Maipetto no Neko

32 Capítulo 32 - Abstinência


Notas iniciais
Então... Eu não morri! HAHAHA!
Queridos leitores e fãs da fanfic Maipetto no Neko.
Primeiramente, quero pedir mil desculpas a vocês por ter desaparecido esses últimos meses.
Os motivos foram... Bem, muitos. Eu tive diversos problemas na minha vida desde o final de maio, tanto profissionais, quanto pessoais.
Todo mundo soube das greve federais das universidades, certo?
Então, eu, como estudante de faculdade pública, sofri esses últimos tempos com as incertezas das voltas às aulas, sem contar na luta de inúmeros professores por melhoria salarial etc. Apesar de concordar com a luta deles, não fiquei nem um pouco feliz por ficar com um semestre quase perdido. E agora, que tudo 'está se normalizando', as matérias estão super apertadas tentando recupar o tempo perdido desses 4 meses de greve. Enfim, espero que compreendam que, fiquei presa em assembleias, reuniões, etc, pq essa greve não foi um período de férias, mas um período de muita dor de cabeça -.-
Quanto a minha vida, tive alguns problemas familiares, mas graças a deus tudo está 100% melhor, e finalmente eu pude retornar a escrever! *-*
Na verdade eu nunca parei, só não tinha tempo de me aprofundar na história. Às vezes escrevia uma ou duas linhas por dias, e ficava mega triste por não poder postar aqui à vocês, mas eu também não iria entregar um trabalho de porco aos meus amados fãs.
O que importa agora, é que eu estou de volta, mesmo que não possa postar toda a semana, tentarei ser o mais breve possível com os capítulos para recuperar o tempo perdido!
E agradeço de coração as mensagens que recebi nesses últimos dias, elas me deixaram muito feliz e me deram força para continuar escrevendo, porque eu devo isso à vocês, que tem tanta paciência com essa autora!
Espero que gostem do capítulo, caprichei para deixar todos satisfeitos!
Kissus, e boa leitura!

Maipetto no Neko

Capítulo 32 – Abstinência


– Senhor Aizen, a senhorita Neriell está aqui embaixo querendo falar com o senhor.


– Mande-a subir. – respondeu a Gin sem hesitar.


Apressadamente Neriell subiu pelas escadas, sem paciência para aguardar o elevador. Poucos minutos depois bateu a porta de Aizen três vezes seguidas até Gin atendê-la.


O homem de óculos e face séria a encarava, e apesar da expressão de idiota trajada por ele, o ar a sua volta exalava sensações diferentes; de ameaça. Neriell já esperava isso vindo dele, mas era a primeira vez que presenciava com tanta clareza. Tendo maior lucidez da figura com quem lidava tornava mais fácil o tópico da conversa.


Aizen também analisava melhor Neriell. Ela havia ficado mais determinada, e pronta para confrontá-lo, o que poderia ser perigoso. A insegurança dos primeiros dias quando retornou de viagem tinham desaparecido completamente, apesar de ver alguns traços dela espalhados pelo corpo magro, e nas olheiras debaixo dos olhos. A própria tremedeira nos braços – que Neriell nem percebera – denunciavam o mal estado da mulher.


– Como posso ajudá-la hoje, minha querida? – perguntou parecendo informal.


– Não venha com esse papo para cima de mim Aizen. – respondeu curta e grossa – Eu vou te fazer perguntas e você irá respondê-las.


Erguendo uma das sobrancelhas parecendo surpreso, ele continuou fazendo-se de tolo:


– Neriell, o que quiser saber, pergunte. Estou aqui ao seu dispor.


– Ótimo. O que fez com a Matsumoto?


Com um olhar de surpresa que só ele sabia fazer, Aizen falou como se não compreendesse as palavras dela:


– Querida nós já tratamos desse assunto antes, lembra-se? Eu não faço idéia da onde a senhorita Rangiku está.


– Corta esse papo furado Aizen, eu sei que por trás desses seus óculos você é mesquinho e asqueroso, um grandessíssimo filho da puta, e foi por isso que eu pedia a Matsumoto que investigasse você.


Trincando os dentes o homem pomposo de terno e gravata – excelentíssimo executivo de uma das maiores empresas de advocacia do país – deixava transparecer um misto de raiva e estonteamento. Já tinha ideia das intenções de Neriell e sabia dos objetivos de Matsumoto, mas ouvi-los claramente da boca dela nesse tom desafiador faziam-no sentir-se inferior; e este sentimento lhe era desgostoso.


– Me espionar? – perguntou tentando permanecer no personagem – Estou aqui, sempre disposto a lhe receber, querida Neriell. Você não precisa utilizar mediações desse calibre para conseguir informações, basta me perguntar.


– Então me explique sobre este desfalque nos lucros secundários da empresa?


Jogando uma pasta em papel pardo em cima da mesa, Aizen baixou os globos castanhos vendo os números e letras unindo-se em detalhes comprometedores, detalhes muito bem mascarados, mas infelizmente, que haviam sido descobertos pela pior pessoa possível.


– Se há um desfalque na empresa isso não era do meu conhecimento. – disse frio e calculista.


– Bem, seja lá quem for meu querido Aizen, foi muito esperto e meticuloso, Na verdade, deixe-me elucidá-los à você: os lucros secundários da empresa baseiam-se em casos de pequeno porte, com pagamentos mínimos, abaixo da média esperada a cada trimestre da empresa. No entanto, quando esses valores são somados geram uma quantia significativa. Como os pagamentos são mínimos, toda vez que algum valor começa a ultrapassar o limite para ser considerado um caso secundário, esse lucro ‘extra’ é facilmente e muito meticulosamente transferido a cinco contas diferentes em cinco bancos, totalizando uma quantia de mais de duzentos mil em cada uma. Por fim, a quantia ganha ao final de cada ano chega a mais de oitocentos mil. Ah! É mesmo! Essa falcatrua vem acontecendo há pelo menos onze anos, então faça as contas: oitocentos vezes onze, são mais de oito milhões, sem contar a renda mensal da porcentagem em cima dessa quantia nos bancos.


Cada palavra saindo da boca de Neriell fazia Aizen apertar os braços da sua poltrona escondidos por debaixo da grande mesa de mogno marrom enquanto seu rosto permanecia inalterado escutando os detalhes das descobertas da mulher. Forçava vez ou outra um suspiro de surpresa mesmo sabendo ser inútil. Questão de hábito, talvez, querendo encobrir a falsidade. E ela continuou para seu desespero:


– Mas eu não falei a melhor parte de tudo isso Aizen. – sorriu – Essa mente espetacular esqueceu-se de um detalhezinho, um empecilho no meio desse maravilhoso plano: o dinheiro só pode ser retirado desses bancos com a autorização única e exclusiva do dono da empresa: Grimmjow Jaegerjaquez. Bem, acho que eu saí do tópico das perguntas para os das revelações. – riu rapidamente, desafiando o homem — Será que o fato do meu conhecimento sobre a empresa ser bem mais vasto que os de uma simples assistente são um problema para você, Aizen?


Neriell viu o tremor nos olhos de Aizen e mesmo sendo incapaz de provar a culpa dele, ou mesmo da existência das contas, pois elas estavam sendo mascaradas, havia ficado satisfeita com os resultados. Sem dizer mais nada e sem querer ouvir a voz irritante do homem contando novas anedotas, deu meia volta batendo a porta do escritório, caminhando firme pelo corredor.


Calado como sempre Gin continuou a servir o chá em uma xícara e o bebeu deixando o calor preencher o estômago. Evitava o olhar do homem, pois imaginava a fúria urgindo dentro dele, e não queria ser o primeiro a enfrentá-la. Depositou outra xícara na mesa bem na frente de Aizen apenas para ver a porcelana ser arremessada contra a parede espatifando-se no piso. O chá molhou o carpete e uma fumacinha cheirando a camomila impregnou o ambiente.


Os óculos de Aizen caíram junto com a xícara e seu cabelo desgrenhou-se ainda mais, mesmo tentando jogá-lo para trás fora da cara. As veias nas laterais da testa pulsavam quase explodindo latejando como os dentes rangendo um contra o outro. Socou a mesa com os dois punhos arfando de raiva deixando as costas arqueadas.


Aproximando-se, Gin, o homem raposa, parou à sua frente cruzando as mãos na dianteira do corpo, perguntando calmamente:


– Devo tomar as providências senhor?


Após longas respirações Aizen recompôs-se. Ajeitou a gravata cinza de volta no lugar passando a palma das mãos nas pequenas entradas da testa. Abriu a gaveta da escrivaninha puxando um novo par de óculos e o colocou. Lambendo os lábios secos, sentindo as rachaduras com a língua, disse com a voz arranhada:


– Seja discreto e rápido. Neriell está mais esperta do que nunca e preciso evitar chamar muita atenção.


– Como queira senhor, afinal, essa é minha especialidade. – sorriu.


– Sim, por isso você está aqui Gin.


– Não poderia concordar mais, senhor.


Dando meia volta e indo até a saída, Aizen falou quase berrando antes de deixá-lo ir:


– E arrume essa sujeira! Detesto o cheiro de chá no carpete!


A porta fechou-se e Aizen ficou sozinho com seus pensamentos no escritório. Da janela pode ver Neriell saindo do prédio a pé. As passadas fortes e confiantes dela apenas o irritavam cada vez mais e mais, e dizendo a si mesmo como uma promessa, falou:


– Breve minha querida Neriell... Em breve acertaremos nossas diferenças...


Depois de bombardear Aizen, Neriell ponderou no meio do caminho ao dirigir pela cidade se havia falado demais. Sentia uma paz, contudo, por ter se livrado do peso de todas aquelas acusações. Matsumoto havia pagado caro para consegui-las, mas ao menos tinha respeitado a memória dela quando deixou a sala de cabeça erguida.


Parou em um sinal vermelho. Os olhos incharam-se com lágrimas ao baixar a testa no volante. Ainda precisava fazer muito se queria redimir-se com a amiga. Hoje havia sido o começo não de uma batalha, mas sim de uma guerra e seria preciso aumentar seu exército para vencê-la. Nisso um estalo veio a mente. O sinal ficou verde e a mulher pisou fundo no acelerador virando a esquina alterando seu percurso indo ao encontro de Grimmjow.


Em sua casa naquele mesmo instante, ainda incrédulo, Renji revia os acontecimentos do dia anterior. De tão animado havia separado na madrugada todo o material da faculdade mesmo sem saber sobre as próximas matérias do semestre. Queria revisar os estudos para numa futura consulta a Byakuya tentar parecer mais inteligente do que era. Se fosse por ele acreditava ser capaz de ir contra sua preguiça natural.


Hoje tinha marcado uma reunião durante o almoço com o professor. Pelo nome do lugar parecia ser um restaurante chique, então, precisaria usar uma roupa um tanto quanto ‘chique’. Abriu o armário procurando o que vestir. Decidiu por uma calça jeans preta que parecia ter um estilo social, e uma blusa de botão azul claro. Ao menos tinha um par de sapatos descente.


Pensou que todo o trabalho começaria somente na volta à faculdade, mas Byakuya era exigente. Queria colocá-lo a par de todos os detalhes para a indicação, além de prepará-lo melhor, pois, sendo o assistente de Byakuya teria de atender a requisitos específicos: reuniões de corpo docente, conferências, estágios, maratonas de estudo, dentre outras inúmeras coisas. Seria complicado trabalhar com um dos mais conceituados doutores do país, porém, valeria à pena.


Imaginando as incontáveis horas que passaria ao lado dele Renji perdeu-se nos pensamentos deixando um sorriso bobo estampado no rosto, notando o quanto havia ficado naquela pose idiota apenas depois de ouvir o telefone tocando.


Correu até a sala tropeçando no meio do caminho e com algumas peças de roupa presas ao seu corpo atendeu ofegante:


– Alô?!


– Renji! Vamos dar uma volta no parque hoje?


– Rukia? – indagou – Não posso, vou almoçar com o Byakuya-sensei.


– Eu sei, por isso mesmo!


– Hã?! – exclamou confuso.


– É quase impossível conseguir sair com o meu irmão, ele não gosta muito de fazer coisas em família que não sejam jantares executivos, ou comemorações de aniversário, que ele mesmo diz serem dispensáveis. Então, quero me aproveitar da situação, usando você como isca!


– Bem... Obrigado por me considerar útil em alguma coisa... – disse sarcástico.


– Perfeito! Vejo vocês no almoço! Não se esqueça de parecer surpreso ao me ver, se não ele não vai acreditar!


Desligando o telefone, Renji ficou parado olhando o aparelho sem entender muito bem as intenções de Rukia, mas agora, teria de reservar uma mesa para três no restaurante.


Em meia hora Neriell conseguiu chegar à casa de Grimmjow. Parecia séculos desde a última vez que o vira. O quintal estava bem mal tratado, com vinhas crescendo ao redor dos portões e folhas secas espalhadas pelas pedras formando a estradinha até a porta, sem contar na montanha de neve quase tampando o terreno. Estranhou, afinal, de três empregadas na casa nenhuma teve tempo para cuidar de algo tão simples.


Chegou à porta e tateou a beirada acima dela procurando pela chave reserva. Abriu-a entrando na casa.


De inicio viu apenas o pequeno corredor que levava aos outros cômodos.


O susto a acometeu quando empurrou a persiana da sala. Arregalou os olhos ao ver os móveis rasgados e revirados, espuma saindo dos travesseiros, pedaços de madeira jogados pelo piso, janelas destroçadas e peças de artesanato quebradas numa trilha desconexa. Indo devagar até as paredes passou a mão sobre profundas marcas de arranhões, alguns deles com manchas de sangue. Quem os fez deveria ter uma força monstruosa, pois chegou a arrancar pedaços da pele e unha.


Escorregava em alguns pedaços do chão cheio de água e terra formando um ambiente sujo como se fosse o resto de uma residência abandonada.


Na cozinha encontrou restos de comida sobre a pia, na mesa e no chão, atraindo moscas e algumas baratas.


Revistou todos os cômodos tomando cuidado para não fazer nenhum barulho, afinal, se ladrões tivessem invadindo poderiam ainda estar ali.


Contudo, essa era apenas a suspeita secundária da mulher. Seus medos apossavam-se dela pouco a pouco conforme caminhava vendo as obras de arte destruídas e não roubadas, livros antigos despedaçados, e outros bens valiosos deixados por lá para as traças, devorados por algum animal raivoso.


Ah certo, um animal...


Suando frio e com as mãos trêmulas Neriell foi ao único local da casa que não havia visitado: o quarto de Grimmjow. Engoliu seco quando girou a maçaneta ouvindo aquele som de metal enferrujando.


Sem nenhum ponto de luz o quarto parecia ter sido coberto por um manto negro. As portas que davam na varanda estavam escancaradas; a proteção de folha de seda as revestindo nem existia mais. Os móveis encontravam-se no mesmo estado do resto da casa, se não piores. Era impossível distinguir a cama do armário ou da cômoda, e pelo piso novas marcas alastravam-se nos quatro cantos do cômodo.


Um grunhido chamou sua atenção, mas nem teve tempo de olhar atentamente para a besta que o emitira. Alguma coisa bateu na parede ao seu lado estatelando nela, e no susto, soltou um grito pondo as mãos na cabeça.


– Saia daqui!


A voz gutural de Grimmjow deixou-a estática. Sem outras opções saiu do quarto fechando a porta com força.


Suando e tremendo, ela tentou falar alguma coisa, mas estava paralisada:


– Gri...Grimmjow? É você? – disse, a voz atravessando a porta abafada.


– Me deixe em paz!


– O que aconteceu?!


– Vá... Embora! Antes que se machuque!


– Grimmjow você precisa de ajuda!


– Saia Neriell!!


– Mas...


– AGORA!!!


Noutro grito esganiçado ela saiu correndo da casa esbarrando nos cantos, desajeitada.


Respirou de novo apenas quando chegou ao carro e deu partida voltando a dirigir pela rua de mau jeito derrapando as rodas na neve.


Estacionou numa calçada à metros dali, ofegante, apertando o volante quase arrancando o couro dele. Depois desceu a cabeça devagar deixando novas lágrimas escorrerem pelo queixo.


Meu Deus, quanto tempo havia se passado? Ou melhor, desde quando Grimmjow estava nesse estado?


Que amiga ela era, se nem ao menos teve a sensibilidade de ver a necessidade dele? Os gritos em silêncio, as tremedeiras, o olhar vago, foram todos esses pequenos detalhes lhe escapando da atenção, levando ambos para esse impasse, onde as opções se esgotavam, e a besta tomava cada vez mais conta de Grimmjow, tornando-o uma criatura sem raciocínio, guiada apenas pelos instintos.


Quando ouviu a história da primeira vez pensou em interná-lo no hospício. Quem hoje em dia além das crianças e tolos acreditam em lendas e contos antigos feito esse? Então, ao ver a primeira transformação dele pensou em internar ela mesma num hospital. Todavia, acreditava que aqueles poderes eram dádivas de Deus, um dom poderoso e útil. Mas no fundo tudo tem um preço; nenhuma graça vem sem custar algo, e Grimmjow estava pagando por todos os anos de imprudência.


Logo ele estaria condenado, sem condições de voltar a ser um homem, preso no corpo de um animal, zanzando pelo mundo sem nem ao menos recordar nada de sua vida.


– O que eu faço... – balbuciou deixando a água salgada entrar na boca – O que eu faço... O que eu faço para te salvar Grimmjow...



Foi então que ela percebeu. Estava na sua cara o tempo todo. Não era ela quem poderia salvar Grimmjow, Neriell não tinha esse poder em suas mãos... Mas sabia quem o possuía.


Engatando a marcha girou o carro tornando a dirigir. Primeiro, precisava ir até seu apartamento, depois, iria procurar pelo endereço de Kurosaki Ichigo.


Na sua casa, sentado no sofá, Ichigo soltou um espirro sentindo um frio na espinha logo depois.


– Algum problema Ichi-ni? – perguntou Yuzu.


– Nada, apenas um calafrio.


– Devem estar falando de você. – comentou Karin.


Nisso o telefone tocou deixando Ichigo um pouco assustado; não que fosse supersticioso nem nada, mas essas coincidências acabam por aguçar a imaginação dele. Pegou o telefone do gancho dando o controle remoto nas mãos de Yuzu:


– Alô?


– Ah! Kurozaki-kun!


– Oi Inoue, tudo bom?


– Sim! E você, como está?


– Bem. Aconteceu alguma coisa?


– Oh! Nada de mais, só queria saber se gostaria de almoçar comigo e os meninos,


– Claro! Onde vocês querem ir?


– Num lugar novo que o Ishida-kun encontrou, disse ser muito bom!


– Se é coisa do Ishida, deve ser algum lugar metido a besta!


A garota riu tornando a falar:


– De vez em quando é divertido fazer coisas diferentes. Vamos tentar?


– Okay, me passa o endereço e eu encontro com vocês lá.


Anotando num pedaço de papel Ichigo percebeu que o tal restaurante tinha um nome francês. Como imaginara, chique e provavelmente caro. Bufou dando adeus as suas economias. Depois foi até o quarto procurar roupas descentes.


Yuzu e Karin chegaram a ajudá-lo dando algumas sugestões e por fim escolheram um traje, digamos, esportivo social. Ao menos não ficaria se sentindo sufocado num terno ou coisa do tipo. Tratou de se arrumar e sair de casa, evitando as perguntas indiscretas de seu pai.


Duas horas depois tinha chegado à porta do restaurante esperando os amigos.


– Ichigo...


Virando-se o ruivo avistou Chad seguido de Ishida.


– Olá Chad; quatro-olhos.


– Pensei que esse apelido tinha ficado para o ensino médio, Kurosaki. – replicou Ishida.


– De vez em quando eu gosto de te lembrar que apesar da sua pose toda você continua sendo um quatro olhos metido.


Rindo, Kurosaki sentiu um soco no ombro, porém continuou a gargalhar.


– Eu ainda não sei por que continuo dando ouvidos a você.


– Porque até mesmo robôs precisam se comunicar com a raça humana de vez em quando.


– Quer levar outro soco?!


– Olá rapazes!


Com a presença de Inoue os dois começaram a se comportar mais. Pela primeira vez eles viam a amiga usando um vestido longo, apesar de simples. Muito bonito, deixando-a ainda mais radiante. Chad usava as blusas de sempre só que junto duma calça social. Ishida, bom, ele não tinha dúvidas, apenas precisou fechar os olhos e escolher entre os milhares de ternos no armário. Sério, ele deveria ser levado a um banho de loja...


– Vamos entrar? – disse Ishida – Se não iremos perder a reserva.


– Porra precisou fazer reserva? – indagou Ichigo.


– Sim, e seria pedir demais para você maneirar esse seu linguajar?!


– Tá bom, tá bom, já entendi, lugar chique igual Ichigo não pode se divertir.


– Isso! Mantenha esse pensamento até irmos embora.


– Sério Inoue, ainda não comecei a ver a graça desse almoço.


A mulher riu, tentando animá-lo, afinal, nem ao menos chegaram a sua mesa.


No abrir das portas tudo que Ichigo conseguiu pensar foi: branco. Parecia que diversas latas de tinta branca foram explodidas ali dentro, inclusive nas mesas, cadeiras, nos uniformes, e etc.


Foram recebidos por uma mulher de coque, bem maquiada e um salto agulha de quinze centímetros. Ao se sentarem, Ishida corrigiu o ruivo pela maneira sem jeito com a qual ficara em sua postura ouvindo novas reclamações e xingamentos dele. Por fim Ichigo resolveu acatar as críticas do quatro olhos ou então ficariam nessa eterna discussão o almoço todo.


– Na próxima vez eu escolho o lugar... – comentou baixinho.


– Desde que não seja um barzinho de esquina. – implicou Ishida.


– Eu procuro um que fique no meio da calçada, assim você ficará tranquilo.


– Faça quantas piadas quiser, mudar de ares de vez em quando faz bem a saúde.


– Eu concordo Ishida-kun – disse Inoue – devemos experimentar a comida de diversos lugares! Na verdade deveríamos experimentar todas as comidas do mundo! Da china, Índia, Alemanha, França, Itália, Noruega, Brasil, América, Chile...


– Okay Inoue, nós entendemos. – falou Ichigo a cortando antes que o pensamento dela se estendesse por horas.


Analisando o menu Ichigo só via pratos minúsculos com preços exorbitantes. Iria dar uns socos em Ishida quando saíssem dali. Enfim, escolheu aquilo que parecia ser um pedaço de carne com salada, e que não doeria tanto no bolso. Seus amigos escolheram outros pratos, e tiveram de segurar Inoue, pois ela queria ordenar mais de dez ao mesmo tempo!


Rindo Ichigo esqueceu as reclamações sobre o restaurante apenas aproveitando a companhia dos amigos. Aliás, enquanto Ishida falava sobre os diferentes tipos de molho do cardápio, o ruivo lembrou sobre a conversa que não tiveram. Estava enrolando, e quanto mais o fizesse, mais seria difícil. Talvez pedisse a ajuda de Orihime, afinal, ela tinha um jeito... Especial de contar as coisas, podendo o auxiliar nessa ‘tão difícil tarefa’.


No mesmo restaurante, mas numa área reservada, outro ruivo, porém tatuado, usava as roupas sociais separadas mais cedo. Nervoso, suava frio e nem conseguia manter as mãos quietas no colo. Mal sabia falar os nomes dos pratos deixando que Byakuya escolhesse por ele.


– Então... – comentou Renji tentando quebrar o gelo.


Byakuya olhou de baixo para cima deitando o livro sobre a mesa. Retirou os óculos guardando-os no bolso da camisa branca, perfeitamente alinhada com as calças escuras e os sapatos lustrados. Ele sabia como causar uma boa impressão vestindo pouco. Renji reparou em cada detalhe da sua roupa: nos botões da camisa, e como o primeiro deles ficava na pontinha do buraco quase saindo, sendo uma tentação pensar nele desabotoando. Apesar das feições mais masculinas a calça dele definia bem suas pernas, ou pelo menos o tatuado fora o único que reparou nisso.


Enquanto divagava consigo mesmo, Byakuya falou chamando a atenção de Renji:


– Fui convidado a uma conferência durante o natal. Ela ocorrerá noutra cidade, e precisarei de um assistente. Se não se importar com a data, quero que vá comigo.


– O senhor e eu... Numa viagem?


– Conferência. – corrigiu-o.


– S-sim. Bem eu... Não tenho muito o que fazer no natal mesmo. – disse parecendo um pouco desapontado – Ficaria feliz em ajudar o senhor sensei.


Acenando a cabeça Byakuya baixou a mão até a pasta encostada na lateral da mesa retirando alguns documentos e entregando-os a Renji.


– Preciso que estude esses esquemas, talvez seja necessário aplicá-los durante a conferência. Também seria bom treinar seu inglês e seu francês para começar.


O professor continuava direto como sempre: sem meias palavras, sem explicações longas, apenas falou sua proposta e pronto. Todavia, engolindo seco, Renji deu uma rápida tossida, agradecendo pela comida ter chegado nesse mesmo instante, pois assim ocupar-se-ia do prato e falaria menos.


Poderia estudar os documentos, lê-los e relê-los e decorar tudo, no entanto, falava muito pouco de inglês e sabia menos de francês. Seria melhor rezar para não precisar usar nenhuma delas.


Fugindo desse pensamento, viu a delicadeza de Byakuya presente mesmo enquanto comia. Seus dedos longos e finos seguravam o garfo sem apertar muito o metal. A outra mão cortava a carne devagar e fortemente a ajeitando no talher e a pondo na boca rapidamente, sem deixar molho escorrer pelas laterais. Quando a carne macia tocava seus lábios e ia passando pela língua Renji imaginava se poderia ser ele tocando-o num beijo, e ao invés do sabor suculento da carne vermelha, poderia provar o gosto de Byakuya.


No meio de seu sonho revirou os olhos mirando o salão principal do restaurante. Qual foi sua surpresa ao ver Ichigo sentado conversando e rindo com seus amigos; e sem sinal de Grimmjow.


Deixou a face entristecer-se parando o garfo em cima da comida. Não havia mais falado com Ichigo desde o dia em que brigara com Grimmjow. Na verdade nem sabia ao certo o que deveria dizer. Tudo aconteceu tão rápido e uma aproximação agora, de qualquer tipo, mesmo para recuperar o estrago feito, seria mal recebida.


Parecendo notar o mal estar de Renji, Byakuya direcionou seu olhar a ele discretamente, guiando sua cabeça a mesa de Ichigo.


– Algum amigo seu? – perguntou, estranhando a si mesmo por estar curioso com algo trivial.


– Oh! Nada de mais. – respondeu o tatuado sem graça – É só... Um conhecido meu, nada de mais.


No final da frase ele retesou um pouco a voz deixando-a amarga. Byakuya podia ser pouco expressivo, mas sabia enxergar o pesar dele.


Sua orelha ardeu um pouco numa forma de aviso. Sem perceber aquele olhar entre Renji e o rapaz ruivo misterioso deixou-o perturbado. Passou a engolir a comida sem nem mastigar direito. Detestava quando pequenas coisas o deixavam fora do normal ainda mais quando era relacionado à Renji. Se queria continuar a vê-lo precisaria controlar suas reações.


Contudo, mal conseguia controlar seus pensamentos. A maneira que Renji falara, como olhou o garoto, e as feições tristonhas de seu rosto, deixava claro que havia mais do que uma amizade. A questão passando em sua mente o deixava louco: o quão próximos eram? E porque isso o incomodava tanto?


Queria poder sair do restaurante e enfunar-se em casa, mas seria deselegante, sem dizer impulsivo e sem noção. Teria de aguentar o fim do almoço, agora, uma tortura, pois ficava frente a frente com o motivo de suas distrações.


O prato começou a ficar vazio aumentando a ansiedade de Byakuya, apesar de não demonstrar. As mãos estavam suadas, mas, mesmo assim, sua face serena permanecia a mesma, disfarçando seus sentimentos.


Abstraindo-se da presença do professor, Renji deixou as ideias voarem. Lembrou-se dos dias ao lado de Ichigo e a pequena aventura que viveram. Foi por pouco tempo, mas não se arrependia de nada. No entanto, sentia falta das conversas bobas, dos risos, das saídas descompromissadas. Queria a amizade de volta, pois bem ou mal, Ichigo foi um dos poucos bons amigos que fez.


Não percebeu nenhuma vez as diversas vezes que deixou a cabeça virar por conta própria na direção da mesa dele. O ruivo estava radiante, vestindo uma bela roupa. Os amigos dele pareciam estar se divertindo, afinal, quem não estaria? Ichigo, apesar do lado turrão e grosso, possuía uma energia contagiante, capaz de cativar as pessoas apenas com uma palavra, ou um sorriso.


No entanto, aqueles sentimentos confusos e repentinos da paixão haviam o abandonado no momento em que reencontrou Byakuya, e mesmo sendo um sonho impossível, o conforto proporcionado pelo professor ao ‘livrá-lo’ desse pesar tinha sido uma benção.


Byakuya, novamente, e sem controle sobre os próprios movimentos, também manteve a atenção voltada as reações de Renji com relação ao ruivo da outra mesa. Ele respirava fundo, sorria, depois se entristecia, sorria de novo. Esse misto de expressões deixava-o louco por dentro, pois indicava que o garoto possuía certo controle emocional sobre Renji.


Porque diabos isso importava? Acaso não queria saber sobre os relacionamentos anteriores dele, pois isso o machucava de certa forma? Não, impossível. Não era tão inocente assim e entendia que todos possuem um passado, bom ou ruim. Aquilo chamando a sua atenção era o fato de Renji ter tido algum ‘caso’ com outro homem.


Apesar da sua criação tradicional, esses assuntos não eram um problema muito menos um motivo para menosprezar os outros. Cada um deve ser permitido fazer as suas escolhas sem ser julgado. Mas... Talvez, saber que esse tipo de relacionamento estava dentro dos, digamos, parâmetros de Renji, deixava-o curioso, para não dizer entusiasmado. Ele gostava de... Sair com apenas homens, ou havia sido uma coisa esporádica?


Mas... Por Deus! O que estava se passando em sua mente? Formava um cenário completamente surreal! Acaso esperava ter alguma espécie de esperança com seu próprio Renji; seu próprio aluno?!


Ah, como o destino é engraçado. Antes de poder formular mais suposições a voz de Rukia o despertou do transe, além de ter causado surpresa.


– Ni-san! – exclamou a morena sorrindo de orelha a orelha – Você por aqui?


– Ruka, porque está aqui? – indagou tornando a ter a voz calma.


– Ah, estava passando por aqui, resolvi almoçar devido a hora, e do nada! Encontrei vocês!


A garota tinha um péssimo lado artístico, e sua atuação só convenceria pela cara de pau dela. No entanto, como havia prometido, Renji teve de entrar no seu joguinho:


– Rukia, mas que surpresa! – falou, arqueando as sobrancelhas.


– Renji, eu nem sabia que você e o Byakuya-nisama iriam almoçar aqui! Hohoho...


– Rukia, se vai almoçar pedirei uma cadeira extra para você. – disse Byakuya – Mas saiba que é indelicado atrapalhar o almoço dos outros.


– Eu sei ni-sama, me desculpe.


Logo um dos garçons chegava com uma cadeira, e entregou o menu a garota que o analisava feliz. Pediu um dos seus pratos favoritos – peixe frito – e aguardou ansiosa pela chegada dele.


– Então, quais são os planos para a tarde de vocês? – indagou apoiando o rosto com a palma da mão.


Ouviu uma pigarreada leve de Byakuya repreendendo-a por colocar os cotovelos sobre a mesa, retirando-os em seguida.

– Bem eu estava tendo uma reunião com o Byakuya-sensei. – falou Renji parecendo sem graça.


– Na verdade ainda estávamos discutindo sobre ela. – interrompeu Byakuya.


– Continuem então! Não se importem comigo, finjam que sou um vaso de flores.


– Podemos continuar a reunião outra hora. – finalizou cortando outra fatia da carne em seu prato.


– Nesse caso... Nós poderíamos ir ao parque de diversões da cidade! Ele tem atrações ótimas nesse fim de ano.


– Esse tipo de divertimento não me apetece Rukia, você sabe disso.


– Mas o Renji deve querer ir, certo Renji?


O sutil chute na perna do ruivo por debaixo da mesa deu-lhe a deixa, além de fazer suas bochechas corarem, pois falar de maneira tão informal com seu professor parecia um tanto quanto estranho:


– Bem faz tempo que não vou ao parque. – disse começando a suar.


– Se esse é o caso você e Rukia podem ir após o almoço. Talvez seja uma boa idéia caminhar no final da tarde.


– Venha conosco! Vai ser divertido ni-sama.


– Eu já falei que não gosto desses lugares.


– Mas o Renji é seu aluno, e hoje é um convidado seu! Não deveria deixá-lo sozinho, mesmo que com outra pessoa. Não foi assim que me ensinou ni-sama...


O sorrisinho de canto de boca de Rukia explicava melhor as intenções dela ao usar Renji de ‘isca’. E o plano parecia ter dado certo, pois Byakuya tremeu um pouco os olhos, sem saber como revidar as palavras da irmã, afinal, fora ele mesmo quem a educara nas regras de etiqueta.


Relutante, Byakuya falou, por fim, rendendo-se ao pedido da garota:


– Pois bem – bufou – iremos depois do almoço.



Sorrindo, Rukia deu uma risada na direção de Renji, fazendo-o se acanhar encolhendo aos poucos na cadeira, não pelo fato de ter sido usado pela amiga, ou mesmo por estar sem graça, afinal, atuação não era seu forte. No entanto, estava nervoso por ter de passar mais horas ao lado dele, ainda mais em um ambiente como um parque de diversões. Sério, onde estava com a cabeça quando aceitou essa idéia da Rukia?!


Ao menos ela estava feliz. Devia ser complicado mesmo sair com Byakuya, ou mesmo falar com ele sem o intermédio de outros. Além da personalidade difícil, ele era um homem atarefado, e mal parava em casa. Compreendia os caprichos da amiga e seus pedidos extremos.


Na mesa de Ichigo, os amigos ainda se divertiam antes da conta chegar. O ruivo só não deu um grito dizendo inúmeros palavrões porque Inoue estava ali. Mas com certeza reforçava sua vontade de socar Ishida. Teria sido mais vantajoso se tivesse vendido um rim para pagar a conta, porque o cartão tinha ido para o espaço! Enfim... Coisas que acontecem.


Quando se preparavam para deixar o restaurante, Inoue permaneceu imóvel no meio do saguão alguns instantes até Ichigo perceber:


– Tudo bem Inoue? – perguntou à amiga.


– Acho que eu vi a Kuchiki-san.


– O que? – indagaram os três juntos.


– Ali na parte superior, podia jurar que a vi sentada em uma mesa.


Mirando na direção apontada pela garota os quatro viam os vultos do cabelo preto de Rukia movendo-se para frente e para trás enquanto ria.


Nem puderam acreditar! Ela havia estudado com eles no colégio, e depois de anos sem contato, a encontraram de um jeito tão inesperado. No final das contas a idéia de Ishida havia sido boa.


– Tem mais alguém sentado com ela. – comentou Ishida.


– Aquele ruivo não é amigo seu Ichigo? – perguntou Chad.


– Ei! É o Abarai-kun! – exclamou Inoue.


Porém Ichigo não ficara nem um pouco feliz. A situação entre os dois estava complicada. Não sabiam se continuavam amigos ou se passariam a se tratar como estranhos. Não conseguia imaginar andar pelos corredores da faculdade sem dirigir a palavra à ele. Apesar de todos os problemas, entendiam-se muito bem.


Inoue entrelaçou os braços entre os de Ishida e Chad, fazendo o quatro olhos corar e o gigante envergar-se para alcançar a baixinha, e chegando ao lado de Ichigo falou:


– Vamos até lá falar com ela! – disse animada.


– Hmm. Não acho uma boa idéia Inoue... – falou o ruivo coçando a nuca.


Antes de entrarem numa discussão o celular de Ichigo tocou e agradecendo pela chance atendeu-o apressadamente:


– Alô?


– Ichi-ni...


– Yuzu? Tudo bem?


– Está sim, mas... Tem uma moça aqui em casa.


– Que moça? – perguntou curioso.


– Ela disse que se chama Neriell-san, e está bem nervosa. Melhor você vir logo.


O nome não lhe era estranho, na verdade a figura da mulher de cabelos esverdeados formava-se na sua mente. E em poucos instantes Grimmjow saltou em seus pensamentos, e o calafrio que sentira mais cedo o acometeu de novo.


Sem explicar nada se despediu apressadamente dos amigos e, fora do restaurante, procurou algum taxi a fim de chegar em casa o mais rápido possível.


Grimmjow estava sem dar noticias há uns dois dias. Imaginava ser por conta da empresa e não queria parecer enxerido, perguntando sobre ele a todo instante. Pensando agora, havia sido imprudente. Nem mesmo Grimmjow desapareceria por tanto tempo sem dar um sinal de vida qualquer. Mesmo que seus instintos estivessem errados precisava ter certeza de que ele estava bem.


O coração acelerava dentro do táxi, e pediu várias vezes ao motorista para apressar a corrida. Cada virada de esquina fazia uma gota fina de suor escapar da testa e os globos tremiam freneticamente.


Uma sensação ruim embrulhava seu estomago junto duma leve dor de cabeça. Neriell era uma amiga de Grimmjow, nem a conhecia direito. O motivo de sua visita deveria ser algo sério.


Jogou as notas de dinheiro no banco da frente sem conferir quanto tinha dado. Bateu a porta correndo para casa. Havia um carro preto na frente dela, e deduziu ser o de Neriell.


Enfiou a mão no bolso puxando as chaves. Teve dificuldade para encontrar a certa e girá-la na fechadura, mas por fim conseguiu entrando ofegante na casa.


– Yuzu! – exclamou.


Andou alguns passos sem tirar os sapatos, o que acabou sujando o chão de neve. Antes, porém, de ouvir uma resposta da irmã, sentiu seu braço ser envolvido por uma mão o apertando com força, apesar de trêmula.


– Ichigo! – falou Neriell.


O rosto dela estava pálido. O ruivo arregalou os olhos tentando segurá-la, pois parecia que ela ia cair a qualquer instante. A maquiagem dos olhos estava borrada escorrendo numa espécie de tinta preta até o queixo. Seus lábios ainda um pouco rosados tinham rachaduras, e seus cabelos longos estavam desgrenhados.


Seu estado era de puro pânico, assustando Ichigo ainda mais, e fazendo os batimentos do coração quase pularem de tão rápidos. Seus piores temores iam se confirmar com as próximas palavras da mulher:


– Você precisa ajudar o Grimmjow! – exclamou tornando a chorar.


Envergando as sobrancelhas ganhando um aspecto temeroso e preocupado ao mesmo tempo, o ruivo indagou:


– O que aconteceu com ele?


– Eu... Não sei! – balbuciou – Como pude deixá-lo chegar nesse estado... – disse parecendo desconexa por alguns segundos – Mas você pode!


– Posso o que?! – perguntou segurando os dois ombros de Neriell.


– Você pode salvá-lo... Por favor... Salve o Grimmjow! Porque eu não consigo! Tem que ser você... Só você Ichigo! É o único!


Neriell ficara sem ar acabando por desmaiar nos braços de Ichigo. Ele a segurou gentilmente colocando-a em cima do sofá. Yuzu e Karin observavam a cena toda à distância, curiosas e consternadas.


– Ichi-ni... – falou Yuzu aproximando-se – Ta tudo bem?


– Vai ficar tudo bem Yuzu – disse sorrindo à pequena.


– Você vai sair de novo, não é? – perguntou Karin pondo a mão na cintura.


– Sim. Por favor cuidem dela. Se o pai chegar peçam a ajuda dele.


– Ichi-ni!


– Tudo bem Yuzu, eu volto logo, não se preocupe. Vou cuidar de tudo.


Pegando as chaves do carro de seu pai, Ichigo saiu da casa com um olhar determinado. Precisou segurar as emoções na frente das irmãs, pois não era necessários preocupá-las. Sempre fora assim, desde a morte de sua mãe. Sorrisos para disfarçar preocupações e problemas. Elas tiveram uma infância difícil, e não era preciso bombardeá-las com novos problemas. No entanto Karin era esperta. Deveria ter percebido alguma coisa. Melhor assim, ela poderia acalmar Yuzu.


Suas emoções acometeram Ichigo quando se sentou no carro ligando o motor. Metendo o pé no acelerador virou o volante com tudo para o lado cantando os pneus na neve a jogando por cima do capo e de volta ao chão num rápido deslize.


Tinha de correr, apenas correndo chegaria a tempo. A tempo de que, não sabia, mas sentia em seus ossos e com todos os seus instintos que precisava encontrar Grimmjow logo. O aperto no coração o lembrava da amargura de não tê-lo por perto, e algo lhe dizia que em breve, perderia Grimmjow para sempre.


Na sala da cada dos Kurozaki, Yuzu passava um pano frio na cabeça de Neriell. Depois apanhou um pedaço de algodão o usando para limpar o rosto dela. Olhou a irmã mais velha vendo-a encarar a porta de braços cruzados. Perguntou logo depois:


– Karin-chan, o Ichi-ni está bem?


Parecendo acordar Karin sorriu, igual a Ichigo, passando a mão na cabeça de Yuzu:


– Você conhece o Ichi-ni Yuzu. Ele sai sem avisar, chega quando quer. Mas ele sempre volta, e quando ele volta tudo fica bem de novo. Então não se preocupe, tenho certeza de que o Ichi-ni voltará já.


Yuzu sorriu voltando a cuidar de Neriell. Talvez fizesse um chá para a estranha mulher quando ela acordasse. Karin sabia falar muito bem, e ela tinha razão: Ichigo chegaria logo, e tudo ficaria bem de novo.


No trânsito Ichigo pensou ter visto uma ou duas viaturas da polícia, mas as ignorou. Se alguma o viu e quis pará-lo deve tê-lo perdido de vista, pois estava com o pé afundado ao máximo no acelerador. Ultrapassou sinais vermelhos e impediu a passagem de outros carros e pessoas, coisas que normalmente não faria. Contudo, essa situação estava bem longe de ser normal.


Em alguns minutos estacionou na frente do templo onde Grimmjow morava. Notou que não havia ninguém por perto, preferindo assim.


Disparou numa velocidade absurda até a porta, derrapando na neve, caindo, usando as mãos como apoio, e enfim chegou ao seu destino. A porta estava aberta – pois Neriell deixou-a assim na sua visita de mais cedo – e o espanto de Ichigo foi tão grande quanto o da mulher.


– Grimmjow! – gritou por ele da entrada sem obter resposta.


Andou por entre os destroços da casa, esquivando-se dos empecilhos no caminho e novamente chamou por seu nome. O silêncio deixou-o apreensivo, mas seus ouvidos atentos ouviram o que parecia ser um grunhido vindo de dentro de um cômodo.


Na porta haviam arranhões largos e profundos quase deixando possível ver o lado de dentro de tão fina que a madeira tinha ficado. Disse o nome de Grimmjow novamente escutando um novo som assemelhando-se a um ronco forte de algum animal. Respirando fundo, pois era a única forma de se acalmar, repousou a mão sobre a maçaneta a rodando lentamente. A fechadura fez um ‘clik’ e a porta foi para a frete revelando o quarto destruído.


Seus olhos castanhos nem careceram buscar muito, arregalando-se em seguida quando mirou o canto enegrecido do quarto. Encolhido num canto uma figura escondida nas sombras, mesclando-se com elas, revelava sua forma. Apenas o brilho azul dos olhos ressaltava naquela escuridão.


Aquilo não era um ser humano, muito menos um animal. Era algo no meio dessa definição, uma besta enfurecida, pronta para destruir o primeiro que passasse a sua frente. Ao menos esse foi o primeiro pensamento de Ichigo ao avistar Grimmjow daquela forma...


Continua



Notas finais
Bem! Chegamos a parte tensa da história, e talvez um dos maiores problemas de Grimmjow e Ichigo!
Já estou trabalhando no próximo capítulo para entregar a vocês!
Espero que os dois se resolvam, porque a coisa tá feia para o lado do Grimmjow =X
Novamente, muito obrigada pelo apoio, e até a próxima =D