Mais Ninguém
1 Capítulo 1
O vento que batia contra mim fazia todo o meu cabelo voar em uma só direção, acompanhado da saia do vestido rosa idiota que eu usava. Estava em frente à minha casa, que parecia ter vindo direto de um filme dos anos 50, com seus janelões de madeira e azulejos ornamentados.
Há pelo menos duas horas eu estava feito uma pateta bem ali na rua, segurando uma bolsinha de mão. A todo instante, Isabel, mulher do meu pai, vinha conferir se eu estava bem, colocando a cabeça do lado de fora da janela da cozinha e me dando um sorriso amarelo.
— Seu avô já deve estar vindo. — Dizia com voz meiga. — Ele é um homem importante, deve ter tido algum imprevisto.
Revirei os olhos enquanto bufava.
— O tal almoço vai virar um jantar. Já são quase cinco da tarde! — Exclamei, conferindo a hora no pequeno relógio de pulso que usava. — Eu vou entrar.
Fiz menção de abrir o portão, mas então Isabel fez um sinal de paciência com a mão.
— Por que não espera mais um pouco, Amélia? Tenho certeza de que ele chegará em breve. — E mais uma vez colocou de volta a sua cabeça para dentro da casa.
Bem, ela não tinha certeza daquilo. Mas eu tinha uma de que se eu entrasse naquela casa e meu avô passasse em seu jaguar preto, ele não pediria para me chamar, apenas passaria reto e fingiria que nada aconteceu.
Era uma ordem que ele havia estipulado para mim: quando ele fosse me visitar para me levar a algum lugar, eu deveria esperá-lo do lado de fora da casa. Seus motivos eram muitos, e eu até chegava a compreender alguns deles. Eu também evitaria entrar em uma casa que tem Edgar, vulgo meu pai, como anfitrião.
Outra saída para o meu avô era simplesmente deixar de elaborar essas visitas. Mas não, ele preferia manter as aparências e continuar dizendo aos seus amiguinhos ricos que via a sua única neta constantemente.
Eu até me esbaldava nas comidas caras que ele me dava quando saímos, mas ela toda vinha acompanhada de uma realidade totalmente diferente.
Vejamos, eu moro em uma ruazinha, em uma casinha super antiga e o máximo que consigo de comida de luxo aqui é um pote de Nutella. Mas, com o meu avô, a coisa mudava. De Nutella a restaurantes francês caros que me faziam sentir diminuída ao extremo. Fora os trajes que meu avô me obrigava a vestir quando íamos a algum lugar.
Eu já estava quase desistindo de toda a comida de graça quando um carro exageradamente preto, com vidros fumês e porte clássico, apareceu na esquina da rua, estacionando bem em frente à minha casa.
Apressei o passo para abrir a porta do veículo, antes que o motorista saísse do carro para abrir, como tinha o costume de fazer. Acomodei-me no banco de couro, bem ao lado do meu avô, que lia alguma coisa em seu celular, e ainda não tinha olhado na minha cara.
Abri o vidro fumê para dar um aceno à Isabel, que olhava pela janela da cozinha, atraída pelo barulho do carro. Só então consegui a atenção do meu avô.
— Amélia, como está bonita. — Elogiou, colocando os óculos. — Vejo que o vestido que lhe dei serviu perfeitamente.
Encarei aquele horror chamado de roupa e depois voltei a olhá-lo.
— Na verdade, Isabel teve que fazer uns ajustes. — Afirmei, mais para contraria-lo um pouco do que para passar a informação.
Ele deu um leve resmungando, concordando, e voltou a atenção para o celular em suas mãos.
Seu semblante estava sempre atento, mas sempre com uma classe impecável. Nem seus cabelos totalmente brancos e sua pele já flácida pela idade tiravam sua imagem de aristocrata galanteador.
Seguimos, sem ele fazer explicação alguma do atraso nem falar para onde estávamos indo. Ele parecia entretido demais com o smartphone, já eu fingia que o teto daquele carro era a coisa mais interessante que eu já havia visto em anos.
O veículo parou em frente a um restaurante, que pelo nome era francês, e pela arquitetura e elegância gritava um "aqui você não comerá um croissant por menos de cinquenta reais, então, au revoir!"
— Vamos tomar um chá da tarde. — Anunciou, guardando o celular no bolso de seu paletó e passando o olhar para mim.
Quase deixei um som de frustração sair pela boca.
Tinha ficado praticamente sem jantar na noite anterior para poder encher a barriga. Mas eu só ia tomar um chazinho.
Será que ela tinha esquecido que combinamos um almoço?
Ah, mas eu não me atreveria a reclamar. Da última e única vez que havia cometido a ousadia, tinha sido repreendida tão cruelmente por ele que fiquei me sentindo inútil por dias.
Saí do carro com o meu avô, que logo tratou de enroscar o braço no meu, para que caminhássemos lado a lado até a entrada.
— Monsieur Albuquerque. — Disse o recepcionista, que trajava branco e tinha um sorriso forçado. — Presumo quem seja sua adorável companhia.
Ele olhou para mim inclinando a cabeça, tentando ser adorável. Mas falhou. Principalmente porque àquela altura eu já tinha percebido seu sotaque francês falso.
— Amélia. — Apresentei-me, e logo senti os olhos atentos do meu avô em cima de mim, repreendendo-me. — Albuquerque. — Completei.
Meu avô achava uma falta de educação absurda se apresentar utilizando apenas o primeiro nome, e como eu era uma completa esquecida, sempre cometia a "gafe".
— Por aqui, por favor. — O recepcionista virou para o lado, mostrando com o braço a direção que deveríamos seguir.
O restaurante estava meio cheio, com a maioria das mesas ocupadas por senhoras que se vestiam como se estivessem em plena Inglaterra Aristocrática do século XIX. Algumas usavam até chapéus. Chapéus!
Nos acomodamos na mesa que meu avô havia reservado, com vista para um lago que pertencia ao próprio restaurante.
Meu avô fez o pedido em francês, enquanto eu olhava e achando tudo aquilo muito desnecessário. Ele mal olhou para mim, pois era costume seu definir o que eu ia comer, o que às vezes me decepcionava, principalmente quando ele me obrigava a comer alguma comida estranha, como fígado de pato.
Quando terminou de pedir, se inclinou na minha direção, parecendo um pouco mais destinado a ceder um pouco de sua atenção para mim.
— Você deveria ter continuado nas suas aulas de francês, Amélia. — Ponderou, em tom de advertência.
Meu avô, após a perda de sua única filha, passou a concentrar os seus planos em mim, ou seja, o que tinha restado.
Minha mãe sempre foi contrária aos planos que seus pais faziam. Não cursou Direito nem Medicina, preferiu Psicologia, e encarou o curso sozinha, com um bebê para criar. Tudo isso sem um lar, pois meu avô a tinha expulsado de casa, após engravidar muito jovem.
Depois de sua morte, eu meio que fiquei largada no mundo, pois passei a morar com o meu pai, que de responsável não tinha nem o "r". Meu avô viu nisso a oportunidade para criar a filha que ele sempre quis, e passou a investir na minha etiqueta, a estar presente na minha vida e a me colocar em mil cursos diferente.
Primeiro foi o de inglês, que eu odiava por detestar todo mundo, desde os alunos aos professores. Depois veio o de francês, que eu até gostava, mas da matéria em si. As pessoas continuavam esnobes e com ar de superioridade.
Além dos cursos de línguas, veio várias propostas para que eu me mudasse de escola. O meu colégio era bom, e até caro. Via minha mãe se matando para pagá-lo, mesmo eu tendo uma bolsa de 50% na época.
Quanto a mudança de escola sugerida pelo meu avô, sempre a rejeitei. Meus amigos não eram a oitava maravilha do mundo, mas se eu já achava os alunos do meu colégio atual burgueses e metidos demais, imagina em uma escola mais elitista ainda.
Meu avô achava um absurdo eu não ser fluente em nenhuma língua, não frequentar uma escola a altura do que ele julgava ser bom e, o pior para ele, de não ter expectativas de crescimento na vida.
— E então, Amélia, já decidiu que curso pretende fazer? — Perguntou, como quem fizesse uma entrevista. — Não que vá muito longe se formando naquela escola, mas... vejo as suas notas, está entre as melhores da classe.
Dei de ombros.
Eu era tida como uma das melhores, mas, não me esforçava nem um pouco. Quer dizer, eu amava a área de história, filosofia, sociologia, ou qualquer outra ciência a qual pudesse meter um monte de pensadores altamente interessados na área social. Mas eu era péssima com números, e pior ainda com plantas e corpo humano. Tal fato se refletia nas minhas notas, que sempre eram baixas em disciplinas como matemática e biologia, mas continuavam acima da média.
Eu tinha uma inclinação nata para área das humanidades, e foi por isso que me decidi por cursar Filosofia ou História. Mas, meu Deus, confessar isso para o meu avô seria um absurdo! Por isso, quando ele perguntava o que eu pretendia fazer, sempre respondia um indiferente "não sei ainda".
— Não sei ainda. — Respondi com um sorrisinho amarelo.
— Como não? — Reclamou. — Sua mãe era uma perdida, mas na sua idade ao menos sabia o que queria.
Eu tinha um imenso repúdio de vê-lo falar assim da minha mãe. Mas, afinal, o que eu poderia fazer?
Tentar honrar a sua memória não funcionava com o meu avô, que parecia não se afetar ao saber que a sua única filha cortou os pulsos, preferindo a morte à vida.
— Estou me decidindo. — Concluí, tentando acalma-lo.
— Então isso quer dizer que possui opções em vista. Certo? — Falou, pausando as mãos sobre a mesa.
— Acho que sim.
Ele franziu o cenho, fazendo sua testa ter ainda mais rugas que o habitual.
— Acha? Meu Deus, Amélia, é um pergunta simples. Sim ou não.
Não sei por que, mas toda vez que ele aumentava o tom de voz automaticamente via em minha mente os discursos de Adolf Hitler. Talvez pelo fato dele puxar o r, ou pelo seu jeito ao gesticular. Mas era cômico. Como uma imitação de quinta categoria do Führer.
Abafei o riso com a mão, tentando apagar a analogia da minha cabeça.
— Amélia? — Indagou, agora com o tom preocupado. — O que foi?
Nesse momento o garçom apareceu, empurrando uma mesinha com rodas.
Salva pelo gongo.
Serviu nossa mesa com massa folhada, croissants e macarrones. Em seguida, colocou uma xícara do que parecia ser um café bem chique na minha frente e na do meu avô, deixando-nos sozinhos logo depois.
Aproveitando que tinha escapado daquela, peguei um macarrone e o enfiei todo na boca, mastigando e tomando um gole do café quente em seguida.
— Do que falávamos, Amélia? — Indagou meu avô, retirando o celular do bolso e esquecendo mais uma vez que eu existia.
— Já nem lembro mais. — Menti, tomando outro gole da bebida.
— Sim... Sim. — Falou, com a atenção totalmente voltada para o aparelho. — Como vai a escola?
Esperei alguns segundos para que ele olhasse para mim, mas não o fez.
— Bem, vamos voltar das férias de Julho amanhã, então já nem sei direito como ela vai. — Admiti, com a certeza de que ele nem tinha sequer escutado. — A escola vai começar com um projeto de foco na redação e... — Parei, já irritada com aquilo. — Isso é ridículo. — Dei de ombros e apoiei meu cotovelo na mesa, coisa que ele odiava que eu fizesse, e em seguida coloquei meu rosto sobre a mão. — Acho que engravidei de uma capivara que encontrei enquanto nadava no oceano indico.
— Isso é bom. — Concordou o meu avô, agora digitando alguma coisa.
— E talvez depois que meu filho nascer possamos escalar o Monte Everest em cima de um dromedário, enquanto ouvindo Arctic Monkeys e Lana Del Rey.
— Com certeza. — Afirmou, e segundos depois pareceu voltar do transe, recomeçando a comer em seguida.
Meu Deus. Aquilo era tão humilhante.
Eu me sentia uma completa depravada ali, apenas marcando tabela para um homem de 66 anos que, no fim, só que se sentir bem consigo mesmo achando que me deu um grande presente estando comigo e me levando a lugares caros.
— Amélia, acho que já imagina o motivo pelo qual escolhi a data de hoje para passarmos um tempo juntos. – Afirmou, assumindo um tom sério.
Eu assenti vagarosamente.
Claro que eu sabia.
Ele sempre tentava marcar ao menos dois encontros por mês, e o daquele dia tinha sido marcado em uma data bem sugestiva.
— Amanhã completará um ano que mamãe se foi. — Falei, mais afirmando para mim mesma.
Logo senti o gosto amargo tomar conta da minha boca, coisa que sempre acontecia quando eu me lembrava daquele primeiro de Agosto, após voltar da escola e encontrar policiais preenchendo todo o espaço que um dia tinha sido o apartamento que morávamos.
Um ano havia se passado e era pouquíssimo tempo para superar alguma coisa.
Apesar disso, meu avô não parecia muito emocionado com a menção em voz alta de tudo que foi aquele dia.
— Foi muito difícil, Amélia, eu sei. — nessa hora a sua mão encontrou a minha por cima da mesa. — Ainda está sendo muito difícil. Mas hoje eu só queria lembrar que você não está sozinha, tem o meu apoio, eu tudo que desejar. Sabe disso, não sabe, querida?
Ótimo você oferecer esse apoio a mim agora, dezesseis anos depois de ter colocado minha mãe para fora de casa apesar por estar esperando uma criança que, vejamos, ERA EU.
— Eu sei, vô. — Menti, com um tom de sarcasmo quase imperceptível até mesmos aos ouvidos mais atentos.
— Ótimo. — Falando isso, tirou a mão da minha rapidamente, completando com uma expressão de satisfeito, como se tivesse acabado de concluir uma tarefa. — Eu já disse que levaria você para morar comigo, mas sabe como é aquela casa enorme sem praticamente ninguém... — Partiu sua massa folhada e enfiou na boca. — Sem Eleanor... Oh, minha Eleanor. Se ao menos ela ainda estivesse lá, entregaria você a ela, sem dúvidas estaria em boas mãos.
Eleanor era a minha avó materna, que havia morrido três anos antes de um aneurisma. Eu não tinha tido muito contato com ela, pois a minha mãe era intrigada de quase toda a sua família, mas às vezes que a vi ela tinha me olhado com verdadeira ternura, e apesar de possuir um ar de "sou rica e dona dessa porra toda", ela era fina, sem dúvidas.
— Tudo bem. Eu estou bem com Edgar e Isabel. — Menti.
A mentira era tão clara que meu avô fez uma careta enquanto comia.
Quando terminamos de comer, o céu já se tornava escuro e aquele bairro refinado já iniciava seu festival de luzes.
Saímos do restaurante e quando meu avô fez um gesto para eu entrasse em sui carro, neguei com a cabeça.
— Não será necessário. — Afirmei. — Edgar disse que passaria para me pegar. Vou ligar para ele e dar o endereço.
Edgar definitivamente não era um bom pai. Entretanto, quando se tratava de provar ser bom em algo para o meu avô, ele tentava de tudo para demonstrar ser. Sempre tentava me buscar nos lugares que eu me encontrava com o meu avô, para tentar mostrar a ele que era um cara responsável e que cuidava de mim. Bem, eu não o entendia, mas ao menos me poupava de alguma horas adoráveis com o meu avô.
Meu avô balançou a cabeça negativamente para a minha fala.
— Ligue para Edgar, mas para dizer que chegará tarde em casa. — Ordenou, meio empolgado.
Franzi a sobrancelha e ele logo percebeu a minha cara de quem não entendeu nada.
— Está havendo a inauguração da galeria de um grande amigo meu, e você irá comigo. — Disse, como se eu não pudesse recusar. — Não posso perder a oportunidade de mostrar ao mundo a neta que tenho.
Nessa hora ele passou o braço pelo meu ombro e me apertou contra ele. Apenas sorri amarelo, pela milésima vez.
— Mas eu tenho aula amanhã, vô. — Tentei argumentar. — E é a volta às aulas. Não quero perder nada logo no primeiro dia.
Ele dispensou meu comentário com a mão.
— Você é inteligente e aplicada. Merece se divertir. — Ele tirou o celular de dentro do bolso e estou na minha direção. — Tome, ligue para o seu pai do meu celular.
Peguei o celular com o mesmo sorriso murcho, sabendo que claro, iria me divertir bastante. Só que não.
Fui um pouco mais para longe e digitei o número do celular de Edgar na gigante tela que o aparelho possuía. Coloquei no ouvido e esperei por alguns instantes.
— Quem é? — Perguntou com a voz rouca.
— É Amélia. — Respondi.
— Amélia? — Perguntou. — Eu te dei um celular para você usar.
Ele não podia perder a chance de me repreender.
— Mas meu avô me deu ofereceu o dele, o que iria fazer, recusar assim?
— Aprenda a dizer um não a esse velho babaca. — Disse. — Onde você tá? Passa o endereço certo para eu ir te buscar. Não me dê o errado igual àquela outra vez, onde perdi uns dez reais em gasolina.
Bufei. Por que diabos ele tinha que reclamar tanto?
— Você não vai precisar. Meu avô tá me arrastando pra uma festa com ele.
Pude ouvir o gruindo de raiva de Edgar do outro lado da linha.
— Festa? — Berrou. — Esse velho está louco?
— É uma inauguração, ah, sei lá. Ele quer que eu vá. – Falei. – Ele vai me deixar em casa quando acabar. Certo?
Escutei um longo suspiro.
— Tá, tá. Tanto faz.
E desligou. Pois Edgar e eu nunca nos despedimos em ligações. Ou melhor, nem na vida real.
Entreguei o celular de volta ao meu avô, e mais uma vez ressaltei que eu precisava chegar cedo em casa.
A tal galeria não ficava muito longe dali, perto da Pampulha. Era um prédio moderninho, com linhas retas e a fachada branca. Em frente, vários jornalistas faziam a cobertura e mulheres com vestido de gala entravam.
Encarei meu traje mais uma vez, sentindo-me ridícula.
Eu e meu avô entramos juntos na galeria, com ele sendo cumprimentado por todos que passavam. Parecia ser um cara bem popular. Ele andou fingindo que não estava procurando por alguém, mas senti que seu olhar vagava atento pelo salão repleto da elite de Belo Horizonte.
Acabei descobrindo quem tanto meu avô procurava, e me frustrei um pouco. Imaginei ser uma mulher atraente, mas era só o dono da galeria.
— Amélia, quero que conheça essa figura incrível. — Falou meu avô, mostrando um homem roliço e careca. — Gregório Mattos.
— Que garota linda, Otto. — Elogiou o tal Gregório, e os outros homens que estavam atrás dele soltaram risadas.
Eu já não podia esconder o tédio que tomava conta de mim, então devo ter feito uma cara incrivelmente antipática.
— Só é baixinha. — Reparou um homem ao lado de Gregório, que passou a mão pela minha cabeça, bagunçando os meus cabelos. — Mas nada que um salto não resolva.
Desci o olhar para os meus pés, que estavam cobertos apenas por uma sapatilha baixa.
Afinal, qual era o problema das pessoas com meu 1,50m de altura?
Depois que o meu avô se cansou de Gregório e Cia, apresentou-me a mais pessoas importantes.
Eu olhava pro meu relógio a todo momento, esperando dar uma hora que eu pudesse dizer ser tarde o suficiente para usar como desculpa e ir embora.
— Vó, preciso me sentar. — Falei, já me acomodando em um banco estofado que ficava bem no meio de toda aquela imensidão branca da galeria.
— Mas como vou poder te apresentar com você aí sentada? — Perguntou preocupado, como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo.
Se ele quisesse me apresentar tanto assim as pessoas, talvez devesse fazer um baile daqueles que faziam no século passado, onde as mães apresentavam as filhas à sociedade.
Até pensei em sugeri isso, mas me contive. Seria capaz dele não reconhecer a ironia e fazer mesmo um baile.
— Pode ir andar por aí. — Afirmei, sugerindo que ele me deixasse sozinha. — Se ver alguém importante pode me chamar.
— Tem certeza que ficará bem aí? — Indagou.
Assenti avidamente.
Então ele se sentiu livre para sair salão a fora, encontrar pessoas e rir bastante. Alguns minutos se passaram até o perder de vista, afinal, tinha muita gente ali e o local parecia ser grande.
Fiquei sentada igual a uma garota normal, com as pernas cruzadas e as mãos sobre o colo. Mais alguns minutos se passaram, até virarem horas, até virarem dez da noite.
Nesse ponto a galeria já começava a se esvaziar, e o meu olhar estava nervoso, olhando de um lado para o outro.
Meu Deus, onde será que aquele homem que eu era obrigada a chamar de avô estava?
Não me atrevi a sair em sua procura, então continuei aí, atraindo atenção até mesmo de alguns seguranças que faziam a vigia do local, mas nada me perguntaram.
Quando o relógio em meu pulso marcou onze noite e não havia mais ninguém comemorando nada ali, decidi me levantar e ir até um dos guardas que andavam de um lado para o outro.
— Com licença. — Falei, cutucando o seu ombro. — Será que poderia me ajudar?
Os olhos do homem alto se fixaram nos meus.
— Sim, Senhorita?
— Como podemos ver, a festa parece ter terminado. — Falei. — Mas meu avô parece ter simplesmente sumido.
O homem cruzou os braços e ponderou, parecendo analisar a história.
— Eu não confiaria tanto assim que a festa acabou. — Tentou me acalmar. — Ele sabe onde você estava?
Assenti, dando de ombros.
— Então ele vai aparecer. — Disse. — Como ele se chama?
— Otto Albuquerque. — Respondi.
Ao ouvir o nome, sua postura ficou mais ereta e dura.
— Já tentou ligar para ele? — O guarda Indagou.
— Não sei o seu número.
Ele abriu a boca para perguntar mais alguma coisa, mas antes de conseguir, um barulho começou a vir no fundo. Virei a cabeça para olhar, e me deparei com meu avô e mais uns quinze homens acompanhados de belas mulheres caminhando pelo salão, todos rindo e fumando charutos.
— Acho que o achamos. — Disse o guarda.
Eu assenti, ainda olhando para a cena.
— Amélia! — Chamou o meu avô, com uma empolgação anormal. — Junte-se a nós.
Receosa, comecei a andar em direção a eles.
— Onde o senhor tinha se metido, vô? — Perguntei, tentando não transparecer a minha irritação.
— Estávamos fazendo apostas de jogo. — Explicou. — Nada que fosse interessante para você.
— E me deixou aqui, sozinha?
Ele deu de ombros.
— Você disse que ficaria bem. — Argumentou.
E então eu me dei por vencida.
— Precisamos ir, não é mesmo? — Falei, agora olhando para os amigos do meu avô.
— É verdade, essa mocinha aqui tem escola pela manhã. — Contou meu avô, sorridente.
Meu Deus, ele estava bêbado. Podia sentir seu hálito de álcool.
Depois do meu avô passar quase meia se despedindo dos seus amigos, enfim entramos no carro e seguimos para me deixar em casa.
Quando cheguei, já era quase meia noite e eu sentia que tinha tido o dia mais entediante de toda a minha vida.
Entrei de ponta de pé dentro da sala, com as sapatilhas nas mãos. Segui até o meu quarto, passando pelo quarto de Edgar e Isabel e vendo que apenas ela dormia na cama.
Assim que entrei no quarto, tratei de trancar a porta do cubículo. Coloquei gentilmente os sapatos no chão e me deitei na cama, vendo pela janela a lua por entre as nuvens. A noite tinha um forte cheiro de chuva, ameaçando chover a qualquer momento.
Depois de tomar um pouco de ar, peguei o celular e vi que todas as mensagens do whatsapp eram do grupo da minha sala. Bufuei só de pensar nas besteiras que haviam falado durante aquela noite.
Não as li, apenas abri o grupo para me livrar da notificação "678 mensagens". Depois tirei a roupa e me enrolei na toalha, indo tomar um banho.
Se Edgar estivesse em casa, isso seria impossível. Ele reclamaria do barulho que eu estava fazendo até o dia amanhecer. Mas ali era apenas eu e Isabel, que apesar de ter o sono leve, não se importava de eu tomar banho tarde ou de ir buscar alguma comida na cozinha.
Depois da ducha, fui direto para a cama, onde me enrolei nos grossos lençóis e, por fim, programei o despertador para as seis horas da manhã.
No meio da noite escutei o barulho que Edgar fez ao entrar em casa, quebrando ao menos duas garrafas de vidro. Escutei também uma discussão sua com Isabel, mas dessa vez não ouvi choro, então acreditei ser algo mais leve.
Voltei a dormir com o barulho da chuva caindo sobre as telhas, formando um som gostoso de se ouvir. Quando senti um toque no meu ombro, parecia que apenas alguns minutos tinham se passado desde eu fechar os olhos com o barulho gostoso.
Abri os olhos e tive um susto. Estava de dia. Uma luz cinzenta atravessava todo o quarto e também batia contra o meu rosto.
O toque era de Isabel, que encarava a minha cara de espanto.
— Acho que você está atrasada. — Observou. — Acabei de acordar e tive um susto quando a vi ainda na cama.
Peguei rapidamente o celular e conferi a hora. Eram cinco para as sete. Merda.
Eu morava praticamente em cima da escola e chegaria atrasada. E pior, pela quarta vez no ano. E existia uma regra: com cinco advertências durante o ano, o aluno é suspenso. Se eu não andasse rápido, aquela seria a penúltima vez que eu poderia me atrasar durante toooodo o ano.
Levantei rapidamente da cama e fucei a gaveta em busca do uniforme. Revirei tudo, inclusive tirando a gaveta da cômoda e olhando se não havia caído no submundo. Mas nada. Não estava em lugar algum.
— Ótimo, céus, adoro quando você conspira ao meu favor! — Falei, irritada.
Tirei a segunda gaveta do móvel e a revirei de novo, espalhando todas as roupas por todo o quarto.
— Que diabos está acontecendo aqui? — Berrou Edgar, entrado no meu quarto e encarando com raiva a bagunça.
— Não estou achando o meu uniforme em lugar nenhum! — Falei, já com vontade de chorar. — E eu juro que deixei ele bem em cima da cômoda!
Edgar parou por um segundo, abrindo um pouco a boca em forma de "o".
— Aquilo era o seu uniforme? — Perguntou.
— O que foi? — Perguntei com esperança. — Você sabe ele tá?
Ele não respondeu.
— Vamos, Edgar, eu estou desesperada!
Ele começou a desviar o olhar do meu.
Ele sabia de alguma coisa. Sabia, pois caso não soubesse, não estaria tão desconfiado, mas sim brigando comigo por estar gritando feito uma louca.
— Olha... Tava chovendo ontem, e você sabe como entra água pela janela do meu quarto... — Não. Ele não pode ter...! — Precisava de algo para estancar a água, então enrolei aquele trapo e coloquei na janela.
Ele pôde!
Atravessei pulando o rio de roupas no chão, indo correndo até o quarto de Edgar e Isabel. Assim que entrei vi minha blusa e meu casaco servindo de verdadeiros estancadores de água da chuva.
— Meu Deus! — Berrei. — Como você pode não reconhecer um uniforme? — Perguntei, encarando minhas roupas encharcadas. — O que fez com a calça, usou de toalha?
Ele já me olhava em fúria.
Edgar me empurrou para que eu saísse do meio da passagem. Abriu o seu guarda roupa e tirou de dentro minha calça, jogando-a em mim.
— Se te servir para algo... — Ainda teve a coragem de dizer, olhando bem nos meus olhos.
— Idiota! — Berrei, jogando a calça no chão.
Voei até o meu quarto, sabendo que ele estava vindo bem atrás de mim.
— Não, Edgar! — Escutei Isabel pedir. — Não resolva as coisas desse jeito, ela só está irritada. Lembre-se que hoje não é um dia bom para ela. – Houve um breve silêncio. – Ela vai com uma roupa normal e eu escrevo um bilhete à escola.
— Essa menina precisa de uma lição, Isabel! — Berrou.
Tranquei a porta do quarto e me vesti com a primeira roupa que peguei do chão, sem tirar a calça do pijama. Coloquei a mochila que nem havia arrumado no ombro e sai correndo pela sala, escutando os passos rápidos de Edgar atrás de mim.
— Me deixa em paz! — Gritei, passando pela porta da sala e correndo para o portão.
— Você vai ver, Amélia! Verá! — Berrou da porta.
Foi só quando coloquei os pés na rua que senti as várias gotas de chuva caindo em cima de mim. Que ótimo, que animador, Amélia!
Eu não iria voltar para pegar um guarda-chuva, não com Edgar bravo comigo. Então corri para atravessar a calçada, tentando apoiar a mochila no ombro.
A escola ficava logo ali, duas ruas depois, e essa tinha sido a única vantagem de ter ido morar com Edgar.
Tudo estava cinza e ninguém estava nas ruas, com exceção de mim, claro, a diferentona. Corri a outra rua até dar de cara com uma parte que sempre fica bem mais alagada quando chove.
Enfiei meu pé na água suja, fazendo uma careta de nojo e sentindo meu pé afundar até o tornozelo. Andei mais dois passos, e quando decidi ir mais rápido, meu pé escorregou para frente, fazendo todo o meu peso cair para trás.
— Aaaaaah! — Gritei, indo ao chão.
Eu estava quase que em uma banheira a céu aberto, sendo que com uma água extremamente suja de todas as porcarias que podia se ter.
Tentei me levantar rápido, como se aquilo diminuísse o estrago que a água marrom tinha feito em toda a minha roupa e, para melhorar, na minha mochila.
Ah, mas ainda pode melhorar mais.
Em ruas calmas como as do meu bairro, onde quase carros e motos não passavam, seria natural em um temporal daquele haver menos ainda.
Errado. Pois eu estava bem no meio daquela rua naquele temporal, então, claro que tinha que haver uma moto sendo pilotada por algum maluco. Ela veio em toda a velocidade atrás de mim, fazendo com que a água do chão se levantasse e terminasse de me melar toda.
Parei, estática, com os braços abertos e sentindo o todo o cabelo grudado no rosto. Sai da poça com mais cautela e entrei no último quarteirão que dava para a escola, correndo e sentindo a bunda doer, provavelmente da queda.
Cheguei no prédio e fui recepcionada por belos portões fechados.
— Droga! — Falei, tirando a mochila do ombro e segurando com a mão. — Droga. Droga Droga. — Repeti, como se fosse melhorar as coisas.
Uma pequena janelinha onde ficava a guarita se abriu, revelando um funcionário chocado ao me ver.
— Meu Santo Deus. — Exclamou, olhando-me. — Você é aluna?
Assenti, já frustrada.
Ele se apressou para abrir a porta menor, que ficava bem ao lado do portão.
— Antes de entrar, por que está sem farda? — Perguntou.
Toda aquela chuva caindo em cima de mim e ele ainda exigia explicações.
— É o que acontece quando se tem um pai que não sabe diferenciar um pano de chão de um uniforme escolar. — Falei. — Minha madrasta vai escrever para a escola.
Ouvindo a minha explicação absurda, ele abriu passagem.
— Qual o seu nome? — Perguntou. — Preciso fazer a notificação.
Entrei na escola e aproveitei da pequena marquesa sobre a minha cabeça.
— Amélia Mourato Albuquerque. Faço o segundo ano "C". — Respondi, já familiarizada com as notificações de atraso.
Ele escreveu em um papel e logo depois me deu uma folha com advertência.
Peguei-a e segui, saindo da marquesa e tendo mais um encontrinho com a chuva. Dessa vez, andei lentamente pelo pátio, apenas curtindo toda a minha inutilidade e mesquinhez.
Subi para o andar de cima, onde mais uma vez fui recebida com um caloroso olhar de "quem deixou essa mendiga entrar?".
— O que aconteceu com você? — Perguntou o disciplinador, vendo que eu subia para o andar.
Foi então que olhei para mim mesma e pude dizer Meu Santo Deus.
Eu estava com chinelos havaiana que possuíam um estiloso prego em baixo. As calças largas e xadrez do meu pijama estavam sujam do que parecia ser lama, e para completar tudo isso, uma blusa de manga longa estampada com ursinhos, que ganhei quando tinha doze anos e ficava apertada demais em uma adolescente de dezesseis.
— Não quero nem ver como está meu rosto. — Resmunguei para mim mesma.
— O que disse? — Perguntou o disciplinador, ainda parado na minha frente, esperando uma resposta.
— Nada. — Falei, dando um sorriso para disfarçar tudo aquilo que eu estava trajando no momento.
— Alunos atrasados têm que ficar na biblioteca. — Advertiu.
Olhei para ele com cara de "Alô, olha para mim nesse momento."
— Acho que no meu estado isso será impossível. — Tentei argumentar, mas ele já fazia sinal para que eu descesse a escada. — Vai! Por favor! Eu fico aqui com você e conto toda a história. Não me faça sujar a biblioteca.
Juntei as duas mãos como quem estivesse rezando e esperei sua resposta.
Ele deu um suspiro e assentiu.
— Mas vai precisar me contar tudo, hein, menina.
— Tudinho!
Quando tocou para o segundo horário eu já havia explicado tudo, menos a parte que Edgar ficou furioso comigo, porque isso eram detalhes familiares que tentava omitir.
— Que tipo de pessoa usa o uniforme da filha como um pano de chão? — Perguntou o funcionário, olhando para o chão, parecendo procurar respostas.
— Ao menos você viveu para ver. — Falei, me desencostando da pilastra. — Agora, preciso ir encarar mais olhares. – Suspirei, levantando as duas mãos para o céu.
Enquanto caminhava pelo corredor em direção a minha sala, os professores que estavam trocando de turma passavam por mim e procuravam respostas em meu rosto, mas eu apenas olhava para o chão, tentando desviar de todos.
Quando cheguei em frente a porta da minha sala, dei um longo suspiro e me preparei psicologicamente para o que viesse a seguir.
— Lá vamos nós. — Disse, pegando no trinco e girando-o.
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