Maipetto no Neko
20 Capítulo 20 - O que surge à frente
Notas iniciais
Boa leitura!
Maipetto no Neko
Capítulo 20 – O que surge à frente
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Vinte e três de Dezembro de 2011
Aquilo não era um ser humano, muito menos um animal. Era algo no meio dessa definição, uma besta enfurecida, pronta para destruir o primeiro que passasse a sua frente. Ao menos esse foi o primeiro pensamento de Ichigo ao avistá-lo daquela forma.
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Trinta e dois dias antes
Essa sensação gostosa de frio na barriga, e um nada preenchendo o estômago, mesmo quando se está satisfeito, tão comum quando se está apaixonado, era uma das melhores coisas da vida. Receber essa afeição não só alegrava como também alimentava esse sentimento. O fato é que por mais que tentasse Ichigo não conseguia ter essa atração por Renji. Ou melhor: essas demonstrações de afeto eram esperadas por eles, porém vindas de outra pessoa.
Renji havia sido nos últimos dias uma espécie de escapatória dos pensamentos já tão repetitivos e decorados pelo garoto, e mesmo na sua total falta de experiência com esses assuntos, digamos, complicados – para não citar românticos – ele sabia que estava agindo como um grande filho da puta.
Quer dizer, não era como se fosse totalmente apático em relação à Renji. Desde a viagem de Grimmjow tinham se aproximado, e interagido mais “livremente”, e mesmo com o “amigo” tendo lhe dito estar disposto a esperar o quanto que fosse por ele, sabia que esse tipo de coisa era filha da putagem.
Dez dias haviam se passado desde então. Os telefonemas, por alguma razão desconhecida tinham parado. O que mais poderia querer depois de tanto xingar e discutir com Grimmjow sobre o fim do “relacionamento?” Ele tinha de aceitar de uma vez por todas! Só não esperava que ele desistisse tão fácil, só não contava com a carência que essas ligações fariam.
Merda! Odiava agir assim. Como parecia babaca ao pensar em ouro homem dessa forma. Se bem que conhecendo como se conhecia, Ichigo tinha certeza de que agiria da mesma maneira em um relacionamento, digamos, “normal”. Nas outras vezes onde saíra com algumas garotas do colégio, sempre era o atrapalhado bobo alegre e super envergonhado. Algumas até acharam “fofinho”, mas logo enjoavam. Fazer o que, talvez a falta de um conselho decente – porque seu pai não servia para tal coisa – o tivesse feito ter esse medo recorrente de sempre esperar o pior em tudo, além do desconforto que era estar com alguém e não saber como agir ou falar. Sentia-se assim com Renji também, e até mesmo com Grimmjow, bom, ao menos na maioria das vezes.
O gelo do copo estava acabando. O refrigerante nem tinha mais o gosto inicial parecendo apenas uma água estranha e colorida com um sabor fora do normal. Foi até a cozinha da casa da amiga onde jogou fora o restinho da bebida indo se servir de outra, quando foi surpreendido pela própria anfitriã:
- Kurozaki-kun! Você ainda não deu sua opinião! – falou Orihime, convicta.
- Opinião? Sobre o que?
- Qual sabor de bolo eu devo fazer! Eu particularmente gosto desse aqui. – mostrou-lhe o papel onde tinha escrito a receita e colado uma foto ilustrativa.
- Bolo de banana com calda de laranja e acerola, recheado de baunilha limão e pêssego, com nozes e molho de carne?!
Leu arregalando os olhos conforme descia as letras no papel; ela gostava de cada coisa estranha...
- Você realmente gosta disso?! – completou mirando a amiga sorridente.
- Claro! É uma delicia, você tem de provar Kurozaki-kun! Ah, mas a Tatsuki-chan disse para eu fazer uma coisa mais simples...
- Tipo o que?
- Um bolo de chocolate ou de frutas... Mas eu gosto tanto desse!
- Talvez os outros convidados não tenham o mesmo gosto... Ou o paladar, sei lá.
- Oh! É verdade Kurozaki-kun! Não tinha pensado nisso! Obrigada!
- Não foi nada.
- Não, eu digo, de verdade, obrigada! Uma futura cozinheira como eu deveria saber que o certo é agradar aos clientes e não a si mesma! Você abriu meus olhos Kurozaki-kun! – terminou com um brilho nos olhos, deixando o amigo um pouco desconfortável.
- Entendi... Se te ajudei de alguma forma, então, que bom.
- Sim está decidido! Bolo de laranja com chocolate, o mais simples.
- Nesse caso, eu acho que vou voltando para a sala.
- Ah é verdade, aquele seu amigo está lá sozinho né?
- O Renji sabe se socializar.
- Sim ele é muito simpático, mas ficava toda hora olhando para a porta da cozinha como se estivesse esperando que você aparece-se por ela e voltasse à sala.
Parando no meio do caminho, Ichigo apoiou-se na beirada do balcão, deixando o rosto voltar à tonalidade normal antes de sair daquela cozinha. Sim, Inoue era realmente muito inocente, e sabia o ser em todos os momentos, até nos mais constrangedores.
Percebendo o silêncio e a vermelhidão no rosto do amigo ela aproximou-se dele consternada:
- Disse alguma coisa errada, Kurozaki-kun?
- Que? Não, claro que não!
- Ah, deve ter sido quando eu comentei do Abarai-kun... Desculpa é só que...
Cortou a própria fala como se soubesse estar prestes a dizer algo um pouco inapropriado, mas isso apenas fez a curiosidade de Ichigo aumentar:
- “É só que”? – repetiu em tom de pergunta.
Pegando os materiais para fazer a massa do bolo, a menina foi depositando cada um deles na bacia lendo de vez em quando a receita. Ainda receosa, respirou fundo tomando coragem para falar:
- Bem, ele parece gostar muito de você Kurozaki-kun, dá para reparar na maneira que ele fica quando te olha ou quando está perto de você.
Deixando os ombros caírem e a cabeça enfiar-se entre eles, Ichigo baixou a testa tentando desviar da visão de Inoue. Ta, já era bem óbvio para Ichigo os sentimentos de Renji, só não esperava ser tão na cara assim que ele estava fim dele aos outros também.
- Perdão Kurozaki-kun, eu não disse por mal! – juntando as mãos na frente do corpo enquanto curvava-se um bocado, Orihime repetia o pedido de desculpas até sentir uma mão pousando sobre sua cabeça.
- Relaxa sua boba, eu to bem, de verdade. – falou o ruivo aliviando a tensão instalada nela.
- Eu imagino que isso seja um pouco estranho para você, não é Kurozaki-kun? – indagou ao erguer-se, tornando a preparar o doce.
- Estranho por quê?
- Quero dizer, antes você estava saindo com o Grimmjow-san, e agora está saindo com o Abarai-kun... Não é estranho sair com outra pessoa depois de tanto tempo com uma?
O baque chegou a Ichigo, porém fora apenas uma leve surpresa, mais pelo fato de ser comentado pela amiga. Ele já havia tido esses pensamentos, aliás, agora mesmo estes permeavam suas idéias.
Renji e ele não estavam realmente “junto”, claro, devido a hesitação do ruivo, pois pelo outro já estariam mais do que de namoro firme... Talvez fosse o pequeno medo, ou ainda as diversas dúvidas sem resposta que o deixavam tão inseguro. Confiava em Renji, mas ainda sentia a dor no pito quando pensava em Grimmjow.
Engraçado, tinha ido ao aeroporto aquele dia com a intenção de esclarecer tudo de uma vez por todas e definir qual seria sua ação após isso, mas acabou saindo de lá com novas dúvidas.
- Acho que estou sendo um grande babaca... – comentou vendo Inoue corar devido a falta de costume ao ouvi-lo falar com esse linguajar.
- Bem Kurozaki-kun, não tem como apressar essas coisas. Olha eu posso não saber tudo o que aconteceu com você e o Grimmjow-san, só sei que você estava triste e por isso resolveu terminar tudo com ele. Mas será que essa tristeza não era passageira?
- Ele tava me escondendo um bando de coisa Inoue, e não eram simples besteiras.
- Quando estudávamos juntos no colégio você também não muito aberto a conversas.
- Era diferente. Ninguém queria ser meu amigo e eu só me metia em brigas. Já contei a história à vocês.
- Admito que foi uma época bem perturbada... Você tinha seus problemas para lidar e isso atrapalhava muito seu convívio. Mas, será que o Grimmjow-san também não tinha alguns problemas desse tipo?
Sim esse pensamento também já lhe ocorrera. Não era estúpido, sabia que todos passavam ou tinham dificuldades com os quais lidar. Mas uma vez que tivera a amizade de Inoue, de Chad e até mesmo de Ishida, se abrira com eles em conversas mais tranqüilas e reveladoras. Demorou um tempo, mas sim, ele havia contado tudo à eles. Aquilo o deixando inseguro e tristonho era desconhecer as razões de Grimmjow. Simples frases, simples toques, simples palavras poderiam ter resolvido tudo, mas essas trivialidades pareciam brincadeira de criança perto de Grimmjow.
Queria perguntar, queria saber os motivos dele. Estas eram as piores dúvidas abrangendo sua cabeça, deixando-o sem sono e confuso. Estar perto de Renji nesses momentos de fraqueza apenas piorava a situação, pois estava abusando dos sentimentos dele, além de alimentar algo que provavelmente não vingaria. Ainda precisava acertar as coisas com Grimmjow, por mais difícil que fosse.
- Inoue, valeu pela conversa. – comentou por alto dirigindo-se a porta da cozinha.
- Sem problemas, qualquer coisa, estou aqui se precisar!
- Obrigado.
A garota tornou a bater a massa, já procurando pelos ingredientes da calda de chocolate. Se ela se empenhar tanto para fazer qualquer tipo de comida, será realmente uma excelente cozinheira.
Renji, com seu olhar apreensivo, brilhou ao avistar a figura de Ichigo retornando. Fora como Orihime dissera: estava estampado bem grande nas fuças daquele homem a paixonite aguda desenvolvida por Ichigo, o que não facilitava nem um pouco as tentativas do rapaz de esconder esse seu pequeno segredo, afinal, ainda não se sentia pronto para contar à eles; apenas Inoue sabia.
A reunião na casa de Orihime fora decidida em cima da hora. Tatsuki conseguiu uma folga de quatro dias dos treinos, resolvendo por visitar a tão querida amiga, e claro exigir uma comemoração de boas vindas a ela. Com o entusiasmo de Inoue foi fácil chamar a todos em tempo recorde, e ainda conseguir fazê-los trazer alguns petiscos enquanto preparava o prato principal. As duas juntas eram quase um perigo para a sociedade.
O cenho cabisbaixo de Ichigo chamava a atenção de Renji. De um canto mais afastado do tumulto, Ishida parecia perceber tudo à sua volta, inclusive estes pequenos detalhes, sendo analisados minuciosamente por seus olhos atentos.
Tocando de leve em seu braço, Renji chamara a atenção do ruivo, o fazendo se voltar para ele, mirando a direção oposta das conversas. Apontou para a porta onde dava o pequeno corredor e foi indo até ele, sendo seguido de Ichigo. Fechou a porta cuidadosamente para evitar qualquer ruído desnecessário; se bem que a animação de Tatsuki demonstrando seus golpes em Keigo era uma distração e tanto.
A noite estava bonita. Da casa de Orihime era possível avistar boa parte da aérea tranqüila da cidade. Sorte a dela morar em um local tão calmo e pacífico.
- Sua amiga e muito legal. – comentou Renji tentando iniciar um diálogo.
- Se está falando da Tatsuki seu gosto é muito peculiar.
- Bem, admito que ela é meio violenta, mas também é divertida.
- Verdade, acho que ela sempre foi animada assim... Ao menos é como me lembro.
- Se conhecem a muito tempo?
- Desde criança. Morávamos perto.
- São os melhores tipos de amizade.
O silêncio nem era mais tão desconfortante assim. Ouvir os grilos anunciando um dia de sol era um alívio. Se a temperatura descesse um pouco mais poderiam se considerar vivendo na Sibéria.
- Então, vai me falar o porquê dessa cara ou eu vou mesmo ter de perguntar? – indagou Renji, puxando Ichigo de seu pequeno mundinho.
- Pensamentos. – respondeu vago.
- Sinal de que seu cérebro funciona agora sério, me conta aí.
O ruivo respirou fundo dando uma longa olhada para Renji. “To te usando para esquecer o Grimmjow, e eu ainda gosto dele. A propósito, quero tentar conversar com ele mais uma vez, tudo bem para você?” Pensou com sua péssima noção de sensibilidade. Mas ainda lhe era um mistério como contar a ele, afinal, as palavras poderiam ser grossas e estúpidas, mas resumiam a circunstância perfeitamente.
- Foi mal, mas... É uma coisa meio pessoal. — respondeu tentando esquivar-se.
Renji deu de ombros tentando não ultrapassar os limites dele. Sabia que demoraria mais um pouco para Ichigo se abrir completamente com ele. Aliás, de acordo com os amigos dele, era difícil arrancar alguma coisa do ruivo. Engraçado como Grimmjow conseguia o fazer sem quase nenhum empecilho.
- Tranqüilo. Só tenta melhorar essa cara ou as pessoas vão começar a perceber.
- Valeu pela dica.
- Ei. – aproximou-se dele pondo a mão em seu ombro – Posso estar enchendo o saco... Mas é porque fico preocupado com você.
- Tudo bem. Mas relaxa, não sou uma criança.
- Age como uma às vezes.
- Babaca.
A descontração dos risos deixou Ichigo mais sereno, e despercebido. Quando se deu conta, Renji já havia lhe dado um leve beijo nos lábios tornando a ir para trás. Mostrou-lhe os dentes em alegria, voltando para a festa íntima antes dele; sabia dar espaço as pessoas.
Os devaneios de Ichigo ainda preencheram a linda cabeça ruiva por mais alguns minutos antes de retornar. Terminou a bebida e jogou o copo de plástico numa lixeira estrategicamente posta abaixo do corredor que dava a casa de Inoue. Abriu a porta dando de cara com uma pequena discussão entre Tatsuki e Keigo sobre as aventuras de ambos na escola. Seria engraçado não fosse trágico devido às expressões de insatisfação do garoto. Ao menos tinham um motivo para rir no final do dia – internamente, claro.
A alguns quilômetros de distância da animada reunião, para não dizer o outro lado do mundo, um quarto de hotel sofria drásticas mudanças de ambiente.
Neriell chegava ao andar de Grimmjow, reservado apenas para ele carregando uma pequena agenda em mãos. Avistou o empregado aguardando a porta com a mesinha do café da manhã e dispensou-o com uma boa gorjeta; seria ela mesma a acordar o amigo e melhor ainda: seria a sua maneira.
Bateu na porta ajeitando a saia e o blazer azul marinho, combinando com os sapatos de bico fino brancos. Os cabelos longos ajeitavam-se num coque bem preso, onde apenas uma mexa fina pendia na frente do rosto, adornando o formato dele.
Esperou alguns bons segundos antes de tornar a bater na madeira. Mirou seu relógio: oito da manhã. Grimmjow já deveria estar desperto, mas era óbvio que seu despertador pessoal não havia o levantado.
Bufando puxou do bolso um cartão magnético, cópia do de Grimmjow, pois precavida como era, esperava esse tipo de comportamento dele desde antes da viagem. Passou a tarja preta no pequeno aparelho eletrônico ao lado da porta ouvindo um clique na maçaneta. Girou-a adentrando no cômodo escuro, um pequeno hall da onde poderia dirigir-se a qualquer local do grande quarto de luxo. Puxou a mesinha de café da manhã e trancou a porta, a tempo de ouvir o que pareceu ser o estilhaçar de um vidro, seguido de um longo grito de dor.
Batendo na bandeja, deixou a jarra de suco cair despejando o líquido no chão. Adiantou-se até a voz sentindo o coração aflito apertando-se em seu peito. Empurrou com vontade a porta do quarto, onde permaneceu paralisada por um bom tempo olhando a paisagem destruída ao seu redor.
O piso parecia ter sido arranhado pelas garras de um animal. Cinco linhas fortemente marcadas no assoalho resistente estendiam-se por diversos locais do cômodo, cravadas de tal forma que parte do chão desprendia-se. Poltronas e almofadas eram nada mais do que restos mortais de pedaços de panos sem forma. A cortina estava destroçada, esvoaçando as pequenas partes ainda inteira com o vento vindo da janela aberta. Os vasos adornando o ambiente eram cacos disformes pelo assoalho, misturando-se com as flores já murchas e sem vida. O colchão da cama deixava o estofado fugir de seu interior assim como as penas dos travesseiros luxuosos espalhavam-se nos seus arredores. Perdido no outro canto escondido da cama, uma mão ainda humana, porém em forma de garra segurava a ponta do lençol. Soltava alguns sons incompreensíveis e rosnados murmurantes sem poder ser compreendido.
Com a garganta seca e a respiração contida Neriell apressou-se até o ser recuando dois passos ao avistá-lo. As costas arqueadas de Grimmjow com o torço desnudo sangravam assim como um de seus braços como se tivesse sido atacado pela mesma fera responsável pela destruição de seu quarto. Seria o caso se, no entanto a própria besta não fosse ele mesmo. Ainda recuperando-se do descontrole repentino, ele tentava buscar um ar inexistente, deixando seu corpo e sua alma se acalmarem.
Tomando coragem, ainda que as pernas tremessem, Neriell correu na direção do amigo e abraçou-lhe as costas ignorando a tintura carmesim tingindo suas finas roupas. Uniu as mãos frente ao seu peito e junto dele foi respirando como se tentasse sincronizar as puxadas bruscas de oxigênio dele com a sua sutil e calma.
- Grimmjow, você tem de voltar. – dizia já aos prantos – Por favor, não faz isso comigo...
A fera presa dentro co corpo de homem urrou novamente, porém nem assim fez a mulher afastar-se. Torcia o pano em seus dedos para tentar se controlar.
- Você é mais forte do que isso... Vamos lá, o Grimmjow que eu conheço não se entregaria assim tão fácil! – exaltou-se na última sentença tentando através da fala percorrer pela mente perturbada do amigo, chamando-lhe de volta a vida.
Em longos minutos, que logo se transformaram em horas, Grimmjow pareceu aplacar a fúria que crescia dentro de si. Apertou a mão da mulher que repousava em seu peito como se esse fosse o caminho pra lhe trazer de volta a realidade. Os olhos foscos tornaram a ter a aparência humana, e cansado, respirava devagar sem forças para mais nada.
- Isso mesmo Grimmjow, vai ficar tudo bem agora... – dizia ao ir para a frente dele enxugando com o próprio lençol o suor lhe escorrendo da testa.
Ainda absorto e distante da onde estava, ou até mesmo do que fazia, ele balbuciava palavras e orações desconexas, todavia uma única palavra – um nome – podia ser muito bem entendido por Neriell:
- Ichigo... – os lábios demoravam a juntar-se ao formar as sílabas, e a voz fraquejava a todo instante, porém mesmo assim ele não deixava de repetir o nome lhe assombrando – Ichigo...
Engolindo as lágrimas teimando em descer de novo de seus olhos, Neriell cuidava do amigo, frágil e desamparado, sendo a primeira vez a encontrá-lo nesse estado de desespero. Parecia suplicar pela presença do garoto, como se fosse um drogado procurando seu vício, e pela primeira vez deixou a boca aberta, sem reação nem movimento algum, ao ver uma rápida linha fina de calor escorrer dos olhos de Grimmjow, como um grito silencioso de sua angústia interna.
Mordendo os lábios pelo ódio que sentia de si mesma, por ser tão impotente diante do amigo, Neriell abraçou-o, constatando que ele agia agora apenas por reflexo. Provavelmente não se lembraria das últimas palavras, ou das lágrimas derramadas por outro. E esse pequeno detalhe deixaria a mulher em um desespero solitário, pois havia visto os reais sentimentos de Grimmjow, sem ser capaz de serená-los.
Afagou-lhe os cabelos bagunçados e molhados, beijando-lhe docemente a testa. Manteve a cabeça em seu ombro e foi aquietando os ânimos do amigo, sussurrando palavras tenras de aconchego na ponta de seu ouvido:
- Nós vamos voltar Grimmjow... Falta pouco. Agüente firme até lá. Em breve estará ao lado dele de novo. Apenas... Apenas resista...
Na noite que residia a casa de Ichigo, o ruivo tinha um sonho atormentado por alguma força desconhecida. O corpo estava gelado apesar do cobertor que lhe cobria. O vento parecia atravessas o vidro cerrado da janela, e um incomodo aflito dava-lhe pontadas no peito, como se saíssem de dentro para fora.
No pesadelo sem fim via-se na ponta de um prédio que se encontrava de cabeça para baixo. Nuvens densas faziam chover naquele aglomerado de prédios estranhos. Parecia estar sozinho num local extenso, pois quando falava, sua voz ecoava distante. Após caminhar por um longo tempo, avistou uma figura conhecida próximo à ele. As melenas azuladas encharcavam-se com a água vinda dos céus tortuosos, mas ainda assim ele sorria, com o mesmo ar superior de sempre.
Usava uma blusa de manga comprida, fazendo conjunto com a calça branca. Descalço, parecia perdido, tal como a primeira vez que se encontraram. Estendeu uma das mãos para ele a fim de chamá-lo, e com uma alegria incomensurável, Ichigo foi até ele, aliviado por ter mais alguém ali, alegre por ser ele a pessoa que o esperava.
Abriu os dedos e ergueu o braço para poder alcançar o dele, porém não pode segurar nada além do ar. O corpo de Grimmjow fraquejou para trás fazendo os olhos de Ichigo arregalarem-se ao vê-lo cair no que parecia ser o infinito de tão profundo. Por entre a mão aberta passava apenas as gotas da chuva e um silêncio arrasador corrompia sua alma como se ela fosse despedaçada, como se um berro de auxílio fosse clamado por ela.
Suando, jogou o cobertor no chão e puxou uma longa porção de oxigênio para dentro dos pulmões. Os globos ainda tremiam e o suor em suas costas escorria sem parar. Olhou para fora e viu uma forte chuva batendo em sua janela. Sentiu o peito retorcer-se novamente, e em meio ao turbilhão de sentimentos confusos, teve certeza de uma coisa, por fim: ainda estava apaixonado por Grimmjow... Ainda precisava vê-lo... Ainda precisava dele; pois se não o fizesse, seria engolido pelo próprio desgosto de seu mundo interno.
Puxou o celular da cabeceira, um pouco tonto e cambaleante. Abriu a gaveta onde mantinha milhões de papéis atirando-a no chão. Procurou em meio a papelada um único bilhete e verificou a data em seu aparelho: em dezoito dias Grimmjow estaria de volta... E dessa vez Ichigo iria sanar de uma vez por todas as dúvidas constantes em sua cabeça.
Dezoito dias... E o relógio começava a contar; Para os dois.
Continua
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- Bônus —
Notas finais
Situação atual da fic: provavelmente serei capaz de voltar a screver um capitulo por semana em meados de dezembro, até lá peço que fiquem torcendo por mim T_T
Boas noticias, o esforço valeu a pena: tirei 10 na minha prova da faculdade *-*
Kissus até o próximo capítulo ( que a autora espera ser em breve!)
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