Mais Que Um Professor
27 Capítulo 27 - Lugar Errado, Hora Certa
Cada passo que eu dava em direção ao desconhecido, era um passo mais distante da vida que sempre foi boa comigo. A sensação que me atinge é que se eu não verificar logo minha bagagem, coisas serão perdidas pelo caminho. Minhas amigas, meu Otávio, meus pais... A caminhada fica mais linda com eles. Já estou no trem, o rumo já está traçado. Agora só preciso colocar o trilho nos eixos e convidá-los para viajar comigo. O único problema é que não tenho ideia de como fazer isso.
Enquanto não chego a uma conclusão, vou lapidando os diamantes que posso. Passar a noite conversando com a Duda é a junção entre o que sempre me fez bem e o que eu preciso para continuar bem.
– Posso dividir um pensamento que me ocorreu ontem? – perguntei após ela entrar em meu quarto.
– Claro – respondeu ao mesmo tempo em que trocava sua camiseta.
– Acho que a semente do ciúme não foi a única a ser plantada. Ouvir “não era algo que eu quisesse assistir” foi bom, me fez sentir o envolvimento mais sólido. Mas pensando mais sobre, a semente de posse foi plantada em mim. E se não era exatamente ciúme, mas um sentimento de posse? Não quero ser tratada assim.
– Não acho que o Vitor te olhe como um objeto. E Anna, todo ciúme tem uma pontinha de posse. A meu ver, o que ocorreu foi uma mistura de coisas que o irritam. A voz do Diego meio que estava incomodando e se coloque no lugar do Vitor, imagine a bagunça que a cabeça dele deveria estar. O aluno estava irritando e ao mesmo tempo cheio de segundas intenções com a sua querida aluna. Ele não aguentou.
– Não estou familiarizada com o ciúme.
– É, você não é do tipo ciumenta mesmo. E acho que nem o Vitor é. Foi mais um conflito de sentimentos. Ainda assim, mantenho minha opinião sobre o medo de ser trocado por alguém mais novo. Você não tem medo de ser trocada por alguém mais velha, da idade dele?
– Não. Eu ficaria triste, mas conformada. Isso é completamente previsível ao ponto de não me deixar devanear com planos sobre o futuro.
– Você é um tipo raro de sonhadora, Anna. Apesar de tudo, não se ilude. É realista. Você sabe que sonhos são sonhos – sorri para ela. – Posso dividir também um pensamento que me ocorre às vezes?
– Claro – respondi prevendo algum delírio da sua parte. Quando os devaneios tomam conta dela, seus olhos azuis brilham. Um céu sem nuvens numa tarde ensolarada.
– Imagino vocês fugindo juntos.
– Fugindo juntos, Duda? – comecei a rir. Ela também. – A possibilidade é nenhuma.
– Ah, é algo que me vem à mente: as coisas se complicam tanto a ponto de vocês fugirem.
– Meu maior desejo é que as coisas não se compliquem tanto. E se complicarem, essa não é uma possibilidade muito plausível.
– Como não, Anna? Daqui alguns dias você vai ter dezoito anos. Não vai ser ilegal. Imagina só, sumir com ele e viver uma loucura de amor...
– Você está assistindo a muitos romances. Sumir com ele? Duda, meus pais nunca me aceitariam de volta. Viver as custas de um homem não é o que imagino para mim.
– Se você estivesse apaixonada de verdade, essa ideia iria te arrebatar. Que apaixonada nunca imaginou fugir com seu amor?
– As apaixonadas que tem algum juízo. E eu não me considero apaixonada.
– Pensando bem, um amor platônico só é amor de verdade dentro dos devaneios. E o que vocês têm está longe de ser platônico.
– Finalmente um lampejo de algo que faça sentido! Duda, mesmo que tudo vire uma bagunça, eu não posso fugir. Problemas sempre nos encontram para cobrar suas dívidas.
– Pensando no lado realista da coisa, você tem toda razão – disse e piscou pra mim. – O que vocês são? Namorados?
– Não. Professor e aluna – respondi.
Eu sou a aluna dele, e ele é o meu professor. A Anna dele, o meu Vitor.
Apagamos a luz, deitamos na minha cama e começamos a rir. Por mais complicado que fosse colocar o trilho nos eixos, a vida era engraçada.
Após as fantasias sobre o futuro se esvaírem, eu precisava saber como ela estava.
– Você continua estranha – seus olhos fitavam os meus –, só espero que você melhore e se encontre de novo – segurei suas mãos e suspirei fundo. Apesar de não aparentar, eu podia sentir suas raízes se enfraquecendo.
– Você acredita que as pessoas mudam? – perguntou depois de alguns segundos absorvendo o que eu havia dito.
– A carcaça sim, a essência não.
– Como assim?
– Nossa essência sempre será a mesma. Gostos e opiniões não a alteram. A não ser que...
– Sempre existe um porém com você.
– Sempre – ri e um sorriso surgiu em seu rosto. – A não ser que uma escolha não encaixe no seu quebra-cabeças. Acredito que cada um tenha um quebra-cabeças. Particular e intransferível. Há lugares para serem completados e esses lugares possuem variadas peças que se encaixam lá. Peças de cores, volumes diferentes, mas do mesmo formato. Tente colocar uma peça diferente, não vai entrar. Force-a e seu quebra-cabeças será desmontado. Nossa essência abrange diferentes peças, mas todas do mesmo formato. Uma escolha errada e ela pode se quebrar.
– Mas eu posso não gostar da peça que coloquei e trocá-la por uma de outra cor?
– Se ela for do mesmo formato, pode.
O silêncio pairou sobre nós. Nossas respirações – ora calmas, ora agitadas – expressavam a confusão que dominava nossos corações. Sua mão apertava a minha. E fosse lá o que estava a machucando, precisava ser curado.
– Você tem muitas peças. Escolha a que combinar com você no momento. Sua essência é linda, Duda.
Então ela me abraça forte, dá um beijo na minha bochecha esquerda e vira dormir.
Acordamos na hora do almoço. Era sábado, estava permitido.
Enquanto descíamos as escadas para ir a cozinha, recebi uma mensagem:
“Quer passar a noite em casa?”
Dentre tantas, por que eu? Dentre tantos, por que ele? Inevitavelmente, vez ou outra, essas questões ainda me atormentam.
Uma vez ouvi que o coração não é um bilhete de loteria em que arriscamos a sorte com qualquer um. O que mais me atormenta é: eu nem sequer tinha um bilhete para arriscar. Eu nem sequer entrei nessa loteria e cogitei a ideia de tentar a sorte. Como ganhar na loteria sem nunca comprar um bilhete?
Eis a minha melhor tese: no caminho para a loteria, esbarrei em alguém que também nunca cogitou a ideia de tentar a sorte. Uma coincidência. Foi aquilo de ambos estarem no lugar errado, na hora certa.
O lugar não era adequado, mas foi quando seus olhos se encontraram que a necessidade de ser e sentir surgiu. Da forma mais arrebatadora possível.
– Física a noite? – depois de pegar o celular da minha mão, Duda disse em meio a risadas.
– Posso dormir na sua casa hoje? – perguntei a ela ao mesmo tempo em que entravámos na cozinha. Meus pais já estavam almoçando.
– Claro que pode – ela respondeu com um sorriso.
– Bom dia, meninas – minha mãe nos saudou assim que sentamos a mesa.
– Não seria boa tarde? – meu pai perguntou.
– Aceitamos os dois – e sorri para eles. – Queria informa-los que vou dormir na casa da Duda hoje.
– Mas ter visto a Duda ontem já não foi suficiente? – dona Elisa indagou.
– Uma troca para não incomodarmos nenhuma das casas. Um dia aqui, um dia lá.
– Ah, meninas... Pode ir, Anna. Não tem problema.
– Obrigada, mãe – e cutuquei a Duda com meu pé.
Engoli a sensação ruim de mentir para os pais, e respondi a mensagem do Vitor:
“Vou esperar na esquina da casa da Duda às 20h30.”
No horário combinado, seu carro dobrou a esquina. Entrei e ele me deu um beijo.
– Preciso passar no supermercado antes. Tem algum problema?
– Não.
– Você pode ficar no carro se não quiser ir comigo.
– Eu vou. Se alguém me vir, não te conheço – meu coração era fã do seu sorriso torto e sempre que o via se derretia.
– Mudando de assunto, seu aniversário é na semana que vem?
– Sim.
Estávamos andando em um dos corredores. Para minha infelicidade, uma pessoa conhecida entrou no mesmo corredor. Me viu e começou a vir até a mim. Uma amiga da minha mãe.
Meu coração começou a bater forte.
Instantaneamente, o Vitor virou para a estante de produtos e fingiu estar escolhendo algo e eu segui andando ao encontro dela, como se não o conhecesse.
– Anna, quanto tempo! – disse e me abraçou.
– Oi! – eu não lembrava o nome dela – Pois é, quanto tempo!
– Cadê sua mãe?
– Estou com uma amiga. Viemos comprar algumas coisas para a mãe dela. Separadas não enrolamos muito – dei um sorriso e torci para que ela desaparecesse da minha frente.
– E seus pais, estão bem?
– Estão. Preciso ir agora.
– Também preciso. Meu marido está esperando no caixa. Mande um beijo a sua mãe.
Em direção opostas, saímos andando. O alívio percorreu em minhas veias e agradeci aos céus pelo fato de ela não ser muito amiga da minha mãe.
Depois de enrolar um pouco pelo supermercado, encontrei o Vitor em um dos caixas. Ele sorria aliviado. Pegamos as sacolas e seguimos para o carro.
– Quase hein, Anna?
– Nossos dias estão cheios de quases. Ainda bem que meu coração é resistente. Você não ficou nervoso?
– Não. Esqueceu que se alguém nos visse, você não me conhecia? Segui o plano.
– E se eu não conseguisse dar conta de seguir o plano?
– Aí era apenas um professor e uma aluna se encontrando por acaso no supermercado. Eu iria cumprimentar a amiga da sua mãe, dar tchau para você e sair andando – fascinada, fiquei olhando para ele. Equilíbrio não era algo que os adolescentes tinham contato.
Eu me embaraço e ele me desembaraça toda.
Após comermos algo, nos acomodamos em seu sofá e assistimos um filme. Ou melhor, tentamos assistir. O suspense não era mais atrativo que seus olhos lindos me fitando.
Aproximei-me dele. Minha boca encontrou a sua. Suas mãos encontraram pernas debaixo da minha saia.
Seus olhos refletiam sua vontade.
Corri em seu corredor e quase escorreguei. Ele me pegou pela cintura e fungou no meu pescoço. Empurrou-me na parede e me ergueu. Beijou-me intensamente. Sua língua se movendo sob a minha, sua barba despertando uma incrível sensação em mim. Suas mãos percorrendo brandamente meu corpo. Minha cintura, meu quadril... Seu quarto era na porta ao lado, e ainda me segurando, me encaminhou até lá.
Sentado em sua cama, sem camisa, comigo por entre as pernas. Passou o polegar pelo meu lábio inferior, beijou meu pescoço e numa excursão alucinante, foi descendo sua mão pelo meu corpo. Eu estava de calcinha e sutiã na frente do meu professor, na cama do meu professor e eu sentia que deveria estar onde estava. Eu queria aquilo. Eu o queria. Envolvi meus braços em seu pescoço e o apertei ainda mais contra mim. Nenhum espaço. Sua respiração era ofegante. O empurrei. Ele ficou me olhando, surpreso. A audácia me entorpecia. Subi em cima dele. Delicadamente, ele segurava minha cintura. O beijei. Mordi seu lábio inferior enquanto suas mãos percorriam minhas pernas. Ele também me queria, estava claro. A ardência do momento tomava conta de mim. As coisas foram fluindo. Eu estava ligada no automático, não pensei em nada. Só no momento. Só eu e ele.
Não me sinto mais desconfortável, me sinto livre. Me sinto encantada pelas novas experiências. Ele desabrochou uma flor. Ele me transportou para dentro de mim. Ele me transportou para dentro dele. Ele me transportou para a Rússia e seu sorriso torto. Para a física e seus atritos. Para o seu coração.
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