Mais Que Um Professor
28 Capítulo 28 - Vitor
Notas iniciais
POV: Vitor
É aniversário dela. Faltam trinta minutos para eu ir encontrá-la. Estou sentado olhando para o casaco esquecido em meu sofá e desse modo, deixo olhos brilhando tomarem conta dos meus pensamentos.
Estaria mentindo se dissesse que nunca notei os olhares encantados em minha direção. Desde o começo estiveram presentes. E desde o começo eu soube que podia conduzir esse encanto para onde eu quisesse. Mas sempre os conduzi para nenhum lugar. Nunca retribui um olhar encantado. Nunca dei atenção ao que não prendia a minha. Nunca quis ser o troféu a ser exibido de nenhuma adolescente.
Então a conheci. Um curioso desbravando um território desconhecido. Aqueles olhos brilhando me sugaram para dentro deles. E quando me dei conta, ela era um farol distante me guiando de volta para a terra.
Não nos encantamos por algo até de fato nos permitirmos. Quando a vi pela primeira vez, de longe, me olhando fascinada, era apenas uma aluna. Mas quando me permiti olhá-la, percebi que tudo nela merecia minha atenção.
Sem querer, brincar com ela se tornou minha diversão. Deixá-la notar meu olhar demorado, deixá-la a vontade falando comigo. No entanto, quando algum sentimento estranho me invadia eu o combatia com a certeza de que aquilo era errado. Era estranho. E o mais estranho era que eu não conseguia parar de me encantar pelo encantamento dela por mim.
Inicialmente sei que ela me endeusava por ser o professor dos seus sonhos. Tudo mudou quando começou a me olhar apenas como Vitor. E no dia em que me atrevi a correr o risco, vi a me olhar melhor do que sou. Sei que fui irresponsável e sabia que ela iria retribuir. A deixei à deriva da confusão, e me culpo por isso. Mas nunca quis magoá-la. Ou abusar da posição que exerço em sua vida. O que eu não esperava era a sensação de que talvez ela nunca tenha jogado o meu o jogo; eu é que sempre joguei o dela e não sabia.
De repente, me vi sendo preso por sentimentos que jamais imaginei ter. E minha sentença foi dar aulas com eles diante daqueles olhos que me almejavam. Minha inconveniência em beijá-la significou minha liberdade.
Quando percebi, estava seguindo aqueles passos. Deixando o doce olhar me guiar. E eu me deixei ser levado por ela. Por um caminho não convencional, a aluna me apresentou a Anna.
Então a conheci de fato. Seus modos e a falta deles. Seu sorriso apaixonante. Seu mergulho profundo nas sensações e sentimentos. Linda como um passeio que parece não ter como ficar melhor de tão bom, mas fica. Atenciosa e paciente. Interessante com suas teorias e seu olhar sensível para tudo. Suas análises sobre o que virá a seguir. O medo e a coragem pelo desconhecido. O modo como segurou meu mundo em suas mãos. Sempre em movimento. Para quem está de fora: um mar pacífico. Por dentro: uma tempestade, um turbilhão de devaneios.
Sabia que a questão do sexo seria complicada por ela ser virgem. E mesmo que não fosse, ainda seria algo complicado. Eu estaria forçando algo? Como o percurso estava bom, não me importei com a maneira que estava indo. Porém, conforme a velocidade aumentava, confesso que a adrenalina tomava conta de mim. Conforme a tocava e a descobria, o quanto eu desejei compartilharmos o mesmo desejo! Minhas mãos se encaixavam perfeitamente em cada parte do seu corpo.
Mil coisas passaram pela minha cabeça quando recebi sua mensagem de que iria dormir em casa. A imaginei de todas as maneiras. E como suas iniciativas me deixaram louco! Mas não saiu como o esperado. Na ânsia em satisfazê-la, em saber se ela estava aproveitando, se estava incomodada, me perdi. Contudo, ver aqueles olhos se abrindo e fechando, ouvir aqueles suspiros contidos, aquela faísca me preenchendo... Valeu a pena. Dei a ela novas sensações e ganhei a liberdade para satisfazer as minhas.
Surpreendente como é, ela podia ir além. Tive muitas experiências, mas com ela foi diferente. Ela é delicada e ao mesmo tempo me faz andar sobre o fogo. Seu toque. Suas pernas cobertas pela saia. Sua cintura. Como ela me conduz.
Passando por essa curva, me vi em conflito com novos sentimentos. Detalhes que não incomodavam no começo, mas que agora devoram toda a minha atenção. Não é fácil olhá-la sentada em sua carteira como uma mera aluna. Não é fácil lembrar dela nua enquanto resolvo exercícios. Não é fácil estar com ela no mesmo ambiente. Quero dizer, ser o que sou, o professor dela. Vê-la e não poder ir até ela, abraça-la, sorrir e gritar a todos o quanto tudo tem sido diferente e especial. Mas não posso, não só por mim, tenho tanto a perder quanto ela.
Hoje ela faz dezoito anos.
“Vou te esperar no lugar de sempre”, disse ontem antes de sair da sala. Estou a alguns metros do lugar combinado e já consigo avista-la. Assim que me vê chegando, um sorriso surge em seu rosto. Ela está linda com seu vestido preto marcando a cintura e seu casaco.
– Oi.
– Você está bonita – falei e afaguei seu joelho.
– Obrigada.
– Dezoito anos, hein?
– É... Meu envolvimento não é mais ilegal – seu olhar me remete a alívio.
– Não mais – e sorri para ela.
Os dezoito anos não abrangem uma mudança drástica. A pessoa não muda de repente. Não ganha responsabilidades de repente. É só mais um dia. Mas para ela não. Para ela era o errado pendendo ao certo.
– Onde vamos? – ela pergunta.
– A um bar.
Escolhemos uma mesa mais ao fundo. O bar não estava cheio e o ambiente estava agradável.
Após ela sentar, tiro a pequena caixa com seu presente do meu bolso.
– Parabéns – e coloquei sobre a mesa. Ao ver a caixa, fica surpresa.
– Ah, Vitor, não precisava – a voz dela era suave.
– Claro que precisava – digo e seguro sua mão.
Seu rosto se ruboriza levemente. Ela pega a caixa e a abre devagar. Seus olhos se arregalam e ela sorri.
– Que pulseira linda! Obrigada – e acaricia minha mão. – E que pingente diferente! Um losango... Que bonito – ela aparentava estar encantada. – Você que escolheu?
– Sim.
– Escolheu aleatoriamente ou tem algum significado?
– Tem. Mas talvez só faça sentido na minha cabeça – respondi. – Todos os pingentes eram normais. Até que vi o losango. Me lembrou a letra A.
Ela olhava minuciosamente o pingente. Alguns segundos se passaram e um sorriso de descoberta pairou em seu rosto.
– O que foi?
– Se dividir o losango ao meio, você terá um A em cima e um V embaixo. Um completando o outro. Anna e Vitor.

Os olhos dela riem.
No fim, o simples losango tinha mais significados do que eu podia imaginar. Só alguém com um olhar sensível para tudo poderia perceber algo assim.
– Gostei disso – peguei sua mão e coloquei a pulseira nela. – Ficou bonita.
– Obrigada mesmo, Vitor. É um lindo presente.
– Fico feliz por ter gostado.
Conforme mais pessoas iam chegando, mais barulho ia se alojando naquele lugar. Depois que comemos, decidimos ir embora.
– Você pode ir para minha casa? – perguntei.
– Posso.
– Usou a desculpa “casa da Duda”?
– Sim – e riu.
– Ninguém desconfia?
– Não. E nossas mães não têm amizade, o que ajuda bastante.
Fechei a porta do apartamento, me virei para ela e envolvi meus braços ao seu redor.
– Parabéns – sussurrei em seu ouvido.
Suas mãos foram parar no meu pescoço. As minhas desceram para sua cintura. Ela mordiscou minha boca e eu a encostei na parede.
A sensação de andar sobre fogo ia tomando conta de mim.
Suas mãos abriram o zíper da minha calça. As minhas a acariciavam por baixo do vestido. Minha outra metade do losango... Pegou minha mão e me levou até meu quarto. Apoiada na porta, a beijei mais.
Abri a porta e em seguida tirei seu vestido. Eu amava o que via. Tirei minha camiseta. Agarrei-lhe o pescoço e a puxei para perto.
Seus olhos me fitavam profundamente.
A olhei nua em minha frente e a vontade de estar dentro dela crescia cada vez mais.
Ela me avassala os sentidos.
Aninhada em meu peito; meu nariz em seu cabelo. A adrenalina ia dando lugar a uma sensação boa.
Muitos me perguntaram por que eu sairia da minha cidade e iria para outra onde não conhecia nada e ninguém. Inicialmente, vim para cá porque estava sem rumo. Cansado de vagar pelo mesmo caminho. Mesmas pessoas e possibilidades. Cansado de boiar em um mar que não me levaria a nada. Eu queria mergulhar, mas não podia. Não tinha como. Nada fazia sentido. Estava num angustiante movimento retilíneo uniforme, em uma velocidade desprezível.
Decidi então abraçar o desconhecido e embarcar em um rumo imprevisível. E quão imprevisível foi! Se fizessem essa pergunta, o motivo de eu ter vindo para cá, para uma pequena devaneadora que conheço, ela diria que não vim por acaso. Que o propósito existia, e como um ímã, me atraiu. Que eu vim por ela, que eu vim para ela. Para a companhia que me faltava.
A cada passo que eu dava, já nesse novo caminho, estrelas iam surgindo no meu céu solitário. Todas essas estrelas me guiaram até ela. Para aquele amor que surge do nada, quando sua vida parecia completamente encaminhada para outro rumo.
Vejo, sobretudo, duas almas perdidas que deram as mãos: a confusa e a solitária. A sonhadora e a racional.
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