Notas iniciais
Final.

A aula foi fervorosamente chata. Como se fosse possível. Eu até ousaria mexer no celular, burlando as normas que ficavam cada vez mais rígidas, mas o havia esquecido no carro.

Passei as quatro horas e meia seguidas pensando nas coisas que poderia fazer se não estivesse na escola. Muitas delas envolviam o Glad. Cujo eu não vi no intervalo porque nem saí da sala, a droga de um trabalho atrasado me impediu.

Certas notas não estavam exatamente boas e isso pesava na minha consciência. Eu não podia reprovar novamente, não que isso fosse despertar a fúria de meus pais, mas era um saco.

Meus planos pós-escola? DAS. Departamento de Astronomia, Universidad del Chile. É claro eu não iria se fosse ficar longe de Glad. Não que eu de alguma esteja obcecada com a sua presença (também não nego isso), mas uma coisa é ficar um dia ou uma semana sem ver ele, outra é ficar meses ou anos. E eu não sou do tipo que consegue manter relações à longa distância.

Mas longe de mim virar dona de casa.

Eu ainda seguiria com os planos de me tornar astrônoma, mas faria isso no Brasil.

O que me chamava a atenção em Glad não era só a sua aparência, mas o fato de ele ter o olhar tão intenso e um jeito tão único. Ele não tinha medo de ser quem era, e era uma boa companhia, além de amorosamente amistoso no toque. Tocava tão delicadamente que parecia que tinha medo de te quebrar.

No fim da aula, enquanto eu caminhava até meu carro, vi Glad encostado nele. Eu simplesmente não conseguia desmanchar o sorriso do meu rosto. Vê-lo desencadeava tanto alivio em meu peito que parecia que eu não respirara a manhã inteira. Tudo se tornara mais leve, efeito de uma mente entorpecida. Vê-lo me deixava assim.

Limitamo-nos ao silêncio. Eu o abracei e me deixei sentir seu corpo contra o meu, seu calor me inundando e seu cheiro me invadindo.

Coito.

Eu cheguei voraz, voltando ao ponto de onde parara. Sentia seu pescoço quente e suas mãos passearem pelo meu corpo. Ele me apertava contra si, minha barriga colada a sua, tive certeza que nossa pulsação estava sincronizada. Estávamos tão perto um do outro.

Levei meus lábios aos seus, como se juntasse dois corações. Cada beijo doce e selvagem me levava a querer mais. Mais de tudo, porém alguém tinha que ser racional. No caso ele.

– Estamos no estacionamento. – diz ao desgrudar minha boca da sua. – Vamos fazer isso direito. – complementa apertando os olhos.

– Minha casa? – proponho e ele acena em positivo.

Eu entro no meu carro e ele no dele.

Apesar de querer, não vou descrever aqui. Não foi minha primeira vez e não será a última. Nada menos que o esperado, mas por ser com ele teve algo de especial.

Sexo deveria deixar de ser tabu. Eu só conhecia o cara há três dias e várias pessoas não achariam certo eu me “entregar” a ele desse jeito e o que eu penso sobre isso é que acho que a maioria das pessoas tem medo de ter seu coração partido, assim tem receio de se entregar completamente em tão pouco tempo, sendo que três dias não é o suficiente para conhecer bem uma pessoa, eu entendo isso, mas não tenho medo que quebrar meu coração e se você tem, não recomendo que faça sexo com a pessoa que pretende ter uma relação séria antes de... O que seria o “normal”? Um mês? Talvez dois. Eu não tenho ideia e não pretendo ter, é só que o certo para você pode não ser para mim.

Aliás, coração partido é ótimo para a criatividade.

No momento seguinte eu sentia a seda do lençol contra minha pele desnuda. Seus olhos hipnotizavam os meus, mantinha-os presos em sua teia verde esmeralda. Pupilas dilatadas, respiração pesada. Sorrisos de canto de boca.

Tudo se resumia àquele momento e em sua eternização na minha memória. Eu o desejava e somente a ele, em relação a tudo.

E eu nem sei quanto tempo se passou.

Quando acordei ele estava em pé, abotoando sua calça.

Eu pensei em perguntar “já vai?”, mas nem precisei porque ele disse “Já vou”.

– Certo. Nos vemos na escola, então? — pergunto.

– É, claro. — ele sai enquanto colocava a camiseta. Sem beijo de despedida nem nada.

Eu passei o resto do dia, que já era noite, na banheira e lá peguei sono de novo.

Na escola, no dia seguinte, eu o encontrei em um corredor. Inclinei-me para frente, para dar-lhe um abraço, mas ele se afastou, me dando um olhar estranho que nunca visto.

Ele chegou perto de mim e sussurrou ao pé do meu ouvido:

– Eu não estou mais a fim de você.

– Just like that? (Assim desse jeito?) – pergunto com as sobrancelhas levantadas.

– Just like that. Mas escuta, “as relações humanas simplesmente não são duráveis”.

– Ah, mas você não acabou de citar Bukowski pra mim. Por acaso isso tem a ver com a nossa foda ontem?

– De nenhuma forma. Você sabia que eu sou bipolar? Não, né? Bem, é aquele velho papo, apesar de ser totalmente verdadeiro e aplicável nesse contexto, não é você, sou eu.

Eu o encarava porque o pior de tudo era que seus efeitos ainda recaíam sobre mim. Seus olhos e aquela parada do filtro do Instagram, seus rosto desenhado perfeitamente, seu olhar hipnotizante. Como eu me desvencilharia daquilo?

O peso das palavras começara a cair. Meu coração ardeu em chamas ao mesmo tempo em que meus olhos encharcavam.

– Mas alguma coisa deve ter acontecido pra você, do nada-

– Nada aconteceu. Você não consegue compreender que há pessoas que podem mesmo mudar bruscamente de opinião sem influência externa? Você sabia no que estava se metendo.

– Certo. Claro. – respondo erguendo meu queixo. – Foda-se, certo?

Em muito pouco tempo as pessoas podem aderir às religiões, não é? Então ao mesmo tempo posso eu sair de uma.

Ele era meu deus, e eu havia me tornado ateísta.

Notas finais
Muita coisa hoje em dia é rápido, instantâneo. Fast food, fast clothing (existem em lojas onde chegam roupas novas todos os dias), o mundo está muito veloz e isso se aplica também às relações amorosas. Nessa história, os protagonistas se conheceram somente por três dia e Madelyn já acreditava estar apaixonada por ele, sem nem conhecê-lo totalmente e nem sabendo de sua bipolaridade. Ela tem seu coração partido. O que eu queria ilustrar era como as certas pessoas costumam se entregar para outras que acreditam serem dignas de confiança, apesar de talvez não serem. Isso, de certo ponto de vista, pode ser bom porque estas pessoas que se entregam vivem intensamente cada momento, sentindo cada emoção ao absoluto, mas quando tudo acaba, percebem que o "lance" foi bem passageiro e nada se pôde guardar dele.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!