Mai Hime: Summer Vacation
13 13. Empecilho? Salvação? Aparição!
Yaki circulava a fogueira, dando pulinhos de felicidade. Hiroto jogava uns pedaços de madeira perto do companheiro, tendo absolutamente nenhum cuidado para não acertar suas novas iscas, amarradas costas com costas perto do fogo.
Natsuki e Rinji-kun, cujos óculos já haviam sido arrancados por um galho que passara raspando por ele, estavam firmemente amarrados e pareciam, se é que isso era possível, ainda mais deploráveis do que antes de serem capturados; na esperança de agradar o deus-peixe, os dois homens tentaram limpar Natsuki e Rinji-kun. Grosseiramente.
Agora, ambos estavam lívidos, pois haviam esfregado panos molhados em suas faces. Rinji-kun ganhara uma faixa grossa em torno da cabeça, para esconder a marca na testa. Juntando isso aos óculos remendados, estava parecendo uma múmia perturbada. Natsuki tinha ataduras mais bem-feitas (Hiroto, aparentemente, se encantara com ela) na perna arroxeada. No entanto, as ataduras não disfarçavam o calombo que fora formado no lugar em que as pedras a prenderam. Ela arfava a intervalos regulares, não conseguindo conter a dor lancinante.
- Vai passar. – sussurrava Rinji-kun para ela, tentando segurar sua mão através das cordas. Ela não tinha forças nem para afastá-lo.
- Yaki, pegue um pouco de água para o rapaz, ele está muito desidratado. – Apertando os olhos, Rinji-kun tentava enxergar o homem que se aproximava deles.
- Quem é? – murmurou mais para si mesmo do que para alguém.
- Meu... segundo pesadelo de Kyoto. – respondeu Natsuki no mesmo tom. Achando que ela provavelmente estava delirando, Rinji-kun desistiu de ver qualquer coisa e fechou os olhos. Sua cabeça latejou.
- Ara, a moça conhece Kyoto? – perguntou Hiroto, agachando-se ao lado deles. Natsuki não respondeu. Respirando cada vez mais rápido, ela parecia estar cedendo de vez.
- Vocês não têm alguma coisa para machucados? – gritou Rinji-kun tentando ver o borrão ao lado dele.
Hiroto olhou dele para Natsuki e para Yaki, então, começou a rir.
- Moço, nós somos pobres pescadores!
- Atualmente, seqüestradores também! – acrescentou Yaki animado.
- É, bem, acho que esse não é um serviço muito usual, mas pode dar resultados! – exclamou Hiroto, levantando-se e pegando uma garrafa de água das mãos de Yaki.
- Ela está morrendo! – berrou Rinji-kun, muito irritado. O que certamente era um exagero, mas acho que aquele ferimento doía mais do que na vez em que Natsuki realmente morrera.
- Isso deve ajudar. – Hiroto abriu a garrafa e despejou na perna dela.
O que foi uma dupla burrice. Primeiramente, porque as ataduras de pano absorveram metade da água. E segundo: ninguém reparara, mas Yaki passara a Hiroto água com gás.
Rinji-kun simplesmente não pôde descrever o grito que Natsuki deu a seguir, mas eu senti a aflição na voz dele ao me contar. Tremendo muito e evitando se mexer, ele decididamente conseguiu pegar a mão de Natsuki.
- Está tudo bem! Não se preocupe! E-eu vou...
Ela apenas apertou sua mão em retribuição e ele sentiu a cabeça dela tombar em sua nuca. Desmaiara.
Perdendo todo o controle, ele começou a chutar tudo ao seu alcance.
- Devolvam meus óculos, seus... – e xingou os homens de tudo o que conseguiu se lembrar na hora. Assustado com a reação dele, Yaki atendeu o pedido.
Rinji-kun, novamente enxergando de um lado só, viu Hiroto, meio pálido, encarando Natsuki. Percebendo que o seqüestrado o estava vendo, desviou o olhar para longe e deu as costas à fogueira. Yaki ficou de pé, perdido, esperando alguma ordem.
- Por que exatamente estamos sendo seqüestrados? – indagou Rinji-kun, um pouco mais calmo.
Yaki repetiu para ele a história do deus-peixe, sem nenhum fervor dessa vez. Rinji-kun achou melhor não continuar xingando os dois, mas deixou estampado no rosto que achava aquilo uma idiotice.
Hiroto permaneceu parado feito estátua, provavelmente pensando no que fazer a seguir. Com um suspiro cansado, ele se virou para o companheiro.
- Vamos seguir com o plano, Yaki. – E começou a entoar aquele canto estranho para chamar o deus-peixe.
Passados pouquíssimos minutos, algo rosnou atrás deles. Os dois se viraram e Rinji-kun cuidadosamente se arqueou para o lado, tentando ver entre as pernas que bloqueavam sua visão. Sentiu Natsuki escorregar um pouco.
Era um tigre. Ele margeava o rio, caminhando lentamente, perigoso e letal até eles. Era maior do que aquele que tinha afugentado Rinji-kun e Natsuki e certamente mais ameaçador.
Agora, você me pergunta: qual é a possibilidade de dois tigres se perderem de seu “rebanho” (e qual a possibilidade de alguém ter um rebanho de tigres?) um seguido do outro? Eu. Não. Sei. Mas foi o que aconteceu.
Hiroto e Yaki começaram a recuar e Rinji-kun teria desejado que eles caíssem na fogueira e tivessem ferimentos horríveis, mas como ele estava no caminho, achou melhor que isso não acontecesse. O felino rosnou de novo.
- Não vamos perder nossa isca de novo! – gritou Yaki em pânico, erguendo a vara de pescar para se defender.
- De novo? – Rinji-kun não pôde deixar de perguntar. Ele deu um chute em Yaki para avisar que estava logo atrás dele.
- Ai! É...
- Duas malucas que nós pegamos na floresta. – explicou Hiroto, que parecia anormalmente calmo.
- Uma até que era bem bonitinha, mas a loira era um papagaio histérico, hein, Hiroto?
- A outra só reclamava, Yaki. Pensando bem, foi melhor terem fugido. Esses dois aqui têm melhor aparência e são mais calminhos. – Rinji-kun deu-lhe um chute também e ele parou de recuar.
Rinji-kun aproveitou para absorver a informação. Uma loira falante e uma bonitinha reclamona. Era só juntar dois mais dois.
- E... para onde elas foram quando fugiram? – perguntou como quem não quer nada.
- Saíram desembestadas pela floresta. Achamos que teriam saído por aqui, por isso fizemos aquela armadilha do galho. – disse Yaki, irritado. A água ainda o ofendia.
- Pegamos coisa melhor, isso é que importa. – comentou Hiroto, distraído. Ele não despregava os olhos do animal, que também parara, talvez escolhendo qual era a presa mais suculenta.
Rinji-kun percebeu que era ele quem corria mais perigo. Se o tigre saltasse e os dois homens se desviassem, Natsuki e ele estariam logo atrás, prontinhos para serem devorados. Sem que os dois captores notassem, começou a se desviar para o lado. O que foi bem difícil, porque ele tinha que arrastar Natsuki em silêncio. Já estava quase longe o suficiente da fogueira, quando o bicho atacou.
Com um pulo digno de aplausos, o tigre abriu a bocarra, mostrando seus dentes perfeitamente pontudos e mortais.
Foi aí que duas coisas extremamente esquisitas aconteceram. A fogueira deu um estalo e o fogo pareceu crescer para cima dos seqüestradores. Rinji-kun segurou, com muito esforço, os braços de Natsuki e conseguiu, com um impulso, fazer um salto que os colocou em segurança. Ele caiu de cara no chão, com Natsuki pendendo molemente por cima dele. Ainda assim, as cordas não se soltaram.
Os dois homens gritavam, olhando do fogo para o tigre e de volta. Então, alguém deu um grito de Tarzan e um galho veio voando anormalmente rápido e acertou o tigre na barriga. Ele ganiu e foi atirado no rio. A correnteza o arrastou para longe, afastando o perigo.
O fogo continuou a crescer. Yaki gritou e Hiroto o puxou para longe da fogueira. Os dois tropeçaram e caíram sentados na grama.
- Você conseguiu, Suzushiro! – gritou uma voz surpresa, à entrada da floresta.
- Mas claro que consegui!
Rinji-kun ouvia com metade da atenção. A outra metade estava concentrada na metade de óculos que o fazia enxergar. De repente, sentiu que tiravam o peso de cima dele. Uma guinada violenta que fez seus óculos escorregarem, mas ainda ficaram em cima do nariz. No instante seguinte, estava sentado.
- Malditos! Sabem como isso dói? – berrou Natsuki para os dois homens aterrorizados. – Minha perna parece que está em fogo!
- Você acordou! – exclamou Rinji-kun, com tão óbvia felicidade, que ela sorriu.
- Tive um pesadelo enquanto desmaiava. – ela estremeceu. – A dor clareou minha mente. É melhor encarar isso aqui.
Então ela viu Nao-chan e Suzushiro-san paradas ao longe.
- Pensando bem, vou desmaiar de novo. – disse com desgosto.
- Vocês estão horríveis! – gritou Suzushiro-san.
- Está tentando seduzir um desses pobres coitados, Nao? – replicou Natsuki.
- Pelo menos eu não estou parecendo uma criatura da floresta! – berrou Nao-chan de volta.
— O que vocês estão fazendo aqui? – gritou Suzushiro-san para Natsuki e Rinji-kun.
- Viemos salvar vocês. – responderam eles juntos, patéticos, sujos, machucados, cansados e amarrados, como se fosse uma coisa evidente.
- SILÊNCIO! – ordenou uma voz tenebrosa que parecia vir da fogueira. Então, uma coisa começou a sair do fogo. Uma forma com dois olhos de peixe esbugalhados se ergueu e aterrissou com estrondo na frente dos amedrontados Hiroto e Yaki.
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