Maid Café Yaoi
10 Sorvete Com Granulado - Final
Notas iniciais
Cheguei ao trabalho com uma cara não muito boa. Não tinha dormido bem na noite passada por causa da cena que vi na casa de Katsuo. Doía demais pensar que ele tinha voltado para a Miwa.
Eu não queria ter que vir trabalhar e encarar Katsu-chan. Na verdade, eu nem me sentia mais com vontade de chama-lo desse jeito carinhoso. Só queria ir para a casa e chorar sozinho até conseguir dormir.
Quando entrei na loja, Okami, Naoto e Mizuki já estavam lá. Eu sabia que Katsuo sempre era o último a chegar, mas ele nunca faltaria um dia de trabalho. E pela primeira vez me peguei desejando que ele ficasse doente ou algo do tipo. Meu medo de encará-lo era muito grande.
Parece que minhas preces não foram ouvidas, pois logo depois Katsuo entrou na loja. Ele cumprimentou Naoto, Mizuki e Okami com um abraço, como de costume.
Ele andou em minha direção e me deu um beijo rápido na bochecha. Eu até tentei me desviar, mas ele foi mais rápido, e sem nem perceber que eu hesitei, foi em direção ao banheiro colocar seu uniforme.
Antes eu adorava esse beijinho que ele me dava todo dia, mas agora eu só queria que ele nunca mais fizesse isso! Assim que Okami viu Katsuo entrar no banheiro, ela finalmente pareceu se lembrar do que tinha acontecido ontem.
– Ah, Shun-chan! – ela se aproximou de mim, falando baixo – E aí? Como foi na casa do Kaya? Você contou pra ele?
Olhei para baixo tristemente. Eu não queria lembrar daquilo.
– Ele voltou com a Miwa... – falei, quase como um sussurro.
– Ele o quê? – Okami arregalou os olhos – Ele te disse isso?
– Não cheguei a falar com ele – minha voz ainda saía melancólica. – Quando eu fui até lá vi os dois se beijando...
– Eu não entendo... – Okami franziu as sobrancelhas – Eu tinha certeza que ele gostava de você. Não acredito que meu Yaoidar está quebrado!
Acho que ela tentou fazer uma piada, mas a expressão de tristeza não saía do meu rosto. Ela acariciou meus cabelos e me lançou um olhar de pena, dizendo:
– Eu sinto muito, Shun...
– Não foi culpa sua, não se desculpe – falei
Okami não podia ficar me consolando para sempre, ela tinha que abrir a loja, e então o tão temido expediente começou. Eu tentei focar em apenas atender as clientes, anotar e entregar pedidos. Não queria fazer nenhuma cena de Yaoi hoje, Naoto e Mizuki podiam se encarregar disso.
Mas parece que Katsuo não pensava como eu. Enquanto ele limpava uma mesa, ele olhou sedutoramente para mim e disse:
– Shun-chan... Vem me ajudar aqui?
Eu sabia que ele queria fazer alguma cena para as meninas, mas eu não iria suportar fazer aquilo sabendo que era tudo uma mentira, e que a pessoa com quem ele realmente queria ficar era a Miwa.
– Estou ocupado, peça pro Naoto ou pro Mizuki – falei sem olhar para ele.
Eu de fato estava ocupado. Tentei me manter o mais ocupado possível para que ele não achasse uma brecha para tentar me agarrar ou fazer qualquer cena. Naoto e Mizuki já se encarregavam do Yaoi por mim.
Observei que uma das garotas de uma mesa, acabou derramando seu café sem querer.
– Merda! – ela disse
– Oh – Naoto apareceu – Deixe que eu limpo isso para você.
Naoto rapidamente buscou um pano, e se inclinou sobre a mesa para conseguir alcançar o local sujo. Ele tinha que se empinar um pouco para conseguir alcançar o fundo da mesa.
Antes que Naoto terminasse de limpar, Mizuki se aproximou, olhando maliciosamente para o traseiro de Naoto.
– Cuidado com certas posições que você faz perto de mim – Mizuki colocou suas mãos nos quadris de Naoto.
Naoto se ergueu rapidamente, mas Mizuki permanecia segurando seus quadris, e logo depois disse ao ouvido de Naoto:
– Me da vontade de te foder aqui mesmo...
As garotas gritaram loucamente pela maneira safada como Mizuki falara. Eu juro que pude ver Naoto se arrepiar. Ele se virou de frente para Mizuki e ficou o olhando inocentemente, dizendo:
– É?
Mizuki então agarrou Naoto, o erguendo e o colocando sentado sobre a mesa. Os dois se beijaram ardentemente, com suas mãos percorrendo os corpos um do outro, até que Naoto se afastou e disse:
– Mizuki... Vamos derrubar os lanches das meninas...
– Oh, não seja por isso! – uma das garotas da mesa disse, afastando seu pedaço de bolo dos dois.
– Por favor, podem continuar, hehe – outra garota disse.
Os dois sorriram maliciosamente um para o outro e voltaram a se beijar. Naoto enlaçou suas pernas envolta dos quadris de Mizuki. As garotas gritavam a cada vez que um mordia o lábio do outro.
– Ei, vocês dois! – Okami gritou, se aproximando da mesa – Eu juro que um dia eu abro um Maid Bar Yaoi só para maiores e vocês poderão se comer o quanto quiserem, mas isso aqui é uma cafeteria e temos menores de idade aqui!
Naoto então desceu da mesa e Mizuki o soltou. As garotas ficaram meio decepcionadas. Eu sabia que Okami não fez por mal, ela amava Yaoi mais do que tudo, mas realmente não podiam pegar muito pesado nas cenas.
Os dois então voltaram a atender as clientes. Eu estava indo anotar um pedido, quando senti dois braços envolverem minha cintura. Eu sabia que era Katsuo só pelo cheiro dele. Comecei a sentir um misto de agitação com dor no peito. Eu sabia que ele só queria fazer as meninas gritarem, e não ser carinhoso comigo.
Quando ele tentou dar alguns beijos no meu pescoço, eu me desvencilhei dele, gritando:
– Agora não, Katsuo!
Ele me analisou por alguns segundos. Eu já ia voltar para o meu trabalho quando ele me segurou pelo pulso e disse, num tom magoado:
– Por que você não está mais me chamando de Katsu-chan?
– Hm? Ah... Isso é... – Não olhava diretamente para ele — Não importa!
– O que aconteceu, Shun-chan? Por que você está estranho comigo? – eu sentia tristeza em sua voz.
– Eu não estou... – dei de ombros
– Está sim! – ele aumentou o tom de voz – Você nem olha na minha cara o dia todo! E toda vez que eu tento me aproximar de você, você se afasta!
Olhei em volta e vi que as garotas olhavam atentamente, aguardando por uma cena de drama que supostamente terminaria em pegação. Mas não dessa vez. Eu não ia ficar me iludindo nem mais um segundo!
– Eu fiz alguma coisa que te deixou com raiva? – ele disse quando percebeu que eu não ia falar nada.
– Pare com isso... – acabei soltando em um sussurro, desviando o olhar.
– Não Shun, não vou parar! – ele falou ainda mais alto, ficando um pouco irritado – Eu não quero que fique com raiva de mim, eu me importo muito com você.
– Pare agora! – Eu gritei, sentindo meus olhos umedecerem.
Merda, merda, merda! Isso era tudo que eu menos queria! Ele dizendo aquelas coisas para mim como se realmente sentisse aquilo. Mas era mentira! Era tudo mentira!
– Shun... Por favor me diga – Ele tocou meu rosto, e eu sentia que ia desabar a qualquer momento – Eu te amo!
Aquilo foi a gota d’água. Eu não conseguia entender porque ele ainda estava brincando comigo daquela forma. Com toda a minha força, eu empurrei Katsuo para longe de mim, e gritei:
– Nunca mais diga isso! Nunca mais!
Ninguém na lanchonete inteira falava nada. As garotas ainda olhavam atentamente, esperando por uma reviravolta. Porém Okami e Naoto me olhavam preocupados, eles sabiam o que realmente estava acontecendo.
– E-eu... – Katsuo hesitou antes de falar. Ele me olhava assustado, com os olhos arregalados – Há alguma coisa que eu possa fazer para você voltar para mim?
– Seu idiota! – Eu gritei. Não consegui segurar as lágrimas – Eu não estou fingindo! Não estou fazendo showzinho nenhum! Por que você não entende isso?
Sua expressão mudou de assustada para surpresa, mas ele ainda mantinha seus olhos arregalados. Ele não falou mais nada, apenas ficou me olhando com a expressão preocupada.
A expressão das garotas mudou de curiosa para preocupadas. Parecia que elas finalmente entenderam que aquela discussão não se tratava de uma cena.
As lágrimas agora fluíam livremente pelo meu rosto. Eu não queria mais isso... Não aguentava mais isso. Aquilo tinha que parar. Retirei o colete do uniforme e o entreguei para Okami, dizendo:
– Desculpa Okami... Eu não posso mais continuar com isso.
Ela arregalou os olhos, completamente chocada. Ela sabia o que eu estava querendo dizer com aquilo. Mas antes que ela protestasse, eu saí correndo da loja o mais rápido que pude. A última coisa que ouvi foi Katsuo gritando:
– Shun! Shunsuke!
Eu corri pelas ruas, sem saber para onde ia. Eu só queria me afastar o máximo que pudesse daquele lugar. Talvez depois eu encontraria um jeito de ir para a casa para que pudesse chorar em paz.
Eu nem tinha me afastado muito, quando senti alguém apertando o meu pulso, me impedindo de continuar correndo. Olhei para trás para ver Katsuo me segurando. Por que ele tinha vindo atrás de mim?
– Shun! – ele gritou – Para!
– Me solta! – tentei tirar meu pulso de sua mão, mas ele me apertava com muita força.
– Não! – ele gritou.
Katsuo me deu um puxão forte e me imprensou contra a parede, apertando meus ombros com força para que eu não escapasse.
– Eu não vou te soltar até você me explicar o que está acontecendo! – ele falou irritado
Era a primeira vez que ele usava aquele tom raivoso comigo, e aquilo me deixava assustado. Ele me segurava com força e me encarava com aquele olhar ameaçador.
Desviei meu olhar, me controlando para que novas lágrimas não surgissem. Assim que consegui regular um pouco a respiração, eu dei de ombros:
– Não vai fazer diferença...
Ele me analisou por alguns segundos. Sua expressão suavizou um pouco, passando de irritado para ofendido. Katsuo afrouxou suas mãos nos meus ombros, mas continuou me segurando e disse:
– Por que você não quer me falar? O que eu fiz de errado? Se é comigo que você está com raiva eu ao menos tenho o direito de saber o motivo!
– Como você consegue ser tão idiota??? – eu gritei, sentindo meus olhos se umedecerem novamente – Eu me apaixonei por você!
É isso, era o fim. Eu tinha finalmente falado para ele. Essa era a última forma que eu desejava que ele soubesse, mas eu não aguentei toda aquela pressão. Era melhor que ele soubesse e me desse um fora logo de uma vez para ver se eu superava mais rápido.
Ele finalmente me soltou, me olhando totalmente perplexo. Coloquei a mão no rosto para que ele não ficasse me olhando chorar, e resolvi contar a tudo que estava sentindo. Agora que já havia começado, não podia deixar a história pela metade:
– Eu... Eu simplesmente não aguento mais você sendo carinhoso comigo e saber que tudo isso é uma mentira! Que não passa de atuação. Você não sabe como isso dói para mim. Eu não quero mais me iludir! Não dá mais...
Ele ficou um tempo calado, parecendo refletir sobre o que eu disse. Sua expressão se suavizou completamente, e então ele disse, usando um tom sereno dessa vez:
– Por que você não me disse isso antes?
– Eu ia te contar ontem... – enxuguei minhas lágrimas – Eu fui na sua casa...
– Foi na minha casa? – ele me interrompeu, surpreso
– Mas aí... – eu ignorei sua pergunta e continuei falado – Eu vi você beijando a Miwa. Eu sou um idiota mesmo, você não tem culpa de querer voltar para ela. Eu só... Eu...
Minha voz falhou e aquele nó na garganta voltou. Abaixei meu rosto tentando segurar as lágrimas.
– Shun, olha para mim – Katsuo levantou meu rosto com suas duas mãos. O tom dele agora era completamente diferente. Um misto de ternura com preocupação – Até que parte você viu?
– Fui embora quando vocês se beijaram... – desviei o olhar, mas ele não soltou meu rosto – Eu não iria aguentar ficar vendo aquilo.
– Eu não voltei com a Miwa! – ele disse firmemente.
Espera, o quê?
– Não? – perguntei confuso, finalmente olhando para ele
– Não... – ele suspirou e soltou meu rosto, mas continuou próximo a mim – Quando ela me beijou, eu me afastei e disse que não ia voltar com ela. Ela insistiu mais um pouco, então eu disse para ela que estava apaixonado por outra pessoa. Ela entendeu e foi embora.
Minhas lágrimas se cessaram quase que imediatamente. Olhei em seus olhos atentamente, como se buscasse algo que provasse que aquilo era verdade. Tudo que eu consegui dizer foi:
– Isso é sério?
– Sim, Shun... – ele segurou minhas mãos, e eu não impedi dessa vez – Deixa eu te explicar uma coisa. Eu sempre fui um péssimo ator. Você se lembra como eu era um lixo quando comecei a trabalhar aqui? Eu não aprendi a atuar com o tempo, o que aconteceu foi que aquilo... Digo, nós, foi se tornando verdade para mim. Fui me apegando a você cada vez mais, até que eu me apaixonei. Nunca foi uma mentira para mim.
Meu coração batia mais rápido do que eu achava que era possível. Ainda não tinha assimilado completamente o que ele tinha acabado de dizer. Quer dizer que esse tempo todo... Ele também estava apaixonado por mim?
– Katsu-chan... – eu sussurrei, desviando o olhar
– Shun-chan... – ele tocou meu rosto novamente, mas dessa vez me acariciando com os polegares – Eu não estava fingindo quando te disse aquilo lá dentro.
É, pelo visto era possível meu coração bater ainda mais rápido. O que ele quis dizer com aquilo? Ele... Me amava???
De repente comecei a me sentir um idiota. Eu tinha feito todo aquele drama, gritado com ele, xingado ele por causa de um mal entendido. Enquanto ele esse tempo todo, sentia as mesmas coisas que eu.
Olhei profundamente em seus olhos, com os olhos ainda um pouco marejados, e sussurrei:
– Me desculpa...
Ele não respondeu nada. Apenas sorriu e foi aproximando seu rosto do meu bem devagar. Quando nossos lábios se tocaram, senti como se nunca mais meus batimentos fossem voltar ao normal. Ele pediu passagem com a língua e eu permiti, abrindo minha boca.
Eu não conseguia acreditar. Estávamos nos beijando, nos beijando de verdade! Sentir a língua dele explorando minha boca e suas mãos grandes segurando meu rosto era maravilhoso. Levei minhas mãos até sua nuca, e então ele desceu as suas até minha cintura.
Eu queria continuar lá, o beijando, para sempre, mas logo ouvi alguns gritos abafados vindo da rua. Saí do beijo rapidamente e então eu e Katsuo nos viramos para olhar os locutores.
Pudemos ver algumas cabecinhas curiosas saindo das janelas do Maid Café Yaoi. Assim que as garotas pareceram notar que as percebemos, elas voltaram rapidamente para dentro da loja, tentando fingir que não estavam nos espionando.
Eu e Katsu-chan nos olhamos e rimos. Com toda aquela discussão eu nem tinha me dado conta que nem estávamos tão longe da loja e que ainda podíamos ser vistos.
Ele então, me abraçou com ternura e eu apoiei minha cabeça em seu peito. Katsuo passou suas mãos pelos meus cabelos e disse:
– Me perdoe por ter te feito chorar, eu não queria que se sentisse iludido...
– Tudo bem... – eu disse, sem tirar o rosto de seu peito – Eu deveria ter tido mais coragem para te contar.
– Eu também deveria... – ele disse e se afastou do abraço para poder me olhar.
Eu não falei mais nada, por que logo nossos lábios foram colados de novo. Nos beijamos mais um pouco, até que Katsuo se afastou, segurou minhas mãos, e disse:
– Vamos voltar lá pra dentro?
Eu fiz que sim com a cabeça, e então nós dois caminhamos de mãos dadas até que voltássemos para dentro da cafeteria.
Assim que Katsuo abriu a porta de vidro, meus ouvidos foram preenchidos por sons de palmas, gritos e vários dos típicos “owns”. Eu só consegui rir, enquanto ouvia as garotas gritarem coisas como:
– Eu sabia que meu Shipp era real!
– Awwwn eles são tão fofos!
– Aê! Finalmente!!!
Eu e Katsu-chan rimos ainda mais alto com as reações das meninas. Porém, meu sorriso logo se desfez do meu rosto quando vi Okami se aproximando.
Eu pensei que ela ia me dar uma surra, gritar comigo ou tentar me estuprar por eu ter ao menos pensado em me demitir. Porém, me surpreendi ao vê-la sorrindo, com uma expressão de mãe orgulhosa.
– Eu sempre acerto! – ela disse, empinando o nariz
Soltei uma longa risada. Realmente, ela sempre estava certa quando se tratava de Yaoi. Lembrem-me de nunca mais duvidar da Okami.
Ela estendeu o colete para mim, e não precisou dizer nada para que eu soubesse o que ela estava querendo dizer. Peguei o colete de sua mão e o vesti, arrancando mais gritos e palmas das meninas.
Eu então, abracei Okami bem apertado, sussurrando em seu ouvido:
– Obrigado...
Antes que pudéssemos falar mais alguma coisa, Naoto se aproximou de mim e me abraçou apertado, dizendo:
– Não acredito que ia me abandonar aqui! Ainda bem que você voltou! Seu nojento desgraçado!
Não consegui impedir mais uma risada. Naoto me xingava, mas eu via pelo seu tom de voz que ele estava muito feliz por mim, e eu era realmente muito feliz por ter amigos como ele e Okami.
Quando finalmente Naoto me largou, Katsu-chan se aproximou de mim, me agarrando pela cintura e me beijando na frente de todos.
Eu não me importava se todos estavam vendo, quando eu o beijava parecia que nada mais existia. Estávamos na loja, mas dessa vez, era de verdade. Aquele beijo era real. Meu sentindo era real. E o dele também.
Eu nunca tinha me sentido tão feliz...
E assim...
Se passou mais um dia...
No Maid Café Yaoi...
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