Maipetto no Neko

17 Capítulo 17 - Verdades não ditas


Notas iniciais
Eh fudeu geral dessa vez =XXX
Sem suspenses aki em cima, leiam e divirtam-se (ou n =XX)

Maipetto no Neko

Capítulo 17 – Verdades não ditas

Se fosse uma brincadeira, ele tinha ido longe demais. Mas se fosse a verdade saindo de seus lábios, com a voz em tom rígido e confiante, então Ichigo encontrava-se em uma circunstância complicada... Mais ainda do que havia lhe ocorrido. Deixou as íris dilatarem-se devido à súbita revelação de Renji, continuando parado á sua frente, desconexo da realidade, e atônito, desprovido até mesmo da capacidade de pensar. O amigo estava com a face avermelhada, tal como suas longas melenas; se pudesse ele mesmo as soltaria do pequeno pedaço de pano servindo como prendedor para esconder essa vergonha, essa sensação de desconforto instalada sobre eles.

Renji elevou a cabeça – que estivera voltada para baixo até agora – afrontando o aspecto de confusão e surpresa do ruivo. Talvez tivesse se precipitado falando de modo desafiador, porém isso estava entalado há tanto tempo, que o alívio abatia-se sobre sua prudência.

Engolindo seco e ainda desconcertado no meio da cena mais parecida retirada de um daqueles livros tolos de romance, Ichigo falou dissolvendo o silêncio:

- Apaixonado... Por mim?... Você? – picotou a sentença como se fosse para de melhor compreensão do outro.

O cara festeiro cheio de mulheres e homens caindo aos seus pés – literalmente — de tal forma que bastaria um estalar de dedos – literalmente – para os fazer se entregarem de todas as maneiras possíveis e inimagináveis – literalmente. Sério, porque uma pessoa como Renji se apaixonaria por Ichigo? Ele era sem graça – em sua mente – emburrado com a vida, mal humorado, impulsivo... Não via nenhuma boa qualidade em si mesmo, então como os outros podiam enxergar alguma coisa além disso? Deveriam ser cegos... Bando de morcegos...

- Depois daquele dia da festa – começou a narrar sua pequena aventura – eu fiquei matutando comigo mesmo se eu merecia me maltratar desse jeito, se eu precisava sofrer o tempo todo por uma pessoa que nunca estaria ao meu alcance; que nunca seria minha...

Ichigo ouvia com certo pesar pelo amigo. Conhecia a tristeza dele ao falar desse tópico, pois como ele mesmo descrevera, havia feito de tudo para chamar a atenção do famoso Kuchiki Byakuya, mas nunca conseguira arrancar-lhe nem um mero trocar de olhares... Deixou de lado essa consternação ouvindo melhor as palavras dele:

- Também fui percebendo que se eu mesmo não procurar por minha felicidade, ela jamais irá bater a minha porta, e que eu mereço essa felicidade. – disse como num tom de triunfo – E nesse instante, eu comecei a perceber bem do meu lado, uma pessoa que fazia eu me sentir melhor apenas com sua presença, me fazendo rir, conversando, me ajudando com os estudos, e nos limites de minhas mãos... Uma pessoa que me deixava feliz.

O rubor achegou-se das maçãs do ruivo automaticamente, pois os globos castanhos de Renji o fitavam sem pestanejar. Ele sabia como se expressar, isso era inegável, no entanto o aperto em seu peito falava mais alto. Via-o nada mais além da amizade... Achava-o atraente, isso era verdade, como se recordara da manhã em sua casa – péssima memória para as circunstancias, diga-se de passagem – mas não tinha como passar desse nível da atração física.

Mas ao mesmo tempo, em sua mente, as imensas dúvidas acerca de Grimmjow permeavam perguntas insistentes e irritantes, agoniando o garoto por não saber das respostas, por não conhecer as verdadeiras intenções dele, por simplesmente ter sido deixado para trás, como o último, a saber, de tudo; e ainda por cima através de outra pessoa.

- Por isso Ichigo – continuou Renji cortando sua linha de raciocínio – eu fico puto quando vejo o Grimmjow te tratando dessa maneira que eu sei que você não merece... Eu jamais o faria...

Deu um passo a frente fazendo o menor estremecer com a aproximação chegando o tronco um pouco para trás. E ele prosseguiu:

- Sou um tolo por me apaixonar justamente por um amigo, sei disso, mas eu penso que... Que também mereço uma chance, você não acha?

Adiantou o outro pé vendo a parede chegando às costas de Ichigo. Sem ação e ainda absorto com essa declaração que parecia ter sido elabora minuciosamente, o garoto viu-se em um momento onde poderia muito bem enfiar a cabeça na terra e nuca mais sair. Mas ainda assim, a imagem de Grimmjow estava gravada nele como num filme sem fim, repetindo-se incessantemente. Fosse Renji ou com outra pessoa, antes de resolver qualquer coisa em sua vida, precisava lidar com Grimmjow, acertar-se – ou não – com ele.

Bateu de leve na parede pendendo a cabeça baixa devido as suas próprias indagações deixando-lhe um pouco atordoado e os sentidos distantes. As mãos tocaram o gesso como se fossem o apoio lhe mantendo de pé. A voz de Renji quase sumira em meio às frases discordantes da sua reflexão interna, e nem sentiu a mão quente e trêmula tocando-lhe a face direita, afagando a bochecha gentilmente, diminuindo a distancia entre os dois.

Ergueu o queixo por impulso do outro, a visão meio embaçada, indo até um encontro leve de lábios, experimentando a carne macia e molhada da boca de Renji em uma carícia sutil, sem embrenhar-se demais no beijo roubado. O contato era carinhoso e morno aquecendo-o por dentro e completando um espaço vazio o qual não sabia explicar o motivo de estar ali; apenas existia.

A consciência veio num salto até o ruivo fazendo-o acordar e empurrar o outro para longe, de tal forma brusca, que este quase caíra sentindo os ombros doloridos como se tivesse recebido um soco de cada lado – okay, ainda não era hora de se aproveitar da vulnerabilidade dele.

Equívoco e cambaleante, aparentando estar embriagado, pareceu correr até a loja deixando Renji para trás, que não atreveu-se a segui-lo nem gritar seu nome apesar da vontade ser grande, mas já podia sair dali com uma vitória: Grimmjow com certeza não era mais da confiança do ruivo, e ter Ichigo apenas para si parecia ser um estágio seguinte.

Vendo a hora no computador da loja, ainda um pouco tonto, Ichigo pegou seu casaco despedindo-se da chefa de qualquer forma, apenas desculpando-se pelo dia mal produtivo; compensaria com hora extra depois. Apressado foi até o ponto de táxi sem nem preocupar-se em ver se Renji ainda estava na pracinha, ou se tinha ido atrás dele. A única motivação o guiando agora era ouvir as respostas as quais arrancaria se fosse preciso de Grimmjow.

O colchão foi puxado bruscamente da cama obrigando o homem sobre ele esconder-se debaixo do travesseiro esquivando-se da luz forte do sol adentrando a janela espaçosa de seu quarto. Sentiu um leve friozinho nas pernas, e ao constatar não ter nada para cobri-lo ergueu-se rápido sentando-se no colchão e iniciando sua torrente de palavrões:

- Puta que pariu quem foi o merdinha que me acordou caralho!

- Bom dia querido, dormiu bem? – brincou irônica Neriell segurando os lençóis debaixo do braço.

Olhando-a com desprezo, Grimmjow retornou para seu tão amado sono, ignorando a presença dela. Sentiu o colchão ser remexido diversas vezes num chacoalhar irritante, até por fim ser derrotado, e por os pés no chão com desgosto. Os cabelos bagunçados pendiam na frente do rosto de cenho bravio, e assim foi caminhando até o banheiro, trajando apenas um samba-canção verde fazendo par com a camiseta branca.

Do outro lado da porta semi cerrada Neriell ouvia o barulho da água caindo da pia e o gargarejo repetitivo de Grimmjow, demorando-se justamente para acabar com a paciência da mulher – azar, ela sabia como entrar em seus joguinhos. Depois de alguns minutos dessa frescura, ele saiu do lavabo, atirando-se para o colchão mais uma vez e enroscando-se no travesseiro.

- Grimmjow vai se atrasar para seu vôo. – comentou batendo com o salto alto na ponta da cama.

- Não quero ir... – retrucou com a voz abafada pelo tecido do lençol.

- Deixa de ser mimado, e vem logo! Parece uma criança.

- Vai no meu lugar já que está tão animada.

- Ainda não desenvolvi um pinto no meio das pernas para me passar por você.

Gargalhou histérico com a piada irônica dela. Tinha de dar crédito a Neriell ela sabia como melhorar seu humor pela manhã. Mas a preguiça o convidava a passar outras deliciosas nove horas estirado na cama. Sem contar na já então ausência que sentia por Ichigo; aquilo que menos queria era ter de afastar-se dele.

- É sério, não to a fim... Diz que eu fiquei doente!

- Não está a fim, ou tem alguma outra coisa te atrapalhando? Certo ruivinho? – riu fino de canto de boca.

Voltando o olhar mortal na direção dela agarrou o travesseiro atirando em sua direção vendo-a segurar a fronha na frente do rosto ainda risonho. Aquele apelido era apenas dele, e ninguém mais tinha direito de usá-lo. Mas havia acertado em cheio: se pudesse arrastava Ichigo com ele nessa viagem.

- Me deixa em paz, ainda é cedo.

- Conhecendo você como eu conheço, vai enrolar até meio dia se deixar, e temos de estar no aeroporto uma hora da tarde, então para de manha e levanta de uma vez!

- Puta merda, tu vai me encher o saco, né?

- Demorou a adivinhar, ou você é lerdo assim mesmo de manhã?

Bufou por fim derrotado, erguendo-se da cama e buscando por suas roupas no armário, sendo ajudado por Neriell; mais criticando suas escolhas do que outra coisa. Impaciente a mulher terminou por pegar as vestes ela mesma. Uma calça jeans escura, confortável, porém ao menos decente, uma blusa social azul-colbato tendo as mangas dobradas até seus cotovelos encaixada por baixo do cinto escuro, e por último, sapatos pretos simples.

- Preciso mesmo de tanta frescura assim? – perguntou analisando as roupas nas mãos de Neriell.

- Não estamos indo para uma de suas festas e sim a um encontro importante com o pessoal da empresa até eu tive de me arrumar melhor hoje!

Claro, a saia cinza justa na altura do joelho com um corte em “V” na lateral, e a blusa branca abotoada até os seios fartos – praticamente saltando para fora — finalizando o uniforme com uma meia calça e sapatos de salto alto, não chamava nem um pouco de atenção naquele corpo volumoso e bem distribuído dela. Deixando a análise de lado, Grimmjow fora se arrumar antes de Neriell dar outro ataque de mãe preocupada.

- Aizen-sama. – Gin entrou no escritório trajando não o costumeiro kimono, mas sim um terno preto e uma gravata vermelha perfeitamente alinhada a ele.

- Algum problema Gin?

O homem sabia como se portar em público. Os óculos grossos de armação negra combinavam com o tom escuro do sobretudo italiano cobrindo-lhe o corpo de botões detalhados e bem feitos. Os sapatos de camurça eram sutis, mas completavam a aparência dele como um pormenor bem encaixado.

- Vim apenas para lhe informar senhor que Grimmjow-kun já está pronto, nos esperando no estacionamento.

- Oh, ele foi bem pontual hoje. – mirou o relógio vendo ser onze e meia da manhã.

- Neriell-chan sabe como convencê-lo. – sorriu baixando os olhos de raposa.

- De fato, ela é uma das minhas funcionárias mais eficientes.

- O senhor quer dizer, funcionária do Grimmjow-kun, certo?

As íris frias fitaram o rosto de expressão sádica do comparsa numa forma de repreensão, podendo causar um calafrio nos menos acostumados a isso. Aquele homem exercia uma energia tão poderosa ao seu redor, que até mesmo respirar parecia penoso. Amenizou as linhas de sua face abrindo um singelo sorriso de boca cerrada segundos depois:

- Por enquanto Gin. – comentou trancando a gaveta de sua mesa e guardando a chave no bolso.

- O senhor parece animado hoje Aizen-sama.

- Estou, é verdade. Talvez tenha acordado de bom humor.

- A viagem do Grimmjow-kun não tem nada a ver com isso?

Os lábios de Aizen esticaram-se. Aquilo não era uma pergunta, era apenas uma constatação – Gin sabia disso. Se era o destino, ou apenas o resultado de suas artimanhas, não importava: apenas precisava saber que tudo à sua volta acontecia da mais perfeita maneira possível imaginada por ele.

Terminando de calçar um par de luvas marrons alinhando os ombros, adiantou-se até a porta sendo seguido por Gin. Desceram pelo elevador aterrissando no andar da garagem, vendo ao longe o conhecido carro de Grimmjow aguardando apenas pelos dois.

- Estão atrasados! – comentou com as sobrancelhas arqueadas.

- Peço perdão Grimmjow-san, tive de terminar alguns detalhes antes de partir, nada de mais.

- Que seja! Também não entendi ainda porque estão indo comigo, afinal, nem vão viajar.

- Ora, mas é meu dever garantir uma boa partida para o senhor.

- Tanto faz apenas se apressem!

Entraram no veículo partindo em direção do aeroporto. Neriell lia uma revista qualquer no banco traseiro sendo acompanhada de Gin e seu olhar distante através do vidro espelhado. Aizen ficara ao lado de Grimmjow repassando alguns dos detalhes das reuniões, listas e nomes, porém sabia não estar sendo acompanhado pelo raciocínio dele. Seus pensamentos vagavam longínquos da realidade.

Os carros acumulavam-se na rua como se não houvesse espaço nem mesmo na calçada tamanha a quantidade de veículos. A fumaça cinza elevava-se dos canos enegrecidos pesando o ar e dificultando a respiração. O povo se empurrava tentando achar um meio onde se enfiar naquela confusão organizada. Dentro do táxi com os cristais erguidos e o vento refrescante do ventilador impediam essa sensação de mal estar para o motorista e Ichigo, porém não significava que assim cessava sua angústia.

Batia a perna no piso sem nem notar enterrado no banco com as mãos no bolso do casaco vermelho vendo pelo vidro o movimento quase inexistente do trânsito. Bufou diversas vezes mirando o ponteiro apressado do relógio adiantar-se próximo a uma e meia; o aeroporto estava a vinte minutos dali e ainda assim parecia estar a um século de seu alcance.

Perguntas sem respostas permeavam suas idéias deixando-o cansado apenas de pensar nelas. O que Grimmjow queria dele? Porque havia escondido tantos detalhes de sua vida? Se fosse alguém importante, o mínimo de decência era conhecer um pouco mais dele, afinal, tinha lhe contado tudo sobre a sua. Não era uma troca justa. E ainda Renji o perturbara muito mais com seus comentários sobre a personalidade do outro e seu jeito de agir para com ele. Apaixonado, ele disse. Grimmjow nunca falara algo assim à Ichigo...

Frustrado resolveu por sair do automóvel jogando o custo da corrida no banco da frente e abrindo a porta. Quase voou para a calçada apressando o passo para a entrada do aeroporto, torcendo para ao menos poder sanar uma de suas dúvidas. Tudo terminava ali – de um jeito ou de outro.

No check-in Neriell anotava seu nome e o de Grimmjow numa lista imensa de requisitos e interrogações sobre motivo da viagem, doenças transmissíveis, tipo sanguíneo, dentre outras inúmeras indagações; algumas plausíveis, outras sem lógica alguma. Tudo burocracia, e por isso ela cuidava desses assuntos mais entediantes, pois o futuro presidente da empresa não se importava com essas questões. Grande exemplo.

Nos inúmeros bancos de espera azulados Grimmjow esparramava-se em dois deles, resguardando as malas de mão. Aizen ficara de pé ao seu lado, enquanto Gin havia ido comprar algo para beberem. O avião sairia dali a uma hora e meia, estavam adiantados, porém esta era a recomendação dada pelo aeroporto a todos os passageiros.

Esgueirando o pescoço para os lados Grimmjow parecia estar em busca de algo. Procurava pela figura de Ichigo saltando a qualquer instante naquele recinto, afinal, sejamos justos: impossível não reparar em uma cabeleira tão chamativa quanto a dele. Todavia, o rapaz ainda não tinha dado o ar da graça, começando a preocupar o maior.

Nos minutos seguintes essa aflição superou suas expectativas ao ouvir a voz eletrônica anunciar nos auto-falantes a breve saída de seu vôo. Neriell sentou-se no banco ao lado balançando os papéis na frente do rosto apreensivo de Grimmjow chamando-lhe a atenção – diga-se irritando.

- Que foi caralho?!

- Nossa quanto amor...

- Você ta me enchendo o saco desde cedo, então o que aconteceu agora?

- Vim entregar seu visto, sem ele tu não entra no avião.

- Posso picotar agora ou devo esperar você sair de perto primeiro?

- Ora, nem brinque com isso, Grimmjow-san. – comentou Aizen com o costumeiro sorriso.

- Fique tranqüilo, não irei estragar seus planos. – fitou-o sério.

Por um instante, ele pensou se aquele homem de olhar tão desconfiado e arisco havia descoberto alguma coisa sobre suas reais intenções. Mas sorriu em resposta. Impossível; sua consternação estava voltada a outro pequeno detalhe em sua vida, que veio a calhar muito bem para Aizen.

Arfando e já suado Ichigo conferiu a hora no enorme relógio digital da entrada do aeroporto – duas e nove. Abriu o casaco deixando o ar entrar pela abertura o refrescando. Dirigiu-se até o guichê de informações tomando noção da onde se encontravam os portões de embarque, e logo, onde acharia Grimmjow.

Tomou um longo fôlego analisando qual seria a melhor abordagem ao achá-lo. Tinha poucos minutos e precisava ser direto. Caminhou apressado até o local – portão 17B – misturando-se na quantidade absurda de pessoas, algumas reclamando de atrasos, outras amontoadas no meio da passagem, piorando a situação. Mirou por cima do ombro de muitos, pois Grimmjow era alto o bastante para isso, e por fim, ao longe, avistou as madeixas azuladas dele.

- Quanto tempo falta para o embarque, Neriell-san? – indagou Aizen a mulher.

- Parece que temos mais uns dez minutos. – virou o pulso para si confirmando a hora no relógio de prata.

Reparando na inquietude do maior ao lado, pousou a mão sobre seu ombro tomando a atenção dele para si:

- Acalme-se Grimmjow.

- Vai a merda Neriell, tenho meus motivos! Tu mesma disse que só temos mais dez minutos!

- Se ele disse que vinha, então ele vem! Caso contrário ele te avisaria, então relaxe.

- Fácil falar quando... – encerrou a fala pela metade abrindo um largo sorriso ao ver o garoto desajeitado esbarrando em metade do aeroporto a procura do chão para locomover-se.

Livrou-se da mão de Neriell adiantando-se até ele, porém sem esquecer-se de ficar a alguns metros seguros do portão de embarque.

- Ichigo! – exclamou alegre ao ver o menor parar a sua frente.

- Desculpe o atraso... – comentou por alto.

- Ta tranqüilo, você veio, isso que importa! – arreganhou os dentes deixando a mão coçar pela vontade de abraçar o ruivo e dar-lhe um beijo bem longo e demorado; o qual só sentiria de novo dali a um mês — ao menos era com o que contava...

- Grimmjow. – começou deixando o tom de voz sério, consternando o outro – Preciso saber de uma coisa...

Okay, eram várias coisas, mas de imediato, necessitava apenas de uma faísca para acender a pólvora implantada por Renji:

- Saber? O que é? – perguntou arqueando as sobrancelhas.

Erguendo a cabeça com o cenho num misto de raiva e receio, continuou:

- Porque escondeu de mim sobre a briga com Renji naquela festa?

De verdade, esse era o tópico da pergunta de tão inevitável espera? O garoto queria mesmo saber sobre outro cara no mesmo dia no qual viajaria? E ainda por cima, queria saber de um assunto há tanto esquecido pelos dois?! Nem mesmo Grimmjow lembrava-se direito dela – apenas que fora guiado por um forte impulso de ciúmes. Qual era a razão disso tudo?

- Eu não escondi nada de você Ichigo, pirou? – retrucou – Além do mais, porque ta perguntando agora?! Não to te entendendo.

- Quem não entende sou eu Grimmjow. – rebateu de imediato – Eu soube que você nem falou com ele no dia seguinte... E mentiu pra mim sobre ter se desculpado.

- Foi ele mesmo quem disse pra fazermos as coisas assim! – era uma discussão ridícula. Estavam perdendo o pouco tempo que tinham para lavar roupa suja num local público. Chegava a ser deprimente, se não fosse trágico.

- E você de bom grado nem pensou em me contar a verdade. Aliás... – parou retorcendo o tecido interior do casaco com as mãos – É como se sua vida me fosse um segredo algo que eu nem posso dizer se conheço mesmo.

- Vai mesmo levar em conta tudo o que passamos por causa de uma briga besta que eu tive com esse cara?

- São essas pequenas coisas que me impedem de acreditar na sua palavra, pois assim me parece que você é capaz de dizer ou não qualquer coisa para me agradar, ou quando não dá mais para esconder.

- Mentira! Eu nunca fiz isso! Cacete Ichigo, você ta falando besteira! Eu já te contei várias coisas importantes, qual é a sua?!

- “A minha” é descobrir que você mentiu pra mim, que eu não sabia até ontem da sua empresa, muito menos dessa sua viagem de negócios. – a última sentença pareceu sair num tom irônico, obviamente, alertando o outro. Sim, ainda queria saber se tratava-se de negócios mesmo.

- Ichigo para de falar besteira! Se eu não disse foi só porque não tive tempo, de verdade! Eu não to te escondendo nada!

Poderia acreditar nele. Era apenas questão de entregar-se as palavras por ele ditas, e deixar-se levar como sempre o fazia. Simples, se assim o pensasse. No entanto as dúvidas constantes erguiam-se em sua pequena muralha o impedindo disso. Não apenas as que permeavam sua cabeça, mas sim toda uma carga sendo arrastada desde o primeiro encontro com Grimmjow.Uma confusão atrás da outra, detalhes, questões mal resolvidas e tudo o mais. Afinal, passaram-se mais de três meses desde que estavam juntos.

Pensou, por um segundo, em deixar de lado o orgulho para assim dar-lhe uma nova chance, quem sabe precisavam apenas disso, uma distancia para os reaproximar depois, algo que fosse capaz de ruir essa barreira tão fina entre eles. Mas a voz feminina vindo na direção deles, desmanchou essa idéia:

- Grimmjow! Eles tem piscina no hotel onde vamos ficar! Ainda bem que estou levando meu menor biquíni!

Brincou Neriell abraçando o braço do maior e mostrando-lhe o panfleto animada. Após balançar o papel mais algumas vezes notou a presença de Ichigo a mirando curioso e pasmo – era a dama de cabelos verdes, a mesma daquele dia. Sorriu para ele em seguida cortando as breves lembranças dele:

- Você deve ser o famoso Ichigo! Grimmjow fala o tempo todo de você, sabia? – riu como se fosse uma piada o outro comentar tanto sobre ele.

O maior voltou-se com um estalo para encarar a expressão inexistente na face do ruivo. Os olhos âmbar viraram-se para ele o fitando em tom de surpresa e descrença. Neriell, chamava-se. Estava li assim como Renji falara. Seria coincidência, ou suas suspeitas eram verdade?

- Ela me conhece? – perguntou ainda absorto – Falou de mim para ela e... Vão viajar juntos?

- Ichigo! Calma! Ta entendendo tudo errado! – embolou-se tentando procurar uma explicação para dar-lhe e desvencilhando-se do braço de Neriell – Ela é a consultora da empresa! Só vai comigo por uma questão burocrática!

- E como sempre, tu esperou até o último minuto para me contar. – sério e já cansado dessas desculpas, dessas verdades não ditas do outro, por alguma razão ainda desconhecida por ele, deixou os músculos relaxarem, e uma estranha tranqüilidade apossou-se do menor.

Renji poderia ter tido a pior das intenções, mas em certo ponto estava certo: como ele poderia confiar em Grimmjow se sempre era o último a saber? Ou pior: se nunca era de sua ossada as reais intenções dele. Ele estava ao lado daquela mulher, como velhos amigos, e mesmo ela já o conhecia de nome. Isso era... Até mesmo humilhante, visto de outro âmbito.

- Isso... Já foi o bastante... – falou entre os dentes pendendo um pouco a cabeça para frente.

- “Já foi o bastante?!” – repetiu a frase de Ichigo incrédulo – Como assim?!

- Grimmjow-san, estão chamando para o embarque. – Aizen surgiu de repente ao seu lado, porém fora incapaz de tirar a atenção daqueles olhos azuis de cima do ruivo. Pôs uma das mãos em seu ombro vendo-o irritar-se com isso.

- Me deixa Aizen. – trincou os dentes para seu tutor.

- Se não for agora vai perder o vôo. Quer mesmo isso?!

Ichigo deu as costas para os dois tornando a fechar o zíper do casaco, mas sentiu na altura de seu cotovelo um brusco movimento forçando-o a parar vendo os dedos do outro o prendendo.

- Ichigo, o que você quis dizer com isso?! – esbravejou a indagação já parecendo um pouco desesperado.

- Significa que esse relacionamento, se é que ele pode ser chamado assim, acabou.

Não dava mais, simplesmente não dava. Era muito de uma só vez, coisas que poderiam ter sido resolvidas de outra maneira, frases incessantes martelando na sua mente, confusões em seus sentimentos abalando suas ações e o impedindo de pensar direito.

Arregalou as esferas azuis descrente daquela frase. Ela não podia ser real. Um devaneio de sua mente conturbada, uma ficção criada por um momento de delírio insano de sua parte, mas de todas as formas, aquilo não poderia ser a realidade. Segurava firme o braço o menor, todavia, parecia que a pele, a carne, os nervos e musculaturas escorriam por entre seus dedos afastando-se no meio daquele lugar lotado, com as vozes se distanciando da sua audição a cada minuto seguido por este instante angustiante.

- O pior... É que eu realmente tinha me apaixonado por você. – finalizou em tristeza, dizendo aquela palavra por fim abalando mais ainda o outro.

- Grimmjow, nós temos de ir. – falou Neriell sabendo da frustração do amigo, e apesar de confusa de toda aquela situação, não podia deixá-lo ali.

- Vamos Grimmjow-san, não podemos mais esperar. – completou Aizen também lhe apressando.

- Ichigo! – tentou falar mais alguma coisa, mas a mão da mulher o puxou ao mesmo tempo em que o menor retirou o toque dele sobre si.

Um aperto sem igual apossava-se o seu peito. Estava sem ar, não tinha como puxar o oxigênio dali. As pessoas faziam tudo a sua volta ficar cada vez mais abafado, e conforme os pés batiam no chão branco e lustrado do aeroporto Ichigo ouvia seu retumbar como se fosse a única alma viva presente ali. Solidão...

Quanto a Grimmjow, ele fora empurrado para dentro do avião, não á força, mas sim auxiliado, pois as energias tinham desaparecido dele, e as feições eram um branco total, num estado de coma auto-induzido. Neriell o carregou até seus assentos vendo o amigo parecer morrer aos poucos.

Gin e Aizen ficaram em solo vendo o avião partindo. Permaneceram calados vendo toda a trajetória do objeto voador, e ao avistá-lo desaparecendo no horizonte em meio as nuvens, se entreolharam.

O moreno sorrira, removendo as lentes da frente dos olhos e guardando-as no bolso do sobretudo, puxou os fios soltos do cabelo para trás arrumando-os perfeitamente em um novo penteado, deixando uma pequena mexa pendendo na frente da face risonha e macabra.

- Foi como eu lhe dissera uma vez Gin – falou por alto de costas enquanto o outro o seguia – esse garoto acabou sendo o meu maior trunfo.

- Realmente senhor, realmente. – mostrou os dentes em resposta, tornando a deixar o silêncio instalar-se sobre eles.

Continua

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-Bônus-

\"\"

Notas finais
Foto: Um Ichigo triste =XXX
Er.. Viram uq eu disse? o Renji enchendo a cabecinha linda do Ichigo de merda, a Neriell aparecendo na hora errada, e o Grimmjow q ainda n aprendeu a falar das coisas com o morango...
O Aizen até que tava quietinho na dele de boa.... Né? =XX
Espero q tenham gostado e n me matem por essa crueldade com os dois, mas calma... Eles ainda ficam juntos... de um jeito ou de outro >__
Kissus até o próximo!