Mais Que Um Professor
34 Capítulo 34 - Epílogo
Notas iniciais
Ninguém sabe o dia em que a vida deixará de ser a mesma. Olhando para trás, hoje sei. Tudo começou com a vida batendo em minha porta, com a vida pedindo que eu desse espaço para ela entrar. O primeiro dia de aula... A Anna insegura entrou, sorriu para os amigos e esperou pelo novo professor de física.
Agora cá estou eu. Rumo a minha formatura.
Todo mundo tem uma história para contar. A minha começa com um coração vazio, um russo e uma Rússia pronta para me aconchegar. Penso nisso assim que olho para minha pulseira vinda de lá.
O primeiro amor é como pular de um precipício. Você nunca viveu nada do tipo, não tem a menor ideia do que te espera lá no fundo, mas pula mesmo assim. Pula com a sensação de que vale a pena descobrir, de que, naquela hora, saber a resposta para o que existe no fundo é a coisa mais importante da sua vida. Sem me dar conta, pulei no primeiro dia em que o vi. E valeu a pena descobrir a outra camada de mim mesma que existia lá no fundo.
Entro no salão e o vejo. Lindo. O homem mais charmoso que já vi na minha vida. Aquele que tocou meu coração. Que aflorou, ativou sentimentos e sensações que eu não sabia que era capaz de sentir. Como o desabrochar de uma flor, como uma borboleta saindo do casulo. O responsável pela descoberta da minha confiança, do modo de vida que me estava oculto. É como se o destino tivesse determinado para mim: quando você o encontrar, irá se encontrar.
Depois do dia em que tomei uma decisão, tive mais uma semana de aula. O vi apenas duas vezes. Distantes, sorrimos um para o outro. Agora o vejo e me sinto como se tivesse acabado de sair da montanha-russa, com a adrenalina percorrendo todo o meu corpo e se esvaindo gradualmente.
Como ele não me vê, posso observá-lo de longe e com um sorriso bobo no rosto. A Rússia é mesmo maravilhosa.
– Oi – Otávio vem na minha direção e me surpreende.
– Oi – respondo sorrindo.
– Aqui termina mais um ciclo – diz passando seu braço pelo meu ombro. Assinto com a cabeça. O tempo passa rápido. – As meninas já chegaram?
Avisto-as e me encaminho com o Otávio até lá.
– Vocês estão lindas – olho para elas e digo ao mesmo tempo em que sento.
– Você que está linda, Anna – Duda sorri.
– E o professor Vitor também – Vic observa e nós rimos.
– É, sou obrigada a concordar – Isa completa. Sorrio para ela. – Preciso contar uma coisa. Conheci um rapaz.
– Como ele é? – contente com a novidade, Duda pergunta.
– Ele é cinco anos mais velho que eu – olho para ela e disfarço um sorriso. – Só contei isso porque quero pedir desculpas. Se puderem, peço que a aceitem. Desculpa por não conseguir me colocar no lugar dos outros. Mesmo o rapaz não sendo meu professor dez anos mais velho, agora eu sei, Anna. A vivência é uma fonte de aprendizado, e não há barreiras no amor. Principalmente para aquele amor que te redescobre – apenas pisco para ela. Eu poderia confrontá-la lembrando o quanto os princípios dela já me magoaram, mas não é necessário. Entendo-a e estou feliz porque agora ela pode compreender melhor os outros.
Duda hesita em dizer algo, mas logo abaixa a cabeça.
– O que foi, Duda? – Vic pergunta.
Ela olha diretamente para mim, como se precisasse de um apoio. Debaixo da mesa, pego uma de suas mãos e a aperto forte.
– Gosto de meninas – nervosa, desata a rir.
– Eu também – Otávio brinca e alivia a tensão dela. Todos rimos.
– Deviam ter me avisado que hoje era a noite das confissões, eu teria preparado algo – Vic diz.
Pelo visto o final do ensino médio não marca só o fim da velha Anna. A velha Duda, Isa e Vic também se vão. É como se a insegurança tivesse sendo despejada nesse momento, e sendo substituída por uma paz interior. Duda se descobrindo, se afirmando, se conhecendo. Isa descobrindo novas experiências. Vic mais madura.
– As meninas que organizaram a formatura escolheram o professor Vitor para entregar os diplomas – Isa conta. Olhamos para a direção dele.
Desde que cheguei ele está sentado na mesa da direção. E pelo visto irá passar a noite por lá. Não há como conversarmos.
Novamente, Otávio me vê observando aquele virou minha vida aos avessos.
– Anna, a menina do amor idealizado – sussurra para mim.
Ouço isso e sorrio. Sei que os ventos desse amor idealizado abrirão novos horizontes para mim.
Nos organizaram em uma fila. Um a um iria ser chamado até o palco para tirar uma foto e receber seu diploma das mãos do excelente professor de física. “Pensar nas razões pelas quais você fez o que fez. Um outro modo de olhar o erro pelo qual você se arrepende”. Minha mãe me disse isso uma vez. Minha escolha não foi um erro, é só que as situações em que nos encontrávamos eram incompatíveis. Se me arrependo de ter conhecido e me envolvido com alguém que, de certa forma e de toda forma, me transformou? Resgatou minha autoestima? Não. Os motivos que me levaram a fazer o que fiz? O sorriso dele logo me vem à mente e tudo pode ser esclarecido. De repente, percebo que ele está olhando na minha direção. Olho de volta e sorrio. O melhor presente que ele me deu? Confiança. Isso nunca poderá ser tirado de mim, graças a ele. Ninguém nunca antes tinha parado e me reparado, me olhado com aquele olhar.
Anunciaram o meu nome. Fui ao palco. Era estranho estar perto dele novamente. Entregou-me meu diploma. Não sorrimos. Eu estava saindo quando o fotógrafo me chamou, havia esquecido a foto. Durante um segundo pensei no quanto uma foto eterniza um momento. Essa não iria só eternizar meus tempos na escola, o ensino médio, a minha formatura... mas também o tempo que passei com ele; o quanto ele foi incrível comigo e todos os momentos inesquecíveis que me proporcionou. Eu quero que isso seja eternizado. Quero sempre olhar para a foto e lembrar. Caminhei até o lado dele, que estava parado e não havia sorrido para mim. Aproximei-me e como fez com todas as alunas, ele colocou o braço no meu ombro. Então eu sorri. Quando olhei para o lado, ele também estava sorrido. O flash nos iluminou e o fotógrafo acenou com a cabeça para eu ir.
De longe meus amigos assentiram com um sorriso. Duda me olhou com uma expressão um tanto triste, mas orgulhosa ao mesmo tempo. Eu me sentia assim também. Triste pela diferença de idade – talvez tivéssemos dado certo em circunstâncias diferentes. E triste pelo fim, mesmo sabendo que tudo tem um fim. Mas me sentia orgulhosa pela experiência que vivenciei. Pela oportunidade que aproveitei. Sinto-me outra pessoa: madura e pronta. Confiante e segura. Ele me proporcionou isso. Proporcionou-me o mundo e a vontade de conquistá-lo.
A Rússia é o maior país do mundo. Seguindo essa linha, se meu coração fosse o mapa-múndi, o Vitor ocuparia a maior parte dele. E aqueles que ainda irão se aventurar nesse território, eventualmente, encontrarão resquícios dele.
Como um buraco negro, sua Rússia me sugou para ela. Abrigou-me, protegeu-me, moldou-me.
Ele fez uma revolução russa no meu coração.
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