Mais Ninguém
3 Capítulo 3
— Conta outra. — Ordenou Manoela, assim que tinha acabado de me sentar na carteira. — Estava matando aula novamente, não era?
Dei de ombros levemente.
— Qual o problema, afinal?
Manoela franziu os olhos e balançou a cabeça.
— Era aula de história, mesmo... — Lamentou. — Provavelmente você sabe mais do assunto que a professora.
Curvei o canto da boca, dando um sorriso de quem não achava aquilo tudo de mim mesma.
— Você não vai acreditar em quem veio me pedir um favor. — Sussurrei para Manoela, temendo chamar atenção da professora Érica.
Como ela não sabe ser discreta, virou a cabeça em minha direção e quase enfiou o seu nariz no meu.
— Quem? Que tipo de favor? Legal, ilícito? — Formulou as perguntas, quase voando de empolgação.
Tá, eu não devia ter sido tão sensacionalista.
— É melhor você baixar as suas expectativas. — Recomendei.
— Ai, conta logo! — Pediu, já fazendo cara de brava.
— Nosso novo professor de filosofia.
Manoela deu de ombros, meu frustrada.
— O que ele queria? — Perguntou, com o ar meio sugestivo.
— Ah, parece que uma turma ficou sem professor, daí ele me pediu para entregar as cópias de um exercício lá, já que estava dando aula em outra sala. — Respondi. — Sabe, para eles não ficarem sem nada para fazer.
Já podia ver a falta de interesse na minha história pelo olhar de Manoela.
— Mas então eu derramei todo o meu suco de morango em cima das folhas, e não fiz o que ele pediu. — Admiti, passando a mão pela mesa.
Manoela arregalou os olhos.
— Você o quê? — Disse, quase gritando, virando em seguida, para disfarçar que conversava comigo.
— Não fiz o que ele pediu. — Sussurrei.
Manoela parecia chocada.
— Meu Deus, você simplesmente fez uma burrice dessa e voltou para a sala, normal, como se nada tivesse acontecido? — Agora ela sumia um tom sério, insinuando que eu era muito idiota.
Ponderei um pouco.
— Acha que foi tão mal assim? — Perguntei, pegando uma mecha do meu cabelo e enrolando no dedo.
Poxa, eu não via aquilo como algo tão grave. Eu não tinha feito o que um cara pediu. Ué.
— Se foi mal? — Repetiu. — Foi péssimo, Amélia. Diga-me o que ele irá pensar quando descobrir que uma turma ficou absolutamente sozinha, quando o responsável por ela era ele!
— Se ele fosse o responsável, que não tivesse pedido para eu ajudá-lo! — Rebati, aumentando o tom da voz.
— Se não podia ajudá-lo, não tivesse dito sim! — Insistiu, aumento ainda mais a voz.
— Não podia dizer não a um professor!
— Não podia! Então resolveu fazer algo pior! — Falou, já praticamente gritando na minha cara.
— Meninas! — A voz de Érica atravessou a sala. — Algum problema?
Nossas duas cabeças se viraram na direção da professora, que nos olhava com a sobrancelha arqueadas.
— Nenhum. — Dissemos ao mesmo tempo.
— Então acho que podem começar a prestar atenção na aula. — Disse, voltando com a sua explicação.
Eu e Manoela ficamos quietas não somente nas duas aulas de história que se seguiram, mas até o final da última aula, que era de espanhol.
Apesar da minha expressão serena por fora, minha mente estava trabalhando em uma coisa: a sala que havia ficado sem responsável por minha causa. Eu não via como algo tão ruim assim, mas e se Vicente visse? Como iria explicar aquilo para ele?
Quando o sinal tocou, anunciado o final do primeiro dia de aula após retornamos das férias de Julho, juntei meu material em um dos braços, apoiando a minha sacola de roupas molhadas do outro.
Eu e Manoela, agarrada em Lucca, saímos da sala juntos, com eles me perguntando sobre a minha roupa "nova".
— A coordenadora me emprestou. — Respondi, tocando a calça de malha. — Amanhã eu devolvo.
Cruzamos todo o pátio, passando bem ao lado do estacionamento, e quando eu já podia ver a liberdade em forma de porta, senti dois dedos me puxando pelo ombro, fazendo metade do meu corpo parar onde estava, e outra seguir para a frente.
Segui o caminho dos dedos, passando pelo braço, até chegar no rosto.
— Você foi a garota que eu pedi para entregar as cópias, não foi? — Perguntou Vicente, quase soltando tiros em minha direção pelo olhar.
Desviei o olhar para Manoela e Lucca, que simplesmente haviam esquecido que eu os acompanhava, e já seguiam para a saída. Ótimos amigos.
Quando voltei a encarar os olhos negros de Vicente, ele estava com as sobrancelhas arqueadas, como quem insistisse por uma resposta.
— Fui eu, sim. — Respondi, trocando o peso de um lado para o outro.
Vicente retirou os dois dedos de mim, cruzou os braços e me encarou como quem pensava em uma forma dolorosa de me torturar.
— Sabe o que eu acabei de receber agora? — Perguntou.
Olhei para um lado, olhei para o outro. Vendo apenas alunos deixando a escola e absolutamente ninguém a quem recorrer.
Eu queria gritar "Alguém me ajuda, esse cara está prestes a me matar!"
— Um aumento no salário? — Respondi, mais em forma de pergunta do que de resposta.
Vicente bufou, como quem achasse minha fala ridícula.
— Uma reclamação. Da coordenação. — Completou.
Ah, não.
Meus lábios se comprimiram, um contra o outro, na maior cara de culpada, que seria capa de entregar qualquer um.
— Qual é o seu problema? — Perguntou, agora levemente irritado. — Eu te pedi um pequeno favor, se não queria fazer, dissesse, acharia qualquer outra pessoa para fazer. A sala do terceiro ano ficou completamente sem responsável. Sabe o que um dos alunos fez? Começou a jogar o tênis para o alto, que acabou indo parar o teto! Simplesmente o tênis furou o gesso e fez um buraco do tamanho da minha cabeça no teto da sala!
Eu ainda estava estática, sem nem piscar os olhos.
— E a culpa sobrou para mim, claro. — Falou. — Afinal, Vicente esqueceu da outra turma que estava sem professor... — Ele agora parecia repetir as falas de alguém, e quanto olhava pro chão.
— Olha, a culpa foi minha. — Falei, sentindo-me já mal de ver aquele homem transtornado daquele jeito.
— Eu sei que foi. — Disse, ríspido. — Mas você esperava mesmo que eu fosse empurrar a culpa para uma aluna? Nunca que iriam me dar crédito.
Fiquei meio sem jeito. Sempre imaginei que a coordenação desse mais crédito ao professor que ao aluno.
— Desculpa. — Pedi, encarando o chão.
— Claro, isso resolveu os meus problemas. — Ironizou. — Se estava brava comigo por eu ter lhe tirado de sala, bastava ter dito um não.
— Mas eu fiz as cópias. Eu ia levá-las até a sala... — Então parei, pensando no quanto eu não queria confessar a minha burrice.
— Tudo bem, eu que fui o errado em pedir um favor a alguém que não sabe nem se vestir para ir à escola. — Então ele começou a se afastar, encarando-me.
E minha cara, que antes era completa culpa, começou a se transformar em completa indignação.
Olhei para a sacola na minha mão, ainda com as cópias sujas do suco. Tirei-as de dentro e saí em direção ao professor, que já estava de costas.
Virei-o pelo braço e praticamente bati contra seu peito com as folhas.
— Ai as malditas cópias! — Falei, irritada, esperando ele segurá-las com a mão. — Talvez eu seja mesmo incapaz. Ao ponto de sujar todas elas e não poder realizar seu tão importante favor. — Ele me encarava com a boca entreaberta. — Passar bem.
Virei-me, quase afundando o chão com os meus passos.
Aquele homem tinha me insultado de incapaz, tirado-me de sala, xingado as minhas vestes, sugerido que eu fedia e me dado uma resposta grosa na aula. Ele que fosse para o inferno com a sua reclamação.
Até me sentia um pouco feliz por dentro, enquanto marchava para fora da escola.
Boa parte dos alunos já tinham se mandado, então as ruas laterais da escola estavam até bem desertas. Caminhei por entre elas, que ainda estavam úmidas pela chuva matinal, dessa vez tomando todo o cuidado para não afundar em uma poça de lama.
Quando cheguei em casa, silenciosamente entrei pela sala, temendo que Edgar notasse a minha presença e piorasse aquele dia ainda mais.
— Pode pisar no chão, Amélia. — Gritou Isabel de dentro da cozinha. — Edgar não está em casa.
Relaxei o meu corpo e comecei a dar pisadas fortes até onde ela estava.
— Como foi o dia? — Perguntou, assim que enfiei a cabeça pela porta da cozinha. Encarou a minhas vestes, mas não comentou nada.
Ela lavava pratos, com a postura encurvada e os cabelos loiros caindo sobre a testa.
— Péssimo. — Respondi, cruzando os braços.
— Imaginei. — Falou, pensativa.
Hum. Tinha algo escondido por trás daquela voz.
— Do que ficou sabendo? — Perguntei, quase desesperada demais.
— A coordenadora ligou para saber como estavam as coisas. Disse que você foi expulsa de sala, mas que compreendia, por conta da data de hoje. — Isabel parou de lavar a louça, enxugando as mãos com um pano de prato. — Disse também que emprestou roupas a você, já que estava toda molhada. Também pediu para Edgar ter um pouco mais de paciência com você.
Coloquei a mão na cara, tapando o rosto.
— Fui expulsa de sala, Isabel. — Repeti, sentindo-me na mesa da cozinha e voltando a cobrir o rosto de vergonha.
Isabel veio em minha direção, passando as mãos pelas minhas costas, tentando me aparar.
— Não me importo com isso, você continua sendo uma ótima garota. — Tentou me acalmar.
Mas então as minhas lágrimas começaram a vir. Por ter perdido a minha mãe, por ser uma idiota com todo mundo, por não ter mais ninguém.
Poxa, até começava a sentir pena de Vicente àquela altura. Tinha feito um trabalhador receber uma advertência, quando na verdade tinha feito de tudo para receber um tratamento ruim da parte dele.
— Sou um ser humano horrível. — Insisti.
— Não diga isso! — Pediu Isabel, abaixando-se para enxugar as lagrimas que caiam pelo meu rosto. — Qualquer um iria querer uma filha você, Amélia.
— Eu não iria querer me ter como filha. Sabe o que fiz hoje? Fiz meu professor ser reclamado. Por uma coisa que ele nem cometeu! E depois acabei ficando contente por isso.
— Olha, você está mais sensível do que nunca hoje, por isso está assim. — Explicou. — Tome um banho e vá se deitar. Procure ocupar a sua mente. O seu pai está mais tranquilo, até mesmo arrumou as suas roupas que você deixou espelhadas pelo chão. Ele próprio!
Um sorriso tímido brotou no meu rosto, mais para acalmar Isabel.
Fui até o banheiro, onde tomei um banho gelado, pois Edgar havia queimado o chuveiro elétrico há três semanas.
Tremendo de frio, dirigi-me até o meu quarto, que agora não havia mais nenhuma roupa espalhada pelo chão. Estava até mais organizado do que antes.
É, Edgar tinha levado a sério a tarefa.
Deitei-me na cama, conferindo algumas mensagens que haviam chegado no whatsapp, a maioria inúteis, mas uma de Manoela.
Manoela: Chegou em casa, ou o professor a devorou viva?
Amélia: Por que você e o Lucca me abandonaram????
Manoela: Ah, eu não tava afim de ouvir sermão de professor não, sabe...
Amélia: Nossa, sai daqui
Manoela: Eiii! Pode ir parando com o seu drama e me contando tudo
Amélia: Achei que não quisesse ouvir sermão de professor :p
Manoela: Não estarei ouvindo. Estarei vendo a sua raivinha sendo escrita em forma de mensagem :p
Então a deixei no vácuo. Mas dois minutos depois meu celular voltou a vibrar.
Manoela: Vaaaai!
Cadê você?
Me conta logo!
O que ele te disse?
Amélia: Vá perguntar ao Lucca
Bjs
Manoela: Você ainda não se livrou de mim!
Mais tarde vou entupir a sua galeria de roupas, para você me ajudar a escolher uma para eu arrasar hoje!
Amélia: Mal posso esperar.
Manoela: Para de usar ponto no final das frases, isso é chato, bleh
Amélia: Não.
Manoela: Até ia te contar uma coisinha que o professor falou depois que você saiu de sala, mas como você tá implicante, deixarei você morrer aí na curiosidade.
O que diabos Vicente tinha falado?
Mas eu não podia transparecer curiosidade.
Amélia: Estou morrendo por dentro. Tchau.
Seja o que fosse, não deveria se importante. Manoela adorava aumentar as coisas, apenas para criar uma cena.
Comecei a olhar para o porta retrato que ficava em cima da cômoda. Eu e minha mãe estávamos abraçadas, sorrindo e despreocupadas com a vida.
Por que há um ano atrás ela tinha resolvido pôr um fim à sua vida, me deixando sozinha? Eu ainda não conseguia entender, e por muitas semanas após a sua morte pensei em fazer o mesmo que ela.
Mas ela não iria gostar. Se ela estivesse ali, estaria mandando eu sorrir, me divertir ao máximo e notar que a vida vale a pena ser vivida de forma plena. Ela era psicóloga, havia ajudado muitas pessoas, mas não a si própria.
Comecei a pensar nisso, e então a ideia de sair com Manoela me soou mais agradável. Minha mãe com certeza aprovaria aquilo. Por não ir, afinal?
Peguei o celular e encarei o contato de Manoela, pensando se dizia aquilo ou não.
Amélia: Ei, ainda rola eu ir com vocês hoje à noite?
Manoela: Sério???? ♥ Eu passo aí às seis para te buscar!
Amélia: Ainda não perguntei ao Edgar
Manoela: Qual o seu problema em chamar ele de pai? Ele nem é tão ruim assim
Quase mandei um áudio gritando "É!".
Amélia: Vou falar com ele e depois confirmo. Au revoir.
Levantei da cama com um pulo, pisando no chão frio e indo até a cozinha novamente, onde Isabel estava descascando cebolas.
— Isabel, acha um boa ideia eu sair hoje à noite com meus amigos? — Perguntei, apoiando minha cabeça no vão da porta.
Ela desviou a atenção da comida para mim.
— Eu acho uma ótima ideia. — Afirmou. — Sair um pouco... Você precisa muito. Mas antes precisa pedir permissão ao seu pai.
— Claro. — Assenti. — Vou pedir quando ele chegar.
— Mas ele já chegou. Está nos fundos aprontando algum serviço.
Franzi o cenho.
— Está me dizendo que ele chegou e não deu absolutamente nenhum grito ou reclamou de alguma coisa?
Isabel começou a rir.
— Vamos aproveitar. — Falou.
Comecei a caminhar até a porta que dava para os fundos, que era repleto de tralha e eu quase nunca ia lá. Edgar usava o lugar para terminar alguns dos seus trabalhos. Ele trabalhava em uma marcenaria, e até fazia algumas coisas bonitas com madeira.
Ao longe vi ele debruçado sobre uma mesa, mexendo em algum equipamento. Comecei a me aproximar, pisando nas folhas secas no chão.
— Edgar, posso te pedir uma coisa? — Falei, esperando ele se virar para mim.
— Amélia... — Parecia surpreso. — Venha ver isso aqui.
Caminhei em sua direção, até a mesa onde trabalhava. Um trem todo feito de madeira estava disposto em cima de trilhos, que formavam uma grande circunferência.
— Aproxime-se. — Pediu, fazendo um sinal.
Apoiei os meus dois cotovelos na mesa, encarando a peça de madeira, até ela começar a se mover, fazendo seu percurso até completar uma volta inteira.
— Legal, não é? — Perguntou, sorrindo. — Eu que fiz.
Sorri de volta.
— Parece bom. — Concordei.
Às vezes Edgar nem parecia ser horroroso quanto era. Quando cheguei naquela casa, há quase um ano, ele parecia assustado demais com a ideia de criar uma filha, que mal sabia que existia até pouco tempo. Ele pareceu descontar na sua raiva, que já possuía por natureza. Mas às vezes ele se permitia relaxar e ser uma pessoa normal comigo.
Eu tinha vontade de saber a sua história com a minha mãe, que parecia mais misteriosa do que um buraco negro. Mas eu nunca perguntava, pois ele ignorava a existência da minha mãe categoricamente. Quase nunca falávamos sobre o motivo de eu ter vindo parar ali, imagine só do deu passado.
Ele me olhava com uma expressão de satisfeito consigo mesmo, com todo o seu suor descendo pelo pescoço.
— E então, o que ia me pedir. — Falou, parando de sorrir.
— Sair com uns amigos, hoje à noite. Manoela disse que poderia me levar. Está bem para você? — Perguntei, vendo que ele analisava as minhas palavras.
— Tanto faz. — Disse. — Desde que não apareça grávida e com mais problemas para cima de mim.
Colocou um pano sobre o ombro e de virou, começando a mexer em outra tralha.
— Pode deixar. — Confirmei, fazendo sinal de beleza com os dois dedos, mesmo que ele não estivesse vendo.
Fui até a porta da cozinha, onde Isabel me esperava com um olhar atento.
— Ele deixou? — Perguntou.
— Sim. — Afirmei. — Está de bom humor demais para o meu gosto.
O resto da tarde passei lendo alguns livros que baixava em PDF, já que quase nunca Edgar deixava eu gastar dinheiro com livros físicos. Avisei à Manoela que eu poderia ir, e ela ficou super animada, dizendo que eu não ia me arrepender e blá blá.
Quando a noite começou a se aproximar, tomei novamente um banho, ainda me sentindo suja pela lama de manhã.
Tentei dar um jeito no meu cabelo, enquanto me encarava no espelho, mas a cada tentativa que eu fazia só piorava as coisas. Então apenas penteei para o lado e fingi ignorá-lo.
Vesti uma das roupas mais arrumadinhas que eu tinha, que ainda era do tempo que eu vivia com confortável em um apartamento espaçoso com a minha mãe. A saia preta de cintura alta me dava um pouco mais de corpo, e a blusa branca com um laço caído não tinha nada de especial, apenas era bonita.
Calcei sapatilhas vermelhas e baixas, pois simplesmente não me dava bem com os saltos. Eu já era incrivelmente desastrada, imagina tendo que me equilibrar em uma coisinha de nada. Com certeza não era o meu talento.
Exagerei no perfume, tentando estancar o resto do charme que me faltava, e no final passei um batom vermelho nos lábios.
Sentei-me no sofá, distraída com o celular na não. Edgar comia alguma coisa com uma cadeira voltada para a TV da sala, e Isabel passava roupas ali perto.
— Que perfume doce, Amélia. — Resmungou Edgar, fazendo uma careta. — Me lembre de nunca mais comprar isso.
Já teria recomeçado seu ciclo de reclamações?
— Foi o meu avô que me deu. — Rebati, ainda com a minha atenção voltada para o celular.
— Tinha que ser. — Implicou.
No mesmo instante, uma buzina ecoou do lado de fora, fazendo-me levantar rapidamente.
— É a Manoela. — Anunciei, já indo para a porta de saída, enquanto ajeitava a saia.
Sem um tchau sequer, saí pelo portão da minha casa, dando de cara com a Hilux branca do pai da Manoela. Abri a porta do carona, anunciando um empolgado boa noite.
— Boa noite, parceira. — Disse o pai dela, tirando a mão do volante para bater contra a minha.
— Aí, pai, nem tenta roubar minha amiga outra vez. — Protestou Manoela, observando a cena.
Fabrício era um cinquentão bem bacana. Convidava-me para almoçar com Manoela constantemente, e através dele descobri uma paixão por GTA V, quando passamos uma tarde jogando. Desde então Manoela dizia que ele gostava mais de mim do que dela própria.
— É assim que me sinto com você e o Lucca. — Falei, fazendo Fabrício sorrir.
— Ah, quando quiser se vingar da Manoela, basta me avisar. Passaremos não só uma tarde, mais um fim de semana inteiro zerando todas as edições de GTA possíveis. – Sugeriu Frabício.
— Tentador. — Concordei, soltando uma risada. — E então, para onde vamos, afinal?
— Shopping Del Rey! — Respondeu Manoela, toda animada.
— Nossa, não conseguiu pensar em nada mais chato? — Perguntei.
Ela me deu um tapinha no braço e me olhou feio, começando a passar um gloss em seguida.
— Se veio para reclamar, é melhor nem ter vindo. — Resmungou.
— Perdão, acho que é a convivência com Edgar.
Manoela concordou com a cabeça, ainda concentrada em sua maquiagem.
— E então. — Disse Fabrício. — Edgar ainda anda impossível?
O resto do caminho fui conversando sobre a casa do meu pai, matando algumas curiosidades do Fabrício.
Manoela fez questão de contar toda a minha má sorte pela manhã, e me fez contar em detalhes todo o drama vivido.
Cerca de uma hora depois, após pegarmos um trânsito infernal, estávamos entrando no estacionamento do shopping, enquanto eu e Fabrício cantávamos uma música dos anos oitenta.
— Something happens and i'm head over heels... oooh, don't take my heart, don't break my heart... — Dizíamos desafinados, tentando acompanhar a voz que saia do som do carro.
— Vocês dois não conseguem ser menos ridículos? – Reclamou Manoela, revirando os olhos. Apesar disso, tinha um quase sorriso formado na boca.
Peguei os seus dois braços e comecei a movimentar de um lado para o outro, enquanto ainda cantava.
— Throw it away, Throw it away!
— Sai, sua maluca. — Disse, tentando me afastar.
— Entregues! — Anunciou Fabrício, parando o carro e baixando a música. — Busco vocês assim que a Manoela ligar, então, ligue com antecedência.
— Claro, se eu tiver com vontade de ir embora às dez, terei que esperar até as onze. — Disse Manoela, abrindo a porta do carro.
— Ou ligar às nove. — Observei, saindo do carro em seguida.
Eu e Manoela caminhamos lado a lado, entrando no shop quase coladas. O barulho do seu salto alto ecoava pelo chão lisinho do shopping, combinando com a sua elegância nata. Vestia um vestido rodado na cintura, todo rendado e delicado. Observei-o sabendo que em mim mais ficaria parecendo uma aqueles que se colocam no botijão de gás.
— Venha, combinei de encontrar com o pessoal bem ali, em frente à cafeteria. — Disse, puxando o meu braço na direção oposta.
— Quantas pessoas são, afinal? — Perguntei, mas ela não precisou me responder.
De longe vi o grupo. Ou melhor, a reunião de quase TODOS os alunos da escola, sentados em banquinhos que ficam no meio dos corredores.
— Meu Deus, Manoela, o que é isso? — Perguntei.
— Tem medo de gente? — Retrucou.
— Tem quase toda a escola inteira aqui! — Falei, quase desesperada.
Ela apenas empinou o queixo e enroscou o braço no meu, seguindo confiante até a multidão de pessoas.
Tinha alunos de todos os anos do ensino médio ali. Todos conversando entre si, trocando risadas e brincadeiras. Pelo visto a noite não ia ser nada divertida.
Lucca veio em nossa direção, dando um longo selinho em Manoela.
— Quem diria... Amélia Albuquerque saindo da sua caverna. — Brincou, passando a mão pelo meu cabelo.
Revirei os olhos.
— Preferia ter ficado nela. — Admiti, encarando todas aquelas pessoas. — E melhor, ter aprofundado ela em mais uns dez metros.
— Hoje você vai parar de reclamar e vai se divertir, nem venha com essa. — Ordenou Manoela, fazendo bico.
— Já contou a ela? — Perguntou Lucca à Manoela, que arregalou os olhos.
— Me contou o que? — Perguntei, desconfiada.
— Vamos logo, ou vamos perder a sessão do cinema! — Gritou um garoto, que reconheci como sendo algum do terceiro.
Logo comecei a ser arrastada pela multidão, quase perdendo meus amigos de vista. Leila apareceu para me cumprimentar, me arrastando até a fila do cinema para comprarmos os ingressos.
— Não acredito que vamos ver Como Eu Era Antes de Você. — Resmunguei. — Já está em cartaz há um mês!
— E você ainda não viu. — Rebateu Leila. — E mais, a maioria aqui só está usando de desculpa o cinema para... você sabe.
Eu sabia bem.
— Eu mato a Manoela. Ela me arrastou para isso aqui, sem eu nem saber que viria umas cinquenta pessoas. — Falei, enquanto esperava chegar a minha vez na fila.
— Ai, Amélia, relaxa um pouco. — Pediu Leila, com cara de cansada.
Compramos o ingresso para a próxima sessão, que já iria começar em dez minutos. Pegamos a pipoca e logo entramos na sala, para escolhermos nosso lugares.
Alguma menina arrastou Leila para longe de mim, e sem Manoela e Lucca à vista, acabei ficando em pé, sozinha, segurando um ponte cheio de pipoca.
Claro, estava um dia péssimo para mim e eu resolvo sair, achando que as coisas iriam melhorar. Merecia o prêmio de ingênua do ano.
Comecei a andar até o meio das cadeiras, já que o fundo estava totalmente ocupado pela massa de alunos da minha escola. Escolhi a fila mais vazia possível e me sentei na ponta, com a incrível vista de um casal se pegando. Pô, ainda estava nos trailers e via toda a saliva refletindo em suas bocas.
Olhei para a pipoca que eu segurava e tive vontade de vomitar dentro dela. Contendo-me, relaxei na cadeira e procurei desviar o meu olhar do casal, encarando a grande tela de cinema.
Alguns instantes depois, mais um grupo de jovens entrou dentro da sala e começou a andar por entre as cadeiras. Até um dos garotos se separar do grupo e vir na direção da minha fila, sentando-se bem ao meu lado.
Droga, aquela fila devia ser só para mim!
Continuei comendo a minha pipoca de modo desconfiado, até esquecer da existência da pessoa ao meu lado.
O filme começou e eu logo me recordei das partes do livro, notando o quanto eu havia imagino tudo diferente. Quando estava na parte em que Lou vê o seu primeiro filme legendado, escuto uma voz ao meu lado falar alguma coisa.
— Você fica linda à meia luz. — Sussurrou.
— O que disse? — Perguntei, encarando os olhos do garoto ao meu lado.
Eu já tinha visto ele algumas vezes na escola. Fazia o terceiro ano e estava sempre com o seu cabelo preto grande e enrolado.
— Você fica linda à meia luz. — Repetiu.
E então eu comecei a tossir, engasgada pela pipoca.
Coloquei a mão sobre o leito, tentando parar a tosse, enquanto o menino olhava para o meu desespero.
— Desculpa. — Falei, em meio à tosse.
— Não está acostumada a receber elogios? — Perguntou.
Tudo que eu menos queria naquele momento se concretizou: alguém dando em cima de mim.
— Não tão sorrateiramente assim. — Respondi.
— Ah, mas você é linda. Sempre a vejo na escola e me encanto. — Afirmou, dando um largo sorriso.
— Nossa, se tivesse me visto hoje pela manhã teria perdido todo esse encanto.
Então ele começou a gargalhar, e conteve por notar que estava em um cinema.
— Eu a vi. — Admitiu. — Eu sempre sento ao lado da janela, e lá da sala dá para ter uma vista muito ampla do pátio. Vi você toda molhada e... suja. Mas continuei te achando linda.
Esse era o momento que eu devia estar achando ele fofo e querendo beija-lo? Bem, pois eu não estava.
— Conseguiu me achar encantadora usando aquilo? Acho que podemos nos casar depois isso. — Brinquei, mas me arrependi após ver sua esperança brilhar em seu olho.
— Seria uma honra, não vou mentir. — Sorriu, afundando na cadeira em seguida. — Deixa eu me apresentar. Eu sou o Ícaro.
Apesar da escuridão, eu via nele alguns traços que eu já havia visto antes. Tentava me recordar aonde e quando, mas nada vinha na minha mente.
Ícaro com certeza me lembra alguém.
— Sou a Amélia. — Falei.
— Eu sei. — Afirmou, sorrindo mais uma vez. — Amélia Albuquerque.
Nossa, eu tinha um stalker.
No final das contas o tal do Ícaro nem me pareceu tão mal assim. Ele não tentou me agarrar nem nada, apesar de deixar bem claro os seus interesses comigo.
Eu devia estar caindo aos seus pés, afinal, ele era bonito, simpático, gentil, e outras mil qualidades. Mas eu simplesmente não estava.
Não me interessava por ninguém desde que havia nascido. Tinha ficado com um único garoto da minha vida, mas nunca, nunquinha mesmo, alguém tinha feito minhas mãos soarem ou meu coração acelerar.
Eu até ria internamente ao pensar nisso.
E com certeza Ícaro não era a pessoa, mas eu resolvi dar um crédito a ele. Afinal, talvez eu devesse me permitir mais.
— Por que nunca falei com você antes? — Perguntou, parecendo realmente querer uma resposta.
Dei de ombros.
— Talvez fosse mais seguro não ter conversado. Sabe, nunca se aproxime de mim sem um seguro de vida.
— Por quê? — Quis saber.
— Sou muito estabanada. Sério, não ria. Eu sou capaz de fazer coisas além da imbecilidade humana normal. Acho até que aquela frase no Einstein foi pensando em mim.
— Duas coisas são infinitas: o universo e estupidez humana. — Completou, me fazendo sorrir. — Meu pai é um cara que lê muito, acaba me contagiando também. — Explicou.
— Sério? — Perguntei. — Queria ter um pai assim. Acho que p meu apaí nunca leu um livro na vida.
Ele deu um sorriso afetado.
— Não é tão legal quanto pensa. O que meu pai tem de gosto pela leitura, tem de desprezo.
Notei que toquei em um assunto delicado, pois agora Ícaro assumia um semblante mais triste.
— Eu não devia te dizer isso, mas às vezes, vendo o meu pai em casa, reparo que tudo aquilo é um fardo para ele.
— Tudo aquilo? — Perguntei.
— É. A minha mãe, a casa... Tudo. Parece tão infeliz com o que ele próprio construiu.
Dei um suspiro.
— Você me pareceu um cara legal, então a sua mãe só pode ser gente boa. Se um cara tem a isso e ainda consegue odiar a própria família, desculpa, mas ele é um babaca. — Falei com sinceridade.
Ele sorriu, mas ainda de forma afetada.
— Eu também penso assim. — Concordou. — Você é tão linda, Amélia. Linda, linda.
Ícaro pegou uma mexa do meu cabelo e a afastou, como se quisesse ver melhor o meu rosto.
— Consigo me ver apresentando você aos meu pais. Meu pai até poderia gostar de você. Acho que ele gostaria. — Falou, pensativo.
— Ícaro, veja o que você está falando. — Pedi.
Ele assentiu.
— Sei, sou um utópico. — Admitiu. — Mas deixa eu libertar minha imaginação em voz alta.
Quando o filme deu por acabado, eu mal havia prestado atenção em uma cena. Ícaro tinha roubado totalmente a minha atenção, e eu gostei disso.
Ele era um cara realmente legal, e mesmo quando soltava indiretas para mim, conseguia não ser ridículo, mas galanteador.
Saímos da sala do cinema lado a lado, com ele tagarelando algo sobre filmes.
— Eu sou apaixonada por filmes. — Falei. — Sou uma verdadeira cinéfila.
— O quê? — Perguntou. — Eu não consigo me concentrar em filmes, prefiro séries.
— Só tem duas séries que consigo gostar, e elas se chamam Breaking Bad e Downton Abbey.
— Então é porque viu poucas séries em sua vida. — Provocou.
— E você poucos filmes. — Falei, empurrando meu ombro contra o dele e saindo da sala.
Guiei o olhar ao redor da saída, tentando encontrar por Leila ou Manoela. Avistei o cabelo preto da segunda ao longe.
— Olha, tenho que procurar por uma amiga, pois vou voltar com ela. — Falei para Ícaro, que assentiu, meio decepcionado. — Mas foi bom ficar com você. Quer dizer, não ficar, mas...
— Eu entendi, entendi. — Disse, em meio a sorrisos. — Bem, foi um prazer, Amélia.
Ele veio na minha direção, depositando um beijo em minha bochecha.
— Eu tenho o seu número e eu te encher. — Sussurrou em meu ouvido.
O cara tinha conseguido o meu número com quem, afinal?
Sai em direção à Manoela sorrindo para Ícaro.
Puxei seu cotovelo e ela gemeu de susto.
— Onde você tava metida? — Indagou. — Na sala do projetor?
Revirei o olhos.
— Talvez se prestasse mais atenção em minha teria notado para onde eu fui.
Ela estava sem o Lucca, o que era um grande milagre, mas ao seu lado estava uma menina gorducha da nossa sala, chamada Diana.
Eu queria muito contar à Manoela do Ícaro, mas com aquela garota ali, não.
— Eu vou levar a Diana em casa. — Falou para mim, e eu quase soltei um som de frustração. — Liguei para o meu pai da sala há uma hora, ele já deve estar chegando. Então, vamos.
De fato Fabrício já estava estacionado do lado de fora do shopping, e entramos em seu carro, comigo espremida entre a garota e Manoela.
Eu estava quase explodindo para contar à minha amiga, mas teria que esperar para dizer por mensagem.
Quando cheguei em casa, Edgar e Isabel estavam dormindo, e sem tirar a roupa tratei logo de mandar um whatsapp para Manoela
Amélia: Conheci uma pessoa
Esperei por sua resposta por longos cinco minutos, mas nada.
Resolvi tomar um banho e dar tempo para ela entrar, mas quando voltei da ducha, calculando cada movimento para não acordar ninguém, ela ainda não havia respondido.
Derrotada, larguei o celular na cama e me enrolei nas cobertas. Contaria tudo a ela logo pela manhã, pois chegaria tão cedo que a escola nem estaria aberta.
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