Maipetto no Neko
61 Capítulo 61 - Obrigado
Notas iniciais
Maipetto no Neko
Capítulo 61 – Obrigado
O telefone tocava incessantemente há quase uma semana. Byakuya irritava-se com o barulho alto dele, mas nada fazia. Não queria atender, não queria ter de lidar com isso agora. Não queria ter de falar com ela.
Mas sabia que mais cedo ou mais tarde seria preciso. Sentado no escritório tentava focar os pensamentos em cima da papelada à sua frente, no entanto os toques constantes do aparelho conseguiam acabar com sua enorme paciência. Bufando resolveu levar o material até a sala. Lá teria alguns momentos de paz.
Estava sozinho na casa. Renji e Rukia saíram para se encontrar com Ichigo. Ouvir Renji falar sobre o garoto e que ainda iria sair com ele o deixavam um tanto quanto inquieto. Já havia aceitado a amizade dos dois e também entendia o porque das inúmeras visitas de sua irmã e Renji a ele. O garoto tinha ficado extremamente abatido. Grimmjow continuava internado no hospital há quase duas semanas, sem uma previsão certa de quando acordaria. Ele mesmo havia presenciado a expressão sem vida de Ichigo. Byakuya sabia muito bem como era ter alguém querido preso a cama de um hospital. Ah, como sabia...
Mesmo assim as pontadas no meio do peito continuavam. Censurava-se ao mesmo tempo em que sentia o princípio de um ciúme tolo lhe subir a cabeça. Bem, ao menos tinha com o que ocupar além do barulho do telefone. A verdade é que Renji já era dele. Tinha plena consciência disso. Só precisava se acostumar com a ideia de vez.
Respirou findo ao chegar na sala com o material espalhado na mesa de centro. Sem distração alguma poderia começar seu trabalho. Tinha quase terminado o plano de curso do próximo ano letivo e sua nova pesquisa andava muito bem. Nada poderia tirar sua concentração agora.
Mal encostou a caneta no papel e o telefone da sala tocou. Ignorou novamente sabendo muito bem quem era. Torceu o pescoço o estalando focando os olhos no meio do papel. Depois de inúmeros toques o telefone se calou. Pensou que poderia respirar aliviado, até a campainha tocar. Cerrou os olhos bufando pesado. Fosse quem fosse iria enxotar de casa à pontapés.
Arrastando-se até a porta a abriu preparando os pulmões para um sermão. Contudo, perdeu a fala apenas conseguindo arregalar os olhos:
– Vejo que está em casa apesar de não atender ao telefone.
Disse a mulher ainda sem obter uma resposta do moreno. Ele deixou a boca entreaberta conferindo-lhe uma expressão de espanto. Poucas eram as pessoas capazes de fazer isso com o professor, e aquela inesperada visita fazia parte dessa minoria.
– Não vai me convidar para entrar Byakuya?
Pigarreando ele pareceu recobrar os sentidos dando passagem a mulher:
– Claro, por favor, entre.
– Sim, vamos entrar. Temos muito que conversar Byakuya.
Apernas concordando com um acena rápido da cabeça, Byakuya deixou a mulher sentir-se confortável na cadeira da sala. E agora ele agradecia por Renji e Rukia não estarem na casa.
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– Você precisa comer alguma coisa Kurozaki-kun!
Inoue empurrou o prato com o sanduíche na direção do garoto, mas ele apenas sorriu fraco de volta a amiga:
– Não estou com fome.
– Pelo amor de Deus! Para de frescura!
Sem cerimônias Renji apanhou o sanduíche e o colocou nas mãos do ruivo forçando as mãos dele para perto da boca. O garoto franziu o cenho, mas não mostrou nenhuma resistência. Apenas respirou cansado, dando uma mordida de leve na borda do pão. Sabia que todos ali tinham a melhor das intenções, porém ele mal conseguia se manter de pé nos últimos dias.
– Obrigado... – agradeceu sentindo os olhares cabisbaixos dos demais em sua direção.
– Como está o Grimmjow? – indagou Rukia.
– Na mesma... – deu de ombros – Os médicos falaram que ele estava bem desnutrido... E machucado.
Disse a última palavra quase se engasgando com o sanduíche. Saber dos abusos que Aizen fizera nele apenas o enchia de raiva e remorso. Principalmente porque Ichigo se culpava. Se tivesse ficado em casa no dia da festa ao invés de querer resolver tudo sozinho, nada disso teria acontecido. Ao menos ninguém mais havia se ferido.
– Vai ficar tudo bem Kurozaki-kun! O Grimmjow-kun é forte!
Apesar da fadiga e tristeza Ichigo forçou um rápido sorriso. Inoue tinha uma inocência contagiante assim como sua animação.
– Você vai visita-lo hoje? – perguntou Chad.
– Sim, mas o horário de visita é só daqui a meia hora.
– Que absurdo! – exclamou Rukia – Você deveria ficar amis tempo com ele! Não existe um horário diferente? Afinal ele é seu namorado.
Ichigo deu de ombros:
– Sim, existe. Mas Neriell me pediu para não falar anda no hospital sobre nós. A imprensa já está muito em cima do caso, ainda mais por causa da morte de Aizen.
Rukia meneou a cabeça entendendo a situação, apesar de continuar inconformada.
– Ainda bem que aquela amiga da Neriell é uma policial – disse Renji pondo as mãos atrás da nuca.
– Sim, isso realmente nos poupou alguns problemas. – completou Ishida ajeitando os óculos – Ela continua internada?
– Ela já está melhor, pelo o que a Neriell me disse. Só está com preguiça de voltar ao trabalho.
Tentou brincar, mas seus amigos conseguiam ver o quão forçado Ichigo soava.
– Bom, se falta apenas meia hora para o horário de visita, acho melhor irmos andando. – Ishida aprontou-se deixando uma nota de dez na mesa.
– Vocês não precisam ir sempre comigo... – comentou o ruivo.
– Ah! Mas nós gostamos de te acompanhar Kurozaki-kun! – disse Inoue sorrindo – E depois, vai que nossa animação consegue acordar o Grimmjow-kun
Por animação ela queria dizer barulho. Ainda assim o comentário conseguiu arrancar um bom sorriso da face tristonha do ruivo. Só mesmo a garota para o deixar com um pouco mais esperançoso.
– Obrigado Inoue.
Começando a se levantar o grupo parou na calçada da frente da lanchonete. Renji ponderou um pouco antes de falar:
– Eu preciso voltar pra casa.
– Algum problema? – indagou Chad.
– Nada de mais. Ontem à noite eu fiquei de terminar umas tarefas do projeto da faculdade, mas acabei dormindo! – falou forçando um riso sem graça.
– Isso só aconteceu porque você ficou vendo um filme até tarde. – completou Rukia.
– Dá pra parar de espalhar meus podres?!
Rindo, Ichigo falou pondo as mãos nos bolsos da calça:
– Tudo bem, eu entendo. Obrigado pela companhia.
– Bem, eu vou voltar com o Renji. Meu irmão queria ajeitar algumas coisas lá em casa nesse fim de semana.
– Vamos combinar de sair amanhã! – concluiu Renji recebendo o consentimento de todos.
Do outro lado da rua os amigos avistaram a figura pálida de Ulquiorra parada. Inoue acenou a ele indo ao seu encontro e enroscando um dos braços no dele. Comentários à parte, nenhum deles conseguiu disfarçar o sorriso ao ver os dois juntos. Rukia ergueu uma das sobrancelhas esticando os lábios e cutucou Renji com o cotovelo. O tatuado apenas riu bagunçando o cabelo dela. Decidiram ir caminhando, pois a casa de Byakuya ficava perto. Renji só precisava buscar as anotações da noite passada e enfim poderia voltar aos estudos. Além do mais, seu professor iria gostar de vê-lo assim tão aplicado.
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A mulher tinha uma face enrugada assim como as suas mãos, entrelaçadas na altura das penas. Linhas de expressão grossas se formavam no entorno da boca e ao redor de seus olhos, pequenos por conta da pela das pálpebras que murcharam sobre eles. Ela bebia uma xícara de chá vagarosamente sem dizer uma única palavra. Byakuya sabia que ela só começaria a falar quando tivesse terminado de beber.
Dando a última sorvida no líquido quente ela desceu a xícara até o pires na mesa a girando, num ritual que Byakuya havia aprendido desde pequeno. Depois de se ajeitar na cadeira disse, começando a encarar Byakuya:
– Tenho ficado muito preocupada com suas recentes... Intervenções, Byakuya.
– Eu já imaginava isso. – falou sem apresentar surpresa.
– Hmm. Nesse caso, acredito que nossa conversa será breve.
– Espero que sim.
Respondendo ao frio olhar da mulher o moreno continuava impassível, aguardo os movimentos delas para poder fazer os seus – porque um único descuido poderia o levar a ruína.
– Me pergunto, tendo em vista os últimos acontecimentos se suas escolhas estão sendo influenciadas.
– Ao que se refere?
– Oh, você me entendeu Byakuya.
Sim, ele havia entendido, contudo não queria admitir as fontes de preocupação dela, não queria reforçar a ideia errônea se formando na mente estreita da família Kuchiki:
– Tenho plena consciência das minhas ações Kyouke-sama.
– Tem mesmo? – repetiu-se com escarno.
Controlando-se para não mudar a expressão serena em seu rosto Byakuya apenas continuou a ouvindo, tendo de engolir a seco o orgulho. De nada adiantaria retrucar. Kyouke continuaria o acusando e tirando suas próprias conclusões antes de se permitir errada.
Distante em pensamento deixou-se levar pela voz rouca e maçante da mulher. As repetições das frases tornavam-se exaustivas, mas ele teria de ouvi-la mais cedo ou mais tarde. Que fosse agora de uma vez.
Imerso nesse espaço fora do tempo Byakuya baixou sua guarda, deixando de notar algo que poderia fazê-lo saltar daquela cadeira. A porta dos fundos se abrindo devagar enquanto Rukia e Renji entravam sem fazer muito barulho. Se tivesse notado, ah, aquilo se transformaria num pesadelo.
– Porque tivemos de vir pelos fundos? – perguntou o tatuado esfregando as mãos uma na outra.
– Queria ver você explicar ao meu irmão porque entrou aqui em casa com o sapato cheio de neve! – brincou divertindo-se com o espanto em Renji.
Pegaram alguns panos começando a limpeza na sola das botas antes que o gelo derretesse e se espalhasse pelo chão. No meio do processo as vozes exaltadas do outro lado da casa irromperam. Rukia ergueu uma das sobrancelhas encarando Renji:
– Sabe se meu irmão esperava alguma visita? – indagou-lhe.
– Não faço ideia. Seria a televisão ou o rádio.
A baixinha o olhou com uma expressão sarcástica. Não, Byakuya não perdia tempo com essas coisas. Balançando a cabeça ela começou a andar até a sala sendo seguida pelo amigo. Chegou à entrada do corredor do cômodo vendo rapidamente as costas de seu irmão. Estava tenso, sentado na cadeira, conversando com alguém que lhe tirava a imensa paciência. Algo estava errado. Tencionou os pés começando a caminhar mais lentamente. Renji não entendia o porquê disso, mas apenas acompanhou a velocidade da garota. A poucos centímetros da sala Rukia arregalou os olhos pondo a mão no meio do peito de Renji para fazê-lo parar. Em seguida, antes de qualquer protesto, lhe tampou a boca o levando à parede ao lado da passagem da sala. Ficaram ali parados no primeiro degrau da escada que dava ao segundo piso. Rukia procurava controlar a respiração ou seriam descobertos. Detestava se esgueirar desse jeito para espionar seu irmão, mas se estivesse certa, se tivesse ouvido mesmo aquela voz... Estavam com grandes problemas.
Entendendo que deveria ficar em silêncio o tatuado removeu as mãos de Rukia da frente da boca começando a regular a respiração em leves suspiros. Recostou as costas na parede apenas ouvindo as vozes ainda um pouco difusas a ele. Cutucou o ombro da amiga vendo-a se virar nervosa. Mostrando-lhe a expressão confusa a baixinha respirou fundo – tomando cuidado com qualquer barulho – e chegou o rosto próximo do de Renji falhando-lhe no pé do ouvido:
– Acho que sei quem é...
– Quem? – indagou num murmúrio igual ao dela.
A mulher na sala falou outra vez em um longo discurso. Aquele sotaque carregado, a maneira sofisticada disfarçada em um invólucro de violência nas palavras, o tom passivo e agressivo ao mesmo tempo... Não tinha amis dúvidas, Rukia sabia quem era a mulher. E isso a assustava. Tanto que arregalou os olhos deixando Renji ainda mais apreensivo. O ruivo quis continuar a roda de perguntas, mas a baixinha apenas colocou o dedo na frente de sua boca pedindo silêncio.
– Seu julgamento, na maioria das vezes, está centrado e preciso Byakuya. Mas convenhamos: não é a primeira vez que esse tipo de situação acontece com você. – a mulher falou continuando as acusações ao moreno.
Renji franziu o cenho querendo ir até a sala tirar satisfações com essa mulher que falava de maneira tão ameaçadora à Byakuya. Quem ela pensava que era? Bem, Rukia sabia, mas o medo estampado em seu rosto o deixava receoso. Queria saber mais do que estava acontecendo e sua paciência era pouca.
Cutucou Rukia outra vez e a baixinha quase lhe deu um tapa na cara. Contudo ela deixou-se acalmar pela preocupação que vira em Renji. Ele se importava tanto com Byakuya. E lá estava ela fazendo mistério. O empurrando devagar dois degraus acima ela encostou a bochecha na de Renji começando a sussurrar as palavras esperando não precisar se repetir:
– Não podemos ir até lá... — sussurrou — Meu irmão precisa resolver isso sozinho. – falou antes de tudo, pois Renji precisava entender aquilo ou ia acabar irrompendo no ambiente pesado na sala, como ela sabia que ele queria fazer.
Ainda sem entender Renji abriu a boca, mas a fechou logo em seguida, pois a baixinha continuou:
– Você se lembra em como meu irmão é paranoico com relação a nossa família?
A pergunta o deixou desprevenido e mais ainda nervoso. Meneou positivamente com a cabeça Não gostava nem um pouco da onde a conversa estava se encaminhando:
– Pois ele tem razão em ser um pouco paranoico ás vezes... – respirou fundo procurando coragem para falar – a nossa família é uma das mais antigas do país. Temos influência em todo o território nacional e em outros lugares também. Cargos no governo e de outras importâncias são oferecidos a nós de bandeja... Entende como é complicado viver em meio a esse bando gente? Somos observados o tempo todo, a cada passo, a cada segundo de nossas vidas...
– Você está me dizendo... – atreveu-se a falar já começando a deduzir a gravidade do problema.
Rukia apertou os olhos tendo de volta lembranças dolorosas de quando era mais nova, de quando entrou nesse mundo moldado numa perfeição caótica:
– Ela se chama Kyouke-sama... – disse por fim – é a matriarca da família, a principal responsável pelo que acontece conosco. Em suma, é ela quem resolve qualquer problema ou crise.
– Mas... O Byakuya sensei não fez nada...
De imediato Rukia levou sua mão a de Renji a apertando. Ele permaneceu em silêncio frente a realização que se fazia diante dele. Porque o problema era ele. As escolhas de Byakuya, todas as palavras que o professor lhe dissera antes de começarem, enfim, o tão desejado relacionamento... Ele sempre se preocupou com sua imagem, e isso incomodava um pouco Renji, afinal, era como se a figura pública fosse a coisa mais importante do mundo para Byakuya.
Mas tinha de ser assim. Porque a família Kuchiki o vigiava de perto. A ele e Rukia. E agora depois da calmaria nas suas vidas Renji ficara apreensivo outra vez – pois não queria ver seu querido professor sofrendo, ainda mais por sua causa, pelas escolhas que ele fez para ficar ao seu lado.
Renji sentiu o estômago embrulhar no meio do nervosismo. As mãos suavam frio, a cabeça rodava enquanto tentava manter o foco para não vomitar. O que ele tinha feito a Byakuya? Se ele fosse sofrer tanto assim só por ficar com ele, se pretendia arriscar tudo em nome dos dois... Então Renji preferia deixa-lo; a vê-lo se machucar mais e mais...
– Meu julgamento sempre foi sensato. – Byakuya corrigiu-a chamando a atenção dos dois intrusos que os espreitavam.
– Verdade? – disse numa voz sarcástica – Explique-me então como se envolver no escândalo dessa empresa foi sensato.
Byakuya franziu o cenho mordendo o interior da boca. Já ia lhe responder quando viu a mão dela se erguendo indicando-lhe que ainda não havia terminado de falar:
– Nós acompanhamos tudo Byakuya; você deliberadamente auxiliou aquele grupo de... Vândalos a invadir uma grande empresa, destruir o interior dela e o pior de tudo: foi cúmplice de um assassinato!
– Não confunda as coisas – replicou o moreno – aquilo foi um acidente, como muitos dos quais eu sei que você também fez parte, Kyouke-sama.
A mulher o fuzilou com os olhos. Ajeitando-se na cadeira ela continuou:
– O que eu fiz ou faço é para um bem maior: o de nossa família.
– Eu também penso assim. Por isso lhe digo que minhas escolhas foram muito bem pensadas.
– Explique-se.
Respirando fundo Byakuya começou:
– Soube do envolvimento criminoso da empresa muito antes do escândalo. Sabia que nela nós temos muitos membros conhecidos? Pessoas de influência de nossa família dentre outros... Amigos.
– Está querendo me dar uma aula Byakuya? Sei muito bem disso.
– Portanto – prosseguiu – o que eu fiz foi apenas adiantar o processo. Minha intervenção conseguiu acabar com uma catástrofe em potencial.
Kyouke analisava a calma na face dele e nas suas palavras. De fato fazia muito sentido. Ela mesma, como Byakuya dissera, já precisou intervir em situações desse tipo, acabando com “problemas” como foi o caso do presidente da empresa, Aizen. Ainda assim sua cabeça ardia, pensando nas outras possibilidades, nas outras dúvidas – que para ela já se tornaram verdades:
– Suas ações podem ter partido dessa premissa Byakuya. Mas eu acredito em outros motivos.
– Tem razão, eles existem.
Kyouke mostrou um sorriso satisfatório de canto de boca enquanto Renji e Rukia do outro lado não acreditavam no que Byakuya estava prestes a admitir:
– Soube que Rukia também havia se comprometido. Ela precisava de ajuda antes de se afundar em complicações.
A baixinha ferveu de vergonha e ao mesmo tempo raiva. Tinha concordado em ajudar Ichigo, mas jamais imaginara que seu irmão falaria tão abertamente sobre isso. Até porque ele mesmo a apoiou. Ah sim, e como. Ele se preocupou à sua maneira desde o inicio, tanto com ela quanto com Renji, sem os questionar, sem os fazer desistir. Apenas entendeu ser algo que precisava ser feito.
– Você realmente irá usar sua “irmã” como desculpa Byakuya?
Kyouke parecia mais calma, como se lidasse com uma criança. De fato, se fosse contar a idade em seus ombros Byakuya não passava de um pirralho.
– Não é uma desculpa. – afirmou – É a verdade. A protegi como prometi que sempre faria, assim como também protegi os interesses da nossa família e os membros ligados à empresa.
– Ainda não é isso.
A mulher insistia querendo arrancar até a última gosta de verdade de Byakuya. Sim, Rukia podia ser uma das suas principais razões, mas no fundo ela tinha outras suspeitas:
– Como eu já disse Byakuya, não é a primeira vez que você demonstra certa instabilidade nas suas decisões. E nesse caso me refiro ao seu casamento. Quanto problema nos trouxe só de pensar em se casar com uam ninguém igual a Hisana.
– Não a coloque nessa história.
Falou, sua voz saindo um tom mais alto do que pretendia, mas precisava deixar claro sua posição: Hisana era um assunto delicado e ele não gostava de ouvir como sua família foi contra a união dos dois. Já bastava tudo o que ela sofreu, ser repudiada, excluída tal como se fosse um nada... Não, Byakuya certamente não tinha vontade de ouvir Kyouke falando dela.
– Tudo bem, eu entendo. A terra é quem sabe de seus ossos.
Apertando as mãos feito garras na sua calça, Byakuya conteve-se. Respirou fundo soltando o ar em silêncio antes de se permitir estourar. Um furor imenso lhe subia a cabeça, dizendo-lhe para esbofetear a cara dessa mulher. Mas reprimiu o desejo.
– Devo admitir que o casamento não foi de todo o mal. Apesar da adoção de Rukia ser um outro agravante. Mas no fim das contas ela acabou se tornando uma boa menina, e nunca precisamos intervir na sua educação.
Ao menos nisso Byakuya concordava e Rukia também, do outro lado da parede. Mal conseguiu conter um leve, porém comedido sorriso. Nunca quis arrumar mais problemas do que os que sua irmã precisava enfrentar. Viveu com ela tempo o bastante para ver sua tristeza em relação aos Kuchiki. No entanto Byakuya sempre ficou do seu lado a apoiando e lhe dando todo o carinho do mundo. Seu irmão era incrível e perde-la tão cedo fora um golpe e tanto.
Mas a depressão dele sumiu nos últimos meses e a baixinha só tinha a agradecer a Renji. Sem perceber apertou ainda mais a mão do amigo como se dissesse um silencioso “obrigado” a ele. Contudo Kyouke continuava alfinetando Byakuya, o deixando ainda mais nervoso – podia saber só pelo tom de sua voz.
– Por um longo tempo você se portou muito bem Byakuya. – disse o fitando – E então houve o declínio.
Um tom zombeteiro explodiu da boca dela na última sentença. Byakuya firmou ainda mais os dedos no tecido da calça; já esperava pelo pior, mas também se preparava para respondê-la:
– Já foi difícil o bastante vê-lo se envolver com alguém bem mais novo... E o pior dessa relação, se é que pode ser chamada assim, nem é isso...
– Chega. – replicou cortando sua fala.
– Chega? Eu poderia ficar o dia todo contando a quantidade de problemas que você está trazendo para si e para nossa família! Essa... Palhaçada está te fazendo tomar medidas desesperadas, ações impulsivas e cima de tudo: está nos prejudicando!
– De que maneira exatamente?
Perguntou parecendo um pouco alterado e depois que a frase saiu teve certeza de uma coisa: não podia voltar atrás.
– Sua nova... Relação, se é que pode ser chamada assim apenas mancha o nome dos Kuchiki. Basta um comentário, um simples olhar desconfiado, e iremos à ruína; por sua causa Byakuya!
– Nunca, em nenhum momento isso se apresentou como um empecilho à nós. Pelo contrário, sempre fomos cautelosos.
– Mais cedo ou mais tarde Byakuya isso irá se desfazer. Faça um favor a si mesmo e a todos os demais, e acabe de uma vez com isso.
Foi como um soco no estômago. Renji quis se arquear na escada e jogar o almoço para fora tamanha fora sua decepção. Causava tanto sofrimento à Byakuya e nem sabia; não fazia ideia de como sua família o controlava à distância, e quantas outras vezes eles não haviam tentando o desestabilizar, fazer os dois se separarem... Mesmo assim Byakuya decidiu seguir em frente, enquanto ele apenas agia como um bobo alegre, incapaz de ajuda-lo, de ao menos o confortar! Sentiu os olhos enchendo-se de lágrimas, e antes que um soluço escapasse da boca Rukia o abraçou com força, despejando o calor do corpo contra o dele.
– Venha...
Sussurrou a baixinha o levando para o andar de cima. Não podia mais aguentar vê-lo daquele jeito, escutando Kyouke o machucar tanto com a verdade. Mesmo que as palavras refletissem a sua situação e de seu irmão, era cruel demais o fazer passar por isso. Subiram até metade da escada e foi quando ouviram o solavanco, o som áspero das sílabas se formando num bolo cuspido direto da garganta de Byakuya fazendo-os parar no meio do caminho:
– Chega, já chega disso Kyouke-sama. Você não tem direito algum de falar essas bobagens.
– Bobagens? –replicou a mulher – Estamos falando de uma família antiga e respeitada, que pode virar pó por causa de atos egoístas como o seu!
“Egoísmo?” Ele pensou revoltando-se por dentro. As unhas começaram a cravar na pele...
– Pense na sua carreira. Você é o melhor especialista no seu campo, pode mesmo colocar isso tudo á perder? E pense em Rukia, já que diz se importar tanto com ela! Ponha juízo nessa sua cabeça antes de prosseguir!
– Chega... – implicou Byakuya baixinho sentindo a língua coçar inquieta cada vez que uma nova frase saía de Kyouke.
– Estou dizendo a verdade. O que esse... Garoto fez à você o deixou insano! Precisa recobrar a certeza em sua vida...
– Certeza?! – exclamou libertando o ódio duma só vez – Depois de Hisana ele foi a única certeza que tive em toda minha vida!
Um calor alegre percorreu o corpo de Renji ao ouvir aquilo. Conteve-se ainda agarrado à Rukia, mas os olhos já não estavam tão marejados. Concentrou-se na conversa:
– Você está arruinando nossa família seu...
– Família?! Sim, estou pensando realmente em minha família. Rukia e Renji.
Ele queria há tanto tempo ter gritado aquilo que agora parecia ser outra pessoa, apenas um reflexo das suas emoções enquanto seu espírito observava tudo ao longe. Sim, podia ver perfeitamente bem a si mesmo, parado naquela sala de pé encarando a matriarca da família enquanto afirmava na frente dela o que achava, o que sempre achou, de todo esse invólucro sagrado posto ao redor dos Kuchiki. E ele sabia, melhor que ninguém os podres de cada um deles.
– Essa é sua palavra final? – falou a mulher recobrando sua compostura.
– Sim.
Respondeu, no ato, e Renji inflamou o peito de tanto que seu coração batia eufórico.
– Pois bem. – erguendo-se da cadeira, Kyouke ficou de pé entrelaçando os dedos finos e enrugados na frente do corpo – Você não me deixa alternativa.
Mirando-a confuso Byakuya franziu o cenho e as letras saíam emboladas formando uma sentença que desencadeou um reboliço dentro do moreno, o preenchendo com desespero:
– Eu irei tratar pessoalmente disso. Você me deixou sem alternativas Byakuya. Eu mesma vou encerrar esse assunto; a relação com esse garoto e tudo o mais envolvendo suas últimas escolhas impensadas.
– Não se atreva.
Falou sem freios, pois havia ficado farto de tantas acusações infundadas, de um medo por parte de Kyouke e toda sua família de algo que para ele era apenas... Normal — estar ao lado de quem ama...
– Você está se exaltando novamente Byakuya. – Kyouke o advertiu, sem efeito.
A fúria, o desespero só de pensar em ter Renji afastado dele deixou todos os seus limites de lado. Se queria por um fim nas intervenções de Kyouke e da família Kuchiki, precisava deixar bem claro sua posição. E os segredos acabavam de se tornar sua mais poderosa arma:
– Pare de se lamentar como se fosse uma espécie de santa. – Byakuya ajeitou o tom da voz a encarando com o olhar frio e calculista.
Renji podia até mesmo vê-lo lançando esses olhos frios na direção dela, não podendo evitar esboçar um leve sorriso. Podia ser precipitado, podia ser a ruína do professor, mas ao mesmo tempo não podia impedir a felicidade apossando-se dele. Tornou a descer alguns degraus da escada seguido da amiga, ficando próximo ao portal da sala e ouvindo a voz firme de Byakuya outra vez. Ele estava o defendendo. Podia até mesmo pular de emoção! Imaginava, ainda por um instante, se seria prudente por parte de seu professor agir daquela forma, porém ele mesmo gostaria de dizer algumas boas verdades na frente daquela mulher: como ele jamais prejudicaria a carreira de Byakuya, ou seu trabalho na faculdade. A maneira como os dois eram discretos e comedidos, nunca se expondo demais, sempre mantendo uma distancia segura entre eles. Não reclamava, pois sabiam dos riscos que corriam desde o primeiro momento em que se declararam, por fim. E valia à pena: os medos, as lamúrias, os riscos, nada importava, se pudessem ficar juntos.
Contudo a defesa de Byakuya era o que mais emocionava Renji. E ele não parou:
– Igual a muitos outros, você só julga sem nunca ser julgada, se considerando uma verdadeira protetora das boas morais.
– Como ousa... – balbuciou desconcertada, abrindo os olhos caídos o máximo que podia. A encarada gélida de Byakuya a deixava sem jeito.
– Ouso porque sei de tudo. Você mesma disse, Kyouke-sama, eu sou o melhor no meu campo.
Esboçou um rápido sorriso as esticar os lábios vendo o terror se apossar das expressões de Kyouke. Ela sabia muito bem do que ele estava falando:
– O que quer dizer Byakuya? – indagou vacilando a voz.
– Quero dizer exatamente isso: tenho acesso irrestrito a inúmeros casos e, digamos, situações que envolvem a família Kuchiki e seus membros mais ilustres. Pode querer apontar o dedo na minha direção, mas antes sugiro que aponte a si mesma. E aos outros muitos governantes, políticos e aristocratas que se encontram no país. Aí você poderá explicar a eles como os minuciosos detalhes de suas vidas acabaram se espalhando.
Oh sim, Kyouke lembrava-se bem do quanto necessitou anteriormente da ajuda de Byakuya para esconder certos... Detalhes, no mínimo, indesejados, por parte de muitos dos ilustres descendentes dos Kuchiki. Só não esperava que ele pudesse ter alguma prova disso:
– Que blefe patético Byakuya.
Falou querendo dar razão a si mesma antes de aceitar que ele pudesse realmente possuir alguma informação. Sim, era um blefe, só podia ser.
– Encare como quiser. – respondeu mantendo-se firme – Só não me trate como um idiota. Eu sempre soube o quão valiosos eram os documentos, as fotos, as fichas policiais...
A última menção fez o coração da mulher gelar. Suava frio, querendo retornar a cadeira, porém precisava manter a compostura.
– Do que... – tentou falar, mas foi cortada outra vez por ele.
– Detalhes, Kyouke-sama. Ninguém, nem mesmo uma família de boa compostura como a nossa atravessa os séculos sem cometer atos... Dúbios, digamos assim. Os dados que guardei eram cópias de segurança, mas agora, visto a sua posição tão inquebrável, não me vejo com outra alternativa.
– Isso é uma ameaça, Byakuya? – perguntou parecendo mais séria, porém incrédula.
– Penso nela como uma resposta imediata às suas próprias palavras. Mas você pode chamar como quiser. Só lhe digo uma coisa, e preste bem atenção...
Os olhos dela se esforçaram para abrir caminho por entre a pele caída, e então o moreno deixou as palavras correrem feio uma forte brisa desestabilizando a mulher:
– Farei de tudo que estiver ao meu alcance e além para proteger aqueles que amo. Mesmo que isso signifique meu afastamento, mesmo que eu sofra por anos à fio. Terá valido à pena. Então reflita, agora, o que você realmente deseja fazer. Pois uma vez decidida, também tomarei uma decisão; sugiro que acate minha ideia e repense sua singela “sugestão” quanto a mim e a minha vida.
Kyouke deixou os lábios entreabertos sem emitir nenhum som. Ficou paralisada apenas recebendo o olhar petrificante de Byakuya. Seus olhos a enfraqueciam e suas palavras a deixavam sem chão. Seria imprudência demais permitir que informações valiosas fossem levadas à mídia. E sim, ela percebia agora, no pequeno espaço entre os dois, que Byakuya poderia até mesmo mata-la se achasse necessário, se ela ameaçasse... Sua família...
Talvez fosse melhor ter um membro louco, mas controlado, do que ter tudo a seu respeito revelado.
Bufando a mulher puxou a lateral do longo vestido do cháo batendo com força o pé no assoalho. Queria ir embora dali o mais depressa possível:
– Fique então com seus “amados” mascotes. – disse fazendo questão de ofender tanto a Renji quanto a Rukia – Só espero que saiba o que está fazendo!
Havia vencido. Byakuya apenas conseguia pensar nisso.
– Sei muito bem qual caminho escolhi Kyouke-sama.
– Pois bem! – exclamou já parada na entrada da casa — Mas saiba que no primeiro deslize nós dois vamos ter uma nova conversa, Byakuya. E não pense que serei tão condescende assim!
Ela precisava ser superior a ele. E só conseguiria isso se parecesse concordar, mesmo que minimamente com a situação. Oh sim, preferia mil vezes deixa-lo do que enfrentar a ira de vários membros a acusando de ter agido mal e deixado as informações serem liberadas. Poucos sabiam sobre a relação de Byakuya e seu envolvimento na invasão da empresa. Bastava isso, por enquanto...
Girando a maçaneta da entrada Byakuya viu-a entrando num luxuoso carro e indo embora dali. Ao fechar a porta sentiu como se tivesse subido de volta da cova. Havia levsdo um tiro, voltado dos mortos e fora agraciado numa nova existência.
Cansado e extremamente nervoso, apoiou as costas na parede ao lado da porta passando a mão aberta sobre o rosto. O que havia feito? Tinha mesmo desafiado as tradições, as regras e limites impostos pelos Kuchiki? Oh, bem, não era como se fosse a primeira vez que o fazia...
Ainda assim a sensação não amenizara nem um pouco. A adrenalina corria pelas veias irradiando seu corpo num calor entranhado em raiva e alívio. Tinha mesmo conseguido paz, mas sabia que duraria por pouco tempo. Enfim, teria de lidar com Kyouke novamente, já sabia, porém ao menos estaria preparado dessa vez. O pavor dela era maior do que qualquer imposição que poderia fazer contra ele.
Bufou deixando os braços cansados caírem na lateral do corpo começando a forçar uma caminhada até a cozinha, precisava de água, precisava pensar agora em como contaria tudo aquilo a Rukia e Renji. Os dois precisavam se proteger e manter a compostura duas vezes mais se quisesse desviar deles a atenção que seria direcionada pelos olhos dos Kuchiki.
Tinha feito dos dois uma parte das suas escolhas, e apesar de conhecê-los muito bem, tinha receio. Receava a reação de Rukia – se ela seria à favor ou contra, se ficaria frustrada por saber que precisaria se dedicar mais aos estudos e sair menos a fim de preservar sua imagem.
E Renji. Ele seria alvo de todo o tipo de vigia. Podia até mesmo ter acabado com a vida dele... E nem sequer perguntou ao tatuado se era isso que queria. Apenas mais uma coisa a acrescentar na sua lista de desculpas.
Rodou o corpo fazendo menção de andar para o corredor da cozinha quando parou, atônito. Diante dele as lágrimas corriam soltas no rosto de Rukia enquanto Renji estava parado de pé ao lado dela, segurando o ombro da baixinha. Byakuya mal teve tempo de pensar. Abriu a boca num visível espanto, o coração parecia ter parado, e o nervosismo voltava a tomar conta dele:
– O que... – sibilou cortando a própria fala – Desde quando?
Perguntou, tornando a esfregar o rosto cansado, entregue a um sentimento cruel de culpa e aflição:
– Tempo o bastante.
Renji falou esboçando um rápido sorriso.
E então Rukia correu na direção do irmão o abraçando. Soltou um algo soluço chorando ainda mais enquanto o envolvia com os braços na cintura, pedindo desculpas:
– Eu devia ter percebido mais cedo! – falava aos prantos – Desculpa ni-sama, eu nunca devia ter te deixado enfrentar isso sozinho!
Respirando fundo, Byakuya afagou o cabelo dela:
– Vou ficar bem, não se preocupe.
Aproximando-se dos dois Renji esticou o braço querendo encostar a mão no ombro dele, mas recuou sem saber ao certo se deveria. Frente a dúvida dele e sua face envergonhada, Byakuya bufou trazendo-o para perto de si. Apesar do espanto inicial Renji cedeu ao momento, abraçando Byakuya de volta assim como também passava o braço ao redor de Rukia.
E naquele rápido instante em que o mundo parecia girar mais devagar, os três se deixaram embarcar no aconchego desse carinho que entre o calor emanando dele parecia que Byakuya dizia aos dois um singelo "obrigado"...
Continua
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