Maid of Gevaudan
2 Chapter One
— Mas, meu senhor, eu sei o que vi!- Marie tentou argumentar com seu empregador, mas o rei parecia desacreditar com todas as suas forças em qualquer criatura monstruosa que Marie descreve.- Eu sei oque vi, meu rei. Aquela... Besta, quase matou a mim e minha irmã.
— Marie, você é uma ótima criada, mas serei obrigado a dar seu emprego para outra pessoa caso fique espalhando história de monstros pelo Palácio. — respondeu o rei, sério, Valet se calou, servindo café na última xícara.
— Me desculpe, senhor, não ira se repetir.- Marie dobrou brevemente um joelho, em um reverência forçada.- Vou estar na cozinha, caso precise de mim, senhor, toque o sino, com sua licença.
O rei assentiu com a cabeça e Marie seguiu pelo corredor, bufando de irritação quando não estava mais nas vistas de seu senhor. Odiava quando as pessoas nem sequer lhe davam uma chance para explicar o que queria dizer-lhes, o rei parecia irritado. Madame Genevieve devia estar levando novamente seus amantes ao Palácio, a província toda achava que não havia rainha mais devassa que Genevieve.
— Marie?- chamou Gabrielle, outra das criadas do rei, uma moça de uns 16 anos. — Poderia me dar uma ajudinha aqui?
Marie piscou algumas vezes, saindo de seu breve estado de torpor, vendo Gabrielle com os braços abarrotados de toalhas
— Oh, me desculpe, estava imersa em meus pensamentos, não lhe vi.- Marie se desculpou, pegando metade das toalhas e entrando na cozinha.- Mas o dia de lavar as roupas da rainha é apenas amanhã...
Comentou Valet, analisando o G bordado nas toalhas enquanto as dobrava.
— A rainha está irritada hoje.- contou Gabrielle, aos sussurros.- Pediu para Amélie servir seu café-da-manhã em seu quarto. Algumas criadas fofoqueiras estão dizendo que a rainha pegou o rei com sua meretriz essa noite. Mas acho que seria mais provável ao contrário.
Gabrielle sussurrou a última, para que ninguém lhe ouvisse e a denunciasse para a rainha. Provavelmente a rainha iria mandar cortarem-lhe a língua. Fingindo que ouvia o que Gabrille dizia, Marie continuou dobrando as toalhas, vagueando pelas imagens da criatura que ainda rodavam em sua mente, o halito de carne podre e os olhos desumanos.
— Marie!- chamou Gabrielle deu um leve tapinha no braço de Valet.- Está ao menos me ouvindo?
— Claro, claro.- mentiu a moça.- Estava falando do vestido que comprou, deve ser realmente lindo.
Gabrielle sorriu irritada, não estava falando de vestido algum.
— Você não toma jeito, Valet.- Gabrielle negou com a cabeça, pegando as toalhas dobradas e saiu da cozinha.
Marie recolheu alguns pratos sujos de uma bandeja e se pôs a lavar na enorme bacia de madeira que ficava sob a janela, vendo alguns soldados tentarem, sem muito sucesso, puxar a corda de um arco grosso. Um derrubou a flecha, a ponta quase cravou em seu pé, o outro conseguiu desparar mas não acertou no alvo, e sim na parede atrás dos alvos.
Marie riu debochada, mal sabiam eles que era mais fácil puxar com a força dos ombros que com a dos braços, mas eles jamais permitiriam uma mulher dar aulas de arco e flecha aos soldados do rei, por mais que a mulher fosse melhor com a arma que toda a brigada de arqueiros do exército real.
— Malditos sejam esses costumes.- praguejou Valet, limpando uma mancha de molho de um prato.
A noite se arrastou rapidamente, Marie terminou de guardar a última peça da prataria e soltou o avental de sua cintura, jogando a peça na mesa e indo para a porta, pegar sua capa e ir para casa.
— Boa noite, Marie.- desejou Adrienne, uma das criadas, vestindo uma capa e saindo pela porta da cozinha. Marie murmurou algo em resposta, estava cansada demais para pensar em algo coerente, Valet vestiu sua capa e abriu a porta, saindo para o frio francês que a noite clara fornecia. Uma rasa neve caia, deixando os cabelos castanhos da moça quase brancos, Marie deu outro passo apressado, abraçando o próprio corpo para se aquecer. As ruas de Gevaudan estavam desertas, a única coisa que provinha um pouco de iluminação eram as poucas velas das casas, e a lua cheia, que brilhava alta no céu. Marie parou em frente sua casa, tirando uma única chave prateada da capa e girando a maçaneta e entrando no ar quente e acolhedor que a pequena cabana tinha, Valet riscou um fosforo, acendendo uma vela e indo iluminar o resto da casa.
— Ah, como eu sinto falta de Aldric.- praguejou Marie, levantando uma pequena pilha de lenha nos fundos da casa para acender a lareira da sala, que já era o suficiente para aquecer a cabana toda.
Marie entrou em sua casa, jogando a pilha de lenha na pequena lareira e acendendo, sentindo o reconfortante calor do fogo, a moça tirou sua capa e o par de botas, olhando fixamente para a estante de livros, pensando em qual leria naquela noite até adormecer, e acabou optando por um exemplar surrado de Romeu e Julieta, que pertencera a Aldric desde sua infância. Marie vestiu sua camisola, se sentando com uma tigela de sopa e o livro, a moça tornou a se sentar no sofá, enrolada em um cobertor. Quando a noite se arrastou para perto da meia noite, Marie já se encontrava adormecida no sofá.
Quando a noite se aproximou das três e meia da manhã, um berro de horror foi ouvido por quase todo bairro, seguido de um rugido mais alto ainda.
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