Maipetto no Neko
49 Capítulo 49- Lembre-se de mim
Notas iniciais
Por favor, se alguém encontrar uma máquina do tempo, me avise, pois só assim conseguirei recuperar minha vida social xD
#UniversidadeÉFoda#DormirPraQue?#SaudadesDoEnsinoMédio
Kissus, e boa leitura =***
Maipetto no Neko
Capítulo 49 – Lembre-se de mim
Suas notas mal chegavam perto dos melhores da turma. As poucas matérias em que tinha resultados acima da média lidavam com seus quesitos físicos. Então, era de se esperar pouco dele numa aula de informática avançada. Renji nem se importava com a fama de encrenqueiro, até gostava, pois se dava bem com as garotas.
Mas naquele dia, dentro da sala de aula, esperando o novo professor passar pela porta, a face desinteressada e de pouco caso iluminou-se. Os olhos brilharam abobados, e os lábios mal conseguiam se mantar unidos, deixando-o com a expressão embasbacada. Como os outros estudantes não viam? Como eles podiam ficar fofocando um ao outro sobre a rigidez do professor novo quando ele era tão... Perfeito.
O cabelo ébano destoava no paletó cinza, liso e fino; as pontinhas caindo sobre os ombros. Usava presilhas brancas que antes nunca havia visto combinarem de tal forma num homem. O corpo alto e esguio, a pele clara cintilando conforme o sol entrava pelas janelas! Como ninguém enxergava a magnificência dele?! Kuchiki Byakuya... O nome ficara impregnado em sua mente feito uma droga, e ele queria intoxicar-se com ela.
Dali em diante tornou-se o aluno mais aplicado daquela matéria, mesmo não sendo o mais inteligente. Corria de um lado a outro pedindo ajuda dos amigos mais avançados, tentando aprender o máximo possível, pois assim poderia ficar mais próximo de seu professor. Aliás, porque não lhe pedir ajuda? Quer dizer, ele ainda era – além do fruto de sua luxúria juvenil – o professor da turma!
No início, foram apenas desculpas esfarrapadas para poder vê-lo. Perguntas idiotas, se não simples, que o faziam parecer um completo desentendido do assunto. Todo fim de tarde vinha ele, o aluno alegre e sorridente passando pelos corredores com um punhado de exercícios mal feitos nas mãos. Quem o conhecia até estranhava. A fama de delinquente não o abandonou. Ainda brigava com vários metidos depois da escola, chegando repleto de curativos e bandagens no dia seguinte. Mas quando ele aparecia ah! O mundo se transformava e a dor ia embora.
Durante á noite, Renji se deitava na cama do quarto olhando o teto sem graça, perguntando-se o que o fazia ter aqueles sentimentos novos e tão estranhos. Quer dizer, nunca foi do tipo ‘namorador’, mas também já havia tido suas experiências – e nenhuma delas chegava perto de Byakuya.
Se quisesse descrever essa novidade invadindo seu peito, nenhuma palavra parecia ser o bastante. Era como o toque quente duma manhã de sol. O corpo ficava aquecido, irradiando a sensação morna por tosos os membros, ascendendo os sentidos. As mãos formigavam, e os pulmões ficavam carregados, estufando pela presença da aconchegante luz.
Talvez fosse aquele ar tão misterioso e ao mesmo tempo sereno. A calma daquele homem transparecia uma tristeza profunda, que apenas ele conseguia perceber. Os alunos inventaram diversos apelidos ao ‘frígido’ professor, fazendo com que Renji se metesse em novas brigas na defesa do homem.
Foi pouco tempo depois, logo na segunda semana, que a garota morena novata apareceu em sua sala. A amizade brotou quase que instantaneamente. A garota baixinha tinha um espírito marrento e doce ao mesmo tempo. Gostava de fazer piadas, ler mangás como se fossem novelas, e estranhamente tinha grande dificuldade em encaixar um canudinho em pacotes de sucos. Renji ria sempre.
Ela era irmã mais nova do professor. O dia acabara de ficar nublado quando ela lhe contou sobre os últimos anos conturbados de sua vida. O tatuado ainda lembrava-se muito bem da feição abatida de Rukia – que mal conseguia olhara para frente.
A pequena contou cada detalhe de como Byakuya conheceu o amor de sua vida: Hisana.
Os dois se viram pela primeira vez num parque. Hisana estava sentada num banco, bem debaixo da árvore carregada das características flores rosa. Se tivesse feito propositalmente, talvez o arranjo da cena se tornasse forçado demais. Mas ela nem havia percebido o quão bela ficara com as pétalas caindo ao seu redor a cada nova onda da brisa. Byakuya notara. Ele passava ali, como de costume, caminhando para o trabalho. E nunca havia visto tamanha formosura. Ela parecia um quadro vivo. Aproximou-se da bela jovem, um pouco atrapalhado – coisa que Renji achou difícil imaginar. O convite saiu rápido e sem meias-voltas: um jantar na cidade. Hisana esticou os finos lábios gentilmente, aceitando. Rukia dissera que a irmã confessou mais tarde ter achado o sorriso sutil lançado por ele lindo; irresistível.
Um ano depois haviam se casado, feito num conto de fadas. As duas se tornaram parte da restrita e complicada família Kuchiki, mesmo com a relutância de muitos dos mais velhos. No entanto, Byakuya não se importou com as críticas. Rukia dissera, deixando os lábios transparecem o quão importante eram essas lembranças, que aqueles foram os anos mais felizes da vida dos três – mesmo tendo durado pouco tempo.
Byakuya tinha os pés nas nuvens. Bastava ver o rosto singelo de Hisana, e o pior dos dias tornava-se o final perfeito. O mesmo podia ser dito de sua esposa, incapaz de crer na alegria proporcionada por Byakuya.
Mudaram-se para uma pequena casa na cidade. Em breve, Rukia começaria os estudos na faculdade, e assim os dois amantes teriam todo o espaço apenas para eles. Queriam encher a casa de crianças, e Byakuya insistia que eles deveriam ter o radiante sorriso da esposa.
Mas eles nunca tiveram filhos.
Três meses depois, Hisana adoeceu. A família Kuchiki podia pagar por qualquer tipo de tratamento, isso se houvesse um. Pouco a pouco, a exuberante beleza e vivacidade escorreram de Hisana. A pele tornou-se cada vez mais pálida, mesmo com os constantes banhos de sol. O corpo definhava como se apodrecesse por dentro. Podiam-se ver as finas veias ressaltadas sobre as mãos. Os ossos do rosto revelavam o formato preciso do crânio, e a voz desaparecia a cada palavra forçada da mulher. Byakuya não se atreveu a sair do lado dela nem por um segundo.
As consultas médicas mal tiveram tempo de encontrar alguma solução. As semanas em que Hisana minguava aceleraram-se, e o tempo ficou reduzido às horas – minutos. A respiração falha a matava cada vez que o ar era tragado.
E então ela morreu.
Não chovia. O céu não estava nublado, e nenhum sinal de mau tempo parecia se aproximar deles. Na casa, o sol batia forte e alto sobre o corpo de Hisana. E Byakuya sentia o calor em suas costas em contraponto com os gelados dedos que segurava.
Depois do enterro, Byakuya nunca mais abriu um único sorriso. Sua família não esboçou nenhuma reação, mas eles sabiam do alívio oculto deles com aquilo. Rukia continuou morando junto do irmão mais velho. Os dois estavam sozinhos no mundo.
Desde então, Byakuya desistiu de viver naquela casa, pois eram muitas lembranças. Em cada canto da madeira, das escadas, dos quartos, ele sentia a presença da falecida esposa. Aquilo o afogava nas sombras cada vez mais profundamente.
As mudanças de trabalho começaram então. Uma conferência aqui, ou uma palestra; propostas em outros países ou estados. Mal se alojavam numa região, o telefone tocava o convidando a um novo local. E Byakuya jamais recusava. Comprometeu-se com seu trabalho e os cuidados de Rukia. Nada mais existia a não ser a responsabilidade, o ar sério, e a dor dilacerante o corroendo nas entranhas.
Essas palavras ainda podiam ser lembradas por Renji, mesmo depois de tantos anos já passados. Mas não havia sido ‘pena’ que o deixara assim, tão perdidamente apaixonado por Byakuya.
Aliás, como explicar isso? Só quem já amou sabe o quão irracional é tentar encontrar as razões. O cheiro, uma frase, aparências, sorrisos, toques... Podia ser qualquer coisa, mas apenas esse pretexto inquestionável, tornava o mais inteligente dos homens em um brinquedo nas mãos do objeto amado.
Renji sempre fora um brinquedo, o bonequinho do professor. Correndo dum lado a outro, procurando pelo velho homem nos corredores do colégio. Byakuya acharia graça, se não fosse irritante.
O ruivo entrava no seu escritório e o enchia de perguntas completamente absurdas, mal pensadas, e sem nenhum preparo. O que aquele estúpido queria? Bem, tinha de atendê-lo, afinal, fazia parte das suas incumbências.
Já havia contado treze encontros só na segunda semana em que havia se instalado naquela escola. Meu deus, o quão azucrinante esses estudantes podem ser!
O garoto todo era peculiar: cabelos carmim, tatuagens estranha percorrendo seu rosto, e o interesse estranho numa matéria que ele obviamente não dominava.
Deve ter sido entre um desses encontros que percebeu pela primeira vez a risada de Renji. O olhar continuava distraído enquanto o garoto repetia pela quinta vez a mesma questão, rabiscando a folha já destruída de inúmeros cálculos. E então, a solução chegou à resposta esperada. Renji sentiu orgulho de si mesmo. Conseguiria impressionar Byakuya, mas ao mesmo tempo, ficara feliz por saber ser capaz de resolver os problemas – depois de diversas tentativas, claro.
Quanto a Isso, Byakuya tinha de admitir: a persistência do garoto era inigualável. Mesmo com tantos tropeços, rebatidas e faltas, ele havia conseguido. E aquele sorriso espalhado no rosto juvenil... O peito acelerou ao vê-lo tão alegre.
A felicidade de Renji era contagiante. Nem mesmo o impassível Kuchiki Byakuya conseguira resistir ao encanto dele. E esse furor lhe subindo até a cabeça lembrou-lhe de Hisana.
Fora terrível por alguns instantes. Pesou estar descarregando aquilo tudo em cima de Renji – que havia se tornado um precioso amigo para Rukia.
Durante vários dias tentou evita-lo, esquivando-se na escola, até mesmo em casa. Ficava enfurnado no escritório atrás das pesquisas, criando novos projetos no computador. E quanto mais se afastava, mais a mente o levava de volta aos pensamentos de Renji.
Poderia mesmo ser algo que lhe lembrava de Hisana: mas isso ia além do desejo depravado de um adulto por uma ‘criança’. O apego de Renji pelo professor acabou despertando uma parte sua há muito esquecida. Gostava de receber atenção dele, de ser necessário. Seu próprio ser queria sentir outra vez a presença de alguém ao seu lado. Contudo, só de pensar que tal anseio havia sido causado por um garoto bem mais novo que ele... Enchia-se de repulsa – e mais cobiça ao mesmo tempo.
O doutor, muito bem formado e de respeito conhecia-se melhor que ninguém: esse tão errôneo desejo modificava-se num sentimento mais profundo. Renji trazia com ele uma luz intensa, notada por qualquer um. O rosto bravio trancafiava a lealdade, a amizade, a sinceridade... Ele era uma modesta e vibrante luz.
Byakuya odiou-se por isso, durante anos. Desde a saída do emprego, jamais apagou da memória o garoto pelo qual havia, irremediavelmente, se apaixonado.
A chuva continuava indomada do lado de fora da casa. A rua – deserta. O mal tempo camuflava a visão o do outro lado da casa, no entanto, de alguma forma, Byakuya ainda conseguia enxergar a silhueta de Renji para dali, dizendo que o amava, dizendo que abandonaria essa agonia, duma vez por todas.
Um tolo, ele era. De nada adiantava os inúmeros diplomas ou prêmios espalhados por seu tão orgulhoso escritório. Seus olhos jamais foram capazes de ver o quanto machucava Renji. Ou melhor: não queria admitir, pois quando o fizesse, estaria rendido aos seus próprios sentimentos ocultos.
E como amava Renji!
Fingir a ignorância, virar o rosto e continuar em frente, como se nada estivesse ocorrendo entre eles; como um furacão que chega sem alarme, devasta tudo ao seu redor, e desaparece, deixando apenas sofrimento. Esperava um dia, quando a coragem se apossasse dele, abandonar Renji outra vez, satisfazendo, assim, a fome por esse tão querido aluno.
Mesmo com todos os planos bolados, fora incapaz de deixa-lo – de entender as vontades de Renji. Ele também o amava, porém não mais o faria depois de hoje, depois de ter agido tão irresponsavelmente; não depois de tê-lo humilhado dessa maneira. Byakuya continuou ali, remoendo e repetindo essas lembranças, os remorsos, e a negação de que eles ocorreram.
Tinha vontade de apagar da mente todas essas recordações.
Os pés andaram sozinhos pela sala até a entrada da casa. O casaco pendurado na lateral da porta encaixou nos ombros, molhando-se ao entrar em contato com a chuva. O moreno caminhou, sem rumo, apenas indo em frente, para algum lugar longe dessas reminiscências, algum ponto daquela maldita cidade onde fosse capaz de derreter o cérebro feito um cubo de gelo. Precisava aliviar o peso do corpo.
O assoalho do corredor ficou ensopado. As poças de água iriam penetrar nele e provavelmente fariam pequenas manchas, mofando dali a algum tempo. Renji sabia que precisava apanhar um pano na cozinha e limpar aquilo. As pernas, no entanto, ficaram ali, paradas, ainda apoiadas sobre a parede do quarto. Abraçava os próprios braços deixando as gotas caírem das roupas, escorrem pelos cabelos soltos até o chão.
As costas estavam mais leves, porém no meio do corpo sentia uma pequena massa negra se formando, feito um câncer. Desistir de Byakuya ao ter lhe dito todo o segredo guardado esses anos parecia ser... Errado. Mas era a única solução. Não colocaria Rukia no meio de seus problemas. E não se colocaria mais abaixo dos olhos do professor.
Era tudo o que mais almejava. Os globos cinza o observando diretamente, sem esquivos – apenas o enxergando ali, bem a sua frente, como sempre estivera. Mas ele jamais conseguiria alcançar esses olhos tão queridos e amados. Sua presença ficaria confinada a um lugar abaixo do de Byakuya. Não era bom o bastante, não era importante.
Então seria melhor agora, duma vez por todas, cortar esses laços, e se esquecer dele.
‘Tic-tac’, o relógio continuava a bater adentrando na noite. Renji não se movia, nem expressava algum esboço de vida. Os olhos turvos, enegrecidos, entraram num estado de torpor. Foi então, que o telefone tocou. O zumbindo tirou-o da posição incomoda sentindo a dormências no ombro esquerdo. Apanhou o aparelho apenas porque os toques eram ininterruptos.
– Alô?... – atendeu fracamente.
Soluços de choro vieram do outro lado da linha. Eram grunhidos de Rukia.
– Rukia? – exaltou-se – O que aconteceu?
– Renji... Faz mais de cinco horas... Ni-sama ainda não chegou em casa.
Primeiro as sobrancelhas ergueram-se surpresas, depois Renji perguntou-se do que a amiga estava falando. Byakuya estava lá quando saiu... Porta á fora.
– Ele não... Te avisou nada?
– Não. Eu cheguei faz cinco horas... Ele já devia ter voltado da reunião a tarde! Mas... Não tive notícias. Você sabe de alguma coisa?
Talvez, no entanto, se contasse deixaria Rukia ainda mais nervosa.
– Acalme-se – respondeu – eu irei procurar por ele. Fique em casa, perto do telefone, caso ele apareça, certo?
– Sim...
Bateu o telefone de volta na base. Respirou fundo secando a água escorrendo do cabelo. Indagava-se porque continuava a ser atraído para esse home. Quais seriam as forças do universo trabalhando em torno desses dois? Bufou novamente, revirando os olhos.
Seria a última vez. A última mesmo, que sairia atrás daquele homem. Faria por Rukia e nada mais... Só que... O coração palpitava preocupado.
Batia nas poças da chuva, tornando a se molhar. Onde ele podia estar? Deveria ter ficado trabalhando no escritório, como sempre p fazia. Porque desaparecer agora? Porque logo depois da briga deles?!
As residências tão bem feitas do bairro nobre da cidade estavam com as luzes apagadas, afinal, já passava de meia noite. E Byakuya tentava encontrar no bolso o alarme para abrir o portão verde da entrada. Piscava um olho de cada vez ficando zonzo, mal conseguindo manter-se de pé.
Nem sabia o que fazia na rua, ou o que o motivara a sair de casa no meio dessa tormenta. Tinha algo a ver com Renji... Ah, era sempre por culpa dele.
Finalmente em mãos apertou o botão do alarme. As grades verdes se afastaram dando passagem. Junto as suas tontas passadas outros sons se fizeram presente próximo a ele. Tentou acompanhar o movimento apressado passando por detrás dele, mas não conseguia enxergar nada – tanto pela chuva pesada quanto pelos sentidos grogues.
Levou a mão ao rosto limpando parte da água, mas a face voltou a se molhar no instante seguinte.
Continuou a entrar no pequeno condomínio procurando pelo número da sua casa. Porém as pernas vacilaram feito uma folha de papel, indo à direção de um poste. Recostou-se nele, e o estômago embrulhou. Respirou fundo desejando mais do que nunca tomar um banho – um descente e não o dessa chuva.
Ouviu o mesmo barulho de antes e então apareceram os vultos. Alguns deles; não conseguiu distinguir quantos, começavam a rodeá-lo.
Falavam coisas desconexas sobre suas roupas, de como o ‘bêbado’ mal conseguiria revidar. Ah! Eles queriam roubá-lo, ou algo assim. Um bando de pivetes tentando ganhar o lucro da noite. Que maravilha, era o final perfeito para aquele dia fatídico.
Veio o primeiro soco. Mesmo estando atordoado conseguiu mudar a direção do corpo, fazendo-o bater no poste. O garoto gritou segurando os dedos doloridos. Mas aquilo fora a única coisa capaz de fazer no seu estado deplorável. Um chute certeiro atingiu-lhe o flanco direito. As costelas arderam conforme ia de encontro ao chão na queda inevitável. Escorregou no asfalto ensopado, batendo com a face nele. Seguido disso, vieram os inúmeros chutes. Ergueram-no do chão pela gola do casaco branco. Outro começou a tatear seu corpo procurando pelo dinheiro, celular, e tudo o mais que pudessem roubar dele. Viram as poucas notas de dez na carteira, ficando irritados – pensavam que ele, pela aparência, deveria ser bem mais endinheirado que aquilo.
A raiva dos pequenos ladrões o jogou contra a parede duma casa qualquer. Sentiu as costas darem um baque surdo nos tijolos, enquanto o pescoço continuava a ser pressionado pelo antebraço do maior deles, querendo o sufocar.
Byakuya poderia livrar-se dele. Seus braços estavam livres, e visivelmente tinha a força superior. Mesmo sem conseguir ouvir ou ver direito, podia contar com sua intuição. E quanto mais pensava nisso, mais tinha vontade de acabar com aquele teatro. Entretanto... Ponderando sobre o final, valeria a pena? De que adiantava descontar a raiva em cima daqueles moleques? Ao passar pela entrada da sua casa, suas roupas continuariam molhadas. A boca iria arder devido ao corte causado pelo soco do moleque, ainda teria a pilha de documentos para analisar no escritório... E também estaria lá, a aflição agoniante que o corroía, enferrujando sua alma e a tornando um nada enegrecido. Cada pancada nublava sua essência, e isso o fazia esquecer da própria vida.
Pois ninguém poderia salvá-lo de si mesmo.
Um grito alto irrompeu no meio da chuva. O corpo de um dos ladrões fora arremessado contra um segundo mais a frente, e no encontro, os ossos estalaram caindo no chão violentamente. Os outros dois se voltaram á nova figura ali, arfando uma fumaça espessa da boca – o olhar em fúria e as mãos já prontas para desferir novos golpes.
Feito um animal, Renji saltou na direção deles. O maior derrubou Byakuya sentado próximo ao muro, preparando um soco. Mas Renji segurou seu punho apertando os tendões e ligamentos dos dedos daquele garoto burro; sem fazer ideia de com quem estava lidando. Ou ainda; eles não sabiam o que aquele homem tatuado faria com eles por terem encostado em Byakuya.
Torcendo seu braço, Renji fez o garoto curvar o corpo feito uma mola, pedindo por ajuda do outro. Ele veio berrando, e o ruivo apenas largou a mão destroçada por ele, socando a testa do afobado. Antes de deixa-lo cair segurou seu ombro o puxando de volta de encontro ao seu joelho.
Recolhendo o resto de força que lhes restava, os quatro ajudaram uns aos outros a correrem dali. Renji ainda ficou de pé, praguejando e os mandando nunca mais voltarem ali.
Depois, feito um raio, abaixou-se na frente de Byakuya.
Perguntava se estava bem, se havia se machucado e tudo mais. Porque ele? Podia ter sido qualquer outra pessoa, mas Renji? O corpo doía, porém seu orgulho ainda mais. A audição falhava, os olhos ardiam. Poderia ser um sonho? Uma ilusão? Talvez a memória lhe pregasse uma peça. Pois desejava esquecer-se de Renji, atropelar as sensações atribuladas entre a soberba e sua própria inquietude. Ele jamais viria após da vexame que o fez sofrer. Deveria ser um engano, um alguém passante lhe socorrendo. Não podia ser Renji ali.
– Não... – balbuciou fracamente, forçando Renji a se abaixar próximo a sua boca – Você não...
Ele repetiu, deixando o ruivo cabisbaixo. Ainda o rejeitava mesmo agora. Mas havia prometido a Rukia, devendo, assim, engolir as palavras de Byakuya outra vez. Ao retornar com o rosto para trás sentiu o bafo do álcool nele. Aquilo lhe trazia lembranças boas e ruins.
Apanhou o corpo troncho do professor pela cintura o jogando sobre seu ombro. Ali ele se alojou cerrando os olhos. Os braços balançavam sem força conforme ele ia sendo carregado até a cada do tatuado. Afinal, se Rukia o visse nesse estado, se desesperaria com certeza.
Girou a maçaneta, a qual deixara aberta quando disparou rua a fora, e jogou Byakuya no sofá – sem muitas delicadezas. O moreno grunhiu reclamando, enquanto Renji puxava o telefone, comunicando Rukia do ocorrido. Claro, não entrou em detalhes, mas disse o suficiente para tranquiliza-la.
Byakuya avistou um novo ambiente: seco e mórbido, pois a casa de Renji era bastante escura. Demorou a reconhecer uma mesinha ao seu lado com um copo de água pela metade em cima. Tentou alcança-lo, porém a cabeça girou, precisando tampas a visão com o antebraço. Mesmo a luz fraca o incomodava. Onde estava afinal de contas?
Segundos depois ouviu o som dum novo copo ser posto sobre a mesinha. E então, a voz dele irrompeu:
– O senhor precisa beber.
Renji não queria ter de cuidar dele. Não queria, na verdade, nem mesmo ficar próximo a ele. Por mais curioso que estivesse sobre os pensamentos de Byakuya em relação as suas declarações anteriores, o melhor para os dois era se afastarem. Ainda assim eles se atraíam, feito imãs. Imaginando isso, Renji riu consigo mesmo. Tão opostos um do outro, e essa aversão causava a própria atração entre eles.
O copo continuou ali escorrendo as gotinhas pelo vidro até a mesa. O professor tentava, mas a mão não se erguia. Confundia-se com a voz de Renji ali. Mas não era ele. Que dia horrível! Queria enterrar-se na cama e nunca mais pensar nele outra vez! Água; queria água – necessitava molhar a garganta!
As distâncias pareciam maiores do que o normal. Os dedos nunca chegavam até o copo, precisando apoiar-se no sofá para pegá-lo. Continuou indo, e então, rolou do sofá empurrando a mesinha para longe. O copo virou derramando o líquido sobre a madeira, quase chegou ao chão, mas fora amparado por seu salvador.
– Sensei!
Ele gritou na maneira com a qual se acostumara a chama-lo. Envolveu-o, deixando sua cabeça se apoiar no seu colo. Ambos ainda encharcados devido a chuva – a casa também estava em petição de miséria, mas questões domésticas nem lhe passavam pela cabeça nesse momento, pois Byakuya havia confirmado seus temores: aquele era Renji. Não adiantava negar isso.
Em longos suspiros, o homem já derrotado, forças sugadas, mente completamente destruída por suas próprias negações, entregou-se à dúvida, as perguntas permeando seus pensamentos. Apoiou a mão no peito de Renji erguendo parte do tronco. Ficou frente a frente com o ruivo, encarando seus olhos castanhos surpresos. As sobrancelhas se curvaram agoniantes, e então, indagou-lhe:
– Porque você veio?
Renji continuou a fita-lo sem saber como o responder. Fora por Rukia, para tranquilizar a amiga. Por si mesmo, para mostrar como havia superado – naquele curtíssimo espaço de tempo – todos os seus sentimentos pelo professor. Ou ainda... Fora ao seu encontro porque se preocupava, porque queria saber, mesmo que fosse irrelevante, o que Byakuya achara dos seus protestos.
– Eu... – gaguejou sem saber o que dizer – Eu só... Não faço ideia...
Reunindo o restante das energias, o moreno livrou-se do aperto de Renji, visto que ele não iria o responder, pois não havia uma resposta capaz de satisfazê-lo. Levantou-se cambaleante sendo seguido pelo aluno.
– Sensei, volte a se sentar no sofá! – exclamou.
– Me deixe em paz! – vociferou – Você... Você não devia estar aqui! Eu não devia... Porque você me odeia! E eu estou...
O estômago embrulhou, a bebida reclamando seu efeito sobre o corpo. Andou dois passos para um lado, depois outros, e enfim caiu de costas contra a parede. Foi escorregando para o chão, pondo a cabeça tonta entre os joelhos. Feito uma criança encoscorou-se em si mesmo, segurando os joelhos com as mãos.
Confuso, Renji o mirava sem compreender uma única sentença. Confessava algo, isso fora capaz de distinguir. Mas o que? Expressava de uma vez sua aversão por ele? Iria, enfim, admitir sua repulsa. Mas que raios! Como Byakuya conseguia o irritar tanto?!
Na pequena caverna que se formara entre a testa e o queixo de Byakuya, o professor falou abafado, com o enjoo o abandonando devagar:
– Você... Me odeia...
Balançando a cabeça, o tatuado ficou de pé indo até o moreno. Quanto mais se aproximava, mais duvidava das palavras de Byakuya; que as repetia, talvez pensando estar num lugar diferente, num espaço seguro naquela parede, onde podia revelar todas as suas frustações, por fim.
– Está certo em me odiar... Eu sou podre... Eu não... Não presto. Quer dizer, eu tenho mais de quarenta anos! Por deus, eu jurei nunca mais me aproximar de alguém... Nunca mais deixar me levar pelo o que sinto... Não depois de Hisana. O que ela diria? Que vergonha! E Rukia... Você é amigo dela!... O que minha família pensaria?! Eu não posso... Não posso fazer isso de novo...
Engalfinhando os dedos no cabelo desgrenhado de Byakuya, Renji, já de joelhos a sua frente, puxou as melenas escuras para trás, fazendo aquele homem o encarar com seus olhos cinza enquanto continuava a falar. A face do ruivo entristeceu-se, porém ao mesmo tempo ansiava por ouvir as palavras do professor – ainda sem crer nelas.
Byakuya tinha os globos meio cerrados, num aspecto sonolento. As unhas arrastando levemente sobre o couro da cabeça proporcionava uma gostosa sensação. Sentia o puxão dos fios do cabelo para trás, voltando sua expressão a ele. A boca semicerrada, os olhos um pouco lacrimejantes, e a respiração continuava pesada, mas contínua.
– Por favor... Me odeie...
Ele pediu. Não... Implorou. Pois Renji deveria odiá-lo. Renji só podia sentir aversão por ele, pois só assim poderia o esquecer. Não podia contar com o álcool, não podia confiar em si mesmo para abandonar completamente o tão querido aluno. Mesmo agora o desejava. Então ele precisava detestá-lo como um ser humano deplorável; um velho à procura duma diversão de meia idade qualquer. Ele não podia saber o quanto o queria, o quanto... O quanto o amava! Então demandava seu ódio, seu horror; para se livrar dele... Para salvar Renji de seus impulsos irremediáveis. Repetia, de novo, e de novo, implorando nas palavras gaguejadas, nos soluços quase chorosos: Me odeie, me odeie, Por favor, me odeie! Eu lhe imploro!... Me odeie!
Mas Renji podia apenas lhe oferecer a verdade. Tremeluziu os olhos, estremecendo os lábios ao dizer:
– Eu te amo...
E então o beijou.
Continua
Notas finais
But, anyway, ainda estarei aqui no final! Serei uma sobrevivente! xD
I WILL SURVIVEEE!!!!!
Ps: o que a falta de sono n faz com uma pessoa? Autora cantora n rola... -__-
Kissus amores, obrigada por aguentarem minhas loucuras ;)
Bye bye, até o próximo!
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