaxar. Tentei acabar com aquilo o mais rápido possível. Somente me toquei para sentir o alívio fácil.
Mas minhas mãos não pareciam suficientes.
Na escuridão do quarto, segundos antes do forte clímax me atingir, só uma pessoa surgiu por trás dos meus olhos fechados.
— Edward. — seu nome escapou dos meus lábios e eu queria berrar.
Sem ter mais nenhuma força para me privar de nada, eu senti e ouvi um grito angustiante vindo da minha garganta. Não era um grito de prazer, mas era por acabar de perceber que ele estava bem longe de mim, fora do meu alcance. Que ele não era meu, pelo menos não ainda, e que eu não via a hora de tudo isso chegar ao fim.
O vazio que eu senti foi quase insuportável. Todo o meu corpo sentia. Eu queria sua pele, seus braços e pernas me rodeando. Suas palavras doces ou provocativas sendo sussurradas no meu ouvido. E eu queria tanto que ele estivesse dividindo essa cama comigo.
Tentei me lembrar de como era dormir e acordar ao seu lado, e foi doloroso demais. Eu queria isso de novo. Meu coração apertou monstruosamente.
O que estava acontecendo? Uma parte de mim repetia isso, mas outra bastante lúcida sabia perfeitamente a resposta.
Era isso. Estava acontecendo de novo. E eu sabia que com Edward não haveria um meio termo. Nunca houve. Se eu deixasse aquela sensação que dava choques em meu peito tomar conta de mim, eu iria cair do precipício direto a seus pés.
A dor e a delícia dessa queda eu já conhecia, todas. Mas a irracional vontade de saltar estava ali — só me atiçando para ver o que me esperava -, e isso me apavorou. Eu não me lembrava de já ter sentido algo parecido. Nem mesmo da primeira vez que eu o conheci foi assim. Era muito mais forte agora.
Eu estava mais uma vez me apaixonando perdidamente por Edward. E era um caminho sem volta.
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Eu acordei com a quietude da manhã de domingo. Por poucos segundos senti a paz absoluta até que tudo o que aconteceu ontem à noite voltou à mente. Estava nua e sozinha na minha cama, e uma sensação horrível de solidão e abandono tomou conta.
Não havia mais dúvidas sobre o que eu estava sentindo, mas eu não iria deixar isso tomar conta de mim. Não iria pensar demais ou tratar como se nada fosse. Eu continuava sendo a mesma, com os mesmos princípios. Eu só sentia vontade de esconder minha vulnerabilidade diante dele.
Tomei um bom café para acordar e aproveitei a chuva forte do dia para terminar de limpar os cantos da casa que não tive coragem ontem, ouvindo rádio em alto volume como eu gostava. Já era a tarde quando eu terminei de almoçar e estava passando pano nos móveis da sala. A campainha tocou, me fazendo saltar.
No olho mágico, vi Edward do lado de fora, muito inesperadamente e também muito molhado de chuva. Meu peito também deu um salto.
— Oi? — eu falei ao abrir.
— Oi. Posso entrar? — seus olhos pareciam aflitos. A preocupação tomou conta de mim.
Eu olhei atrás dele, me perguntando se ele estava sozinho. Nem precisei dizer nada, pois ele adivinhou e respondeu logo.
— Claire foi ao cinema com Rose e uma amiga.
— Oh. Ok, entra…
Ele nem esperou que eu terminasse de trancar a porta, e já foi logo explicando a sua presença.
— Eu fiz o que precisava fazer. Eu falei com Tanya ontem à noite. Nós não somos mais um casal.
O alívio que tomou conta de mim durou pouco, pois logo percebi que ele tremia de verdade e sua face não tinha a alegria que eu esperava.
— Que bom. Eu acho… Por que você está tremendo?
— Você não faz ideia, Bella. — ele caiu cansado no sofá. — Tanya sumiu.
— O quê?!
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