Mais Uma Vez

12 Capítulo 11: Consciência


Notas iniciais
Obrigada à Cella, a beta que é nossa Gordinha de Meninas Malvadas Cheia de Sentimentos - a única exceção é que ela é toda gostosa, e nada gorda.

Preparem suas umas capas de chuva e sombrinhas, porque esse capítulo é uma enxurrada de informações... *meus trocadilhos a cada dia piores*

Capítulo 11: Consciência

Bella

- Então, o quê, exatamente, você veio fazer aqui com o meu sogro? – ele questionou repentinamente.

Eu tinha quase me esquecido que Joaquin tinha uma ligação com Edward; principalmente porque em nenhum momento o Sr. Denali citou ou fez qualquer menção ao meu envolvimento com seu genro. Não sei qual seria a reação de Edward ao saber que agora eu tinha algum conhecimento sobre a situação da família para a qual ele estaria entrando em breve. Não sabia se ele algum dia iria divulgar aquelas informações para mim, ou se ele sequer gostaria.

Por isso, suspirei uma vez antes de começar a falar.

- Ficou decidido que faríamos uma reportagem especial sobre as maiores personalidades da cidade. Joaquin foi um dos escolhidos.

- Carmen. – ele assentiu a cabeça como se tivesse entendido tudo, e eu dei de ombros, apenas aliviada por ele não parecer aborrecido por eu ter conhecido Joaquin. — É claro que ela iria mandar que colocassem Joaquin nessa. Eu já cruzei com ela uma vez, e vou te dizer a verdade: a mulher me deu arrepios.

Eu ri levemente, apesar de tudo.

– Por quê?

- Ela pareceu tão prepotente, com um olhar tão furioso. Tão… brava. – explicou Edward, mas um sorriso malicioso tomou sua face. — É uma versão má e espanhola de Bella Swan.

Eu bufei uma risada incrédula para ele, mas preferi me calar.

Eu sequer havia notado que possivelmente ele podia já ter conhecido a minha chefe, e, de imediato, uma grande questão começou a preencher minha mente.

- Edward, por acaso, você mantém contato com Carmen para fiscalizar a minha vida no trabalho? – disparei a pergunta antes que a coragem sumisse. — Por favor, diga a verdade.

Ele me fitou com olhos largos.

– Não, Bella. Jamais fiz isso. Mas confesso que cheguei a pensar em fazer…

Dessa vez, fui eu que arregalei os olhos.

– O quê?

- Não me julgue. – ele falou na defensiva. — E nem me culpe por gostar de saber como anda a situação financeira da mãe da minha filha, saber se ela continua possuindo meios de bancar uma vida digna para ambas. Saber se o futuro delas está garantido.

- Você sabe que existe sempre a opção de perguntar pessoalmente, não sabe? Muito mais digno do que tentar espionar por terceiros.

- Correto. Mas, Bella, desde quando você me informa coisas sobre a sua vida, mesmo a profissional? Você não me deve satisfações, não foi isso que afirmou há pouco tempo?

Eu bufei.

– É.

- Alice… – ele falou depois de um tempo, e eu franzi o cenho. — E Claire.

- O que tem elas?

- São elas que me informam do seu progresso no trabalho. Foram elas que me disseram da sua promoção no mês passado.

Rolei os olhos. Mas é claro que eram elas.

Eu me perguntava o quê mais as duas informavam a ele. Não sei da parte de Claire, mas Alice certamente abria sua enorme boca para contar detalhes da minha vida como um todo; assim como ela tentava sempre salpicar informações sobre a vida do irmão nas nossas conversas. Era enervante o fato de que ela ainda tentava a todo custo nos reunir; qualquer dia desses ela ouviria poucas e boas sobre essa intromissão inconveniente.

- Se você quer saber, Joaquin não mencionou nada sobre você. Quer dizer, sobre nós…

- Eu tenho certeza que ele sabe quem você é, Bella, mas não quis dizer nada para não te constranger. – ele explicou algo que fazia sentido. Joaquin era cortês demais para criar possíveis momentos embaraçosos como esse; ser entrevistada pela ex-mulher do seu futuro genro não soava simples nem mesmo para mim.

- Eu sei. Ele parece ser um bom homem, e tão honesto. Fiquei apenas duas horas na presença dele, e já pude constatar isso. – verbalizei o elogio que permanecia na minha memória recente.

- Sim, Joaquin é tudo isso. Eu devo muitíssimo a ele. – falou com sinceridade.

- Além de tudo, ele é muito centrado. Me desculpe, mas acho inacreditável que ele tenha uma filha como Tanya. – eu disse, parecendo pegá-lo de surpresa ao mencionar sua noiva. Ele riu sem jeito.

- Entender Tanya é para poucos. Não dá pra julgá-la só pela aparência. – explicou enigmático, e eu não tive a menor vontade de pedir para que ele elaborasse aquilo. Simplesmente não me dizia respeito.

- Bom, ela tem sorte de ter o pai que tem. Ele até lembra muito o meu.

- Com toda certeza. – ele falou soando entristecido, e eu senti uma pontada de arrependimento por ter tocado nesse assunto.

Embora ele amasse Carlisle e o considerasse como um pai, Edward sempre fora amargo em relação ao passado com seu pai biológico; era uma coisa com a qual eu aprendi a lidar desde que nos conhecemos.

- Desculpe por falar isso, eu não fiz de propósito. – eu disse sem mencionar o motivo, pois sabia que ele entenderia.

- Tudo bem. – Edward sacudiu a cabeça ligeiramente, e calou-se para uma expressão pensativa.

Após um longo momento, ele tornou a falar. E quando falou, sua voz soou fraca e embargada.

- Anthony procurou minha mãe há uns quinze dias. Foi alguns dias antes do aniversário dela, e eu juro que nunca quis tanto acabar com aquele desgraçado. Minha mãe estava tão alegre com os preparativos da festa, e o infeliz tinha que reaparecer justamente naquele momento.

Sua fala sobre Anthony Masen me deixou boquiaberta. Enquanto conviveu comigo, Edward jamais demonstrou sinais de fraqueza perante ao assunto — ou se tinha algum, o escondia muito bem -, mas quando se tratava de defender sua mãe nas reaparições esporádicas de seu pai, ele era firme.

Eu tentava me recordar de como estava o humor de Esme durante a festa. Ela parecia perfeitamente contente, assim como Carlisle. Se ela estivera ou não abalada, não havia como saber — uma vez que se aprende a colocar um sorriso no rosto quando tudo em seu interior está desabando, é difícil perder a prática, e Esme era excepcional nessa habilidade.

Ela era uma mulher forte, acima de tudo, mas meu coração doía só de pensar que marcas do passado ainda pudessem ferí-la.

Sua história era como a de tantas outras jovens que tinham o sonho de formar uma família e ter o marido ideal. Mas ela viu seu conto de fadas rapidamente desmoronando quando passou a lidar com um marido que trocava jantares de família por noitadas repletas de tudo o que era ilegal, ilícito e imoral.

Edward tinha 4 anos quando presenciou a última das brigas entre seus pais, enquanto se escondia, apavorado, atrás da camisola da irmã Alice, de 9 anos. Foi na mesma noite em que Edward Anthony Masen Pai tivera a audácia de acertar Esme contra uma parede, antes de ameaçar fazer o mesmo com os filhos. Espertamente, Esme sequer esperou o dia amanhecer por completo para fugir da casa que pertencia somente ao marido.

O destinou, ou Deus, ou o que quer que você queira chamar, realmente escrevia certo por linhas tortas, e a máxima se fez verdadeira quando a luxação em seu ombro resolveu doer demais, obrigando Esme a procurar um hospital — local onde um jovem atendente estava trabalhando, e simpatizou com a situação da moça sozinha no mundo com os filhos pequenos.

Num dia, ela e as crianças estavam temporariamente abrigadas na pequena casa do bom doutor; no outro, a convivência diária tornou-se encantamento e atração entre Carlisle e Esme, e, pouco tempo depois, eles já se encontravam adentrando uma igreja para trocar promessas de amor e eternidade. Quando a hora chegou, Edward e Alice tornaram-se, oficialmente perante a lei, um Cullen como o honrado pai Carlisle.

Eu sempre fui fascinada pela história entre os dois, e às vezes, em nossas conversas, Esme recordava de como o seu amado atual marido tinha sido posto em sua vida milagrosamente, e agido como um anjo. Ela ria e dizia que esse tipo de pensamento era clichê demais, apesar de verdadeiro, mas eu continuava achando incrível como tudo sempre tinha um motivo para acontecer.

Nada é em vão.

- Meu Deus. E o que ele queria dessa vez? Ele chegou perto dela? Eu não fazia ideia disso, senão teria oferecido ajuda a Esme, ou apoio, sei lá. – falei aflita.

- Ele só ligou uma vez pra casa dos meus pais. Minha mãe atendeu, bateu boca com ele por cinco minutos, mas foi o suficiente. Depois, ele apareceu na porta do hotel, implorando por minha ajuda para um tratamento hospitalar. Parece que a família dele está falida, e a outra filha não quer assumir os gastos. Mas minha mãe aguentou firme, você sabe como ela é.

- Sei. E o que você fez?

- O que eu podia fazer? Eu neguei até que tivessem que praticamente tirá-lo à força de dentro do saguão. Mas no fim, não consegui. Arranjei um hospital barato qualquer. Se foi por pena, compaixão ou peso na consciência por deixar alguém do meu próprio sangue desamparado, eu não sei. Sou um tolo, um idiota mesmo.

- Não, você não é. Isso só mostra que você é uma pessoa boa. Infinitamente melhor que Anthony. – eu disse o que era a verdade.

Ele balançou a cabeça, com uma risada sarcástica.

- Sou? Você não sabe o que está falando, Bella.

- Edward eu tenho certeza disso. Você é um babaca, às vezes, ou melhor, praticamente o tempo todo, mas com certeza não é nem um pouco parecido com aquele homem.

- Obrigado pelo elogio. – ele falou pesando na ironia, e quebrando a aura de seriedade. Aos poucos, senti que voltávamos à nossa dinâmica de sempre, que não era das mais agradáveis. E eu voltava a me sentir incomodada por estar ali.

- Céus, será que essa luz não vai voltar nunca? Estou começando a ficar realmente preocupada. A qualquer momento posso ter um ataque de novo.

Ele expirou longamente e olhou para o relógio.

– Já faz quase quarenta minutos. Não sei se Heidi ainda está aqui.

- Você acha que ela iria se dispor a descer trinta andares para ir embora? Eu não iria. Não custa nada tentar ligar de novo.

Ele ligou, mas sua secretária avisou que ainda estavam sem luz, e ela estava há minutos tentando falar com a emergência da companhia responsável pela manutenção dos elevadores, mas ninguém atendia. Ótimo, vamos passar a noite toda aqui. Talvez até dormir. Ainda bem que fui ao banheiro antes de entrar.

- Mas que merda. Estou tão exausta, eu só queria minha cama. – choraminguei como criança. Edward soltou uma risada ligeira.

- Eu sei que não sou sua pessoa preferida para passar um tempo presos em um elevador. Sinto muito por isso.

Dessa vez, fui eu que ri.

– Você está longe de ser a preferida, mas também poderia ser pior. Eu já fiquei cinco horas a sós com Carmen. E à trabalho. Nada foi pior do que aquilo. Eu cheguei ao ponto de querer tacar o cinzeiro na cabeça dela.

- Tsc, tsc. Bella, saber perdoar é uma virtude. Saber controlar a raiva, canalizando-a para outra coisa também é um ótimo exercício. – ele disse com ar de sabedoria jocosa, o que acabou me incitando uma outra grande dúvida.

Edward jamais foi uma pessoa diretamente furiosa em nosso convívio. Mesmo em nossas brigas mais recentes, seu comportamento passivo-agressivo fazia esse papel — um traço que era tão enervante quanto acessos de raiva, como eu os tinha. Se ele possuía conselhos para dar, então estes certamente tinham saído de algum lugar.

- Você está brincando, não está?

Ele deu de ombros.

– Um pouco.

- Posso te fazer uma pergunta? – falei hesitante.

- Já fez.

Eu rolei os olhos, mas um pequeno sorriso abriu-se para a provocação.

– Você continua indo ao psicanalista?

Edward baixou a guarda por um ligeiro instante, quando uma expressão constrangida passou por seu rosto, antes de se recompor e voltar a me encarar nos olhos.

- Sim. Mas com menos frequência do que antes. Estou quase me dando alta.

- Eu espero que tenha surtido algum efeito.

- Você nem imagina o quanto. – murmurou com a voz baixa.

A próxima pergunta estava na ponta da minha língua, ameaçando saltar para fora. E por que você começou a ir, afinal?

Eu sabia que Edward resolvera buscar a terapia um ano e meio após nossa separação. Nessa época, tudo o que eu mais queria era me desligar dele por completo, e tentava bloquear qualquer coisa que tivesse relação a ele — o que incluía não querer saber dos motivos que o levaram a uma primeira consulta.

Era terrível e doloroso pensar que muita coisa podia ter sido esclarecida há tempos, se não fosse por minha causa e minha tentativa fútil de apagá-lo da minha mente. Minha linha de raciocínio era uma só: se ele partiu sem um adeus foi porque teve uma boa razão. Eu jamais me conformei com isso, mas meu orgulho falava mais alto. Naquele tempo, meu coração estava partido demais, meus olhos cegos demais pela mágoa. Eu apenas preferi esquecê-lo a ordenar o caos.

Meus palpites eram de que, na terapia, ele resolvia problemas relacionados a sua família, a seu pai, mas sobretudo ao fracasso em sua carreira médica que nunca aconteceu.

Ele sempre fora obcecado por isso, muito mais do que era pelo passado da família.

Ambos já tínhamos 18 anos quando Claire nasceu e, naturalmente, já devíamos estar na faculdade — como todos os nossos colegas de classe. Entretanto, para minha surpresa, Edward afirmara que podia esperar mais um pouco para ingressar no tão almejado curso. Ele fora tão teimoso, mas, ao mesmo tempo, meu coração se enchera de orgulho e amor por ele já demonstrar ser um bom pai e bom companheiro; era uma confirmação da minha esperança de que tudo iria dar certo para nós, e que seríamos felizes para sempre.

É claro que não foi fácil me convencer de que ele devia, de fato, esperar um ano para iniciar os estudos. Me recordava de diversas discussões entre nós a respeito disso — eu simplesmente não queria que ele martirizasse o seu sonho. Um ano era tempo demais para Medicina, e, por mais que eu quisesse tê-lo ao meu lado para cuidar de uma recém-nascida, eu sabia que poderia contar com a ajuda de Alice e, especialmente, Esme, já que ainda morávamos em sua casa.

Demorou três semestres até que ele conseguisse uma nova vaga para finalmente ir à faculdade. Um semestre depois de mim, ele começava a estudar na Berkeley, enquanto eu já havia dado início ao meu curso de Jornalismo na NYU, exatamente dez meses após Claire nascer. Foi um período de transição que hoje eu sequer entendia como conseguimos atravessar.

Num piscar de olhos, éramos pais de 19 anos com responsabilidades de adultos; cursos na faculdade cujos turnos eram alternados — eu, durante a tarde, e ele, durante a noite -, trabalhos de meia-jornada que pagassem o suficiente para sustentar o apartamento que eu fizera questão de alugar no centro da cidade, e no meio de tudo isso, ainda arrumávamos um jeito de cuidar de nossa filha, com o máximo de autonomia que conseguíamos.

Edward trabalhava durante a manhã, enquanto eu ficava com Claire. Ele retornava, eu ia para a faculdade, e então era sua vez de cuidar dela. Eu chegava das aulas, e lá estavam os dois em frente a televisão enquanto Edward jogava um video-game bobo, e Claire vibrava e ria das palhaçadas. Eram duas crianças sorridentes, a única exceção era de que uma criança tinha apenas quatro dentinhos na boca, com a companhia inseparável de uma chupeta pendurada em um canto do sorriso, e a outra quase sempre sorria torto e com dentes brilhantes. Às seis da tarde, ele saía para suas aulas, enquanto eu me preparava para as aulas particulares que dava em casa a duas adolescentes, alunas de Esme, pela noite. Eu relutava em tentar esperar por ele acordada, mas sempre acabava caindo na cama, exausta, pouco depois de Edward voltar.

Era uma loucura de rotina, que variou muito ao longo dos anos até nossa separação, mas nós três tínhamos sorte de termos sobrevivido a tudo isso. Bem, sobrevivemos da melhor forma possível.

- Edward, por que você decidiu procurar ajuda? – finalmente fiz a pergunta, me sentindo tímida. Eu não fazia ideia de como ele reagiria. — Foi por toda aquela história da Escola de Medicina? Não precisa responder, se não quiser.

Edward tinha 24 anos quando nos separamos. Naquele ano, seria sua terceira vez prestando a maldita prova, a qual ele jamais chegou a fazer. Foram difíceis os dois anos consecutivos em que Edward não passou no exame, já calejado desde quando recebera o primeiro veredito de reprovação. Para ele, eram cinco anos de estudos e dedicação indo por água abaixo, um quase diploma jogado no lixo.

Eu achava que ele estava enlouquecendo aos poucos, se afastando de mim, se retraindo do mundo. A cada dia, ele chegava mais tarde em casa, já que àquela altura, ele apenas estudava para a prova e trabalhava. Se eu cheirava cigarro e cerveja nele, sempre concluía que era resultado de um merecido happy hour com os colegas do trabalho. Emprego esse que ele já havia perdido há mais de seis meses, e eu descobri apenas tempos depois de ele ter saído de casa. Eu perguntava, mas Edward mentia, e eu fingia que acreditava. Nunca pude acreditar em como me deixei ser tão cega.

Nossa relação havia virado uma casa feita de cartas, pronta para desmoronar a qualquer segundo. Eu apenas nunca soube que o golpe final fosse ser tão duro.

- Não foi só por isso, Bella. Mas, sim. Quando eu comecei, acho que finalmente admiti que não sabia me virar sozinho, que eu era falível. Engoli o meu orgulho. – explicou ele de forma vaga demais para que eu entendesse. Entretanto, preferi não pressionar o assunto, se isso era tudo o que ele estava disposto a compartilhar.

Assenti a cabeça, enquanto refletia sobre aquilo.

Edward definitivamente nunca fora o único teimoso da nossa relação; a minha vontade de afirmar a nossa auto-suficiência e o meu orgulho eram ferrenhos, especialmente quando insisti que procurássemos por um lugar só nosso e saíssemos da casa de Carlisle e Esme. Tudo o que eu queria, no fundo, era provar para minha mãe que eu não era uma adolescente desmiolada que havia engravidado por descuido e jogaria mais um flagelado no mundo e meu futuro no lixo. Tudo o que eu queria era sua admiração e seu amor, como uma tola.

Suspirei fundo. Estar trancafiada nesse elevador me fazia reviver memórias enterradas há tanto tempo. Era uma angústia nostálgica — ou melhor, uma nostalgia angustiada. Um sentimento que eu não gostava nem um pouco.

- Você está mesmo bem, Bella? Ainda parece incomodada... agitada. – ele observou.

- Ora, mas é claro que estou incomodada. Você queria o quê? Um elevador parado no décimo terceiro andar, em pleno apagão de tempestade, não é o melhor lugar do mundo para se estar. – eu falei, talvez um pouco mais ríspida do que o necessário. Simplesmente não conseguia evitar.

- Me desculpe, Bella, eu não quis te ofender. – respondeu como um menino responderia a um sermão.

Abanei a cabeça, fechando os olhos. – Não, tudo bem. Você só perguntou se eu estava bem. Estou, embora esteja mesmo muito mais estressada pela situação. Não é fácil controlar esses ataques. São mais fortes do que eu.

Ainda estava de olhos fechado quando senti sua mão pegar a minha, e me recolhi instintivamente. Não havia sentido-o mudar de posição e vir para o meu lado, então quando abri os olhos, assustei-me com sua proximidade.

Edward tentou alcançar minha mão novamente, mas ela estava segura cruzada sobre meu colo. Eu não tinha ideia do que ele estava querendo fazer, mas já não estava gostando. Precisava de distância para me manter equilibrada perto dele. Sempre foi assim.

- O que você quer? – inquiri. Ele umedeceu os lábios uma vez com a língua, piscando os olhos várias vezes, me indicando que ele lutava para achar palavras. E enfim, respondeu.

- Eu só queria dizer que… Que não foi fácil pra mim, Bella, quando…

Suas reticências pairaram no ar, rapidamente dando lugar à luz forte que invadiu o pequeno espaço. Eu franzi os olhos com a claridade repentina, mas em questão de segundos já estava de pé, respirando aliviada pela energia que havia voltado. Meus dedos buscaram com rapidez o botão de reiniciar a descida até o térreo.

- Graças à Deus. Eu já estava ficando com vontade de ir ao banheiro, de novo! – exclamei a primeira coisa que veio à mente.

- Sim. Graças à Deus.

Peguei minhas coisas do chão e esperei ansiosamente os vinte segundos restantes de descida. Sim, eu estava contando.

Avistar um saguão de entrada nunca pareceu tão bom. As pessoas pareciam tão aliviadas quanto eu, certamente eram hóspedes podendo subir aos andares mais altos, além de funcionários que ficaram presos ali para qualquer emergência. Edward me acompanhou até a saída após pedir para que o valete desse prioridade para o meu carro. Ele me ofereceu um jantar no restaurante, mas eu declinei com certo esforço a oferta insistente.

- Por favor, da próxima vez, me deixe pagar pelo jantar. – ele protestou.

- Da próxima vez? Edward, se Deus quiser, não haverá próxima vez. Eu não quero ficar presa em um elevador durante tanto tempo assim pelos próximos trinta e dois anos, no mínimo. – falei, e ele riu. — Além disso, você não ia pagar. Você é privilegiado aqui.

- Você que pensa, Bella. – falou. — Todos tem que pagar. Eu apenas pago uma taxa menor, especial dos funcionários.

- Certo. Bem, se eu ficar novamente presa nesse elevador, deixo você pagar aquele chá da tarde que Claire idolatra tanto. E convide o Sr. Denali, também. Gostei muito dele.

- Com certeza. – ele sorriu, e a aura leve que nos envolvia naquele momento pareceu boa. Era pacífica e neutra. Um trecho seguro no caminho do nosso campo minado.

- Bom, eu tenho que ir. – disse, olhando no relógio. Já eram quase dez da noite. — Eu nem sei como Claire não ligou ainda.

- Tenho certeza que ela ligou, mas os celulares nunca pegam nos elevadores.

- Ah, verdade. Vou checar as mensagens mais tarde. – falei me afastando, mas voltei quando algo havia emergido em minha mente.

- O que você queria me dizer antes da luz retornar, Edward? Que nunca foi fácil pra você…?

- Ah… É que... eu sempre me culpei por não ter conseguido chegar a tempo de impedir que aqueles garotos tivessem te trancado na casa da piscina. Você poderia não ter trauma nenhum hoje em dia. Só isso.

- Hm. Bom, o que está feito, está feito. Mas agradeço o sentimento. – disse.

A hora certa de nos despedirmos era essa, e eu fiquei insegura sobre como prosseguir. Um aperto de mão parecia frio demais para a ocasião, afinal, Edward havia me ajudado a controlar uma crise potencialmente perigosa. Antes que eu me arrependesse, dei um passo a frente e o envolvi em um abraço amigável. Eu sequer lembrava há quanto tempo eu não punha meus braços ao seu redor dessa forma.

- Obrigada por tudo hoje. Nem quero imaginar o que teria acontecido se eu estivesse sozinha. – falei, e ele passou a mão por minhas costas uma vez de modo suave, involuntariamente me arrepiando até os pés.

- Não tem de quê, Bella. Boa noite. Dirija com cuidado. – ele disse, e me ofereceu um sorriso que eu reconhecia muito bem. Desviei os olhos a fim de evitar o desconforto que surgiu em mim.

- Obrigada. Boa noite. – falei, sabendo que iria para casa pôr a cabeça pesada de coisas a refletir no travesseiro.

xxxx

Eu estava em um jardim andando, me agachando e subindo, olhando debaixo de bancos, atrás de árvores, procurando por alguém. Era florido e cheio de brinquedos de criança de cores vibrantes, mas não havia nenhuma criança. Dois vultos passaram correndo, ao longe, um bem mais alto que o outro, e naquele instante eu soube que estava sonhando. Acordar parecia impossível, como se me forçasse a viver aquela realidade ilusória. Era a sensação mais estranha.

O sol brilhava forte e eu corri, sentindo a luz quase cegar meus olhos. Eu reconhecia o espaço, e a ocasião. As risadas dos dois ecoaram em uma direção, e eu tentava alcançá-los, mas os pés eram ágeis e as pernas eram mais longas do que as minhas. Enfim, consegui reconhecer os vultos à minha frente; ele tinha colocado a nossa filha em seus ombros, e ela ainda era pequena demais para isso. Gritei.

- Edward, coloque ela no chão! Ela vai se machucar! – disse, mas continuei correndo atrás deles, já que ele não me obedecia.

- Você vai ter que nos achar antes. – falou ele, entrando por um dos brinquedos enormes no parquinho.

- Eu já estou cansada. – reclamei, mas entrei no brinquedo mesmo assim. Dentro, era uma espécie de labirinto cheio de cores escuras. O chão estava cheio de folhas secas e areia, e eu corria com mais cautela para não escorregar ali.

- Papai, papai, não deixa ela ver a gente. – ouvi o sussurro fino de Claire, vindo acima da minha cabeça. Eu ergui os olhos, mas não havia ninguém no teto.

- Shh, eu vou me esconder melhor. – ele respondeu, e segui os passos conforme eu os ouvia.

Era um labirinto que ficava cada vez mais confuso, e eu sabia que não iríamos sair dali tão cedo. Meu desespero aumentava a cada segundo. Eu queria acordar, mas nada me tirava daquele sonho. O lugar ficava cada vez mais escuro, com cada vez mais entradas e caminhos, e eu tinha certeza que estava perdida. Tentei gritar, mas minha voz não saía.

- Mamãe! – gritou Claire. Eu tinha que ir ao encontro dela. Andei, andei, até que parei de frente para a saída, e lá estava minha filha, no fim do túnel escuro, com seus cinco anos de idade. Corri em direção a ela, e finalmente consegui sair do labirinto, pegando-a no colo.

- Cadê o papai? – perguntei. Ela abraçou meu pescoço, mas não respondeu.

- Estou aqui. – ouvi soar por trás de mim e virei o corpo rapidamente. Edward estava parado atrás de mim com um enorme sorriso. O mais lindo que ele tinha especialmente para mim. Meu coração se encheu de amor ao ver aquilo, e ao sentir alívio por ter pequena minha família reunida novamente.

Com Claire no meu colo, eu me inclinei para ele, querendo mais do que nunca reafirmar sua presença ali, e que nunca mais ele me deixaria perdida e confusa daquele jeito.

Edward acariciou o meu rosto, mas antes mesmo que seus lábios encostassem nos meus, a escuridão tomou conta, engolindo-o pouco a pouco. Ele continuava sorrindo enquanto eu via sua figura sumindo aos poucos para dentro do labirinto que não mais parecia infantil. Eu gritei, tentei correr em sua direção, mas meus pés não saíam do lugar.

Senti um forte impulso em meu peito e quando percebi, estava acordada.

- Merda! – xinguei para o quarto vazio ao sentar na cama, sentindo a respiração arquejar. Meu coração estava acelerado demais. Meu olhos estavam molhados e eu sabia que estava chorando, pois a sensação de aperto na minha garganta e o queimar em meu nariz vieram com tudo dessa vez.

Permiti que as lágrimas saíssem, livremente, como elas queriam. Eu não chorava com tanta força há anos. Os soluços tomaram conta, e as lágrimas afetavam todo o meu rosto, meu corpo balançava com a força da emoção. A sensação horrível do sonho ainda estava impregnada em minha memória, e eu me sentia vazia. Desprotegida.

Algum tempo depois, mais controlada, me levantei para ir ao banheiro e lavar o rosto. Eram apenas duas e meia da manhã. Terminei de assoar o nariz, e eu sabia que não conseguiria dormir tão cedo ali. Passei no quarto de Claire para lhe deixar um beijo, e me certificar da sua presença. Era irracional. É claro que ela estava ali o tempo todo, mas não podia evitar. Desci até a cozinha, e preparei um chá calmante.

O abajur fraco da sala me deixou mais aconchegada e segura. Me enrolei em um cobertor no sofá enquanto bebericava o chá doce, e não impedi que meus pensamentos fossem para o único lugar que gostariam de ir agora. Edward.

Era anormal a quantidade de vezes que eu já havia me encontrado com ele nesse último mês. Pelas minhas contas, nem no último ano eu havia o encontrado tanto assim. Se essa era a forma do destino me torturar, apenas gostaria de gritar aos céus que eu havia aprendido a minha lição, seja ela qual for.

Sonhar com ele dessa forma não era uma coincidência, eu sabia — mesmo que não sonhasse com Edward há anos; E aquele havia sido um sonho quase real — eu me lembrava claramente de nós naquele parquinho, cheio de crianças brincando de pique-esconde, e nós também. O local real não era tão sinistro ou desesperador quanto no sonho, e obviamente, eu os encontrei depois de alguns minutos. Mas se eu estava deixando que Edward entrasse no meu subconsciente, eu sabia que havia uma razão.

Edward possuía uma enorme influência sobre mim, de uma forma ou de outra, por mais que eu tentasse fugir dessa conclusão. Não havia palavras para expressar o quanto eu odiava esse fato, e me odiava por isso. A cada vez que o via, minha mente entrava em um conflito e eu voltava para minha rotina emocionalmente exausta. Confusa.

E eu já podia sentir os efeitos de suas aparições mais contantes na minha vida. Essa noite era apenas mais uma prova.

Edward me conhecia de formas que eu mesma duvidada conhecer. Ele me viu crescer nas fases mais difíceis da minha vida. Ele estava lá o tempo todo, o que significava que ele sabia tudo sobre mim — ele conhecia a minha essência. A Bella Swan de antigamente não devia ser tão diferente quanto essa hoje; mais abatida pelo tempo, mais sábia e menos ingênua, certamente, mas continuávamos as mesmas pessoas.

Edward tinha a minha fraqueza e a minha vulnerabilidade em suas mãos.

Os muros que, há tanto tempo, construí ao meu redor em proteção tinham um motivo e tanto. Eu simplesmente não podia deixar que, além de todo o estrago que Edward havia feito no meu coração, ele visse que ainda tinha algum efeito sobre o que eu sentia ou deixava de sentir. Eu não era dependente dele, com toda certeza não; mas, no fundo da minha consciência, eu sabia que suas marcas estariam lá para sempre.

A cada vez que Edward se fazia presente, eu queria questioná-lo por tudo o que aconteceu, ao passo que queria gritar por ele não ter lutado mais por mim. Eu queria estapeá-lo por ele parecer tão feliz longe de nós, e mais ainda por eu ser feliz e ele não estar presente.

As lágrimas retornavam novamente, de onde estavam escondidas há quase cinco anos, ou sei lá quando havia sido a última vez que eu pensei sobre todo esse assunto dessa forma. Eu me lembrei de nossa despedida no hotel, e meu coração palpitou quando uma resposta para o sonho se formava. Não podia ser verdade. Não era verdade, pois eu não aguentaria que fosse.

Toda nossa situação era uma bagunça; um labirinto escuro e perigoso onde eu me encontrava perdida, cheia de raiva e rancor para aquele que me infligira tanto sofrimento. Mas bastava que me mostrasse aquele estúpido sorriso, e então ele era Edward novamente.

Eu apenas esperava, com toda a minha força, que eu não fosse boba de cair nessa armadilha.

Notas finais
N/A: Ufa. Tensão. Respira. Expira...

Bem, e aí? Vou confessar que estou com medo das reações com esse capítulo. Vocês têm a minha vulnerabilidade nas mãos de vocês, assim como o Edward! lol

E o presente de Amigo Oculto que eu tava escrevendo já foi postado, chama-se "Só Pelo Verão".

Até semana que vem!