Mais Uma Vez

16 Capítulo 15: Caixa de Pandora


Notas iniciais
Disclaimer: Twilight não me pertence, mas essa história, assim como a filha da Bella e do Edward sim, portanto respeitem!
Obrigada à Cella, por me aconselhar e dizer que estou fazendo esse negócio de fanfic certo. Obrigada aos correios, que voltaram a funcionar e levaram civilização novamente a tribo da minha índia beta.

Capítulo 15: Caixa de Pandora

Bella

Eu acordei com um susto ao ouvir meu celular tocando incessantemente dentro da bolsa. Com uma vontade imensa de esfaquear a pessoa que perturbara meu sono a essa hora da manhã — 10:23, como eu olhara rapidamente no relógio –, atendi o ofensivo aparelho.

- Que é?

- Bella? Eu te acordei? Desculpa. – a voz de Riley soou na linha, me fazendo quase reconsiderar a dose de raiva em minha voz.

- É. Tudo bem, eu já ia acordar mesmo.

- Ok... Ahn, estou ligando só para saber se você quer ir comigo hoje?

- Ir com você para onde? – sentei na cama, esfregando os olhos com uma mão.

- Para a festa. – ele disse, e minha mente tentava processar suas palavras. — Sabe, o aniversário de Edward.

- Oh. Sim. Claro. – balbuciei meio idiota.

- Já vi que não é uma boa te ligar cedo aos sábados. Devidamente anotado. – ele riu. — Então, estava pensando de irmos juntos, já que não me lembro muito bem onde fica a casa. Quer dizer, da última vez eu fui de carona, e isso deve ter uns três anos.

- Mary e Garrett não vão? Eu tenho certeza que Alice me disse que foram convidados. – indaguei em voz alta, já que o casal sempre fora amigo também de Edward.

- Vão, mas, hmm, então isso é um não...

- Ah, não! Quer dizer, só estou indagando. É claro que podemos ir juntos, Riley. É até bom que eu tenha uma carona, assim posso beber algo além de água. – brinquei, quando na verdade era exatamente o que eu mais queria. Se eu tinha alguma intenção de me manter sã e relaxada nessa festa, eu não conseguiria fazer isso sozinha.

- Entendi. Preciso terminar uma matéria pra entregar segunda, e vou fazer isso a tarde toda. Posso passar aí às sete, então?

- Claro. Estarei te esperando.

- Ok. Até lá.

Após desligar o celular, me joguei na cama novamente, não querendo encarar a realidade de que eu teria que vestir uma roupa e viver. Me sentia tão cansada, física e mentalmente.

Foi impossível fugir da lembrança da noite anterior — Edward, seu cheiro de cigarro e colônia suave, a brisa da noite, e seus lábios tão próximos aos meus. Era ridículo pensar que tinha havido a mais remota possibilidade disso. Eu apenas podia concluir que, ou Edward enlouquecera de vez — assim como sua irmã, aparentemente –, ou ele não havia mudado tanto quanto clamava; se ele tinha sido capaz de trair uma vez, então poderia facilmente repetir o mesmo erro estando em outro relacionamento.

O melhor que eu fazia era ignorar aquele quase beijo. Isso. Entraria naquela festa de cabeça erguida, como se nada tivesse acontecido ontem à noite.

Durante o dia, fiz algumas tarefas em casa, pus as roupas para lavar e esfreguei um tênis imundo de Claire, que esteve atrapalhando a passagem do corredor desde quarta. Como não queria pensar em trabalho no meu dia de folga, peguei o carro para passear no centro da cidade, encontrando um dos meus restaurantes preferidos para almoçar.

Ao passar por um café literário, não resisti, e entrei para passar a tarde ali com o livro que havia levado. Três cappucinos pequenos e cem páginas depois, senti que já era hora de voltar e me arrumar. Era bom ter um tempo sozinha, só para mim, mas eu começava a me sentir solitária, com vontade de ver meus amigos e família.

Após um banho rápido, uma ajeitada nas ondas do cabelo e uma maquiagem realçando os olhos, escolhi um vestido preto simples, com a barra um pouco acima dos joelhos, que me permitia usar os saltos que eu queria.

Riley chegou no horário combinado, e logo estávamos a caminho da casa dos Cullen.

- Bella, se me permite dizer... você está linda demais. – comentou ele ao pararmos no primeiro semáforo. — Temos mesmo que ir a essa festa? Porque eu conheço um lugar aqui perto...

- Pare com isso, seu bobo. – o interrompi antes que seus devaneios avançassem. Ambos rimos.

- Desculpe, mas o elogio é válido.

- Obrigada, Sr. Biers. Eu diria o mesmo, mas você sempre está bem. Nunca vi um jornalista andar tão elegante como você anda.

- Aprendi com o meu pai. – ele sorriu gentilmente.

- Tenho certeza que esse talento para cantadas também.

Ele deu de ombros.

– Se der certo, então não há arrependimentos.

- E sempre dá certo, não é? Eu bem me lembro de quando você tinha duas namoradas ao mesmo tempo, e elas nem ficaram bravas quando descobriram. Você consegue levar todas no papo.

Riley riu.

– Eu faço o melhor que posso.

Homens. Eu revirei os olhos, mas continuamos no papo confortável que me fez esquecer que deveria encarar Edward em breve depois da noite passada, ao menos durante os minutos que passamos dentro do carro.

Ao estacionarmos, a rua estava rodeada de carros, a casa já cheia de convidados. Não havia nenhuma decoração específica, além da iluminação especial. Eu tinha certeza que Edward vetara qualquer tipo de firula que Alice e sua mãe gostariam de ter colocado, o que sempre era motivo de brigas em todos os anos de suas festas.

Nós adentramos a casa, após Carlisle a abrir, e eu logo pude reconhecer alguns rostos, além da família. Antigos amigos com quem eu havia perdido o contato por serem ligados a Edward, os quais eu somente via uma vez por ano, e nessa época. Era uma sensação nostálgica rever alguns deles, especialmente aqueles com quem compartilhamos momentos marcantes, e agora não passavam de meros conhecidos.

Os amigos que nós ainda tínhamos em comum – Garret e Mary — ainda não haviam chegado. Além de Riley, o casal continuara a se relacionar com Edward mesmo depois da separação, embora eu tivesse o palpite de que meu ex-marido não fizera muito esforço para manter as amizades vivas como antes.

- Eu vou pegar uma bebida pra gente. – declarou Riley enquanto meus olhos rodeavam a sala. — O que você vai querer?

- Pode ser uma Coca, por favor. – falei, achando a pessoa que eu mais procurava.

- Está bem, voltarei e ficarei naquele sofá. – ele acenou e eu assenti a cabeça enquanto seguia para onde pretendia.

Assim que me aproximei de Alice, que estava ao lado do aparelho de som colocando música, eu a puxei para um canto antes que ela fugisse.

- Precisamos conversar. – pronunciei.

- Oi para você também, querida amiga. – disse ela com sarcasmo, mas me acompanhando.

- Oi, Alice. Então, me explique aquela mensagem que mandou ontem? Eu tentei te ligar à noite, mas você não me atendeu.

Seu sorriso falhou.

– Ah. Bem, eu acho que aqui e agora não é o momento certo. Vamos tratar disso com calma um outro dia, ok?

- Alice, o que você está arrumando dessa vez? Por Deus, fale logo e acabe com essa palhaçada.

- Não é palhaçada, Bella. É algo sério. Pelo menos eu acho que será para você. – explicou brevemente, antes de gesticular para a sala. — Olhe, a festa está começando a encher e está apenas no início. Eu tenho que cuidar de tudo, mas você pode ficar à vontade. Divirta-se e não pense nisso por enquanto, ok?

- Você disse que era urgente, Alice. – falei sacudindo a cabeça.

- Eu sei. Talvez eu tenha me precipitado e... bem, naquela hora era urgente. Se ao menos você tivesse retornado a ligação logo em seguida.

- Ah, claro, como se eu pudesse largar tudo o que estou fazendo só para conversar com você. Se não vai me dizer agora então não é nada de importante. Já entendi o seu jogo. – falei expirando e recuperando o fôlego para dizer com seriedade. — Eu só quero pedir pela última vez que, por favor, não se intrometa mais nessa história entre Edward e eu. Pelo bem da nossa amizade.

Alice franziu o cenho, seu olhar lançando punhais em minha direção.

- Se você não fosse tão teimosa, eu não precisaria me intrometer tanto. E do que está falando? Você não teria coragem de prejudicar nossa amizade por causa disso, teria?

- Isso é a última coisa que eu quero fazer, mas não tente pagar pra ver. E dessa vez me leve a sério.

Ela sacudiu a cabeça para vociferar.

– Eu só estou tentando te ajudar porque você é minha melhor amiga e eu te amo. Mas se você não quer minha ajuda, tudo bem. Estou cansada dessa sua teimosia cega. É a sua vida que você está jogando fora.

Alice se afastou e eu assisti sua figura pequena sobre os saltos altos demais se retirar marchando pela sala abarrotada de gente.

Debati por dois instantes se ia ou não atrás dela, já que infantilmente se recusara a conversar comigo como eu queria. Mas não havia motivos para que eu me aborrecesse mais do que o necessário nessa porcaria de festa, e eu sabia que Alice não iria me dirigir a palavra tão cedo. Nós já havíamos tido discussões o suficiente para eu conhecer as suas reações, que quase não mudaram ao longo de todos esses anos. Era impressionante como ela conseguia manter resquícios de imaturidade em sua personalidade.

- Bella, meu bem? – me virei para ver Esme descendo a escada atrás de mim. Eu sorri aliviada por encontrar sua face serena.

- Oi, Esme. – disse lhe envolvendo em um abraço. Ela se afastou para me olhar.

- Está tudo bem? Parece atordoada.

- Tudo bem. Só tive um desentendimento com Alice, nada de mais.

- Ah sim. Meu bem, não sei o que ela fez agora, e pouco me importa porque eu prometi não me meter em brigas dos meus filhos. Mas dê um desconto, pois Alice anda tão estressada ultimamente. Essa mania de querer controlar tudo e a todos ainda vai fazer muito mal a ela, eu sempre digo isso.

- Eu que sei.

Esme sorriu gentilmente.

– Bom, mas vamos deixar isso de lado. Você chegou há pouco tempo, não é? Já encontrou o aniversariante?

- Na verdade, não. – falei.

- Ele está na cozinha preparando alguma bebida, eu acho. Por que não vai até lá? – ofereceu ela. A fim de esquecer o momento com Alice, eu dei um sorriso agradecido a Esme e segui para onde ela apontara.

O local estava sereno, longe do burburinho da festa mais para dentro da casa. A antiga porta de vai e vem de madeira fez um barulho infernal atrás de mim, anunciando minha entrada.

Eu entrei na cozinha apenas para querer dar meia volta e retornar para a sala.

Mas é claro que Edward não estaria sozinho. Encostados na bancada da cozinha, Tanya e ele atracavam-se nada discretamente em um beijo.

Quando os olhos de Edward se abriram — ainda com sua noiva em seus braços e bocas coladas –, eles pousaram diretamente sobre mim. O desconforto que senti foi suficiente para me fazer desejar não ter vindo a essa estúpida festa.

Tanya, aparentemente, não notara que havia companhia, já que continuou sua demonstração pública de afeto mesmo depois de Edward a alertar sobre a minha presença. Ele se desvencilhou dela após alguns instantes.

- Desculpe, não queria atrapalhar. – falei rapidamente, meu olhar variando entre os dois. — Vou deixar vocês a sós.

Entretanto, antes que eu pudesse sair do lugar, Edward atravessou a cozinha ao meu encontro.

- Não! – chamou. — Pode entrar, não tem problema. A gente só estava... checando uma receita que meu pai deixou aqui e até agora não apareceu pra fazer.

- Claro. – falei com sarcasmo, olhando para Tanya, que fingia que nada havia acontecido ao se debruçar pela bancada e olhar um grande livro que ali estava.

- Você quer beber alguma coisa? Está sendo bem servida? Você pode pegar o que quiser aqui.

- Não, eu só vim dizer oi. – expliquei. — E, bom, eu já te desejei feliz aniversário naquele dia, então...

- Sim. – falou com um sorriso suave. — Que bom que pôde vir.

- É, o trabalho deu uma trégua temporária. Ah, e eu vim de carona com o Riley. Ele está lá na sala socializando com um pessoal, depois apareça lá. Afinal, você é o dono da festa.

- Sim, claro. Eu já vou. – disse ele, parecendo constrangido. O silêncio preencheu nossa conversa até que minha cota de momentos embaraçosos atingisse o limite diário.

- Ok, até mais. – falei. Edward acenou com a cabeça, enquanto eu me virava para passar pela bendita porta barulhenta.

Assim que saí, resolvi procurar algo para beber, logo indo atrás do bar onde eu vira Carlisle anteriormente. Nos cumprimentamos e, talvez pela expressão em meu rosto, ele tenha descoberto exatamente o que eu precisa ingerir naquele momento. Não era preciso ser um gênio para entender que eu não estava no mais dos confortáveis ambientes naquela festa.

Munida com um copo de uma bebida falsamente doce que misturava licor de uísque, vodka e alguma coisa não alcoolica, busquei me sentar no sofá onde conversavam Riley e nosso casal de amigos que havia chegado.

Enquanto botava em dia a conversa com Mary sobre os preparativos para o casamento, outros velhos amigos chegaram e se uniram a nós. Pessoas que eu não via desde a última festa de aniversário de Edward, e que queriam saber de todos os acontecimentos recentes da minha vida. Pelo visto, as notícias importantes corriam rápido.

Em certo ponto, minha filha apareceu, lembrando-se que ainda não me mostrara as fotos do seu encontro com os ídolos na tarde de ontem. Sentou-se sem cerimônia entre os adultos, ganhando até mesmo a atenção de quem estava ao seu lado. Eu ouvi as história por trás das fotos em seu celular, comentando vez ou outra sobre aquilo. Em todas as fotos ela aparecia com um enorme sorriso no rosto, e isso já bastava para mim.

Não demorou muito, porém, para que sua atenção se desviasse quando Rosalie lhe chamou para sentar na varanda, junto com o namorado Emmett.

Aproveitei a deixa para ir pegar outra bebida.

- Alguém quer alguma coisa? – perguntei ao pessoal dos sofás. — Acho que vou pegar um pouco de ponche.

- Eu quero, por favor. – pediu Garrett me estendendo seu copo vazio. Outros colegas me entregaram os seus e eu fiquei incumbida de trazer mais uma rodada de ponche e cerveja.

Muitos minutos depois, eu estava engajada em uma conversa sobre os melhores filmes baseados em livros quando os quatro copos que eu já havia tomado decidiram terminar seu curso em meu organismo; a pressão repentina na minha bexiga era imensa, e precisei pedir licença para ir ao banheiro.

Assim que me aproximava, uma senhora idosa, que eu reconhecia como uma tia-avó de Edward e Alice cruzou o caminho mais rápido que eu, chegando primeiro ao banheiro e o trancando em meu rosto.

Eu quase chorei de frustração.

Esperar do lado de fora, em pé, parecia pior ainda, e minha situação se agravava a cada segundo. A senhora não seria rápida, eu tinha esse pressentimento. Respirei fundo, mas a pressão aumentava em minha bexiga, me fazendo morder o nó do dedo.

Certamente quem me assistia de longe devia estar se divertindo — minhas pernas cruzadas me auxiliavam a me segurar enquanto eu escorava na parede.

Já estava quase desistindo e correndo para a lateral da casa em busca de uma moita quando Carlisle passou ao meu lado, e eu segurei seu braço, desesperada.

- Carlisle!

- O que foi, Bella? Quer dançar? – perguntou ele com um sorriso.

- Não. Estou com um probleminha aqui. – falei dando um sorriso bastante travado. — Eu preciso demais usar o banheiro, e esse parece estar ocupado pra sempre. Será que posso ir lá em cima?

- Ah. Claro, Bella, não precisa nem perguntar. A casa é sua.

Suspirei de alívio, e saí correndo antes que molhasse o chão.

- Muito obrigada! Eu juro que a gente dança quando eu voltar! Me espere. – exclamei para ele enquanto subia as escadas, sem olhar para trás.

No andar de cima, todos os quartos eram suítes, então eu segui até o último, onde eu sabia que ficava o de Esme e Carlisle. Eu não queria ser inconveniente e parecer espaçosa, entrando em lugares privados desse jeito, mas era por uma causa urgente. Assim que me livrei da vontade terrível, a sensação boa de alívio e liberdade tomou conta. Saí do banheiro após lavar as mãos, tentando deixar tudo na ordem como estava.

Quando me deparei com o corredor vazio, com o barulho da festa rolando lá em baixo, de repente me veio a mente a informação de que fazia um bom tempo que eu não subia aqui. Talvez dois anos, por aí. Não era costume receber as visitas fora da área de socialização da casa, e mesmo eu sendo íntima do casal, simplesmente não havia motivos para que eu adentrasse o quarto deles, ou o escritório.

Do lado esquerdo ficava o quarto antigo de Alice, ao lado de um quarto de hóspedes. E logo no início do corredor, ao lado direito da escada, estava o quarto onde Edward dormia sozinho — até eu chegar aqui, com uma barriga de quatro meses e uma mala cheia de coisas que em nada pareciam as de uma mulher prestes a se unir com o pai de sua filha. Pijamas do Mickey. Meias coloridas. Um aparelho móvel de dentes para usar pela noite.

Eu não sabia o que me moveu a fazer aquilo, mas quando me deparei, meus pés já se encaminhavam na direção daquela porta fechada.

Esse sim, era um lugar dessa casa que eu não visitava há tanto tempo, que mal me lembrava quando havia sido a última vez. Entretanto, a curiosidade e o senso de nostalgia me atingiram com força naquele momento.

Eu sabia que era um tipo de coisa doentia, além de vergonhosa e extremamente masoquista. Apesar disso, eu gostava da ideia de revisitar locais onde fui feliz, sem as preocupações da vida adulta. Uma parte de mim havia ficado nesse lugar, afinal.

Olhei para os lados, me certificando que não chegaria ninguém e só então girei a maçaneta. Seria difícil explicar o que eu estaria fazendo ali, caso alguém me flagrasse. Era difícil explicar até a mim mesma. Então fiz a promessa de que seria apenas uma visita rápida, já que logo dariam por falta de mim na festa.

A porta do antigo quarto de Edward estava destrancada, por sorte. Entrei e fechei, num movimento tão rápido que pareceu um só. Não havia a chave que costumava ficar pendurada em um cadarço preto no final da maçaneta, então eu apenas rezei para que ninguém tivesse a ideia de subir até aqui e me procurar.

Eu não podia acreditar que estava prestes a fuçar nas memórias materiais de um passado que tinha sido tão bom para nós dois, apesar de difícil. Era mais forte do que eu. Talvez porque esse passado havia sido maravilhoso. Nós nunca estivemos tão bem quanto nos quase dois anos em que moramos juntos nessa casa.

A cama de casal que seus pais compraram quando eu me mudei para cá continuava a mesma, assim como todos os móveis e alguns pôsters dos filmes e bandas preferidos dele, que com o tempo viraram alguns dos meus também; na estante ainda estavam alguns livros da escola que eu me indagava por quê Esme nunca se desfizera deles. Pequenos detalhes do fim da nossa adolescência que ficaram para trás quando saímos juntos dessa casa para enfrentar a vida.

O quarto não era muito grande, mas certamente era maior do que os padrões imobiliários que eu estava acostumada, vivendo mais próximo ao centro da cidade. Lá nós simplesmente não tínhamos espaço para grandes casarões.

Ao lado da cama, próximo ao closet, notei três caixas de papelão no chão, daquelas grandes como de mudança. A marcação 'Edward — livros' estava escrita em uma delas, e eu me indaguei o que aquilo estaria fazendo ali. Resolvi deixar para lá, enquanto passeava pelo local.

O quadro de cortiça onde colocávamos fotos dos colegas de escola permanecia lá, quase intacto, já que, na época, decidimos que não fazia mais sentido ter fotos de pessoas que nos eram praticamente estranhos em nosso novo lar. Levamos as coisas que realmente importavam: cartas que escrevíamos um para o outro, fotos dos amigos mais próximos, além de fotos dos familiares.

Meus dedos passaram sobre a foto de turma pendurada no quadro, a única que tinha sido escolhida para ficar guardada na eternidade do nosso anuário de formatura do colégio.

Era o final de junho de 1995 e eu estava para entrar no quarto mês de gestação — a figura era a de uma garota que podia, facilmente, se passar por mais nova do que Claire, e a barriga que despontava estava escondida sob um enorme moletom preto. Aquela havia sido minha roupa preferida durante vários meses. Edward e eu estávamos no canto direito, no alto, cercados por nosso grupo de melhores amigos, e ele tinha seu braço ao meu redor, como se me protegesse de todo o resto da turma — o que não era uma mentira de todo modo.

Fora um escândalo e tanto quando espalhou-se a notícia de que o filho mais novo da Sra. Cullen, a professora Esme de história, tinha engravidado a namorada igualmente adolescente. Foi aí que eu aprendi uma primeira grande lição, daquelas que jamais se esquece na vida. Em momentos como aquele, nos damos conta de que das pessoas que você menos esperava, podem sair as palavras mais cruéis. E foram muitas as decepções que tive com supostos amigos naquela época.

No início da gravidez, todos olhavam torto para nós dois, porém eu era o alvo especial, algo que me afetava de formas terríveis. Me sentia um ser de outro planeta, sendo julgada o tempo todo. É claro que, aos poucos, os colegas de classe foram se acostumando a conviver com uma futura mãe em sua sala de aula. Eu simplesmente repudiava a ideia de parar de estudar e, por isso, fiz de tudo para conseguir manter as notas. E era um trabalho duro, já que, sendo filha de uma família de classe média baixa, eu apenas estudava no St. Patrick graças à bolsa que consegui aos 13 anos.

Era inadmissível que um colégio particular da parte nobre de Nova York, como ainda hoje era o St. Patrick, tivesse alunas grávidas em suas dependências. Eu apenas não fui expulsa pela consideração da diretoria à Esme — algo que também evitou que a educação de Edward fosse prejudicada, uma vez que seu estudo era garantido pelo privilégio de professora que sua mãe possuía.

Portanto, não era surpreendente que nós, o casal dos bolsistas irresponsáveis, fosse alvo fácil do preconceito, até mesmo de alguns professores.

Nós estudávamos na St. Patrick em uma época que gravidezes antes da hora só aconteciam em escolas da periferia. Era um absurdo e uma vergonha, eles diziam. As moças jovens da alta classe que tivessem o infortúnio de acabar com um bebê, ou eram mandadas para colégios internos na Europa, ou rapidamente casavam-se com toda a pompa com o amado que lhe proporcionara tamanha enrascada.

Edward e eu, antes de tudo, nos encaixávamos no quadro social da escola como algo que poderia ser descrito de "gente neutra". Não éramos rejeitados, "perdedores", ou populares. Apenas dois melhores amigos que encontraram similaridades em seus caminhos, e que se apoiavam um no outro, visando enfrentar o ambiente escolar que muitas vezes poderia ser duro.

A família Swan costumava morar em uma casa a poucos quilômetros dessa. Portanto, quando descobrimos isso – e quando nossas mães aprovaram nossa amizade por criarem um laço entre elas mesmas, já que ambas eram professoras naquele tempo -, nós nunca mais nos desgrudamos. Creio que o termo "unha e carne" pudesse ter como exemplificação uma foto de Edward e eu aos 15 anos, quando enfim começamos a namorar, dois anos após termos nos conhecido.

O fato é que com a gravidez, aquilo que era vontade de ficar juntos a todo instante, passou a ser uma bolha de proteção, onde tanto eu quanto ele nos escondíamos do mundo covarde do lado de fora.

A foto à minha frente no quadro de cortiça mostrava garotos e garotas sorridentes e brincalhões. Eu tinha um sorriso singelo no rosto enquanto me reclinava no corpo de Edward. Ele mostrava seu sorriso igualmente sutil. Aquilo havia sido tirado na semana em que minha mãe explodira em sua ira, e eu, não mais suportando a pressão, fugi para a casa de Esme. Me lembro de estar surpreendentemente contente por terminar a escola num futuro bem próximo, e por ter um novo lar. Embora muitíssimo magoada com Renée, eu pressentia que aquele seria um novo começo para mim, para Edward e para a criança que eu gerava em meu ventre.

Os jovens que nos cercavam na foto eram pessoas que, aos poucos, se afastaram de nós — uns por motivos normais do cotidiano atribulado, outros pela distância, ou porque simplesmente não tínhamos mais nada em comum. Eu me indagava como estavam eles atualmente.

Pegando um bilhetinho pregado no quadro, sentei na cama para respirar através do baque de sentimentos que me tomara. Era um pequeno pedaço de um guardanapo de papel amarelado, onde um simples "Você = Amor" fora rabiscado por Edward, quando comemoramos um ano de namoro, na lanchonete no fim da rua. Eu havia lhe devolvido o carinho, com um pedaço escrito "Amor = Você", mas por algum motivo aquele não estava no quadro.

Pude olhar ao redor, repensando coisas que estavam guardadas há muito tempo no meu âmago. Talvez fosse melhor fugir desse lugar antes que eu entrasse em uma depressão incurável, mas algo me impelia a continuar ali sentada. Apenas absorvendo tudo o que havia passado, e que jamais seria igual novamente.

Alguém um dia me disse que, para haver a cicatrização definitiva de traumas psicológicos – como uma brutal separação -, era preciso dar um passo para trás e apenas refletir, reavaliar-se. Entretanto, eu sabia que não poderia agir assim, afinal isso significaria que aquela página estaria para sempre virada. E essa sim era uma ideia assustadora. Não era o fato de nunca mais voltar a ter Edward ao meu lado, eu sabia que isso não seria possível. Eu não teria de volta o melhor amigo que eu já conheci, eu não teria mais o garoto por quem me apaixonei estupidamente.

O que me atormentava era o medo de perder o meu elo com o meu passado, aquilo que formou quem eu era atualmente. Hoje, era doloroso assumir que, talvez, em todos esses anos, eu havia fugido de uma explicação concreta de Edward por diversos motivos, mas primordialmente por esse receio.

O conflito em minha mente entre apagar Edward da minha memória do presente, enquanto preservava o nosso passado fazia minha cabeça latejar, junto a todos os sintomas de aflição e nervosimo. Suspirei pesadamente, olhando em volta e reparando que em um canto do quarto estava o violão surrado que Edward tocava antes de nos mudarmos e ele comprar um novo. Eu não fazia ideia se ele continuara com seu hobby, mas esperava que sim — sempre fora algo que o acalmava incrivelmente.

Eu me preparava para me levantar e sair, quando resolvi dar uma última espiada no local que representava tanto para mim. Fui em direção às caixas no chão, curiosa para saber o que havia ali dentro. Certamente eram coisas que estavam entulhadas naquele closet.

A uníca caixa entreaberta estava repleta de livros da sua faculdade de Administração, os quais eu não conhecia. Havia uma cópia antiga de O Apanhador no Campo de Centeio, seu livro preferido na adolescência; muitos cadernos que pareciam quase novos, e algumas pastas contendo diversas folhas impressas.

Eu remexi sem piedade na caixa, retirando os objetos e cavando até chegar ao fundo, onde havia um embrulho em papel manteiga, no formato de um caderno. Logo que eu o desembrulhei, o meu coração deu um pulo ao reconhecer o que vi. Eu sabia que aquele era o caderno que Edward levava para cima e para baixo consigo, como eu podia me lembrar com extrema clareza.

A capa dura original — uma foto do Nirvana -, há muito fora coberta por um contact preto, que já se encontrava severamente gasto. No entanto, o meu conhecimento sobre o objeto terminava ali.

O caderno de 180 folhas sempre havia sido o único segredo entre nós, e eu o zombava dizendo que ele parecia até a mulher da relação por ter um diário e eu não. Me senti uma adolescente novamente, curiosa para bisbilhotar o que estava ali dentro, mas a adulta que ainda me habitava filtrou meus pensamentos.

Uma enxerida que está brincando com fogo, Isabella Swan, é isso que você é. Minha mente não parava de entoar esse mantra, mas eu já tinha ido longe demais para parar agora. Aquilo pesava em minhas mãos, porém meus dedos coçavam para abri-lo. Não deveria ser nada demais, não é mesmo?

O gosto da adrenalina pareceu patético, mas eu o saboreei enquanto comecei a folhear. Haviam rabiscos de desenhos toscos, a maioria de mulheres de cabelos longos e negros, algumas nuas e outras não. Tinham estrofes de letras de músicas espalhadas por algumas linhas, e eu começava a cantarolá-las em minha mente, sem querer. Muitos cálculos pequenos e divagações aleatórias preenchiam os espaços. Haviam duas fotos de Claire enquanto bebê e eu, coladas no interior. Algumas folhas estavam soltas, e tentei não desarrumá-las. No meio do caderno, quando passei por uma página, o recadinho que eu havia lhe dado, ausente no quadro de cortiça, ali estava. Escorregou no chão, e eu o peguei com dedos delicados para colocá-lo de volta no lugar.

As últimas 50 folhas, porém, eram as que pareciam mais gastas. Corri para chegar até elas, e só então notei que era ali que começava, de fato, um diário — se é que podia ser chamado assim.

O primeiro registro datava de 15 de Julho de 1997, onde Edward marcava, objetivamente, os acontecimentos daquele dia.

"- Banho no clube; primeira vez de Claire na piscina. Juro que ela tem o sorriso mais lindo do universo. Definitivamente puxou à mãe.

- Lembrar de comprar bóias de braço melhores.

- Calção de banho é a melhor opção, nada de sungas. Nunca. Mais."

Meu sorriso se alastrou ao ler as palavras, recordando daquele dia. As próximas páginas eram recheadas de situações parecidas, e eu as li, uma por uma, até chegar a 2001. Ali, minha face endureceu-se novamente.

As palavras que lia não eram alegres, e as memórias do que passávamos se desenrolavam na minha imaginação enquanto eu registrava cada frase. Ele falava de tempos difíceis, de dificuldades que enfrentávamos. O dia em que Renée mudou-se para o Arizona. A semana em que Edward perdeu o terceiro emprego do ano. O dia em que seu pai Anthony aparecera na portaria de nosso apartamento, transtornando Edward.

Em certo momento, algo me chamou a atenção. Reparei que sua escrita passara de objetiva para emocional, em um fluxo de consciência onde a sensação era como se ele estivesse conversando diretamente comigo, naquele momento.

E estava. O meu nome aparecia abaixo de cada cabeçalho, fazendo com que as mensagens fossem claramente endereçadas a mim. Senti meu cenho franzir ao tentar ler e decifrar o motivo daquilo. Percorri por mais algumas páginas, sedenta por descobrir esse mistério, quando alcancei a data que eu não poderia esquecer jamais. 5 de Maio de 2003. O dia em que Edward havia saído de casa.

Imediatamente, um nó formou-se na minha garganta, mas continuei. Pararia quando me sentisse satisfeita, ou no pior caso, machucada demais para prosseguir. Pressentia que aquilo seria como uma carta de despedida, tão contraditória ao ridículo curto bilhete rabiscado que ele havia me deixado.

Meus olhos fecharam-se enquanto debatia se queria ou não saber o conteúdo daquela mensagem. Meu coração acelerou ao saber que coisas poderiam mudar naquele momento. Ou não. Talvez seria um monte de baboseira melancólica e cheia de culpa que eu já conhecia de cor dos discursos de Edward. Eu só descobriria se lesse.

Corroída pela curiosidade, enfim, exalei o ar preso enquanto abria meus olhos.

Notas finais
N/A: *Saindo de fininho pra não ficar da mira dos tomates que serão jogados*. Eu sei que paro nas piores partes. Eu sei que atrasei quase um mês com essa atualização.
O livro preferido de Edward é O Apanhador no Campo de Centeio, e também virou um dos meus preferidos. Recomendo que leiam :)
Dessa vez quando digo que o próximo capítulo está quase pronto, ele está MESMO. Juro, juro, juro!
Beijos, e até quinta!