O garoto estava há uns bons dez minutos me encarando. Ele tinha essa aparência de presidiário, cabeça raspada, olhar forte, músculos. Parecia ser velho o bastante para ter mais de dezessete anos.

Certo, era o primeiro dia de aula, as pessoas encaravam, era praticamente uma lei. E eu acho que isso não me incomodaria tanto se o cara não fosse tão atraente.

Eu o queria e só o vira uma vez, pela primeira vez.

- Madelyn tá interessada. – diz Laura.

Percebo que ela se refere ao novato.

- É lógico. – respondo. – Saca só aqueles olhos.

Estes eram de um verde denso. Como se ele tivesse todas as esmeraldas do mundo juntas debaixo do meu filtro preferido do Instagram.

- O nome dele é Gladstone. Ridículo né? – comenta Jéssica.

- Como você sabe disso? – pergunto.

- Eu o conheci numa social ontem. Ele é bem tímido.

- Não parece. – Laura comenta.

- Aham. – concordo com ela.

- Mas isso dá um charme pra ele.

- Com toda certeza desse mundo miserável. – rio. – Mas ele é meu, beleza? – digo às minha amigas enquanto o encaro.

Ele riu pouco tempo depois que eu falei isso, como se soubesse o que eu tinha dito. Deixei esse pensamento de lado quando analisei a distância que nos separava. Apesar disso, não pude parar de pensar em seu sorriso, um milagre encantador.

O sino tocou e todos os alunos, que estavam na praça de alimentação ou ao redor, foram direcionados para o auditório.

Quando estava entrando, o procurei na multidão, para ver se conseguia pegar um lugar perto do seu, mas não o encontrei, então me contentei em sentar no meu lugar usual, cercada sempre pelas minhas companheiras.

Na escola, as pessoas pareciam se importar bastante comigo. Queriam sempre falar e andar comigo, usar roupas parecidas, curtir as minhas fotos. Isso desde sempre, o que mexeu comigo. Deu-me certa autoridade. Eu tinha as três coisas que a Lana Del Rey canta sobre na minha música preferida dela: dinheiro, poder e glória.

Eu apreciava muito tudo isso.

É errado?

Muita gente me cumprimentava naquele primeiro dia de aula. Eu me limitava a responder com um sorrisinho e um levantar de sobrancelhas. Todos pareciam satisfeitos com isso.

Meu irmão, caso queira saber, sofria da mesma coisa. Ele era bonito, o que lhe garantia a glória. Era capitão do time de Lacrosse, o que lhe garantia o poder. E, por partilhar da minha família, tinha dinheiro.

Sim, gêmeos.

Mas, você deve ter se perguntado, lacrosse? Onde você mora? Tenho a honra de lhe informar que vivo no glorioso estado de Você Nunca Vai Saber. Acha mesmo que eu ia dizer onde eu moro?

No momento eu estava no auditório e me preparando para o meu discurso anual de boas-vindas. Sim, o diretor me adorava.

Quando fui chamada, subi no palco e disse aquelas coisas clichês sobre esse ser o melhor ano e que iriamos arrebentar a escola. Minhas palavras pareciam mexer com a multidão e, entre nós, também me arrepiava os pelos da nuca. Mas durante todo o tempo fiquei procurando o garoto e acabei o achando bem no meio do grupo à esquerda. Ele me encarava com aqueles olhos cobertos por um olhar intenso. Percebi que por alguns segundo havia parado de falar e um leve sussurro começou a se espalhar pela multidão, mas logo se dissipou quando retomei a fala.

Eu sabia que estava caindo direto na armadilha do caçador, mas eu me sentia tão bem em ser presa que nem me importei, até ajudei a me atar.

E esperava que de alguma forma ele sentisse o mesmo.