Maipetto no Neko
56 Capítulo 56 - Memento
Notas iniciais
Maipetto no Neko
Capítulo 56 — Memento
Sentiu o corpo pesado como se estivesse afundando depressa num oceano. A pressão o deixava zonzo; repleto de náuseas. As mãos presas na lateral do corpo estavam envoltas por grossas correntes, as mesmas usadas para prender a proa de grandes navios no cais. E se não fossem por elas Grimmjow teria se livrado dessa prisão temporária, voando para cima de Aizen e a pequena raposa o acompanhando.
O sangue havia secado na base da nuca, podia sentir a crosta do antes líquido vermelho colada entre o cabelo e a pele fina do pescoço. O golpe serviu para lhe deixar inconsciente por pelo menos meia hora – pensava. Fosse o que fosse que aquele maldito homem planejava envolvia Ichigo e isso o deixava cada vez mais frustrado.
Se tivesse prestado atenção nos sinais, se tivesse percebido antes! Ah! Teria ele mesmo acabado com Aizen. E Gin, o tão prestativo Gin, o seguindo para cima e para baixo dentro da sua casa... Meu Deus! Eles estavam dentro de sua casa o tempo todo! Apenas se esgueirando pelos cantos e o cercando, feito duas cobras, que agora davam o bote.
Na sua frente Ichigo tentava se debater, mas mesmo esse simples movimento lhe era negado, pois as mesmas correntes que as de Grimmjow o prendiam. Os pulsos estavam envoltos pelo metal o apertando, marcando a cútis branca do garoto. Ao longo do antebraço, porém, haviam sinais de cortes e hematomas. Tinham o marcado, batido nele. Porque Ichigo jamais se deixaria capturar tão facilmente.
Quando saíram daquela pequena cafeteria onde Aizen o atraíra falaram pouco. Ele queria saber sobre a festa surpresa de Grimmjow, algo que deixou o ruivo perplexo: o quanto da sua vida aquele homem sabia? Como teve conhecimento de algo planejado apenas para tão poucas pessoas? Será que ele estaria o vigiando? E sua família! E seus amigos! Tudo se encaixava agora.
Ele sempre esteve três passos à frente dos dois. Mas só fora perceber isso tarde demais. Do lado de fora da cafeteria mal teve tempo de reagir quando o primeiro golpe veio no estômago o forçando a se curvar na direção do chão. Gin tinha o atingido em cheio, e, ao pensar em lhe devolver o soco, Aizen tratou de enfiar uma fina agulha em seu pescoço, numa maestria que o deixou sem ação alguma. O anestésico penetrou seu corpo e num instante o apagou. Despertou já preso naquele galpão húmido e fétido, onde nem com todas as suas forças, nem com todo seu ódio conseguiu de livrar do ferro das correntes.
Ainda assim queria salvar Grimmjow. Só pensava nele. Sabia que fora apenas uma isca, e vendo-o agachado, jogado no chão, repleto de amarras apenas conseguia se martirizar. Como havia sido estúpido! Porque não ficou na festa? Porque foi querer tentar resolver todos os problemas sozinho? Estúpido, estúpido, estúpido! Impulsivo como sempre, acabou apenas piorando a situação.
Os globos de Grimmjow miravam o desespero nos de Ichigo. Ele queria, tanto quanto ele, se livrar das correntes. Quis gritar, esbravejar, mandar Aizen ir à merda. Mas não podia, não com aquela amarra de couro prendendo sua língua dentro da boca. Era uma daquelas mordaças com uma tira grossa de metal encapada com couro preto, presa atrás da cabeça que lhe puseram na frente da boca. Mal conseguiam murmurar os tão desejados palavrões. E Ichigo usava uma igual. Podiam apenas comunicar-se por meio desses olhares de confusão e preocupação um com o outro, indefesos perante aqueles dois.
Quando não mais conseguia esperar Aizen prostrou os caros sapatos de marca na frente de Grimmjow fazendo-o erguer a cabeça para conseguir vê-lo nos olhos. Sua expressão era de fúria, enquanto que Aizen sorria um sorriso apático e triunfante.
– Desculpe pela rudeza, Grimmjow.
Ele falou chamando-o apenas por seu nome, mostrando o quanto lhe era insignificante.
– Eu simplesmente não podia correr o risco de vê-lo fugir. Veja bem, eu conheço os seus tão preciosos e úteis poderes. Não bastasse a imensa sorte o envolvendo, suas habilidades corporais também são fascinantes!
Grimmjow murmurou o que provavelmente era um palavrão, mas Aizen apenas o ignorou:
– Ora vamos, não seja assim. Achou mesmo que tudo seria tão fácil? Achou mesmo que eu não sabia das suas conversas secretas com Neriell?
Cutucando a ferida, Aizen o viu tremer o corpo por inteiro. Agachou-se até a altura do corpo escorado de Grimmjow e, segurando a ponta de seu queixo o obrigou a lhe mirar os olhos:
– Vamos começar agora, Grimmjow. E o que aconteceu com Neriell não será nem um terço do que farei com você... E com seu precioso moranguinho.
Ele chacoalhou, revirou-se por dentro. Queria o matar. MATAR! Nas suas íris azuis brilhava apenas um impulso homicida, deixando-o cada vez mais louco.
Ah! O que lhe diria Neriell se pudesse o ver agora?
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A figura de pé na porta da casa Kurozaki espantava a todos. Ninguém esperava sua visita, aliás, ninguém a achava possível. Karin segurava a maçaneta da porta com força, arregalando os olhos junto com metade da festa – a metade que conhecia aquela pessoa.
Após o sumiço de Grimmjow e Ichigo jamais esperariam uma surpresa como aquela. A festa que deveria deixar apenas o aniversariante perplexo acabou funcionando da maneira contrária.
Rukia, mesmo mal integrada na história conhecia aquela pessoa. Que dirá Inoue! A garota mal conseguia acreditar no que via! Chegou a sentir as mãos geladas do homem pálido atrás dela a segurando, percebendo só agora que havia quase caído para trás. Chad continuava com o mesmo porte, mas era visível seu espanto.
Dentro de sua mente Ishida tentava encontrar uma explicação, mas nada lhe ocorria, ao menos não de imediato.
Renji fitava sério o que ele pensava ser uma ilusão. Depois do que Ichigo lhe contara podia imaginar qualquer coisa, menos aquilo.
Vendo as expressões sérias e confusas trajadas por eles, a figura precisou pigarrear algumas vezes antes de falar acordando-os do transe:
– Porque essas caras tão assustadas? Quem morreu?
Disse, tentando fazer graça, o que fez Karin responder de imediato:
– Você... Você morreu!
Yuzu a acompanhou no raciocínio, e mesmo seu pai havia achado tudo aquilo muito, mas muito confuso.
Enquanto isso, apesar de querer ficar séria, dando um ar de mistério a si mesma, Neriell não conseguiu segurar o sorriso dentro da boca. Fechou a porta, pois o frio a incomodava bastante, e só então, devidamente aquecida, pode, por fim, falar a todos:
– Bem, acho que devo dar uma palavrinha com vocês. Vamos conversar amores?
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Soltando o queixo de Grimmjow, Aizen levantou-se andando devagar na direção de Ichigo, deixando-o mais nervoso ainda.
– Preciso começar a te mostrar uma coisa Grimmjow, uma coisa muito importante. Por isso, preciso que você fique atento a tudo que irei fazer. Entendeu?
Ele apenas ouviu o som de murmúrios em retorno.
Ao ver aquele homem se aproximando Ichigo mordeu com mais força o couro da mordaça, mostrando a ele a raiva em seu rosto. Aizen, porém, não se intimidou com aquilo. Parou de andar ficando ombro a ombro ao lado do ruivo. Repousou uma das suas mãos sobre o ombro dele pressionando os dedos. Ichigo fechou ainda mais o cenho.
– Muito bem Grimmjow – ele falou voltando sua atenção ao outro – Eu preciso te mostrar uma coisa. Mas antes quero que você saiba que não foi fácil trazer seu namoradinho até aqui. Ele pode ser bastante... Obstinado quando quer.
Aizen sorriu. O ruivo enfureceu-se novamente, e, num rompante, jogou pesadamente a cabeça para frente atingindo a testa de Aizen. Ele recuou um pouco sentindo a dor da pancada, porém, para a surpresa do ruivo, ele sorriu.
– Viu? – disse olhando para Grimmjow – É exatamente esse tipo de comportamento ao qual estava me referindo.
Grimmjow quase saltou do canto onde estava, mas outra vez as correntes o prenderam. Sua íris enxergava apenas Aizen, e se aquela mordaça não estivesse ali, deixaria a espuma raivosa escorrer dela.
– Bem, bem, não vamos esquentar mais os ânimos por aqui. Apesar disso fazer parte do que quero lhe mostrar Grimmjow.
Falou, começando a rodear o ruivo. Ichigo, tanto quanto Grimmjow, forçava os pulsos para fora daquelas cordas, mas isso apenas aumentava a dor do aperto. Queria acabar com Aizen pelo que fazia com ele – e mais ainda ao que estava provocando a Grimmjow.
Quando retornou sua atenção a Ichigo, Aizen carregava numa das mãos uma pequena faca. Aquilo deixou Grimmjow apreensivo. O que ele pretendia? Iria provocar outro machucado no ruivo? Iria mesmo macular ainda mais o corpo dele?! Como se já não bastasse o que havia feito!
Igualmente nervoso Ichigo via a lâmina da faca brilhando a sua frente. E quando achou que sentiria o metal cortando sua pele, o viu encaixar a arma na gola da camisa, arrancando duma só vez o tecido da frente de sua blusa, deixando seu peito exposto.
– Muito bem Grimmjow, agora eu quero mesmo sua total atenção. E, para que seu querido ruivinho também esteja bem disposto, uma pequena ajuda vem a calhar.
A seringa veio do nada cravando uma nova agulhada em seu pescoço. Ichigo sentiu a fisgada e logo em seguida um intenso calor se alastrando pelo local.
Grimmjow arregalou os olhos. As pernas arrastando-se descontroladamente pelo chão, as correntes rangiam, e nenhum daqueles movimentos pareciam surtir efeito. Continuava parado naquele mesmo canto sem poder fazer nada diante dele. Diante daquela terrível cena em que via Aizen maltratar Ichigo.
A cabeça do ruivo começou a girar segundos depois da espetada. As veias se dilatam permitindo o sangue passar apressadamente, esquentando cada parte da pele, dos órgãos, dos músculos, agora, vulneráveis. Sentia-se cada vez mais quente, um calor descendo do pescoço para seu peito, até a barriga, chegando ao baixo ventre e mesmo suas pernas tinham sido afetadas. O rosto havia se avermelhado, da garganta saía um forte e pesado ar, tal como uma febre, e seus olhos ganhavam uma visão turva da realidade. Aizen estava ali ao seu lado, e Grimmjow continuava tentando se aproximar dos dois duma maneira ainda mais desesperada.
– Agora Grimmjow – falou Aizen – com essa pequena dose de cooperação, você poderá perceber que o Ichigo-kun aqui está se sentindo bem mais suscetível.
Descendo uma das mãos ao pescoço de Ichigo, Aizen acariciou a cútis, ao passo em que o ruivo pode sentir os pelos da nuca erguendo-se numa onda elétrica, correspondendo involuntariamente ao seu toque.
Grimmjow parou de se mexer pela primeira vez. Aterrorizado seguia com os olhos arregalados o movimento sutil que os dedos de Aizen faziam sobre Ichigo. Ele tocava seu pescoço, começando a descer na altura de seu peito, fazendo o garoto arfar.
Cerrando os globos, Ichigo queria vomitar. Aquilo o enojava por dentro, contudo a sensação que a droga provocava com o toque de Aizen era excitante, num nível acima do que estava acostumado. O que provavelmente era um afrodisíaco ou algo assim havia deixado seus sentidos mais aguçados, e todos os nervos retribuíam, mesmo contra sua vontade, as carícias de Aizen.
– Nesse ponto, Grimmjow, você deve perceber uma coisa muito importante que irá gerar uma nova perspectiva em nosso relacionamento...
Dizendo isso, ele percorreu os dedos com mais afinco pelo ruivo, parando com metade do corpo atrás dele.
Sua mão afastou o tecido rasgado da lateral de seu ombro. A língua de Aizen passou por seus lábios umedecendo-os, para então deixar a boca sobre a nova parte descoberta dele.
Beijou-lhe a parte interna do ombro, subindo até o inicio do pescoço, enquanto que uma de suas mãos abria o lado esquerdo do restante da blusa, fazendo um desenho por sobre o abdômen do ruivo, pressionando as falanges sobre o garoto, amassando os dedos na carne dele.
O furor em Grimmjow subia cada vez mais. Tremia em sua própria impotência, encurralado, preso naquela jaula preparada para ele. Enquanto isso, Gin estava atento a qualquer surpresa, pronto para lhe golpear se precisasse, pois ele estava ali para proteger Aizen, seu papel há mais de dez anos. Bastava Grimmjow começar a se soltar daquelas correntes, e um novo golpe o acertaria na cabeça.
O primeiro botão do cinto de Ichigo cedeu conforme Aizen o afrouxava. Pouco tempo depois ele pode sentir o tecido cedendo ao abaixar as laterais de sua calça. A latente ereção do ruivo ficou visível, deixando-o envergonhado. Suor escorria da testa, os lábios estavam pressionados contra a mordaça de couro deixando a saliva escorrer. Os olhos continuavam turvos, como se tudo fosse um longo e terrível pesadelo.
Ele não queria ser visto daquela forma. Ele não queria que Grimmjow tivesse que presenciar nada, muito menos deixar-se submeter daquele jeito. Sabia ser culpa da droga. Não queria Aizen lhe tocando, mas ao mesmo tempo era incapaz de evitar. A dormência nos músculos, as grossas mãos de Aizen o alisando, por mais difícil que fosse admitir, estava gostando da sensação.
E por isso odiava-se.
Quando teve a calça abaixada, porém, seu coração acelerou. Ele ia mesmo levar aquela estupida demonstração a esse outro nível? Nem mesmo Grimmjow conseguia acompanhar tamanha monstruosidade.
Aizen desceu os dedos pelas nádegas de Ichigo continuando a lhe beijar e lamber. Num gemido abafado o ruivo deixou escapar o que Grimmjow mais temia.
Primeiro, ele começou a lhe tocar levemente no meio das carnes, depois empurrando de leve fez com que a ponta do dedo entrasse em Ichigo, deixando-o estarrecido, indefeso ao extremo, completamente exposto ao que aquele homem quisesse fazer com ele.
E pela primeira vez Grimmjow entendeu do que se tratava o bizarro show. Se Aizen quisesse poderia fazer qualquer coisa com Ichigo, e ele apenas assistiria a tudo de camarote. Seus braços estavam atados assim como suas pernas. Nem mesmo tinha o direto de protestar com a boca travada pela fivela de couro. A realização era dura de se aceitar, mas era a pura verdade.
Noutro gemido solto pelo ruivo, Aizen alargou um sorriso nos lábios próximo ao ouvido do garoto:
– Consigo entender porque gosta tanto dele, Grimmjow.
Enterrando outro dedo dentro de Ichigo, Aizen o fez estremecer novamente. Os braços contorceram-se entre as cordas, o peso das pernas cedeu e teria caído não fosse pela suspensão no teto. O coração batia forte, acelerado, pela droga, pelo terror se instalando nele.
Derrotado, finalmente vencido, Grimmjow parou de lutar. Baixou sua cabeça, deixando os braços molengas. Murmurou algo inaudível com a boca. Aizen o via ao longe, ainda se divertindo com Ichigo. Sabia que já podia parar. Tinha conseguido a submissão de Grimmjow, mas ainda queria fazê-lo diminuir-se por mais algum tempo.
– Grimmjow eu não esperaria que seu amado namorado fosse tão cooperativo...
A boca mordiscava o lóbulo da orelha do ruivo, enquanto afastava de leve o cabelo da nuca o lambendo. No meio de suas pernas a excitação quase pulava para fora da cueca, enquanto Aizen brincava com sua entrada, retirando e colocando os dedos ali dentro, o tendo na palma de sua mão. Agarrou a pulsante ereção do ruivo, excitando-o mais ainda. Os gemidos saíam involuntariamente. O rosto já estava mais que vermelho devido ao ódio e as tensões ao qual era submetido. Os dedos de Aizen se entrelaçaram em seus cabelos os puxando para trás. O pescoço estava completamente exposto aos avanços do homem o tocando.
Nunca havia deixado alguém além de Grimmjow tê-lo daquela forma. Era sujo, depravado, nojento, ser forçado assim.
Quando achou que não mais ia aguentar, ouviu um pequeno choro emanando do canto do galpão. Arregalou os olhos castanhos descrentes no que ouvira.
Subitamente Aizen parou seu tratamento especial voltando sua atenção a Gin.
– Solte-o.
Ordenou vendo o homem com olhos de raposa remover o lacre na boca de Grimmjow. Ele arqueou respirando com mais afinco, e o ruivo agora percebeu que o breve choro havia vindo dele. Isso o assustou. Grimmjow nunca tinha agido daquele jeito. Estava... Vencido.
– Bem, parece que nós chegamos num ponto bastante interessante aqui, não é mesmo, Grimmjow-kun?
Adicionou o apelido carinhoso ao seu nome o menosprezando. Saliva escorria dos cantos da boca de Grimmjow indo ao chão. Seu corpo estava encoscorado nele mesmo, e nem mesmo seus braços mostravam uma nova rebeldia. Ele havia se jogado no abismo feito por Aizen, sufocando e engolido pela força massacrante que esse homem possuía.
– Não... Não mais...
Balbuciou conforme Aizen deixava Ichigo para trás aproximando-se dele:
– Como? – falou levando uma das mãos ao ouvido – Perdão Grimmjow, mas eu precisou ouvir sua voz, alto e claro.
– NÃO MAIS!
Esbravejou rouco, pela fúria, pelo medo, pela derrota, pelo choro.
– Já chega...
As palmas dele vieram estalando pelos ecos do galpão.
– Bravo Grimmjow! – ovacionou ainda batendo as mãos – Uma interpretação digna! Estou muito contente, de verdade.
Agachando-se na sua frente, Aizen enroscou os dedos nos cabelos azuis revoltos o fazendo erguer sua cabeça para si. Seus olhos estavam vermelhos, mas sem sinal de lágrima alguma. Ele era orgulho mesmo numa hora dessas. Achou graça daquilo, sorrindo.
– Compreende agora, Grimmjow?
Falou olhando o semblante calado dele.
– Você não pode fazer nada. Tudo estava arranjado há muito tempo.
Ele pausou a fala por um instante, não por pena, não por querer poupá-lo, mas sim porque seu sadismo queria ver a expressão em seu rosto se transfigurar quando falasse:
– Desde a morte prematura de seus pais eu já tinha o controle de toda a situação.
Grimmjow ficou estarrecido. A boca entreabriu, mas nenhuma palavra saía de lá. Do que ele estava falando?! Ele... Ele não poderia... Poderia?! Até mesmo isso era responsabilidade sua?!
– Então... Veja bem o que temos aqui Grimmjow: seu namoradinho – apontou para Ichigo ainda segurando os fios azuis dele – está completamente preso, perdido. Eu posso fazer o que quiser com ele.
– Não toque mais nele!
Gritou, sentindo o soco na cabeça em seguida. Logo teve o cabelo puxado outra vez enquanto sangue escorria de sua boca.
– Como eu ia dizendo antes da sua nada educada intromissão, eu posso fazer o que quiser com ele. E ainda assim você ficaria parado, impotente, incapaz de qualquer tipo de ação...
Havia um motivo para seu discurso ter acabado ali, sem uma conclusão aparente, E Grimmjow não era burro, sabia que Aizen queria a vitória completa, ouvindo dele a sentença de rendição. Respirando fundo, engolindo devagar, admitiu, por fim:
– O que... Você quer?
– Bem, bem, e nós não descobrimos a pólvora? – sorriu – Vamos lá Grimmjow, depois de todos esses anos comigo ao seu lado, depois do que aconteceu com Neriell e a querida amiguinha dela, você realmente considerou a mínima possibilidade de sair dessa situação por cima?
Rangendo os dentes, ele nada respondeu. Aizen soltou seu cabelo deixando a mão deslizar para seu queixo e enquanto o segurava falou, aproximando seu rosto do dele.
– Poderia ser uma surpresa Grimmjow, mas eu sempre senti inveja de você, da sua família. Tanta capacidade desperdiçada. E você, apenas um tolo com tanto... Talento latente. Basta apenas viver e o mundo lhe sorri de volta com um punhado de sorte. Você tem tudo! Mas deixa essa glória escapar usando-a em apenas coisas triviais como... Sobreviver a um acidente, ganhar algumas brigas, conseguir um namoradinho... Você é apenas uma criança repleta de possibilidades... E agora sua única opção é entregar essa possibilidade a mim.
Soltando seu queixo Aizen ergueu-se procurando por algo no bolso de seu paletó. Ichigo observava os dois arfando, o peito subindo e descendo, e os olhos revirando feito loucos, sem conseguir mover nenhum músculo. Tanto ele quanto Grimmjow estavam entrelaçados na teia dele, prestes a serem devorados.
No entanto Grimmjow continuava confuso. Não entendia o que todas as palavras pomposas de Aizen podiam dizer.
– Do que... Está falando?! – perguntou raivoso.
– Oh você não conhece nem um pouco sobre sua própria história, não é mesmo Grimmjow-kun? Ao menos seus antepassados tiveram a decência de fazer uma pesquisa antes.
– Do que está falando?!
– Disso.
Tornando a se agachar Aizen lhe mostrou uma pequena caixa vermelha com um laço a enfeitando. Junto a um pequeno cartão que continha os dizeres: “feliz aniversário.” O pequeno memento era um exagero, ele sabia disso, mas apenas fazia tudo ficar ainda mais interessante.
– O que é isso?! – indagou incerto.
– Isso, meu caro Grimmjow, é o meu passaporte, meu cartão de entrada a sua tão reclusa linhagem sanguínea; isso me deixará ter exatamente o que eu quero. Ainda confuso? Imagino que sim com essa sua expressão tola tão escancarada. Pois bem, vou explicar, mas preste atenção. A questão é que, nem todos adoravam ver esse pequeno grupo tão privilegiado, e me refiro a sua família. Então o que o ser humano invejoso faz quando ele não pode ter algo? Arruma um jeito de conseguir. E dentro dessa pequena caixinha eu tenho exatamente isso. Ainda não conseguiu entender?
Ele sorriu ao passo em que Grimmjow apenas se enfureceu ainda mais. Queria o rasgar por inteiro, mas então a visão de Ichigo preso á sua frente o travava.
– Não...
Respondeu amargamente deixando Aizen mostrar os dentes outra vez.
– A magia que corre em suas veias não pode ser contrariada por nenhum meio natural. Então eu tive que encontrar um veículo não-natural para me equiparar. Entende agora? Dentro do presente que preparei especialmente a você existe uma joia capaz de dar a quem a possui aquilo que ele mais deseja: e eu desejo seu poder.
– Se era tão fácil assim pra que me torturar... Ou a Ichigo...
Disse entre os dentes.
– Porque nada na vida é tão simples assim... Veja, a única maneira dessa minúscula joia funcionar ao meu favor é tendo seu consentimento ao usá-la.
Ele parou por alguns segundos analisando as feições de Grimmjow. Molhou a ponta do polegar na língua antes de o levar na altura dos lábios secos de Grimmjow, passando a pele úmida neles.
– Entende agora, Grimmjow, como o mundo é um lugar curioso? Eu não posso tomar diretamente o que eu quero de você... Mas como já demonstrei hoje... Posso tomar outras coisas igualmente importantes.
Ah! Como Ichigo pensava pouco de si nesse minuto! Ele não era nada além dum pedaço de carne a ser usado por Aizen em seu plano bem arquitetado. Ele sempre procurou ter o que era de Grimmjow, não apenas seus poderes, não apenas sua fortuna ou a empresa. Ele queria tudo isso e muito mais. Apenas a glória era um caminho aceitável para Aizen. As cordas envolvendo os pulsos doíam. A droga ainda esquentava seu corpo contra sua vontade. Constrito, parecendo um boneco erguido no piso gelado, ele era apenas uma marionete sendo usada contra Grimmjow.
–Gin.
O homem foi ao lado de Ichigo após o chamado. Sorria mantendo os olhos na mesma expressão enigmática e, puxando uma pistola da parte de trás da calça a engatilhou na cabeça do ruivo. A respiração acelerada dele tentava sair pela mordaça, e Grimmjow queria se livrar das correntes de novo. Mas antes de continuar Aizen o interrompeu.
– Como iremos tratar isso Grimmjow? Eu já expliquei: eu posso fazer o que quiser... Agora basta uma pequena decisão sua...
Mostrando uma chave preta a ele, Aizen estendeu a mão até suas correntes soltando um cadeado. O aperto afrouxou de imediato, e o seu primeiro impulso foi de saltar na garganta dele. No entanto o cano frio encostado na testa de Ichigo o freou.
– Como eu disse... Basta uma única e sensata decisão sua Grimmjow.
Entregando-lhe a caixa, Aizen esperou que ele removesse a fita a abrindo. Lá dentro a joia reluziu sua luz arco-íris hipnotizando Grimmjow por meros segundos. Apanhou a esfera, mantendo-a firme nos dois dedos, conforme uma estranha pressão emanava dela, irradiando-se por seus nervos, por seus ossos. Podia sentir, realmente, o estranho poder sobrenatural que rondava o objeto. E naquele instante soube exatamente que as palavras de Aizen eram verdadeiras.
– Ichigo vai sair daqui... Sem nenhum arranhão depois disso...
Arranhou as palavras para fora da garganta observando o sorriso e por fim o consentimento de Aizen aos seus “termos” – como se tivesse outra opção naquele momento.
Ele estava se entregando livremente aquele homem. Ele teria de deixar tudo de lado: a herança de sua família, seus amigos, a empresa pela qual seus pais lutaram para manter. Sua casa, sua vida, tudo escorreria por seus dedos. E o fazia dentro dum teatro aonde se enforcava por vontade própria. Ignorar a tudo e todos... Por Ichigo?
Sim, ele não precisava nem pensar.
A joia brilhou. Grimmjow respirou fundo deixando a visão de Ichigo sumir da sua frente conforme a energia lhe sugava a vida aos poucos. Seu corpo se transformava, mudava de acordo com as vontades da joia, de acordo com o desejo de Aizen.
E conforme assistia a deliciosa cena tão aguardada, Aizen deixou uma leve, porém alta gargalhada escapar, ecoando pelo galpão, invadindo o ambiente, mostrando ao mundo que ele por fim, tinha conquistado a sua vitória.
Teria sua tão almejada glória. E Aizen a recebia de bom grado, pois aquilo não era uma simples vitória: era o seu direito sobre aquele mundo. Seria um deus entre os homens; um ser único, que emergiria da terra mostrando a humanidade sua única visão.
Ele não apenas merecia aquilo: seu destino o aguardava ansiosamente para receber a coroa sobre o trono, ao qual iria se sentar hoje, assim que terminasse de destruir seu maior empecilho: a vida de Grimmjow.
Glória! Enfim, oh tão esperada Glória!
Ele era um deus...
Continua
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