Maipetto no Neko
21 Capítulo 21 - A sua volta
Notas iniciais
O semestre da faculdade já está acabando, eu juro! É que por conta disso tenho que me contentar em escrever um parágrafo por dia xD
Enfim, boa leitura para você, tentei ser o mais dramática possível nesse capítulo.
Boa leitura!
Maipetto no Neko
Capítulo 21 – A sua volta
Tocava o telefone sem parar ao lado de seu ouvido. A musiquinha de seu toque parecia ser cada vez mais irritante, e por fim decidiu-se por apertar o maldito botão vermelho despertando irritado para o novo dia.
Faculdade; o final de semana parecia ter passado num pulo. As provas finais tomavam grande parte do tempo dos estudantes, apesar de que a boa cabeça de Ichigo ajudava-o na hora de decorar as fórmulas, além de ser bem prático e rápido ao fazer os cálculos. Podia se considerar um bom aluno, até mesmo acima da média, mas nem por isso deixava o então “sucesso” o transformar em um dos muitos idiotas metidos que conheceu ao longo de sua vida. Aliás, Ishida era um deles, até pouco tempo antes de começarem a se conhecer melhor. Engraçado como as coisas aconteciam; e o ruivo agora tinha o futuro médico como amigo.
Quando pensava em Chad e Ishida sentia-se um pouco mal. Era como se tivesse traído a confiança de ambos por não contar-lhes sobre os problemas recentes. Talvez ficassem bem surpresos de início, mas conhecendo-os como conhecia, não teria nenhum problema de aceitação.
“Aceitação”. Repetiu mentalmente. Parecia mais uma obscenidade dita dessa forma. Não era como se desrespeitasse alguém ou estivesse fazendo algo de errado. Porém sabia dos olhares a serem enfrentados num futuro não muito distante quando resolvesse, em um linguajar mais prático: “sair do armário”.
Bufou devido as reflexões desnecessárias pela manhã dirigindo-se ao banho. Por sorte Karin e Yuzu já tinham se aprontado para a escola. A sorte não era algo com a qual contava muito, até conhecer Grimmjow. Deixando a água morna bater na nuca lembrava-se do sonho perturbado, e da decisão que tinha tomado após ele. Se não conseguia esquecer Grimmjow, era porque ele ainda era importante em sua vida, de uma maneira ou de outra. Uma parte grande dentro de si empurrava-o na direção dele, querendo esquecer-se da briga, das discussões, das mentiras, e recomeçar tudo do zero. Mas o bom senso que agia apenas nas piores horas e com atraso fazia-se presente no momento dessas decisões.
Não era burro, muito menos trouxa. Tinha sido sim ludibriado pela fala mansa de Grimmjow, e era incapaz de simplesmente perdoá-lo por isso. E seu orgulho ferido, como fica?! Se ele realmente se importasse... Se Grimmjow ainda se importar com ele ao menos metade do que ele fazia, então deixaria suas convicções de lado, e no mínimo, pediria desculpas a ele.
Saco. Nem sabia como comportar-se em um relacionamento, mas ao menos conhecia seu lado sensato e correto. Recordou-se da sua primeira namorada. Era uma garota que vivia pedindo para sair com ele no primeiro ano do ensino médio. Foi estranho ter alguém gostando dele, afinal, grande parte do colégio queria ou bater nele, ou expulsá-lo a ponta pés.
Aceitou o convite, e acabaram por se divertir bastante. O namoro durou dois meses, antes dela falar que o ruivo era “romântico demais”.
Estranho, de novo. A maioria das garotas gostaria de ter alguém atencioso e carinhoso ao seu lado. Na verdade, Ichigo se derretia todo na presença da namorada – ou melhor, ex – o que aconteceu posteriormente nas suas outras duas tentativas.
Na sua mente o pensamento era lógico: tratar a pessoa de quem se gosta como você gostaria de ser tratado. Uma das poucas coisas que sua mãe pudera lhe ensinar antes de falecer foi a ser gentil e atencioso. Tudo bem, seu jeito mal encarado e o péssimo humor não contribuíam muito para transmitir essa qualidade do ruivo, mas estando ao lado de alguém era diferente.
Talvez fosse por esse motivo que achava mais fácil agir assim desse modo perto de Grimmjow. No entanto não se pode exigir esse comportamento do outro- por mais que se queira; ele deve ser espontâneo.
Sacudindo as melenas enquanto desligava o chuveiro deixou a água escorrer por entre os fios, fazendo as gotas unirem-se em seu peito e na parte das costas, escoando até as pernas lentamente. Puxou a toalha enxugando a maior parte do corpo desnudo e a enrolou na cintura.
Mirou-se no espelho antes de sair do nevoeiro do banheiro. Tinha emagrecido nas últimas semanas. Dava para ver melhor as definições de seu abdômen, e as curvas dos músculos de seus braços. O pescoço afinara junto com as laterais do rosto. Alimentara-se tão mal assim? Precisava melhorar o apetite. E o cabelo parecia ter crescido um pouco. Os fios da nuca quase alcançavam o inicio de seus ombros.
Arrumou-se em seu quarto deixando a blusa por último, pois a madeixa ainda estava molhada. Desceu para o café com uma camiseta branca e a blusa de manga comprida azul apoiada no ombro; a calça jeans era como de costume, apertada. Não sabia nem quando tinha adquirido esse gosto pelas roupas, mas apenas sentia-se bem assim.
Deu bom dia as suas irmãs sentando-se na mesa, estranhando a falta da presença de seu pai.
- Ele foi a uma reunião no hospital geral hoje cedo. – respondeu Karin.
- Parece que o hospital está precisando de médicos reservas. – completou Yuzu – Se o papai conseguir vai melhorar a renda mensal dele, não é demais?
- Tomara que o velho consiga. Assim ele fica menos tempo em casa dando os maravilhosos conselhos dele. – ironizou Ichigo.
- Oh, não tinha pensado dessa forma, boa Ichi-ni. – disse Karin juntando-se ao sorriso de satisfação do irmão.
- Vocês dois, hein?! – brigou Yuzu pondo o resto do café na mesa.
Ichigo lembrou-se das suas economias. Guardava uma caixa no fundo de seu armário desde a época do ensino médio, quando começou com os trabalhos de meio período e os bicos na lojinha. Fazia tempo não mexia no dinheiro de lá, só depositava sempre que podia qualquer quantia. Pensava em se mudar quando começasse a faculdade, porém nem havia procurado por um apartamento onde se instalar. Ao voltar do dia puxado de aulas contaria aquelas economias, poderia se surpreender. Quem sabe a sorte lhe sorria de novo.
Ah! Era irritante não poder fugir dos pensamentos e Grimmjow. Mas isso não estragaria seu dia. Quanto mais se ocupasse, mais poderia esquecer-se desse assunto, ao menos por enquanto.
Pôs a mochila no ombro após o café e puxou os fones de ouvido no volume máximo, pois faria uma boa caminha de manhã.
Pouco antes da aula chegou ao seu lugar sem nenhum problema e de forma monótona. Ninguém o procurara, nem encontrou algum de seus amigos. Parecia ontem que tinha de viver se esgueirando pelos cantos ou correndo desesperado para sair da linha de visão de certa pessoa que insistia em “atormentá-lo”.
Apoiou a mão em seu rosto olhando pelo vidro da janela os mais atrasados chegarem no último minuto dentro do campus. Sentiu um toque rápido em seu ombro e virou-se em meio aos seus pensamentos vazios.
- Ainda dormindo? – perguntou Renji sentando-se ao seu lado.
- Só distraído. E qual o milagre da sua presença tão ilustre aqui cedo?
- De vez em quando essas ações divinas acontecem. – riram – Mas também quero saber qual foi a minha nota na matéria.
- Verdade, hoje o professor vai entregar a prova.
- Você não precisa se preocupar é o maior cdf que eu conheço.
- Então eu devo me preocupar por você?
- Sim, por favor... – respondeu deprimido arrancando outro riso rápido de Ichigo.
A aula começou com as palavras de desanimo do professor. A maioria da turma havia ido mal nessa avaliação. Consentiu em planejar um novo trabalho a pedidos de súplica dos alunos a fim de melhorar suas notas. Apesar de ser uma das exceções, Ichigo recebera sua boa prova com nenhuma mudança de humor. Talvez tenha sentindo um sutil alívio, porém passageiro.
Renji tentava segurar as lágrimas – de maneira figurada – mirando o papel rabiscado de vermelho a sua frente. Podia muito bem, conhecer a montagem e programação de computadores quando fazia, mas escrever passo a passo, identificar cada etapa era outra história.
Sem graça e desgastante, o final do dia rastejou da mesma forma como começara: insosso e indigesto. Ichigo vagueou os pensamentos por um bom tempo antes de ouvir o sino badalar e o mar de alunos ansiosos pelo fim de outra manhã na faculdade dirigir-se a saída.
Num escritório, repleto das cadeiras escuras e altas, maiores até do que a cabeça de seus ocupantes, a noite já havia caído, no entanto este dia fatigo parecia ter durado séculos, eras de papéis a serem assinados, revistos, contratos lidos e feitos, sem contar os vários sermões devido ao comportamento impaciente de Grimmjow; batendo com os dedos na madeira da mesa, enquanto o olho tremia por detrás da mão apoiada em seu rosto, demonstrando o tédio absoluto instalado nele.
- Perdoem-no – dizia Neriell tentando acalmar os nervos dos outros senhores – a noite foi mal dormida, ficamos até tarde relendo alguns dos documentos e nem todos reagimos da mesma maneira na manhã seguinte.
Murmurando em concordância, o resto da junta retirou-se do recinto deixando apenas os dois na sala. Grimmjow bufou empurrando a cadeira e erguendo-se. Chegou até a janela recostando a mão no vidro. Ainda chovia. Não era verão para uma época tão constante de chuvas, mas o clima ficara assim desde a sua chegada. Parecia estar brincando com ele e seu humor instável.
- Precisa se portar melhor na frente deles Grimmjow. – Neriell organizava o resto dos papéis dentro de sua pasta apagando as luzes do ambiente.
- Foda-se. – retrucou ríspido.
Respirando fundo, ela caminhou passo a passo até ele pondo levemente a mão sobre seu ombro, vendo-o virar a cabeça em surpresa:
- Sei que ta sendo difícil, mas não queremos que esse seu segredinho se espalhe por aí, então tenta manter a mente fria.
- Não ta dando Neriell! – esbravejou socando a vidraça; que se não fosse reforçada teria se espatifado – Minha cabeça não agüenta mais, meu corpo não suporta essa angústia!
Bateu as mãos na mesa arqueando o corpo para frente. Neriell seguiu-o com os olhos, consternada, mas manteve-se em silêncio, escutando o desabafo do amigo:
- É toda hora agora. – continuou ainda de costas para ela – Eu durmo pensando nele, sonho com ele, me levanto e a primeira imagem que me salta na frente do rosto é ele. Durante o dia, só consigo pensar no cheiro dele, na voz; em tudo! – bufou bagunçando os cabelos e tornando a apoiar a mão na mesa – Tentei me policiar, tentei ignorar mas simplesmente não tem como! Meu limite já foi mais do que ultrapassado Neriell, dá pra entender agora, porra?!
Gritou socando a mesa e virando-se completamente para ela. Não obteve uma resposta, apenas um leve movimento de consentimento conforme ela entrelaçava os dedos indo até ele.
Levantou o braço direito chegando à mão até sua face e tocou-lhe de leve a bochecha. Só agora sentira a leve gota salgada sendo limpa por ela. Baixou o pescoço respirando fundo uma última vez:
- Quanto tempo? – indagou com a voz mais amena.
- Dez dias. – respondeu acariciando seu rosto – Só te peço isso.
Concordando com ela afastou-se, chutando uma cadeira até o outro lado da sala enquanto saía dela. Neriell o seguiu puxando o telefone e pedindo por um novo vaso de flores no escritório de reuniões; alguém havia acabado de o quebrar.
- Como assim nunca foi a uma loja de discos?! – perguntou Renji, surpreendendo-se com a revelação do ruivo.
- Sei lá, só nunca fui.
Ichigo tinha quase alcançado o ponto de ônibus quando Renji o chamou no meio do caminho. Afinal, disse que visitaria o local de trabalho dele quando pudesse, e agora mais livres da responsabilidade da faculdade, podiam se dar ao luxo; quer dizer, Renji ainda tinha de estudar para a recuperação, mas não deixaria de passar uma tarde com Ichigo por essa razão.
Foram até a direção oposta e depois de meia hora de conversa no ônibus, chegaram a uma pequena loja numa rua bem movimentada da cidade. A entrada era simples, com apenas uma grande placa negra acima da porta de vidro escuro portando o nome do local.
Entraram ao toque de uma sineta e o então dono já vinha para atendê-los, mas parou no instante seguinte ao ver Renji. Mandou-o para o caixa, enquanto Ichigo o seguia de perto, perdido em meio a tantos vinis, cd´s, posters, e o volume alto da música de alguma banda estrangeira. Não era que fosse mal arrumado, apenas não fazia seu estilo de organização. Aliás, quem conseguia enxergar alguma coisa naquela escuridão? Luzes cairiam muito bem.
- Então, curtiu? – perguntou Renji do outro lado do balcão.
- Parece ser um lugar bem animado.
- Hoje o movimento está fraco, mas normalmente tem bastantes clientes por aqui.
- Você parece se divertir nesse trabalho.
- Muito. Dá para relaxar ouvindo música enquanto organizo o estoque ou ajudo as pessoas.
- Realmente parece muito com você.
- Não sei se levo como um elogio, ou insulto.
Depois de uma rápida bronca devido a conversa fora de hora entre os dois, Renji teve de concentrar-se no trabalho, tendo de se despedir de Ichigo, para seu azar.
Ichigo podia ver o ponto de ônibus ao longe. Respirava fundo, cansado até mesmo de não fazer nada. Mas tinha de chegar em casa, cuidar das matérias finais da faculdade, e aí sim estaria livre. Lembrava-se do calendário perto da porta. Dias rabiscados com um “x” vermelho em cima deles, contando quanto mais deveria esperar para reencontrar-se com Grimmjow. Estava ansioso, não podia negar, mas já tinha decorado uma espécie de discurso, por assim dizer. Palavras que deveriam ser ditas de uma vez por todas. Contava com qualquer resultado possível, mas o otimismo não era seu forte. Dessa vez nada seria capaz de mudar seu julgamento.
O ônibus se aproximava, já esticava o braço para fazer o sinal, quando ouviu o telefone tocando. Puxou-o do bolso no susto e sem jeito, perdendo o veículo. Bufou vendo o nome de Orihime, e respondeu a amiga:
- Inoue, tudo bem?
- Kurozaki-kun! A Tatsuki-chan está insistindo para fazermos uma reunião de despedida para ela!
- Ta, quando?
- Hoje a noite! Mas tem um problema...
- O que foi?
- Não tem como ser aqui em casa, estamos passando pela manutenção anual, e a água só volta amanhã.
- Tentou falar com o Ishida?
- Ele disse que a casa dele é muito pequena, e o Sado-kun só chega depois das onze do trabalho.
- Conheço a Tatsuki, ela não vai desistir tão fácil.
- Sim, por isso tenho um grande favor para lhe pedir: poderíamos ficar na sua casa hoje? Só por umas horas! Ela deixa a cidade de novo amanhã de tarde.
Coçando a cabeça, sem uma resposta definida, Ichigo respondeu, com a voz meio falha:
- Olha, eu posso ver com meu pai... Mas não prometo nada.
- Oh! Já é alguma coisa, muito obrigada Kurozaki-kun, você está salvando meu dia!
- Não se anime agora, ainda falta confirmar.
- Nesse caso ficarei torcendo por você! Até mais tarde!
Desligando o aparelho, o ruivo bufou mais uma vez vendo outro ônibus a caminho. Seu clima pessoal para reuniões ou festas encontrava-se esgotado, mas era impossível negar o pedido da amiga, ainda mais conhecendo o gênio impetuoso de Tatsuki. Afinal, talvez uma mudança de ares faria bem a cabeça dele. Talvez desse para chamar Renji...
No fim de expediente do escritório, Matsumoto digitava os processos já finalizados no computador da empresa, sem deixar de manter um dos olhos atento a porta à sua frente, com o nome Aizen Sousuke destacado em tom dourado. Vice-presidência... Qualquer retardado via de longe que ele não merecia esse titulo. Não havia registros ou documentos relatando algum desfalque, ou qualquer alteração desse tipo, mas dava para sentir até os ossos a energia enegrecida vinda daquele homem tão aparentemente sereno.
Bateu um punhado de folhas contra a madeira da mesa, e as guardou dentro da gaveta. Puxou o resto das pastas para seu lado esquerdo e passou a transcrever as pequenas linhas de frases para o computador.
- Oh, vejo que está bastante empenhada hoje, Rangiku-san.
Esticando o pescoço para cima da tela brilhante, Matsumoto avistou a figura sorridente e enigmática de Gin, trazendo consigo uma bandeja de chá.
- Vejo que continua com o seu serviço entediante, Gin.
- Servir chá é uma arte antiga.
- Digitar documentos também! Olhe só, computadores existem há mais de vinte anos!
- O chá vem de longas gerações milênios.
- Desculpe-me, sou mais adepta do saque que é tão antigo quanto, aliás, porque não se juntou ao grupo do escritório semana passada? Fomos num barzinho tão aconchegante.
- Perdoe-me a indelicadeza em recusar o convite, mas tinha outros assuntos a tratar.
- Assunto do trabalho?
- Entre outros detalhes, no entanto, não é hora nem lugar para esse tipo de conversa, ainda estamos no expediente.
- Isso foi um convite? Quer me levar num encontro, Gin? – brincou sorrindo para o homem.
- Por hora, quero encerrar meu serviço, se me der licença.
- Vou recordar esse pedido mais tarde, melhor se lembrar dele.
Ouvindo o som da porta fechando, a imagem de Gin desapareceu por trás dela, tornando a implantar o silêncio na área. Era fastidioso sentar naquela cadeira dura e sem espaço, aproveitando nada mais além do som do teclado, documento após documento, ficheiro após ficheiro.
Levou o dedo até a ponta dos papéis enfileirados e brincou com eles, passando-os rapidamente pelo polegar. Fechou os olhos como num jogo, e repetiu a ação parando onde achara mais interessante. Puxou a pasta em si, e começou a ler seu conteúdo. Os globos azuis quase fechados deram um salto à frente arregalando-se. O nome no registro da ficha não lhe era estranho, na verdade, ele lhe fora dito antes de começar toda essa vida de “agente dupla”. O sobrenome incomum deveria ser tratado com extrema importância sem importar a circunstância.
Conferindo estar sozinha, levantou-se da cadeira puxando o celular do bolso. Procurou por uma sala vazia, e passou a discar os números, cheio de códigos de área. A voz sonolenta do outro lado atendeu, querendo muito xingar a amiga pelo horário.
- Quem você ama mais em todo esse mundo? – brincou Matsumoto rindo.
- Meu personal trainer?
- Ele também, mas estava falando da sua super amiga.
- Desculpe, mas não curto muito esse time...
- Deixa de ser retardada.
- É madrugada aqui, sabia?
- Você vai acordar num instante.
- Só se você me trouxer o personal trainer.
- Vou fazer melhor, te dar um nome.
- Nome? – repetiu sem entender muito bem.
- Kurozaki.
Ao ouvir o som de objetos caindo e se quebrando do outro lado da linha, Matsumoto constatou ter surpreendido a amiga – e muito.
- O que tem esse nome?! – perguntou do outro lado da linha.
- Relaxa amiga, vou te contar tudo...
A quem Ichigo poderia enganar? Claro que seu pai não seria contra a vinda de seus amigos em casa, e em suas próprias palavras, “adoraria rever sua amiga, Orihime; linda!” Claro, o soco veio em seguida – velho babão da porra. Suas irmãs queriam permanecer na sala vendo e conversando com os amigos do irmão, porém Ishinn ao menos sabia que certos assuntos deveriam ser restringidos as duas mais novas.
Renji estranhou o convite de Ichigo, quer dizer, pulou de alegria por dentro ao ouvir a voz dele o chamando para uma festa, mas ainda assim era difícil de acreditar. Era a segunda vez que saía com os amigos dele, e era como se aos poucos conseguisse entrar nesse ciclo social sem parecer um intruso.
Quando Renji chegou a casa do ruivo ela encontrava-se animada e com um som alto, parado numa estação de rádio qualquer tocando musicas aleatórias. Podiam ter um gosto melhor para o repertório, mas enfim. Não era relevante: tinha ido até lá para passar mais tempo com Ichigo. Tocou a campainha sendo recebido pelo próprio; mostrando o sorriso estampado na face à ele.
Adentrou a casa sendo recebido pelas calorosas boas vindas de Inoue, e segundos depois avistou Tatsuki “cumprimentando-o” com um soco no ombro. Esfregou o local ao vê-la se afastar e foi servir-se de um punhado de água.
- Seus amigos são divertidos. – comentou Renji apoiado no balcão da cozinha ao ver Ichigo se aproximando.
- Acho que você já me disse algo parecido.
- Só estava ressaltando.
O ruivo sorriu de canto de boca ao fechar a geladeira. Terminou de beber o resto de suco da garrafa jogando-a no lixo e sentando-se no banquinho. Deixou o corpo arqueado e as mãos pendiam no meio das pernas.
- Cansado? – indagou Renji.
- Também.
- Eu diria que você precisa de uma festa, mas seria redundante.
Concordando com ele, Ichigo mirou a sala vendo um filme ser posto no DVD. Parece que teriam uma seção de cinema. A última vez que havia feito isso Grimmjow estava com ele. Bufou desgostoso, querendo ir para seu quarto e jogar-se no travesseiro.
- Porque não sobe e descansa um pouco?
Renji parecia ter lido sua mente.
- Sou o anfitrião, ficaria meio mal sair assim do nada.
- É para isso que estou aqui. – piscou empurrando-o até a sala.
Ichigo ficou com a expressão de duvida enquanto era levado até o meio do barulho. Viu Inoue, Ishida e Chad voltarem-se até eles na hora, sendo seguidos por Tatsuki.
- Nós já voltamos, vou pegar um material da faculdade com o Ichigo. – falou Renji, indo com ele até a escada.
- Estamos em festa, deixem isso para depois! – comentou a amiga morena pegando outro copo de bebida.
- Vai ser rápido, voltamos em dez minutos!
- Tudo bem Abarai-san – disse Orihime – nós esperamos por vocês.
- Podem começar o filme, nós já vimos.
- Bando de estragas prazeres, só sabem falar de faculdade aqui, faculdade ali.
-Isso porque você não faz faculdade.
- Cala a boca Ichigo, treinar para ser profissional é dureza, vocês não agüentariam nem uma hora da minha vida!
- Certo, nós creditamos nisso, por isso os humildes seres humanos aqui precisam estudar, se me der licença.
O ruivo pode sentir o vento da almofada arremessada em sua direção bater contra a parede no inicio da escada. Rebateu o “ataque” da amiga, vendo-a segurar o objeto. Subiu apressado com Renji ouvindo as reclamações e broncas de Tatsuki, mas o simples alívio de chegar em seu quarto o fez ignorar isso.
- Valeu pela ajuda. – disse a Renji sentando-se na cama.
- Disponha.
Ichigo esfregou o rosto deixando os ombros caírem como se ostentassem um grande peso. Seu estado não era culpa de ninguém e não podia jogar esse remorso para outra pessoa, por maior que fosse a vontade de gritar. Tinha de controlar-se, ou acabaria enlouquecendo.
Sentiu um peso acomodar-se do seu lado no colchão e abaixou os dedos de cima dos olhos vendo Renji, sereno e tranqüilo, afagando-lhe as costas. Era bom saber ter com quem contar. Era bom ter o amigo ali com ele apenas para confortá-lo, apenas para fazê-lo esquecer...
No que poderia ser chamado de imprudência, ou desligamento total da mente, Ichigo levou as mãos até o rosto de Renji segurando-o de cada lado, e aproximou-se dele. Pasmo, porém nem um pouco contra a repentina ação do ruivo, Renji deixou a face avermelhar-se um pouco enquanto os lábios tocavam-se de leve. Segurou os pulsos de Ichigo indo mais para frente, e foi descendo seu corpo junto do dele, até estar completamente sobre o seu. A parte superior do torço pressionava a de Ichigo deixando apenas as pernas livres de seu contato. Esticou a língua para dentro da boca do ruivo, sentindo o calor dele também debater-se. Num rápido descontrole, Ichigo deixara escapar um sutil gemido, instigando o outro a aprofundar as carícias. Os dedos ágeis passaram a tocar-lhe o abdômen roçando no tecido da blusa até finalmente ela ser erguida.
Renji deixou um grunhido abafado sair de sua garganta no meio do beijo, desejando que o momento nunca acabasse, ou melhor: que tivessem outros encontros assim dali para frente.
Do rosto do tatuado, Ichigo escorregou as mãos até sua nuca, onde os cabelos prendiam-se com uma fita desajeitada. Puxou-a, a fim de ver melhor os fios longos e emaranhados contornando a face dele. O vermelho vivo deles roçou em suas bochechas e pescoço, sem desligar-se do beijo.
Cerrando os olhos, Ichigo imaginava o que estava fazendo exatamente. Quanto mais clamava por uma súbita volta de sua consciência, ela parecia não existir o abandonando completamente em meio a uma situação tão desconcertante. Esquecendo-se de tudo, abraçou as costas de Renji, deixando-o deslizar os lábios até o vácuo entre seu ombro e seu pescoço.
Apertou as pálpebras como se algo o impedisse de recobrar a noção do que estava fazendo. No branco tomado por seus pensamentos, uma sombra conhecida se aproximou dele, beijando-lhe calmamente a testa. Abriu os globos âmbar, e foi como se estivesse dentro daquele sonho da outra noite, em meio aos prédios e o céu. Mas dessa vez ele estava calmo, sem sinal de chuva, e os prédios pareciam mais novos, como se tivessem sido renovados por uma força externa. Percebendo a presença em cima dele encarou os olhos azuis em tom de mar o encarando com o sorriso descarado na face. Grimmjow parecia alegre, como sempre ficava nas vezes em que se encontrava com o ruivo.
Era ele ali de volta, ao seu lado, como se nunca tivesse o deixado, como se nada que acontecera importasse alguma coisa.
Numa alegria estonteante, abraçou-o beijando-lhe o mais rápido que pode. Tornou a fechar os olhos e abraçou-o pondo sua cabeça contra o ombro dele, sentindo seu cheiro, seu calor achegando-se dele. Abraçava-o como se não mais quisesse deixá-lo ir embora, como se pela primeira vez soubesse o que era certa, o que queria fazer.
- Eu te amo... – balbuciou próximo ao ouvido dele.
Mas a frase seguiu-se de um movimento repentino, afastando-os. No segundo seguinte, o mundo no qual estava desaparecera e apenas Renji encontrava-se sobre ele, na cama de seu quarto, trajando uma expressão de surpresa.
Consciente do que havia acontecido, não deu tempo para ele dizer qualquer coisa. Desvencilhou-se do abraço erguendo-se do colchão. Chegou a ouvir algumas palavras desconexas serem ditas por ele, mas a gritaria do outro lado da porta abafara qualquer conversa imaginável por eles.
A porta do quarto se abriu assustando os dois. Karin tinha o rosto consternando ao mesmo tempo em que parecia triste.
- Karin?! – exclamou Ichigo indo até a irmã.
Ela nada disse, apenas segurou sua mão e o arrastou até a sala o mais depressa que pode. Ichigo chegou a ouvir os passos de Renji o seguindo, mas ignorou-o, pois sua família era com certeza mais importante.
Viu seus amigos voltarem-se para ele com as caras de espanto. Seu pai encontrava-se do outro lado da sala, fumando um cigarro há muito esquecido. Estranho, ele não tinha costume de fazê-lo – apenas em certa época do ano.
Yuzu chorava frente a televisão sendo amparada por Tatsuki. Sem compreender nada do que acontecia, Inoue aproximou-se dele, e levou-o para frente do aparelho. O Jornal da noite dava uma de suas notícias mais importantes; e o volume foi aumentado para que todos pudessem ouvir do que se tratava:
“Após a reabertura do caso de mais de dez anos, o serial killer que chegou a assassinar mais de vinte mulheres, finalmente foi preso e aguarda julgamento. O encerramento das investigações causou grande revolta da comunidade e das famílias que sofreram os crimes. Há pouco mais de três semanas, uma das empresas de advocacia mais conhecidas em todo o país resolveu por adotar o caso, usando de todos os seus recursos para descobrir a identidade do assassino. O futuro e jovem presidente da empresa, Grimmjow Jaegerjaquez, encontra-se em uma viagem de negócios, mas recebemos informações de que foi o próprio quem ordenou a reabertura do caso. Em breve traremos mais informações sobre o assunto.”
Nenhuma palavra, nenhum ato poderia ser feito para descrever os sentimentos de todos naquela sala. Talvez Ichigo pudesse talvez ele tivesse a resposta, e ainda: talvez fosse o único capaz de expressar o que seria o sentimento de gratidão, de alívio por finalmente terem se livrado de um remorso incrustado nele e em sua família.
No entanto, a pessoa na qual ele pensava quem ele queria ver e abraçar nesse momento era incapaz de ser alcançada, por mais que esticasse os braços para isso...
Ainda assim espera, ansiava no mais profundo lugar de seu ser, que esses sentimentos de alívio o alcançassem de alguma maneira; pois agora era quase impossível aguardar pacientemente o retorno de Grimmjow.
Continua
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-Bônus-
Notas finais
Enfim amores, como todos já sabem, eu não abandonei a fic, e blá blá bla. Chega de ficar falando disso, todos já sabem que ando ocupada.
Mas hoje eu finalmente terminei o capítulo 21 (PALMAS PARA A AUTORA)
Queria que ele fosse meio dramático e ao mesmo tempo feliz, não sei o que consegui alcançar melhor com ele, mas o que importa é que sabemos os reais sentimentos do moranguinho!!!! WEEEE
Demorou mas caiu a ficha. Aliás, coitado do Renji, já é a segunda vez que ele é "trocado" nos meios dos pega com o Ichigo xD
Enfim, é a vida, uns se fodem outros se divertem!
Até o próximo capítulo, e já sabem: paicência é uma virtude!
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