Mais Que Um Professor

24 Capítulo 24 - O Dia Seguinte


Notas iniciais
Quando ouvi a música "Tee Shirt" da Birdy pela primeira vez, todo o clima do capítulo me veio a mente. Foi amor à primeira ouvida, principalmente por a música ser um breve resumo do dia seguinte dos dois. E quando li a tradução, os sentimentos da Anna não saíam da minha cabeça. Principalmente nesse trecho: “Quando eu te vi, todo mundo soube Que eu gostei do efeito que você teve em meus olhos Mas ninguém mais ouviu o peso de suas palavras Ou sentiu o efeito que elas têm em minha mente Estou me apaixonando.” (Não é a Anna em forma de música, gente?!) Enfim, ela é toda linda. Para quem quiser, fica como sugestão para acompanhar a leitura.

Ele saiu de cima de mim e se deitou ao meu lado. Peguei minha camiseta do chão e a vesti, depois tateei na cama em busca da minha calcinha. Ele estava ofegante, olhando para o teto. Vestiu sua cueca e passou as mãos nos cabelos.

Ao invés de dor, eu sentia alívio. Sentia o prazer se alojando em meu corpo e pedindo por mais. Ficamos olhando um para o outro até que adormecemos.

Eu nunca me senti tão viva.

Acordei virada para ele, do mesmo jeito que dormi. Ele ainda estava com os olhos fechados. Deitada na cama do meu professor de física, comecei a pensar no quão imprevisível a vida é. Nunca fui obcecada com minha virgindade, mas sempre que o assunto me vinha a mente deixava a insegurança me conduzir por cenas constrangedoras. E sempre duvidando de que nunca seria boa o suficiente, jamais levei a sério a ideia de a vida me conduzir por um caminho onde sonhos se alinhavam com a realidade. Onde o platônico seria alcançável. Onde eu seria capaz de me sentir segura e confiante para ser e sentir. Recapitulo os acontecimentos da noite passada, seus olhos fixos aos meus, e tento me agarrar a esse êxtase que domina meu corpo e minha mente.

O mar agitado que mora em mim havia se acalmado.

Lentamente seus olhos foram abrindo e estremeci ao sentir a ansiedade se apossar do meu corpo. A primeira imagem que ele veria no dia seria a minha.

– Oi – e após esfregar os olhos, sorriu para mim.

Meus olhos brilhavam como nunca haviam brilhado antes.

– Bom dia, Vitor – “o rapaz que eu gosto” completei em minha mente.

Deixamos o silêncio tomar conta do momento, e após alguns segundos tomando coragem, decidi perguntar:

– Foi estranho pra você?

– Um pouco, e pra você?

– No começo.

– Não aproveitei muito momento me preocupando se você estava aproveitando, se estava incomodada... – fui para perto dele e me aninhei em seu peito.

– Desculpa.

– Desculpa? Anna, eu estava feliz. Só um pouco tenso. Afinal de contas, eu estava tirando sua virgindade – a naturalidade com que ele tratava o assunto me deixava mais segura. – Você está bem?

– É – ri e ele também –, mas eu aproveitei e estou bem. Foi bom.

Seu sorriso torto despontou em seu rosto e pontou meu coração.

– Seja bem-vinda a esse mundo bom então – e me abraçou.

– Nunca pensei que essa parte da Rússia fosse tão viciante – ele riu.

– Posso carimbar seu passaporte sempre quiser – piscou para mim e me beijou ao mesmo tempo em que sua voz grossa ativava todas as minhas terminações nervosas.

Ali eu soube. Ele tirou minha virgindade e deixou toda a intimidade e a liberdade que ansiava em ter comigo.

– Vou arrumar alguma coisa para comermos. Pode usar o banheiro primeiro – disse após sair da cama se encaminhando para fora do quarto. – Ah – voltou após alguns passos –, aos poucos vamos ficando mais à vontade e aprendendo a aproveitar mais – direcionou-me um sorriso sem vergonha e virou as costas.

A Anna que no primeiro dia de aula conheceu o homem mais charmoso que vira na vida, cairia pra trás com a possibilidade em vê-lo de cueca.

Estou no banheiro lavando as mãos quando sinto ele se aproximar. Abraça-me pela cintura e encaixa sua cabeça em meu ombro. Levanto os olhos e vejo a cena a qual participo pelo espelho. Levanto os olhos e vejo meu professor de física me abraçando e me contemplando. E vejo também que não só os meus olhos brilham, mas os dele também.

– Precisamos ir. Trabalhar – apontou para ele –, estudar – apontou para mim e deu um beijo no topo da minha cabeça.

Ele deu partida no carro e seguimos em direção ao colégio. Tudo flui tão bem que parece um sonho. Encostei minha cabeça na janela e pensei em como a mudança rege a vida de todos. Um filme que assistimos, uma palavra não dada, um momento vivido e já não somos mais os mesmos. E hoje, especialmente hoje, eu não sou mais a mesma de ontem. A cada segundo sinto a Anna de meses atrás se esvair de mim, e são nesses segundos que lembro dela com carinho. Se não fosse seus anseios por algo que movimentasse sua vida eu não estaria aqui hoje.

– Tenho a primeira aula na sua sala hoje – sua voz me trouxe de volta.

– É sempre bom te ver, mas não posso dizer o mesmo da física – ele riu.

– Você está melhorando, Anna. Estou gostando de ver – tirou uma mão do volante e colocou em meu joelho. Mentalmente, agradeci o Otávio pelas ajudas.

Para não levantar suspeitas, meu querido professor me deixou na rua de cima da escola. Caminhei para o colégio flutuando em novas sensações. Entrei na sala e grandes olhos azuis me encaravam. Reparou em minha expressão, na dose extra de brilho do meu olhar, juntou esses detalhes com um Vitor animado em plena manhã e sacou tudo. A Vic ainda não havia chego. Isa, que não sabia de nada, sorriu pra mim. Otávio me olhava desconfiado, ele sabia que algo estava acontecendo em minha vida.

Duda piscou para mim e mexeu sua boca num “quero saber de tudo depois”. Apenas ri.

– Bom dia, turma – professor Vitor saudou a sala e sentou em sua mesa.

– Está animado hoje hein, professor?! Há algum tempo você anda animado, mas hoje está mais – indaga Otávio. Vitor apenas sorri. – Festa na Rússia, será? – ele sussurra em minha direção. Meu estômago se contrai com a veracidade do fato.

– Será? – sussurrei de volta. Olhei para a frente e a Duda estava rindo.

Ontem ele me transportava para um mundo novo, hoje me contento só por vê-lo em frente a sala explicando fórmulas e matérias que me fugiam a compreensão. Para os meus olhos, a melhor parte do dia era essa. Olhá-lo quietinha. A mão no queixo enquanto pensava, a mão no bolso enquanto escrevia na lousa... As mesmas mãos que afagaram meu cabelo ontem, o mesmo corpo que se deitou sobre o meu. Eu sorria por dentro, por fora. E quando seus olhos encontravam os meus, eu me sentia novamente em sua Rússia. Eu sentia aquele brilho se misturar ao meu. Ele, como sempre, mantinha a compostura, mas eu sentia meu coração na garganta e conforme seus olhos se desviavam e voltavam a mim, derretia-me por dentro.

No intervalo, Duda me puxou para um canto e começou seu interrogatório:

– Como foi entrar em atrito com o professor de física?

– Como você sabe?

– Anna, você tem o sorriso de quem conheceu um território russo muito especial ontem e não me engana – ri.

– Ah, Duda – sorri –, foi melhor do que eu podia imaginar.

– Antes de mais nada, como é o nosso querido professor sem camisa... sem nada? – rimos juntas.

– Ele é incrível.

– Tão grande quanto a Rússia é?

– Não tão grande quanto, mas grande – senti meu rosto corar.

– Doeu? – sussurrou a pergunta em meu ouvido.

– Não muito. No começo foi estranho.

– E essa é minha garota que aproveita os momentos – e me abraçou como se eu tivesse ganhado um prêmio. – Espero que tenha sido bom e que a camisinha tenha lhe feito companhia.

– Ela fez, fique tranquila.

E com os braços em meu ombro, andamos de volta para a sala. Vic chegou atrasada e captou algumas coisas.

– As suspeitas que estão nascendo em você estão confirmadas – disse Duda.

– Um sorvete duplo de baunilha com creme quente de chocolate, Anna?

Demorei um pouco para entender a referência à Lolita, e rindo, respondi que sim.

– Como sabe? – perguntei.

– O encontrei perto da sala dos professores e ele está diferente. E vi você e a Duda conversando de longe. A empolgação dela por respostas só significava algo que seus olhos refletem agora.

– Uau... Está pegando o jeito para as coisas, Vic – Duda disse e nós três rimos.

– Ele foi atencioso com você? Se não, irei denunciá-lo para alguma máfia inimiga.

– Não será necessário, ele foi atencioso – respondi ao mesmo tempo em que ria.

Otávio voltou do intervalo e sentou ao meu lado.

– Você está diferente. Há algum tempo está diferente.

– Impressão sua – e dei um beijo em seu rosto.

– Você não cheira a Anna – disse após fungar em meu ombro. “Maldito Otávio, vá ser esperto longe de mim”, pensei.

– Como assim não cheiro a Anna? Cheiro a quê então?

– Não sei dizer. Sabe, desconfio que você tenha algum superpoder. Se sua paixão platônica ainda vive e você anda nas nuvens desse jeito, sinal que, de longe – meu coração foi se apertando com cada palavra que saía de sua boca –, você capta todos os sentimentos dele e sobrevive assim. Pra mim, você observa seus gestos e palavras, e dentro da sua cabeça os adéqua aos seus devaneios. Monta as cenas, monta esse quebra-cabeça russo.

Aquilo fazia sentido. Muito sentido, aliás. Mas fazia sentido para uma Anna que não tinha acesso a vida real. Otávio estaria certo se os personagens dessa teoria ainda fossem os mesmos.

Sinto-me mal por esconder coisas dele, mas não posso arriscar um segredo que não cabe só a mim. Se o Otávio descobrisse, creio que as coisas não terminariam bem. Para que palavras não escapem da minha boca, apenas sorrio e o abraço.

Encosto minha cabeça na dele e penso no que acabei de ouvir. Penso em meu professor. E se existe algum quebra-cabeças, quem juntou as peças e organizou foi ele. Ele me montou: do seu jeito, à sua maneira.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Vou esperar os comentários de vocês (com palpites, opiniões, com as partes favoritas, surtos pelo russo...), hein?! Beijos.