Magic the Gathering: Tales of the Ætherbreaker

12 O que é, o que é? A árvore que só dá frutos quando aqueles que a colhem estão em número ímpar?


Notas iniciais
Esse foi difícil de escrever. O ritmo é bem diferente dos últimos dois e eu estava com muita lição pra fazer, então acabou demorando. Desculpem pela demora e aproveitem!

A democracia

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Eu tentei correr, eu tentei ajudá-lo, eu tentei salvá-lo.

Eu consegui ver seus olhos serem fatiados quando a lâmina entrou entre eles, e também ouvi o deslizar úmido da espada em seu cérebro, terminando com o estalo do aço saindo de seu crânio.

A pegada no cabo se afrouxou apenas quando a guarda da arma tocou o rosto.

— Matar o planeswalker. — Ele disse e um rio de sangue brotou do seu nariz. — Não deixar ninguém sair com vida. — Ele deu um passo em minha direção. — Menos os cavalos.

Um poderoso relincho foi ouvido e, de trás de Irov, um unicórnio surgiu, mas não era um chifre brotando de sua testa.

Era o cabo de uma espada.

— Mas você está vivo, não está, Stilace? — Irov perguntou, montando no cavalo.

— Sim. — Respondi.

— Então, minha missão não acabou. — Ele segurou o cabo em seu rosto com a mão direita e o cabo na testa do cavalo com a mão esquerda. — Eu preciso te matar porque você me matou.

Ele puxou ambas as espadas e eu tive de encarar seu rosto destruído, enxergando através dele.

— Eu não matei. — Respondi.

— Você nos matou. — Ele repetiu, galopando até mim devagar.

— Eu não matei! — Respondi ao fantasma.

— Você nos matou. — Ele brandiu as espadas em minha direção.

— EU NÃO MATEI!

Esmurrei a mesa ofegante e encarei Karev, o cavaleiro silencioso que fora o quarto elemento em minha calorosa recepção àquele amável plano (aquele que eu acertei na têmpora com um globo de vidro, puxem na memória).

Estávamos a horas naquele interrogatório, que também era o mesmo o qual fui levado logo após minha surra de boas vindas.

Karev, Anya, Mikhail e, é claro, Lavinia, a turma toda de volta ao local usual para meu profundo desagrado.

Todos ali eram os primeiros e únicos Bailios de Azor, o alto escalão de Nova Prahv, a nata, o serviço secreto, juízes, jurados e executores.

O simpático Karev, por exemplo, liderava o esquadrão secreto de telepatas, o Olho de Prahv, e era um dos maiores interrogadores de toda história da guilda.

Ele brincou com a minha mente pelas últimas horas, fazendo a cena da morte de Irov e dos soldados passar de novo e de novo e de novo.

— Então? — Anya perguntou, impaciente em sua armadura prateada. Anya liderava o regimento de cavalaria grifina e, eu descobri mais tarde, recebeu a chefia dos hussardos de Nova Prahv das mãos da própria Lavinia. Ela claramente desejava que eu houvesse matado aqueles homens.

— Se ele matou os homens, é o melhor mentiroso que eu já conheci. — Karev respondeu, massageando a própria testa. — Duvido até que Isperia visse culpa nele.

— Ele é inocente, então? — A indagação veio de Mikhail, árbitro e mago de guilda de Nova Prahv, forte candidato à sucessão de Leonos como árbitro-mor. Mikhail tomava meu partido e, com isso, se opunha a Anya.

— Não posso dizer com certeza. — Karev respondeu, apoiando as costas no espaldar. — Não dispomos de um método eficiente para testar o nível de poder contratelepático de alguém, qualquer posicionamento seria um tiro no escuro.

— Sonde a mente dele mais uma vez, ele está claramente enfraquecido. — Anya instigou. Eu realmente estava enfraquecido, faminto, com sede e com sono. Minha mente estava uma bagunça por conta da intromissão de Karev, sem falar que reviver os acontecimentos macabros reacendera uma fagulha de terror em mim.

Minha cabeça pendia para frente enquanto eu lutava com minha própria respiração, fazendo esforço para ouvir o que conversavam sobre o zunir de meus ouvidos.

— Não posso fazer isso. — Karev rebateu novamente. — Não podemos nos certificar de que ele é um manipulador da mente de fato ou se essa é a verdade. — Ele olhou para Anya. — A próxima sondagem pode acabar nos revelando a verdade ou destruindo a mente dele. Provavelmente ambos. — Ele voltou o olhar para mim, dolorosamente inexpressivo. — Mas caso a senhora Lavinia prefira arriscar... — Ele não precisou terminar a frase.

— Vamos interrogá-lo.— Lavinia disse, descruzando os braços. Ela estava apoiada em silêncio na parede pela última hora, apenas observando atentamente tudo.

Ela se aproximou da mesa e tomou o lugar de Karev que foi silenciosamente para junto de Anya e Mikhail.

Ela entrelaçou os dedos em torre sobre a mesa.

— Olá, Stilace.

Olhei para ela descrente, sem responder.

Ela suspirou.

— Nós não prendemos inocentes, Stilace. — Ela disse, olhando nos meus olhos.

Eu levantei e esmurrei a mesa com as duas mãos cerradas, retinindo minhas correntes. — BEM, MAS ISSO É UM PUTA DE UM ALÍVIO, NÃO É!? — Bradei para ela, que não alterou a expressão.

— Sente-se.— Ela disse paciente.

— Vai se foder, Lavinia.— Estava cansado da paciência dela e de seus olhares perfurantes, mas acabei sentando mesmo assim.

Perfeitamente inalterada, ela prosseguiu. — Conte-nos o que aconteceu.

— De novo? — Indaguei petulante.

— Dessa vez, comece do momento que você acordou na manhã de ontem.

E eu contei a tudo o que houve desde o momento em que acordei.

Não irei incomodá-los, caros e hipotéticos leitores, com a narrativa até porque vocês já sabem o que houve.

Depois de vários minutos, fiz uma pausa no momento em que eu e Irov entramos no elevador.

— E então? — Anya perguntou. — O que aconteceu?

— Eu e Irov tivemos um desentendimento. — Expliquei. — Ele estava focado em assuntos que não condiziam com a missão.

— Sendo esses? — Mikhail ergueu a sobrancelha, perguntando lentamente.

Olhei para Lavinia, decidindo se a poupava ou não do embaraço.

— Uma mulher pela qual ele estava interessado. — Tentei ser vago, mas não o suficiente para ser suspeito.

Sem mais perguntas, prossegui com a narração, contando a expulsão de Irov e detalhando a extensa complexidade da obtenção do aço negro, não deixando de citar o caso do selêsnio e também o nome da elfa Lhamiz.

— Seria impossível que apenas um homem fosse responsável pelo desaparecimento do minério. — Eu disse. — Deve ser uma conspiração.

— E — Anya pegou o gancho. — Tudo aponta para os brotinhos do Aguabrasa.

Mikhail coçou o queixo. — Então os selesnya possuem uma rede de infiltrados na mina.

— Aparentemente. — Anya respondeu. — Mas não faz sentido que tudo isso tenha acontecido debaixo dos panos e debaixo do nariz de todos. — E antes que alguém perguntasse o que ela estava insinuando, ela concluiu. — A mina pode estar vendendo o minério aos brotinhos.

— É uma hipótese, — Falou Lavinia. — Mas não iremos tirar conclusões tão cedo. — Fez um gesto para mim. — Prossiga.

E eu prossegui. Contei a saída da mina, o passeio na carruagem, a parada brusca, o ataque e meu método de distração rapidamente, pois já havia contado aquela parte antes para eles.

Mikhail educadamente me interrompeu na hora que eu entrei na mente do guarda.

— Então você não encontrou nenhum resíduo mágico na mente dele?

Neguei com a cabeça. — Devem existir muitas outras formas de controle mental, não é?

Anya revirou os olhos, que deselegante. Karev assumiu a fala.

— Com essa duração e com um efeito tão poderoso? — Ele negou com a cabeça. — É raro encontrar manipuladores mentais com essa aptidão, duvido que até mesmo o Pacto das Guildas conseguiria estabelecer um controle da mente tão poderoso em cinco homens treinados de maneira simultânea, ainda mais através de um contato tão rápido.

— Um método não mágico é praticamente inconcebível neste caso. — Mikhail concluiu. — Seria algo inédito, para dizer o mínimo.

Um silêncio cheio de dúvidas cobriu o ambiente.

— Nós vamos investigar. — Lavinia declarou, quebrando o gelo.

— Devemos ir até o Aguabrasa e trazer essa elfa para interrogatório. — Anya disse, cerrando o punho. — Não será difícil conseguir um mandato de apreensão para uma suspeita de múltiplos assassinatos.

— Eu poderia conseguir um mandato assinado em menos de uma hora. — Falou o mago de guilda.

— Não sabemos o que iremos enfrentar no Aguabrasa. — Lavinia cortou. — Está claro que, seja quem for que estiver por trás disso, não tem medo de matar azorius. — Os ânimos murcharam com a dose de realidade. — Estaríamos vulneráveis no território deles.

Não havia o que questionar naquela lógica.

— Devíamos manter isso em sigilo. — Arrisquei. Não gostava de ficar quieto durante conversas e, além disso, sempre considerei minha opinião valiosa.

Todos me olharam.

— Devíamos? — Anya perguntou, incrédula.

Estranhei. Parecia óbvio para mim.

Anya suspirou, sorrindo de forma estranha. — Não sei se podemos comprometer a seriedade da missão com um... — Ela estava gesticulando, como se procurasse uma palavra adequada. — Amador.

— Vá para o inferno. — Meu humor estava instável ao extremo devido à intromissão de Karev em minha mente.

— Anya. — Lavinia começou de forma repreensiva.

— Eu estou falando a verdade, Lavi. — A justiçar continuou. — Ele é um jovem perigoso, arrogante e linguarudo, sem a menor formação legista e com pouquíssimas razões para lhe depositarmos tamanha confiança.

Ela estava correta, o que complicava ainda mais minha situação.

Lavinia e Anya trocaram um olhar pesado antes que a primeira declarasse. — Votemos, então.

Quando a discussão não se dissolve, apelamos para a democracia.

— Quem é à favor de absolver Stilace das acusações de múltiplo assassinato de agentes azorius? — Ela perguntou, levantando a mão juntamente com Mikhail. Karev me lançou um olhar estranho antes de votar ao meu favor e, após alguns segundos, Anya também levantou a contragosto.

— Decisão unânime. — Lavinia constatou, e todos abaixaram. — Agora, quem é à favor de tornar Stilace um integrante das operações dos Bailios de Azor de forma seletiva? — Novamente, ela e Mikhail levantaram as mãos prontamente e Anya cruzou os braços, claramente contra. Precisávamos apenas do voto de Karev para estabelecer o veredito.

Longos segundos se arrastaram até que ele finalmente votou. Ele cruzara os braços, era um empate.

Lavinia fulminou o interrogador com o olhar. — Nós não podemos sair daqui até chegarmos à um resultado majoritário.

— Com todo respeito, senhora Lavinia, mas eu desaprovo a integração de qualquer um que não possua um mínimo de base jurídica ou de confiança para nos fiarmos. — Karev replicou. — Isso vai de encontro à filosofia de Azor.

— Não podemos confiar nele, Lavi. — Anya reforçou, ainda de braços cruzados. — Simples assim.

— A participação dele em nossas operações nos concederia um elemento extra oficial, o que agilizaria a solução de problemas não burocráticos. — A objeção veio de Mikhail. — Quanto mais ágeis formos, mais rápida será a justiça para os malfeitores responsáveis pelas mortes de nossos soldados.

— Além disso, um número ímpar de votantes impediria que impasses assim acontecessem de novo. — Lavinia emendou.

— Você, não suficientemente, quer torná-lo um Bailio de Azor, como também quer concedê-lo direito de opinião em nossas votações? — Anya estava incrédula. — A partida do Pacto das Guildas afetou sua mente dessa forma?

A partir daí, virou um bate-boca generalizado. Opiniões eram jogadas para todos os lados e diversas votações relâmpago eram feitas, porém o problema continuava insoluto.

— Isso é uma perda de tempo! — Anya bateu o pé com sua curta paciência esgotada. — Devíamos levar a questão até Isperia de uma vez.

— Não! — Lavinia respondeu rápido. — Isperia não concordou com a entrada planejada de um planeswalker em Ravnica e nem com a utilização de um para os objetivos do Senado.

Então Lavinia estava operando por debaixo dos panos? Interessante.

— Leonos precisou se responsabilizar pelo ocorrido ou iríamos para a corte marcial. — Mikhail revelou. — Precisamos resolver isso agora.

Depois disso, a discussão se tornou ainda mais acalorada. Vou poupá-los disso.

— Quietos, pelo amor de santo Cristo! — Intervi, depois de mais quarenta e cinco minutos de debate. — Me soltem ou me matem, eu não ligo contanto que não tenha mais que ouvir essa lengalenga! — Minha cabeça latejava depois de tantas réplicas, tréplicas e quadréplicas. — Por favor, me façam de bode expiatório ou de bucha de canhão, qualquer coisa que acaba com essa maldita burocracia!

Eles me olharam surpresos, depois trocaram olhares e em seguida, timidamente, Mikhail ergueu a mão, depois Karev, depois Anya e, por fim, Lavinia.

— Problema resolvido. — Eu disse amargo, me encostando na cadeira pra dormir. — Gênios e sua mania de complicar problemas simples.

Dito isso, deixei-me ser carregado para o sono, ou melhor, jogado.

Curiosamente, aquilo que eu acabará de fazer viria a ser minha função principal em Ravnica: solucionar problemas.

Pessoalmente, acho que não poderiam ter achado ninguém melhor.