Magnólia, minha cidade do interior
17 Quando o sol se põe
Meu pai estava lá novamente, debaixo daquela árvore no topo da colina, eu podia ver claramente a sombra de sua silhueta que descansava no tronco observando o pôr do sol, eu não fazia ideia do que ele pensava quando estava lá ou o que aquilo significava pra ele, eu só o observava, pois a vista era magnífica.
Eu estava aconchegada na rede que papai tinha colocado na varanda de trás da casa, de lá eu podia olhar o mais lindo pôr do sol do mundo, o céu ficando laranja, a temperatura diminuindo, e os insetos gritando uns com os outros, “ é hora de ir picar os humanos, vamos lá”.Pois foi isso que começou acontecer, vários deles vieram na direção exata de minhas pernas expostas devido ao calção jeans que eu usava.—Precisa desligar as luzes aqui de fora, assim eles te deixam em paz. – Natsu apareceu na varanda e desligou as luzes, quase que imediatamente os meus novos amigos me deixaram, não demorou muito e eu estava a salvo.—Obrigada! – Agradeci sorrindo pra ele, o mesmo veio mais próximo e olhou para o horizonte onde dava pra ver meu pai.—Ele esta lá faz muito tempo? – Natsu perguntou franzindo o cenho.—Faz uns dez minutos, ele acabou de ir, não precisa se preocupar. – Tentei acalmar o rapaz. – Sente-se.Ele olhou para mim e viu que eu indicava a rede que eu estava deitada, pude ver em seu rosto o vermelho começando a se instalar nas bochechas, mas logo ele balançou a cabeça e veio se sentar ao meu lado. Com um pouco de dificuldade, pois quando sentou eu quase caí pra fora, e assim fomos nos ajeitando, mas sempre balançando demais aquele pedaço de tecido.—Hahahahaha. – eu ri muito, pois perdemos em torno de cinco minutos nos ajeitando, até que ele conseguiu deitar comigo ao seu lado, ficamos olhando para o céu azul escuro mesclado com o azul fraco que passava para o laranja devido ao sol se pondo.—Eu amo esse horário.. – Natsu comentou olhando para as cores vibrantes a cima de nós.—Faz tudo parecer tão perfeito, não é? – comentei sorrindo e pensando em como a vida era difícil, mas as vezes te presenteava com pequenas coisas que pareciam enormes aos olhos de quem sabe apreciar e agradecer.—É... – Natsu disse, então ficou em silêncio, eu pude sentir que sua respiração acelerou um pouco, queria pedir se estava tudo bem, mas preferi ficar em silêncio e esperar. – Eu... eu sei que as coisas estão um pouco estranhas entre nós...—Natsu... – tentei interromper, pois aquele momento estava tão perfeito e eu não queria ter que voltar a pensar nos meus sentimentos confusos.—Deixe-me falar, por favor, isso está me sufocando. – Natsu pediu olhando decidido para o céu que agora começava a escurecer mais, eu apenas fiquei em silêncio, não podia impedir alguém de falar. – Desculpe, eu me precipitei em falar oque eu sinto por você, poxa você acabou de perder a mãe e seus amigos mais próximos, e eu fiquei maravilhado com a sua pessoa por completo, então me deixei levar por essa sensação de conforto que sinto ao seu lado... mas por favor me perdoe, eu nunca quis que as coisas ficassem estranhas...—Tudo bem... – eu comentei, eu sei como ele se sente, afinal também me sinto dessa forma, só não o disse.—Se eu pudesse voltar no tempo, eu não teria dito nada, esperaria o momento certo, o momento que eu e você estivéssemos prontos, mas... – ele comentou se virando pra mim, fiquei com receio de olhar em seus olhos, mas eu o respeitava muito para ignorar seu pedido de contato visual, então me virei também, e nossos rostos ficaram a poucos centímetros de distância. – Eu falei pra você o que sinto, e não tem como eu retirar minhas palavras ou negar esse sentimento, então eu quero que saiba, eu estou apaixonado por você...Foi inevitável, meu coração começou a palpitar e a doer, ou estava prestes a ter um infarto ou meu sistema nervoso estava reagindo à declaração de Natsu, eu estava feliz, por Deus, eu queria beijá-lo ali e agora, mas novamente aquela sensação desconfortável que me dizia, não faça isso, voltou a sussurrar no fundo de minha consciência.—Eu estarei aqui para o que você precisar, serei seu amigo e tudo o que peço é que seja minha amiga, pois não quero de modo algum perder isso, prefiro ter qualquer tipo de relação com você do que nada. – Natsu estava sendo completamente sincero em relação aos seus sentimentos, eu queria tanto lhe retribuir, dizer a verdade, o que sentia, por que eu não conseguia? – E o dia que você sentir que gosta de mim e que podemos tentar algo, estarei aqui, te esperando ok?—Natsu eu... – eu queria tanto falar pra ele o que sentia, era justo, ele se abriu comigo, contou seus receios, seus desejos e até declarou que esperaria pelo dia que eu estivesse pronta.—Eu entendo Lucy, você não precisa se explicar, não me deve isso se é o que pensa... – ele comentou sorrindo, como ele sabia? – Não quero que pense que me deve uma explicação, eu estou dizendo o que sinto por que quero, por que preciso, se você não sente a mesma coisa, eu entendo, você tem alguém, e você não está pronta pra esse tipo de sentimento, eu entendo, por favor não se sinta obrigada a falar nada, a única coisa que quero que entenda, é que eu gosto de você e jamais te magoaria, estando ou não juntos, por que sou grato a tudo o que fez por mim nesse pequeno mês que passou conosco.. você me mostrou que eu sou mais do que pensava ser... que eu mereço mais... que eu posso fazer o que quero... que eu sou mais do que sou... eu te agradeço muito... e só quero que não deixe de ser minha amiga... só isso...
—Eu jamais faria isso... – finalmente consegui falar. – Eu jamais te deixaria, eu serei sempre sua amiga... e me desculpe por não poder dizer nada sobre os meus sentimentos e agradeço muito por não me forçar a dizer... eu estou confusa e estou passando por um momento complicado, então obrigada por ser paciente e compreensivo... espero que até o dia em que eu esteja pronta de novo, possamos ser amigos...Natsu chegou mais perto e com movimentos rápidos e ansiosos ele me enlaçou num abraço forte e caloroso, eu apenas retribui o gesto, afinal a amizade de Natsu era algo que eu jamais poderia sonhar em perder, ele foi de longe o amigo mais próximo que tive fora Levy, então sim, é o meu melhor amigo.Quando nos soltamos, olhei em seus olhos e lá havia um brilho de gratidão e carinho que fez eu me sentir tão bem, por que se ele me olhasse com tristeza ou decepção, eu não saberia como lidar com isso, mas tudo o que ele queria, era minha amizade, e eu serei eternamente grata por você fazer isso por mim Natsu.Então ambos voltamos a virar para cima para contemplar o céu, e Natsu olhou para o colina e reparou que Jude havia saído de lá, talvez estivesse em casa, talvez tivesse ido dar uma volta, bem ele é adulto, sabia se virar, então Natsu se deitou novamente e sorriu para si mesmo, como se tivesse orgulhoso do que acabará de falar e satisfeito por ter conseguido falar.—Sente falta ainda da cidade grande? – ele perguntou puxando um assunto.—Bem... – eu sorri para a pergunta. – Admito, eu fiquei apavorada quando soube que iria me mudar, tentei convencer a mim mesmo que a razão principal era o meu pai e toda essa falta de recurso, só que... eu sabia que não era... eu estava com medo de não me adaptar, de não fazer amigos e de simplesmente não conseguir reconstruir a minha relação com Jude...—Mas? – Natsu me incentivou a continuar.—Mas eu senti no momento que pus os pés nessa cidade, em Magnólia, que era onde eu mais queria estar... – confessei. – Me senti segura, feliz, em paz... como se tivesse voltado pra casa, embora eu lembre tão pouca coisa da época que eu vivi aqui, eu sei que era feliz...—Não sente falta então? – Natsu sorriu pra mim olhando-me com solidariedade.—Não, só sinto falta das pessoas, o lugar é substituível quando a gente está com que se ama.- Comentei sorrindo de volta pra ele.—Tem razão. – Ele falou voltando seu olhar para o céu que agora estava escuro e com uma grande quantidade de estrelas reluzentes formando as mais belas constelações. – Há pouco tempo atrás eu nem imaginava sair daqui, mas, agora sinto o que você disse, se Jude e você vierem juntos comigo, eu sou capaz de estar em qualquer lugar.Apenas sorri para o seu comentário, eu também sentia isso. Quando cheguei e soube que Natsu iria morar comigo, me assustei e pensei besteiras, mas agora ele é membro da minha família, e eu não poderia deixa-lo para trás, jamais.—Quer conhecer meus amigos? – Pedi a ele empolgada e ele apenas franziu o cenho desconfiado da pergunta.—Claro... mas como? – ele perguntou olhando-me curioso.—Espere um pouco aqui. – sorri e me levantei da rede o fazendo se balançar. Adentrei a casa e fui correndo até meu quarto, peguei meu celular e por sorte o deixei carregando quando cheguei em casa, então voltei pelo corredor e encontrei meu pai, ele estava com um olhar um pouco triste, mas quando me viu formou um belo sorriso.—Lucy... o que está fazendo? – ele perguntou olhando para o celular na minha mão.—Ah.. vou mostrar umas fotos pro Natsu... – respondi olhando para o aparelho em minha mão. – Quer ver também?—Talvez mais tarde, agora vou tomar um banho. – Ele respondeu sorrindo para minha oferta. Então ele passou por mim um pouco cabisbaixo e foi até o próprio quarto, eu queria ir atrás e perguntar se estava tudo bem, mas pelo jeito como rejeitou as fotos, algo que ele aceitaria com toda a certeza, eu suponho que ele não queira conversar agora. Então decidi deixa-lo quieto e voltar para onde Natsu estava me esperando.Chegando lá, ele percebeu que eu estava preocupada.—O que houve? – se levantou da rede rapidamente e ficou em minha frente.—Eu não sei, mas meu pai esta um tanto estranho, parecia meio abatido com algo... – comentei olhando em seus olhos.—Ah... ele sempre fica assim depois de voltar de lá.. – Natsu apontou para a colina, então era isso. – Vai ficar tudo bem, apenas deixe-o sozinho por um tempo, quando fomos jantar você vai ver que estará tudo normal.—Ok.. – concordei e indiquei para sentarmos na rede novamente.—Sofremos tanto para nos ajeitar e agora você vem com essas ideias loucas. – ele brincou e se sentou me dando espaço para acompanha-lo.—Pare de reclamar, vou te mostrar algo bem legal. – comentei mostrando o aparelho em minha mão.—O que é isso? – ele olhou desconfiado para o celular.—Hhaha, nunca viu um? – perguntei e ele negou com a cabeça. – Ok, isso é um celular.Ele fez uma cara de interrogação, sorri e fiz uma postura de professora.—Um celular é um aparelho eletrônico, cujo a principal função é fazer com que duas pessoas possam fazer contato através de uma conversa via sinal de satélite. – expliquei e ele arregalou os olhos para a tecnologia em minha mão. – Porém aqui em Magnólia, não existe esse sinal, portanto ele está inutilizável para isso.—Sério? – ele perguntou sério, mas logo fez uma careta e parecia segurar um riso que não conseguia mais conter. – Hahahahahaha, me desculpe, eu sei o que é um celular Lucy, só estava brincando com você.—Muito engraçado. – comentei sorrindo para ele. – Ok, enfim este e outros modelos de celulares tem outras variadas funções.—Como? – ele mostrou-se interessado.—Tirar fotos, gravar áudios e vídeos, tocar música e outras coisas... – comentei desbloqueando a tela dele e indo na pasta das fotos armazenadas.—Quero um... – Natsu achou incrível o fato de eu tocar na tela e ela me obedecer. – Eu só tinha visto aqueles que tem um monte de botões.—Hahahahahaha, bem talvez um dia você tenha um e possamos conversar através dele. – comentei abrindo a primeira foto que era eu e meus amigos.—Legal, é assim que você vai me apresenta-los. – ele comentou olhando mais atentamente para a foto de Levy, Gaggel, Juvia, minha mãe e eu.—Essa é Levy, a de cabelo azul arrepiado. – mostrei com o dedo a baixinha da foto fazendo carreta.—Ela parece divertida. – Natsu comentou olhando dela para o cara ao lado dela. – Quem é esse?—É o namorado dela, Gageel. – respondi sorrindo e Natsu também sorriu. —Acho que iria me dar bem com ele. – comentou.—Talves hahahaha, Gageel não é do tipo de gosta de fazer amizades, mas depois que faz é indestrutível. – comentei sobre meu amigo antissociável.Natsu arregalou os olhos e então apontou para Juvia esperando que eu explicasse quem era.—Essa é Juvia, ela tímida, um pouco até demais, mas é uma amiga incrível, sempre fala o pensa e é incrivelmente meiga também. – expliquei um pouco sobre minha amiga.—Entendo, então... – Natsu comentou pondo seu dedo sobre a mulher mais velha da foto. – Esta suponho que seja sua mãe?—É, Layla. – respondi sorrindo olhando para o sorriso imenso que ela tinha naquele dia.—Você são assustadoramente parecidas. – Natsu sorriu pra mim olhando em meus olhos e depois para ambas nas fotos. – O cabelo, os olhos, o rosto e o sorriso... incrível.—Obrigada! – agradeci olhando para ela e sentindo falta da minha imagem espelhada.—E... por que o tal de Gray não está na foto? – Natsu perguntou curioso apontando para o bolo de aniversário juntamente na imagem. – É seu aniversário não é? Um dia importante como esse seu namorado devia estar junto não?—Bem, é complicado... – eu comentei olhando para a foto e depois para Natsu. – Não tínhamos nos falado até um dia antes de minha mãe... —Como assim? – Natsu questionou.—Ahm.. eu sempre gostei dele, mas nunca falei com ele, até um dia nos encontrarmos na sala do diretor e ele puxar assunto, e então no final da aula, ele me beijou... – contei a história para Natsu que me olhava impressionado. Mas contando desse jeito parecia tão sem romance.—Uau... ele gostava de você então? – ele perguntou.—Eu não sei... – sorri pensando nisso, normalmente seria uma pergunta na qual eu me magoaria, mas fez total sentido Natsu pensar isso, acho que no fundo eu e ele não gostávamos um do outro, só encontramos semelhanças sentimentais e decidimos colocar isso num beijo. – Enfim, não penso mais sobre isso, só deixei para trás por que nem deu tempo de nos conhecermos melhor e um relacionamento a distância dessa maneira, não iria dar certo, então...
—Entendi... – Natsu baixou a cabeça pensando no que eu disse. – Tem alguma foto dele?—Bem... é a única que tenho... – eu não queria mostra-la, mas já que ele pediu, deslizei o dedo pro lado e apareceu uma foto tirada à distância de Gray e eu nos abraçando e beijando. – Levy tirou quando nos despedimos.Natsu olhou calmamente para a foto, acho que se sentiu desconfortável, mas apenas suspirou e olhou novamente para mim.—Ele parece bacana afinal. – ele sorriu com o comentário.—Na verdade, ele era solitário, não tinha amigos até eu falar com ele... – contei um pouco sobre ele. – Tinham preconceito com ele, por causa do pai... era alcóolatra...—Isso é terrível... – Natsu franziu o cenho olhando novamente para o rapaz de cabelos negros arrepiados da foto.—É, as pessoas são cruéis quando querem, inclusive, minha amiga Juvia era assim, mas eu discuti com ela por causa dele e quando eu parti ela disse que iria tentar ser amiga dele. – contei minhas últimas palavras.—Mas não sabe o que aconteceu não é? – Natsu comentou olhando para o celular em minha mão.—Não, afinal não temos meios de nos comunicar não é? – falei olhando para ele um tanto triste.—Não, eu sinto muito. – Natsu pediu.—Não é culpa sua... – disse bloqueando a tela e olhando para o milharal em nossa frente.Natsu e eu ficamos em silêncio aproveitando o sereno, o som das folhas e o vento da noite, então levantamos e decidimos entrar para arrumar a janta.Aquele pequeno pôr do sol significou muito para mim aquela noite, eu e Natsu nos acertamos de certa forma, eu pude me permitir sentir a saudade de meus amigos novamente, conversar sobre eles e mostrar um pouco sobre meu passado para Natsu, eu sentia que lhe devia isso. Foi uma bela noite para expor os sentimentos e lembrar-se de quem amamos, era o momento perfeito, tudo era perfeito, quando o sol se põe.
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