Mais Que Um Professor

2 Capítulo 2 - De Tirar o Fôlego


Voltando para casa, comecei a pensar na efemeridade de alguns momentos e o quanto seria bom se pudéssemos revivê-los. Adoraria ficar presa em alguns, mas sei que, por mais prazerosa que fosse a repetição, eu iria me enjoar. Seria como ficar presa em uma doceria: no começo seria maravilhoso, mas com o tempo, as opções iriam se esgotar, não haveria uma novidade, e seria perturbador não poder sair de lá. E pensando melhor, o que torna os momentos tão especiais é a singularidade de cada um, e o que os torna tão vivos é a capacidade que temos de lembrarmos-nos deles. Alguns passam despercebidos, outros são inesquecíveis. E acho que serei incapaz de esquecer, o sorriso que ele dirigiu a mim ontem.

Cheguei exausta em casa, estudo em período integral e novos começos têm o poder de exaurir-me. Precisava dormir... Subindo as escadas rumo ao meu quarto, uma voz me para:

– Oi, filha! Como foi a aula?

Minha mãe. Sempre tão atenciosa e disposta a ouvir o que tenho a dizer.

– Oi, mãe! Foi legal.

– O quão legal foi? – ela estava sorrindo.

– O meio termo entre um dia ruim e um dia extraordinário. Revi os amigos, sentei no mesmo lugar de sempre... Ah, e conheci meu novo professor de física.

– E como ele é?

– Ele é de tirar o fôlego – sorri ao pensar nele.

– Como assim “de tirar o fôlego”? Se bem que, pela cara que fez aposto que o motivo do seu fôlego ter sumido foi por algo que viu.

– Sim, foi exatamente por algo que vi. Ele é lindo e charmoso.

– Pelos seus olhos brilhando, imagino o quanto. Um agrado diário aos nossos olhos faz muito bem a saúde.

Ri. Minha mãe é incrível, e sinto que posso contar qualquer coisa a ela.

– Mas não deixe que seu encanto a desvie do caminho “boas notas”. Você já possui uma dificuldade habitual em física...

– Pode deixar. Talvez esse fator me ajude. Se bem que seria maravilhoso ficar para recuperação, e passar mais tempo com ele. Imagina?

– Anna, Anna... – aquela voz de “não extrapole nas brincadeiras, e não diga coisas bobas” permeava em seu tom.

– Estou brincando. Só de tirar minhas dúvidas com ele, ficarei feliz.

– Anna, Anna... – agora seu tom indicava algo como “ainda sou mãe, cuidado com o que me fala”.

Meu pai logo surgiu atrás dela com um sorriso. Assim como ela, ele é incrível. Sempre muito paciente, cauteloso e gentil. São perfeitos um para o outro, e muito presentes na minha vida e na vida do meu irmão.

– Espero que tenha tido um bom dia – meu pai veio até a mim, e me abraçou.

– Não vou jantar hoje. Estou muito cansada, e queria dormir. Espero que não se incomodem.

– De modo algum – minha mãe respondeu, e meu pai assentiu.

Subindo as escadas, esbarro em meu irmão que está descendo. Ele é mais velho, e além de nossas ideias serem incompatíveis, o acho chato e imaturo, como toda irmã deve achar seu irmão (existem as exceções, claro). Fiz uma careta, e continuei meu trajeto até meu quarto. Depois tomei um banho e fui deitar.

**

Acordei no dia seguinte, agitada por um sonho que tive. Estava presa em uma sala e não conseguia sair. Gritava mas ninguém ouvia. Comecei então a observar o local, e alguns detalhes foram tomando forma: uma lousa, e um chapéu em cima de uma mesa. Devia ser uma sala de aula, e o chapéu devia ser dele. Realmente, faz sentido dizer que sonhamos com o último pensamento que temos antes de dormir. Ele foi o meu. E ao acordar pensando nisso, também acabou sendo a primeira coisa que pensei no dia.

Moro perto do colégio, e quase sempre me atraso por acordar em cima da hora. Dessa vez não foi diferente. Tomei rapidamente um copo de suco, e saí. Cheguei e fui direto para a sala. No fim, não estava tão atrasada como pensei.

Minhas amigas já estavam lá, e as três sentavam ao meu redor. Uma na carteira a minha frente, uma na carteira ao meu lado, e a outra, na carteira atrás de mim. Respectivamente, Duda, Isa e Vic. Somos um grupo de quatro amigas, inseparáveis desde o primeiro ano. Cada uma com sua característica marcante, com sua personalidade. A Duda ama astrologia e devora livros como ninguém, e é a mais compreensiva das amigas (depois de mim, segundo ela). A Isa é a artista, e é a mais intensa das amigas. Seus princípios são sagrados e ela ama cuidar das pessoas. E a Vic é a que diverte a todos, e me rouba risadas todos os dias. Não consigo imaginar meus dias sem as três.

Fui até a minha carteira, e logo fui recebida pela Isa:

– Anninha!

– Oi! Sobre o que estavam falando?

– Professor Vitor. O que achou dele?

Sorri, e Duda entendeu instantaneamente:

– Acho que alguém gostou dele... – e riu. – Também gostei. Com aquele charme, impossível não gostar.

– Impossível... – suspirei.

– Na próxima aula você pede de volta o fôlego que ele te roubou, Anna – Vic e seus comentários sarcásticos. – Sua expressão ao ver ele foi a melhor, olhos arregalados e uma cara de “AI MEU DEUS, o novo professor de física acabou de tomar meu coração”.

– Eu aparentei isso? – indaguei. – Que vergonha!

Rimos juntas.

– Gostei dele também. O charme dele é inquestionável. – afirmou Vic, por fim.

– Não o achei tudo isso não. Mas ele parece ser um bom professor. – Isa como sempre, com opiniões diferentes da nossa.

A professora da primeira aula entrou, e tivemos que encerrar nossa conversa. O dia seguiu sem grandes acontecimentos. A não ser pela surpresa que tive no final do dia. Descendo distraidamente as escadas, quando alguém diz meu nome e me acorda do meu torpor:

– Anna.

Era ele. Estava sorrindo, aquele sorriso que me tirou o ar dos pulmões quando o vi pela primeira vez. Automaticamente, me vi sorrindo também.

– Vitor.

Continuei o meu caminho e ele o seu.

Voltei para casa dopada por seu sorriso encantador. Ele havia me cumprimentado, sorrido pra mim. Mas não do jeito formal que os outros professores costumavam sorrir.

Naquela noite demorei pra dormir, estava ocupada estudando possibilidades. De repente, comecei a imaginar como seria namorar um professor. Basicamente, como seria se eu namorasse um professor. Antes que eu pensasse em mais coisas impossíveis, meu lado realista e minha insegurança, imediatamente me repreenderam. Qual a probabilidade disso acontecer? Nenhuma, claro.

Notas finais
Espero que tenham gostado do capítulo, e de conhecer um pouco mais sobre a Anna. Comentários me estimulam e me alegram. Continuem acompanhando! Beijos. P.s.: Postarei sempre entre quarta e sexta.