Mais Que O Sol
1 Capítulo 1- Recomeço
Notas iniciais
Pov. Ana
Mudar de colégio já não é fácil, imagina então entrar em um mundo completamente diferente do seu na metade do ano? Sempre estudei em escola pública, isso porque morava em um orfanato até semana passada, mas fui adotada por um casal muito bom, que com certeza serão ótimos pais para mim. O fato é que estou a caminho da minha escola, a mais conceituada do Rio de Janeiro, e não sei bem se é isso que eu quero. Quer dizer, é lógico que quero ter uma boa educação, mas ao mesmo tempo não queria me separar dos meus amigos que ficaram na antiga escola e na antiga “casa”.
Aquele orfanato é muito mais que uma casa, ele foi minha família durante meus 15 anos de vida e foi lá que eu vivi todas as emoções que uma garota pode viver nesse período. Me refiro á amizades verdadeiras, paixões, primeiro beijo, primeira menstruação... Enfim, tudo isso é ao mesmo tempo tão insignificante e tão importante para nós. Não queria que tudo acabasse assim. Sei que ainda posso manter contato com o pessoal de lá, mas foram tantos que saíram e eu nunca mais vi e falei que fico com medo que eu seja só mais uma dessas. Mas eu acredito que quando uma coisa ruim acontece, uma outra boa vêm para compensar, e eu ter um pai e uma mãe já é uma ótima justificativa. Agora é só esperar e ver no que isso vai dar.
Já estava a frente do colégio e precisava enfrentar isso sozinha, nada de papai e mamãe entrando comigo. Eles ficaram no carro e eu fui direto para a diretoria, quer dizer, direto não porque eu me perdi no caminho, mas uma alma bondosa me ajudou. Nós nos esbarramos e eu quase morri de vergonha.
– Desculpa, eu não tinha te visto.
– Tranquilo! Você é nova aqui, não é? – Perguntou uma menina aparentemente mais velha, com longos cabelos castanhos.
– Sim. Na verdade estou procurado a diretoria... Será que você poderia me ajudar?
– Claro. – Ela sorriu. – Fica na primeira porta á direita. – Apontou e eu percebi que já tinha passado por lá antes. Como sou burra.
– Obrigada. – Sorri. – Á propósito, meu nome é Ana, e o seu?
– Pode me chamar de Bia! Bom, agora eu preciso ir. Foi um prazer Ana! – Disse já se afastando.
Cheguei na sala e o diretor já estava me esperando.
– Luciana, certo? – Me perguntou sem nem mesmo um “bom dia”.
– Sim – respondi. – Muito prazer.
– O prazer é todo meu. – Ele apontou para a cadeira para eu sentar, e assim o fiz. – Seus pais vieram falar comigo e abri uma exceção para ti, isso porque não costumamos matricular alunos nesse período do ano.
– Eu agradeço a gentileza. – Abri um leve sorriso.
– Boas notas já serão um ótimo agradecimento, é isso que eu espero de você.
– Apesar de eu ter estudado a vida inteira em escolas públicas, sempre tirei boas notas.
– Você sabe que o sistema aqui é diferente, mas acredito que conseguirá. Enfim, já está atrasada, por isso vou pedir para a minha secretária te levar até a sala de aula, assim o professor te deixará entrar.
Agradeci novamente e fui com a tal secretária até a sala de aula. Estava com frio na barriga de tão nervosa. Ela abriu a porta e disse para a professora que eu era a aluna nova. Precisei me apresentar e essa foi a pior parte, todos da sala me olhando, esperando algo de mim, algo que eu não sei se poderia dar.
Fiquei quieta durante a aula, ás vezes olhava para os lados e percebia olhares, todos me olhavam como se eu fosse a atração principal daquela manhã. Olhei para o outro lado e percebi que um garoto moreno de olhos claros me encarava como se já me conhecesse, mas ainda tivesse dúvidas disso, na verdade eu tive essa mesma impressão quando o vi. Nossa, ele é lindo.
Já era o intervalo quando saí da sala e muitas pessoas vieram falar comigo, pela primeira vez estava me sentindo popular e foi até que divertido.
– Sabia que você é muito linda? – Um garoto de covinhas disse e eu apenas ri, envergonhada.
– Deixa a menina, você deve estar assustando ela! – Falou uma menina de cabelos encachados.
– Seu cabelo é ruivo natural? – Perguntou uma outra e eu confirmei.
Olhei para o lado tentando sair um pouco daquele sufoco e me deparei novamente com o garoto de olhos claros me encarando. O que ele queria? O que ele estava pensando? Quando me dei conta ele já estava se aproximado e vindo até mim, ai meu Deus, já estou nervosa.
–Oi- Ele disse
–Oi- Respondi.
– Espera aí! – O de covinhas falou. – Você não vai querer pegar ela também, né cara? – Arregalei os olhos assustada. – Pow, eu vi ela primeiro.
– Ei! – Me pronunciei indignada.
– Viu só? – A de cachos voltou a falar- Você deveria ter mais cuidado com o que fala.
– Não é nada disso, ta? – O menino lindo, Deus grego, respondeu. – Eu só quero perguntar uma coisa pra ela.
– Pode perguntar. – Eu disse.
– Espera, vêm aqui, é particular. – Eu fiquei um pouco insegura no início, mas acabei indo com ele em um canto mais reservado. – Olha, você por acaso morava em um orfanato? – Me assustei.
– Como você sabe disso?
– Eu não sabia, só desconfiava.
– Mas por quê?
– Eu acho que te conheço, acho que já morei com você. – Olhei bem para ele e não, não pode ser.
– Binho? – Perguntei e ele sorriu.
– Ana! – Nos abraçamos de imediato e meus olhos se encheram de lágrimas, não posso acreditar que o reencontrei.
– Não acredito nisso! – Disse limpando minhas lágrimas. – Você não deu mais notícias.
– Digamos que meus pais são um pouco rígidos de mais, eles dizem que eu não posso viver o passado, por isso não deixaram eu voltar a falar com vocês. Mas nunca esqueci do Raio de Luz.
– Eu sabia que tinha algum motivo pro seu desaparecimento. Algumas pessoas diziam que você não gostava mais da gente.
– São uns loucos. Eu sinto tanta falta deles.
– Eu também. – Fiquei um pouco triste de lembrar que não fazia mais parte daquilo ou que aquilo não fazia mais parte de mim. Pera aí, do que eu to falando? O orfanato sempre vai fazer parte de mim e da minha história.
– Mas me conta, faz quanto tempo que você foi adotada?
– Exatamente uma semana. – Ri fraco.
– E eles são legais?
– São sim, mas não acho que sejam tão presentes, pelo menos por enquanto os sinto distantes de mim.
– Você vai se acostumar. Se eu me acostumei você também consegue! – Sorri.
– Espera aí! – eu disse. – Você foi adotado com a Bia, isso quer dizer que...
– Sim! – Ele me interrompeu. – Ela também está estudando aqui.
– Eu me esbarrei com ela hoje! Não to acreditando. – A fixa ainda não havia caído.
O recreio acabou e eu não poderia estar mais feliz. Reencontrar o Binho foi o melhor presente que Deus poderia ter me dado nessa fase da minha vida. É como se parte do meu passado tivesse voltado á tona. Até porque foi com ele que perdi meu bv... Mas isso nem faz mais diferença, eu acho.
Continua...
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