Passamos a noite em minha cama. Vestidos.

Seu grave timbre de voz agraciava meus ouvidos. Eu não parava de me perguntar como alguém com a aparência tão forte, lembro-me de que minha primeira impressão dele foi a de que ele era um presidiário, impressão da qual ele riu quando contei a ele, podia ser alguém tão doce. Sutilmente doce.

Partilhamos várias lembranças naquela noite. Nossos gostos, experiências, muita coisa secreta virou segredo entre nós dois.

Alguns raios de sol atravessaram a minha cortina e percebi que havia caído no sono. Glad estava ao meu lado mergulhado em sonhos.

Eu estava prestes a levantar quando vi uma coisa metálica caindo do bolso de sua calça jeans. Seu celular.

Eu sei que não deveria, sei que era errado, mas talvez eu não estivesse preocupada com isso.

Peguei o objeto e acendi a tela.

Não havia senha.

Passeei pelas telas iniciais quando vi o gadget do bloco de notas. Estas estavam em inglês, porém eu compreendia bem o idioma. Eis o que estava anotado:

“Seu cabelo cheira muito bem. Não é algo artificial como o cheiro de shampoo, mas doce como fruta. Ela cheira bem por inteiro, parece banhar-se em florestas de perfumes.”

“Seus olhos me analisam com tanta intensidade que sinto que percorrem minha alma. Loucura, eu vejo, mas é o que sinto. É como ela me faz sentir.”

“Ela era o que eu estava procurando, se é que algum dia decidi procurar por alguma coisa”.

Decidi parar por ali. Seja o que for pelo que decidi ir atrás, havia definitivamente encontrado.

Quando fui devolver o celular para o seu bolso, vejo seus olhos me encarando. Meu corpo gelou por um momento, mas vi que ele de nenhuma forma demonstravam raiva ou aborrecimento, na verdade estava brincalhão.

– Nenhum de nós presta. – diz.

– Eu sei que eu não. – rio – mas e você?

– Eu havia deitado em cima do seu diário. Quando percebi isso simplesmente não consegui controlar minha vontade.

– Justo. – digo me levantando da cama. – Se quiser tomar uma ducha, pode usar o meu banheiro. – aponto para a porta ao lado do meu closet. – Se quiser eu posso te trazer umas roupas.

– Eu quero sim, obrigado. – ele disse se levantando e espreguiçando.

Eu acho que me sinto mais confortável agora sabendo que ele me adora tanto quanto eu o adoro.

– Já volto.

Saio do meu quarto e vou até o quarto do Mateus, meu irmão.

– Ei, me empresta umas UOU. – assim que entro em seu quarto o vejo fodendo uma garota na sacada. – Na sacada cara? Meu herói você. – comento rindo enquanto caminho até seu closet e rapidamente escolho algumas peças que julguei ficarem bem em Glad. – Divirta-se. – digo antes de sair.

– Do mesmo jeito que você se divertiu ontem? – ele exclama olhando pra mim. – Pó dexar. – mal o posso ouvir entre os gemidos da garota.

Fecho a porta ainda rindo.

Dou uma passada na cozinha no andar debaixo e pego umas frutas da mesa.

– Oi Martha. – cumprimento a governanta.

– Bom dia, Lyly. – me devolve um sorriso. — Festinha ontem? – comenta rindo.

– É. Não tem problema, não é? – faço aquela pergunta pela centésima vez.

– Não desde que vocês não destruam a casa. – ouço aquela resposta pela milésima vez. – Você tem que aproveitar sua juventude. Eu bem que aproveitei a minha. – ela responde com uma gargalhada.

– Ah, tô ligada pela sua tatuagem de “Roubando seu homem desde 1952”. Boa escolha, aliás.

– Como você ficou sabendo? – ela pergunta com surpresa.

– Ah, as notícias, Martha, elas correm.

Subo as escadas ouvindo a gargalhada da melhor governanta do mundo.

– Ei, vou deixar as UOU. – mal entrei no quarto e me deparo com um garoto só de toalha. – Toma cuidado pra alguém não arrancar essa toalha ai.

– Alguém tipo você?

– Quem mais? – me refiro ao quarto vazio.

Rio e jogo as roupas para cima dele.

– Minha vez. – digo entrando no banheiro e fechando a porta.

Quando saio, encontro um bilhete dele em minha cama.

“Encontramo-nos na escola”.

Para falar a verdade, fiquei um pouco decepcionada, mas aquilo me dava espaço para me arrumar com mais tranquilidade, então vi que era o melhor.

Ele era o melhor.

Na escola, todos comentam a festa de ontem e como ela marcou o início de uma nova era.

– Não te vimos nem um pouquinho na festa, rolou algum babado com o boy? – perguntou Laura.

– Isso ai é entre eu e ele. – dou uma piscadela.

– E falando no diabo. – Jéssica anuncia.

Glad aparece com sacolas de papel branco na mão e inclina a cabeça para o lado, pedindo para que eu o siga.

Vamos até a mesa de pedra e a encontramos vazia.

– Como eu não fiquei para o café da manhã, trouxe um para nós.

Ele foi tirando as coisas da sacola e meu apetite foi abrindo cada vez mais.

Meu apetite por outra coisa.

Fui até atrás dele e o virei para mim, para que ele ficasse contra a mesa. Passei meu nariz pela sua blusa, sentindo seu cheiro e fui subindo até seu pescoço. Meus lábios passeavam pela sua orelha esquerda e em tudo o que eu podia pensar naquele momento era em seus gemidos baixinhos.

Nesse momento o sino toca e suspiro em desistência.

– Eu vou levar esse croissant pra sala e vou comer pensando em você. – dou uma mordida e lanço um olhar significativamente sedutor para ele enquanto saio.

Eu soube ali que não conseguiria sair da armadilha.