Magic the Gathering: Tales of the Ætherbreaker
7 Quando eu assinei com sangue
Notas iniciais
Os horrores mais espertos justificam-se com a justiça.
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Sem um pingo de delicadeza, o detentor me empurrou no banco de mármore.
Eu havia sido conduzido para uma sala cúbica de mármore branco com uma mesa retangular no centro, ladeada por dois bancos retos e maciços do mesmo mármore, em extremos opostos da tal mesa. O lugar possuía duas aberturas, uma porta pesada de granito e um orifício circular no teto do tamanho de uma maçã, por onde a luz do sol incidia diretamente sobre um pequeno globo azulado, também do tamanho de uma maçã, que difundia sua luz de forma uniforme pelo recinto. Lembro de ter pensado que aquilo era um interrogatório, e eu tinha razão.
Se você está se perguntando qual era minha situação, era ruim. Ainda naquele pavilhão/anfiteatro de antes, eu fui revistado de forma minuciosa, o que acarretou em apalpadelas indelicadas em minha pessoa que foram como esfregar sal em meu orgulho ferido. Meu manto, minha adaga, meu Estilhaço, minha algibeira, meu boldrié e minha armadura leve de couro fervido foram confiscados. Minha língua ardia como brasa e, mais de uma vez, engasguei com uma nódoa de sangue a qual eu não havia cuspido pois tinha certeza que sujar o mármore resultaria de forma lamentavelmente negativa para mim.
A pior parte era, entretanto, minha barriga. Eu sentia como se todos os músculos de meu abdômen houvessem sido desfiados e torcidos um no outro com um nó de marinheiro. Além disso, também sentia como se minhas entranhas estivessem brincando de dança-das-cadeiras.
Isso tudo aconteceu enquanto eu ainda estava deitado.
No momento que eu fui eficientemente levantado por algum oficial para ser conduzido até o interrogatório, os dois hemisférios do meu cérebro decidiram brincar de gangorra, o que fez com que meus olhos revirassem e que eu beijasse a lona mais uma vez, engasgado com meu vômito vermelho.
Ao verem que minha situação era precária, ajuda foi chamada e um sujeito me curou com magia algumas (não todas) dores que eu sentia. Ou seja, eu estava inteiramente dormente, com dor nas juntas, sentindo um frio descomunal e com a língua inchada que dificultava a fala.
No caminho até o interrogatório, eu me perguntava com certa angústia o que havia sido feito da minha centelha.
A inquietação somada ao assento desconfortável me levaram à tecer uma pergunta engrolada
— Eu tenho o direito de ficar em pé? — Perguntei ao meu detentor. Um jovem vestido com armadura e capacete. Aquela era a armadura padrão dos magos-legistas.
— Sim. — Ele respondeu e eu, aliviado, levantei, mas ele me empurrou de volta. — Mas uma autoridade Azorius pode suprimir quaisquer direitos de um indivíduo caso seja conveniente para mesma desde que o dito indivíduo tenha cometido uma infração que justifique tal supressão.
Fechei os olhos e suspirei, levantando de novo, porém fui empurrado de volta novamente.
— O que você está fazendo? — Estava muito dolorido perguntar oralmente, então apenas movi os lábios e perguntei diretamente de minha mente para a dele.
— Estou suprimindo seu direito a ficar em pé. — Ele nem havia percebido que o som vinha de sua cabeça, e não de minha boca.
— E por que você está fazendo isso? — Perguntei mentalmente, mas sem mover os lábios dessa vez, para ver se ele notava.
— Pois, como autoridade Azorius, eu considero conveniente fazê-lo. — Não. Ele não havia notado.
— Por que? — Tentei mover os lábios de forma não condizente com as palavras.
— Porque sim. — Nada ainda. Aquele moleque era um asno cego.
Suspirei, expirando a frustração condensada em meus pulmões
— E qual foi minha infração que justifica a supressão de meu direito de ficar em pé? — Nem movi os lábios dessa vez.
— Você, senhor Stilace, violou diretamente o novo pacto das guildas de Ravnica estipulado pelo dragão Niv-Mizzet e...
— Você é novo aqui, não é? — Perguntei. Não era necessário ser um gênio da dedução para estipular tal coisa, mas consegui o resultado desejado.
O silêncio dele havia sido minha maior vitória em Ravnica, até então.
A porta do pequeno interrogatório se abriu, e dela, irromperam quatro indivíduos. Lavinia e os outros três que eu havia derrubado. Eles conversavam em tom baixo e urgente.
— Você não pode estar considerando isso seriamente, Lavinia. — A mulher loira não conseguia conter a emergência na voz. — Aquilo na câmara foi contramágica poderosíssima, muito mais poderosa do que podíamos imaginar.
— Todavia. — O mago de guilda emendou. — Isso pode ser justamente o que precisamos. Além do mais, essa técnica pode ser estudada, pensem nas maravilhas que uma medida tão forte de anulação faria tanto para nossa guilda quanto aos cidadãos de Ravnica.
— Mikhail — A mulher loira ergueu a voz quase que de maneira imperceptível. — Aquele homem desfez em segundos uma barreira que precisou de meses para ser construída. Em segundos, o trabalho dos maiores nomes em términomancia, protegomancia e arquitetura arcana foi rachado como se fosse menos que um ovo de goblin.
— Iremos dar continuidade ao plano. — Lavinia interviu por fim.
— Mas...
— Este é meu veredito final, Anya. — Ela cortou, fria como uma guilhotina.
— Sim, senhora Lavinia. —Todos assentiram sem mais questionamentos.
— Iuri — Ela disse ao novato, que entrou em posição de sentido. — Retire-se. — Ele saiu sem pedir explicações.
Seja lá quem fosse aquela Lavinia, eu já havia visto que ela não era brincadeira.
— Stilace. — Ela proferiu meu nome e se dirigiu à outra extremidade da mesa, sentando em um banco igual ao meu. Os outros permaneceram em pés próximos à porta e com os braços cruzados. — O Senado lhe traz uma proposta.
— Eu sei. — Rebati mentalmente de forma incisiva. O fato de eu ter caído em uma armadilha mais o fato de não terem me matado ainda, ambos somados às conversas que eu ouvi. Não foi difícil de ligar os pontos. — Estava ouvindo sua conversa. — Olhei por cima do ombro, para aqueles três sujeitos mal-encarados. O mago de guilda, Mikhail, possuía um hematoma feio no lado direito de seu rosto, mas seu cetro estava novo em folha, estranhamente. Anya, a justiciar, estava discretamente curvada para frente, a pancada no estômago fora bem dada, créditos a mim mesmo; Anya ainda trazia seu cetro sem a ponta em forma de pergaminho. O terceiro estava impassível e parecia estar intacto, mas eu vislumbrei uma bandagem sob seu capacete, envolvendo o machucado na têmpora.
Desviei o olhar como se fizesse pouco caso, e fazia.
— O que vocês querem de mim? —Pulsei a voz de minha mente. Cruzei os braços e tentei exalar uma frieza que se equiparasse à dela.
— Colaboração. — Antes que eu pudesse perguntar “para quê? ”, ela continuou. — Este plano, Ravnica, está recebendo a visita de muitos planeswalkers.
— E qual é o problema nisso? — Tentei muito não soar muito petulante. — Deve ser uma maravilha para o turismo.
Duvido que ela soubesse o significado de turismo. — Os problemas, Stilace, são os seguintes: Ravnica possui um equilíbrio de poder extremamente delicado entre as dez guildas e vocês, planeswalkers, destroem esse equilíbrio ao se aliar com alguma das guildas. Justamente por este motivo, a entrada de planeswalkers ou de seres extraplanares e considerada uma violação gravíssima ao Pacto das Guildas.
— Já ouvi falar desse pacto algumas vezes.
— O pacto das guildas é um tratado assinado pelas guildas que visa manter o equilíbrio e a harmonia em Ravnica, o que não é uma tarefa simples. — Ela fez uma pausa. — Diferente do que você deve estar imaginando, o pacto não é um conjunto de regras escritas em um tomo empoeirado, é a própria alma de Ravnica.
Eu estava acompanhando o raciocínio. — Ou seja.
— Ou seja, sua existência nesse plano é um crime.
Definitivamente eu não me sentia bem-vindo
— Devolvam meus pertences e minha centelha que eu saio daqui com o maior prazer do mundo. — A frieza em mim recuou um pouco para revelar a angústia que eu sentia.
Ela se apoiou na mesa. — Este é outro problema, suas centelhas não voltam a acender uma vez que entram em Ravnica.
— Então eu não sou mais um planeswalker? — Tive de fazer um esforço ridículo para que minha voz saísse controlada.
— Não sabemos. — Melhor que uma confirmação. — Essa situação se iniciou há apenas alguns meses, não possuímos muitas conclusões a respeito disso ainda.
Suspirei. Eu não possuía meios de sair daquele plano e, no momento, estava sob o jugo dos Azorius. Minhas opções se reduziam mais e mais.
— E qual é a minha parte nisso? — Perguntei por fim.
— Você é a única chance substancial de reestabelecer a ordem enquanto essa situação não se soluciona. — Ela explicou. — Cada uma das guildas possui um planeswalker poderoso lutando por ela, seu papel é ir até esses planeswalkers e fazer com que eles se separem de suas respectivas guildas por qualquer meio necessário.
Franzi o cenho. — Só isso?
— Não posso revelar mais até que você se comprometa. — Ela puxou um pequeno rolo de pergaminho do bolso e me entregou. O papel era timbrado com o símbolo dos Azorius, um olho no centro de um labirinto em formato de pirâmide. — Leia com atenção.
E eu li com atenção. Era um contrato que tornava minha estadia em Ravnica legal desde que eu ajudasse o Senado Azorius com a questão dos planeswalkers. Em troca, eles se responsabilizavam com minha comida, abrigo e questões de saúde.
Eu li e reli todo o documento meia dúzia de vezes. Uma introdução breve escrita com runas que eu, por alguma razão, sabia que era uma escrita Ravnique ancestral, de antes da guerra tribal e antes do tempo de Azor I. Estava escrito “Louvada seja Ravnica, a primeira, única e eterna. ”; depois disso, em escrita comum, a data do documento, seguida pelo nome e ocupação da autoridade que o idealizou: Lavinia Mirolav, árbitra-superior de terceiro nível, representante do décimo fórum de Prahv, ungida por Leonos II e por Isperia como Bailia de Azor de primeiro grau. Lavinia era a voz de Azor e tinha autoridade o suficiente para responder em nome de toda a guilda. Se isso parece impressionante, era, na realidade, muito mais impressionante.
Ela era, simplesmente, uma das pessoas mais poderosas de Ravnica. Dentre as dez mais, eu diria.
Depois disso, a natureza do documento era descrita, juntamente com todas as permissões legais que ele demandava para ser validado. Cada quesito estava assinalado de forma elegante, mostrando que tudo estava nos conformes.
Em seguida, o que o documento requisitava de mim. Colaboração com a manutenção do equilíbrio social/econômico/militar e etc da cidade de Ravnica através da certificação de dissociação de planeswalkers com as guildas da cidade, pois a entrada de planeswalkers era proibida segundo a legislação, logo, a afiliação com os mesmos era uma conduta anticonstitucional. Logo na sequência, o documento justificava a minha afiliação com a guilda Azorius de forma que não fosse uma conduta anticonstitucional por parte da guilda pois seu objetivo era a manutenção da paz, da ordem e da lei.
E, para fechar, uma assinatura Lavinia e uma de Leonos II, máxima autoridade Azorius.
Política Ravnique é, apesar de tudo, fascinante. Aprofundem-se nisso caso disponham do tempo e eu garanto que não irão se arrepender.
Pois bem, eu li e li e li, procurando de forma vã por uma tangente. Eu sabia que não ia encontrar, mas procurei e procurei.
Quando cansei de procurar, suspirei e olhei para Lavinia, impassível como sempre.
— O que eu faço agora? — Indaguei, dando de ombros.
— Assine. — Óbvio.
— Com o que? — Eu já suspeitava da resposta.
— Sangue. — Suspeitas concretizadas. — Esse documento está imbuído com magia antiga, o sangue o faz impossível de ser quebrado.
— Muito original. — Resmunguei, enquanto recebia um pequeno bisturi estilizado. Parecia uma fusão entre aparelho cirúrgico e pena de caligrafia, e imagino que o propósito era esse.
Com cuidado, talhei um corte pequeno e quase indolor nas costas de minha mão direita e assinei na base do pergaminho. Eu não lembrava de meu nome antigo, então assinei apenas “STILACE” da forma mais estilizada que consegui. Satisfeito com o resultado, entreguei para Lavinia.
Para minha surpresa, ela pegou outro bisturi e talhou o próprio indicador, assinando em seguida.
— Feito. — Ela disse.
Admito que senti um certo alivio quando notei que não havia mais para onde fugir. É um sentimento reconfortante, afinal.
Mas esse conforto fugiu quando ela me estendeu a mão. Encarei-a incrédulo por longos segundos antes de decidir o que fazer.
Optei por não retribuir o gesto, apenas cruzei os braços.
Eu podia jurar que o olhar que ela me mandou fez a temperatura na sala despencar, mas eu retribuí a altura.
Eu não tinha medo dela e jurei em silêncio que nunca me submeteria a ela.
E essa promessa, meus amigos, eu cumpri em meus próprios termos.
Eu assinaria muitas coisas com sangues, dali em diante. Todos naquele plano maldito estariam inclusos em meu acerto de contas, nem mesmo Lavinia conseguiu sair incólume.
Eu sangrei, é verdade.
Mas Ravnica iria sangrar muito mais.
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