Mais Que Um Professor
29 Capítulo 29 - Lados Para Serem Compreendidos
Notas iniciais
Virado para mim, seus olhos me envolviam de uma maneira alucinante. Eu o olhava ternamente. Seu cabelo estava bagunçado e ele ainda estava um pouco ofegante. Me aproximei mais. Encaixei minha cabeça em seu ombro e posicionei minha boca em seu ouvido:
– Meu brinquedo favorito num parque de diversões é mesmo a montanha-RUSSA. Rápida e potente – sussurrei e deixei a cama para ir ao banheiro.
Acordamos atrasados. Minha mãe me esperava ao meio-dia e já eram onze e meia. Troquei de roupa, escovei meus dentes, juntei minhas coisas e fui esperá-lo na sala.
– Bom dia! – disse ao vê-lo.
– Bom dia, Anna! Vamos? – assenti com a cabeça e o segui.
Como de costume, parou a alguns metros da minha casa. Antes de sair do carro, olhei para a minha nova pulseira e disse:
– Obrigada pela noite passada – dei um beijo no seu rosto e sai.
Indo para a minha casa, comecei a recapitular o que vivi ontem. O presente, os sorrisos, as sensações que ele me proporcionou… Sempre que eu olhar para a pulseira, irei lembrar de como um completou o outro.
Avistei a Duda sentada em frente ao portão.
– Por que está aqui? – perguntei.
– Não quero estragar nada, mas ontem sua mãe me ligou para que eu a distraísse e te trouxesse ao meio-dia. Ela preparou um almoço surpresa pra você. Eu tinha que chegar junto. Como você não atendia, decidi esperar aqui mesmo.
– Um almoço surpresa? – ri. – Ninguém te viu?
– Não. Antes de todos entrarem, fiquei esperando na rua de cima. A Vic me mandou uma mensagem quando todos já tinham entrado.
– Entendi. Nem te cumprimentei… Oi!
– Oi, Anna! Parabéns! – veio mais perto e me abraçou. – Vamos então? Finja surpresa, por favor.
– Fingirei.
Abri o portão e nos direcionamos para a porta. Assim que a empurrei, um coro gritando “supresa” chegou ao meu ouvido. Meus pais, meu irmão, minha avó, Isa, Vic e Otávio. As pessoas que mais importavam pra mim.
Abracei cada um deles e recebi carinhosamente os desejos de aniversário: felicidades, saúde, paz… Vic me desejou algo peculiar:
– Muita Rússia pra você. Ou muito russo, como preferir – ri e ergui a pulseira para ela ver. – Presente da física? Anna, é linda!
Isa e Otávio se aproximaram e cessamos o assunto.
– Dezoito anos, já pode ser presa – Otávio disse ao me abraçar.
– É, preciso tomar cuidado agora – sorri para ele.
Almoçamos e rimos o tempo todo. Foi uma tarde maravilhosa.
É mais fácil acordar numa segunda-feira sabendo que irei ver o Vitor. Um estímulo excelente. Influências novas atuavam dentro de mim. Foi como achar algo que estava perdido depois de tanto tempo.
Logo que cheguei ao colégio o vi. Entramos juntos. A aluna e o professor. Sorrimos um para o outro e seguimos ao nosso destino. Cada um para a sua sala.
Algumas mensagens de aniversário foram deixadas para a manhã de segunda-feira. Pacientemente, agradeci cada uma delas. Não tinha muita intimidade com meus colegas de classe, mas não os odiava. Mundos diferentes. Cada grupo tinha o seu assunto, e os meus nunca combinaram com nenhum deles.
O dia seguiu sem nenhuma novidade. Português, matemática, biologia. Passei o resto da tarde estudando para algumas provas, depois encontrei com as meninas e fomos para a última aula do dia: física.
– Que pulseira bonita, Anna. Ganhou de aniversário? – Isa perguntou.
– Ganhei – e me sentei logo antes que ela indagasse sobre a pessoa que me deu.
Vitor entrou na sala mexendo no seu celular. Assim que acabou de digitar, meu celular vibrou.
“Tenho reunião hoje. Se formos nos ver, terá de ser rápido. Depois da aula, no mesmo lugar de sempre?”
– Boa tarde, pessoal – saudou a sala depois de guardar o celular no bolso.
Então ele dirigiu seu olhar para o meu pulso e sorriu.
Peguei meu celular e respondi a mensagem:
“Depois da aula, no mesmo lugar de sempre. Não posso demorar muito também.”
Passei cinquenta minutos esperando o que sempre me agrada: o sinal. Assim que ele tocou, sai apressada para o lugar de sempre.
– Oi – ele disse depois que entrei no carro.
– Oi – sorri.
Já no beco, nos aninhamos um no outro.
– Preciso ir, faltam dez minutos para a reunião. Quer uma carona até a sua casa?
– Não precisa.
Ele sorriu para mim e colocou sua mão sobre meu ouvido esquerdo. Acariciou meu cabelo e me puxou para si. Nossos lábios se encontraram e eu sentia a vida pulsando em mim.
O mundo parava para eu poder ficar com ele. Aqueles braços me aconchegavam em seu peito e tudo fazia sentido.
– Tchau, professor.
Com o lábio superior sobre o seu inferior, deu seu sorriso torto e meu coração se derreteu.
Saí do carro.
Consegui não acordar atrasada e cheguei cedo no colégio.
Avistei o Otávio sentado sozinho no corredor das salas. Olhando fixamente para a parede, ele parecia estar estranho.
– Ei – o chamei enquanto ia ao seu encontro.
Diferente de todas as vezes que me vê, não sorriu. Assim que me viu, seu olhar pesado me engoliu. Aparentava derrota com seu rosto pálido. Imediatamente um ar triste pairou sobre mim.
Fui até ele e sentei ao seu lado. Coloquei minha mão sobre a dele.
– O que aconteceu? – continuou com os olhos fixos na parede por mais alguns segundos. Não disse nada.
Alguma coisa tinha acontecido. Tristeza, raiva... Não conseguia decifrar seu olhar. Nunca o tinha visto assim.
– Otávio? – apertei sua mão.
Ele tira minha mão da sua, olha bem para mim e volta seus olhos para a parede.
– Sabe quando você confia numa pessoa e ela te decepciona? – ele disse hesitante.
Pegou seu celular do bolso e o estendeu para mim:
– Estava voltando a pé para a casa ontem e queria saber o que é isso... – seu tom era de indignação.
Em suas mãos, está uma foto do Vitor me beijando dentro do seu carro.
Meu coração se parte em pedacinhos.
– Fiquei até mais tarde estudando na biblioteca. Indo embora, peguei o atalho do beco até que vejo o professor Vitor com alguém. “Preciso contar para a Anna”, foi o que pensei. Aí decido olhar bem para a moça. E era você, Anna. Você pode imaginar como me senti? Traído. Decepcionado.
Imóvel, eu o encarava com os lábios entreabertos. Não sabia o que dizer. Meus olhos se encheram de lágrimas.
– O que mais você faz com ele, hein? Que nojo, Anna. Não acredito que você se submeteu a isso. Não acredito que minha amiga deixa um homem asqueroso se aproveitar dela – ele não olhava para mim.
Comecei a chorar.
– Não fale assim, Otávio. Por favor. Olha o que você está dizendo!
– Isso não é certo! Ele é mais velho, bem mais velho que você.
– Não é certo só por que ele é mais velho?
– Não é certo porque ele é seu professor! – seus olhos repletos de raiva se voltam para mim. – Não é certo porque ele se aproveita de você! O que ele iria querer com uma aluna? Fácil, é isso o que você aparenta pra ele.
– Ele não se aproveita de mim! Eu não me submeto a nada, Otávio. Eu faço o que eu quero. Ele me respeita. Nesses momentos ele não é meu professor. Você pode entender isso?
– Eu não posso entender isso, Anna. Definitivamente, não posso.
– Em nome da nossa amizade, você pode tentar me entender?
– Não sei se posso. A Anna que eu conheço não faria isso.
– A Anna que você conhece só não tinha oportunidades para fazer. Agora ela tem e está bem – as lágrimas continuaram caindo.
– Você não sabe o que está fazendo. Ele te manipula, Anna.
– Você que não sabe de nada. Não sou tonta. Não estou sendo manipulada. Não te contei porque sabia que não iria aceitar.
– É claro que eu não ia aceitar. Até as brincadeiras me pareciam impróprias. Mas eu as fazia pra te divertir. Você não devia ter criado um patamar para ele. Amor platônico, professor charmoso... Anna, ele está te usando.
– Não vou discutir com você. Sei o que estou fazendo e por favor, dá para acreditar em mim? E não é errado! Tenho dezoito anos e estou feliz.
– É moralmente errado. Ninguém aceita.
– Moralmente? Não tenho essas regras morais fundidas em mim, desculpa. E quem tem que aceitar algo sou eu. Não quero falar assim com você, Otávio. Não quero que me olhe como está me olhando agora. Tenta entender, por favor!
– Não sei, Anna. Estou confuso e com raiva de você. Tenta entender o meu lado também. Você sempre me contou tudo.
– Eu te entendo. Me desculpa por não ter contado! Mas tirando isso, eu não posso pedir perdão. Não fiz nada de errado.
Ele olha profundamente para mim e hesita por um segundo.
– Será que seus pais achariam a mesma coisa? Será que para eles é certo, Anna? Será que eles sabem que a filhinha chega tarde em casa porque estava fazendo coisas para o professor num beco?
– Não, eles nem imaginam. E você sabe o que eles achariam, Otávio. Se você gosta de mim, nem cogitaria fazer o que está pensando – meus olhos ardiam e meu coração murcho havia gastado todas as suas energias.
– Não tenho certeza do que estou cogitando. Mas tenho certeza de que nosso querido professor se aproveita da aluna. Tenho pena de você, Anna. Não vou enfrenta-lo ou chantageá-lo, justamente por ele ser meu professor. Não quero ser prejudicado por causa da sua falta de bom senso. A partir de hoje você tem uma escolha. E dependendo dela, irei trata-la diferente. Não acho que goste dele de verdade.
O sinal bateu. Pessoas iam chegando no corredor. Ficamos em pé.
– Se você gosta dele e gosta da sua mãe, vai contar para ela. Se não contar, eu vou contar. Vamos ver o que ela vai achar disso. Você não devia ter mentido pra mim.
Ele entrou na sala e me deixou sozinha no corredor. Sozinha com meu mundo desmoronando.
Não gostaria que um amigo escondesse algo de mim. Errei nesta parte. Mas o Otávio exagerou na dose.
Decidi não entrar na aula. Desci na biblioteca e arranquei uma folha do meu caderno.
“Não sou a mesma Anna de meses atrás. Mas a Anna que ama o Otávio desde os doze anos ainda existe em mim. E eu, a nova Anna, afirmo que esse amor cresce a cada dia. Te amo de todas as formas. E você nem imagina o quanto é importante para mim. Sabia que não iria entender, por isso não te disse nada. Só que por uma vez na vida, abra uma exceção.
A Anna de meses atrás andava morta por caminhos cheios de vida. Eu conheci um mundo que nunca pensei que poderia me pertencer. Ele sabia do efeito que tinha sobre mim, mas agora sei do efeito que tenho nele. E não Otávio, não se trata de uma relação abusiva.
Te esconder algo assim quebrou meu coração. Mas tudo o que me disse, destruiu meu coração em pedacinhos. Nada do que faço interfere na sua vida e você não tem o direito de decidir por mim. Não vou contar para os meus pais e nem você vai.
Não quero perder sua amizade. Mas se você não pode compreender e torcer pela felicidade de uma amiga, você não gosta dela de verdade. Estou bem. Espero que freie seu exagero e devolva seu amor por mim.”
Dobrei o papel e fui até minha sala. Bati na porta e a professora de biologia abriu.
– Anna? O que aconteceu? – eu ainda estava com os olhos marejados.
– Você pode entregar isso para o Otávio? Por favor – e saí.
Meu celular vibrou:
“O que aconteceu? Quer conversar?”
Era a Duda. Respondi:
“O Otávio descobriu sobre o Vitor. Falou bobagens.”
Após entregar meu bilhete, fui para o pátio tentar colocar meus pensamentos nos eixos. Vinte minutos se passaram e o Otávio apareceu com o papel nas mãos. Sentou ao meu lado.
– Deixei a raiva tomar conta de mim e perdi a noção. Exagerei e te disse coisas horríveis. Espero que me perdoe e continue me amando de todas as formas. Não tenho pena de você. E sei que é maravilhosa o suficiente para tomar decisões importantes. É só que não estou familiarizado com isso. E foi um choque descobrir que você escondia um segredo desses de mim. Me senti traído, sabe? Não vou contar para os seus pais. E nem vou te tratar diferente. A Anna de agora é bem melhor. A de meses atrás não era feliz desse jeito. Vai levar um tempo para que eu esqueça a ideia de que ele se aproveita de você. E talvez um dia eu possa te compreender totalmente. Apoio você, só não espere que eu ache certo. Porque ainda não faz sentido dentro da minha cabeça. A conheço desde os doze anos, não é fácil ver o que vi ontem. Espero que me entenda, me perdoe e nunca mais minta para mim. E não estranhe se eu não olhá-lo mais da mesma forma.
Sei o que faço. Ele não precisa entender, achar certo ou continuar olhando o Vitor apenas como o professor de física. A única coisa que eu esperava da parte dele era o apoio. Agora eu tenho.
Sorrio para ele e uma lágrima de alívio cai do meu olho. O abraço e sinto a compreensão se apossar de nossas corações.
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